Falta um PT para articular um impeachment

Quando foi deposto do cargo em 1992, o que não é verdade porque renunciou antes disso, Collor não tinha contra si qualquer denúncia provada de corrupção ou favorecimento pessoal. Nem um recibo assinado, nem uma conversa grampeada. Tinha contra si, além da revolta pelo confisco da poupança da população, a arrogância messiânica que quase sempre precede desastres institucionais. Contra si tinha o país inteiro nas ruas, pintado de verde e amarelo, quando verde e amarelo eram apenas as cores do país, e não as cores do “fascismo”, insulto usado hoje até contra adversário de frescobol. Collor tinha, em resumo, a vontade de todos contra si. Foi derrubado não por um Fiat Elba nem por um motorista linguarudo, e sim pela perda das condições de governar. Havia ali Lulas e Brizolas, Afifs e Freires, todos unidos a Lindberghs e Eduardos, Fernandos e Aécios, ACMs, Bornhausens e até o Enéas.

Collor nunca foi condenado pelos crimes pelos quais caiu do poder. O STF o inocentou em abril do ano passado, por falta de provas. Mas Collor é, ainda hoje, uma das personificações da corrupção nacional. Assim quiseram todos os citados acima, encabeçados por Lula, que àquela época ainda não apelava para que se aguardasse os julgamentos antes de condenar alguém. Lula nunca aguardou. Pelo contrário, notabilizou-se pela violência com que chamou de ladrões um por um daqueles que viriam a ser seus aliados anos depois. Renan, Maluf, Collor, Sarney… No Youtube há mais vídeos de Lula articulando o impeachment de Collor, que o venceu nas urnas, do que petista preso hoje em dia.

E que nome se dá, hoje, a quem perde eleição e articula o impeachment de quem ganhou?

O impeachment é uma previsão constitucional, jovens. Serviu, um dia, para destituir do cargo o primeiro presidente democraticamente eleito depois de 20 anos de ditadura. Sem provas contundentes, sem condenação judicial, sem o “batom na cueca”. Dá para ser mais “golpista” do que tirar do cargo o primeiro presidente eleito por um povo finalmente livre de uma ditadura? Seja honesto e admita que, lá no distante 1992, você estaria de rostinho pintado na Paulista, sim, para depor um presidente eleito com 53% dos votos, contra 46% de Luís Inácio “Ele não tem mais condições de governar” da Silva. E você não acharia que isso era golpe.

Eu sou contra o impeachment da Dilma. Como era contra o do Collor. Portanto, não questiono os seus argumentos porque eles vão contra os meus. Eles só estão errados, nada mais. Eu entendo a situação dos governistas de hoje, sejam eles orgulhosos ou enrustidos. Se vale como consolo, defender-se das críticas da população é sina de todo governo. O PT só não abaixa a cabeça, como Collor, porque é arrogante demais. E nessa busca desesperada por um argumento, vale qualquer um. Um deles, o de que os manifestantes são burros porque, com a saída de Dilma, assume o corrupto PMDB. Ou o corrupto PSDB. No Twitter, um petista de São Paulo diz que o povo ataca o PT, mas quem lidera o ranking de acusados da Lava-jato é o PP, seguido do PMDB. Ora, meu jovem, ninguém se revolta contra PP e PMDB porque eles nunca enganaram ninguém. São exatamente aquilo que são, desde sempre. O PT enganou muita gente boa que eu conheço; não inventou a corrupção, só a transformou em método de governo e de perpetuação no poder.

Se um escândalo de 30 bilhões de reais, que vai se ramificando entre estatais, órgãos de controle, as maiores empresas do Brasil e os partidos que governam o país há mais de uma década é pouco para alguns, para outros é grave. Quem vai para a rua, e os repórteres captaram isto ontem, quase nunca está pensando no que vem depois de Dilma, caso ela caia. A verdade é que o povo está se lixando para Aécio Neves, que há poucos meses quase virou presidente. Assim como os milhares de cara-pintadas não eram petistas em 1992. Quem tirou Collor do poder não foi Lula nem Lindbergh Farias. Foi o povo, acompanhado por um Congresso Nacional tão ruim ou pior do que o atual, mas que sabia que, num clima geral de quase unanimidade contra um governante, quem vota contra o clamor das ruas é otário. E assim foi em 1992.

Não somos os únicos corruptos do mundo, claro. Somos apenas muito corruptos, e cínicos o suficiente para inventarmos desculpas para nossa corrupção. Até um sueco tem seu preço na tabela de valores de propina, claro, mas o brasileiro é do tipo que fura fila de drive-thru. Na China esse tipo toma tiro, no Japão se mata, na Arábia é decapitado, nos EUA é banido da vida política, na Europa cai em desgraça nas capas dos tabloides. No Brasil, esse tipo rouba, é flagrado roubando, é afastado, volta, é eleito novamente, vira presidente do Congresso, vira salvador da governabilidade. O brasileiro é o bandido perfeito porque faz implante capilar viajando em avião oficial e usa gado fantasma para explicar pensão de empreiteira paga para a amante. Esse tipo é corrupto até escovando os dentes.

O Brasil convive com a bandalheira há 500 anos, de forma ordeira e pacífica. O brasileiro não tem ódio de nada, nem de rico nem de pobre. Nem de branco nem de preto. Nem de crente nem de macumbeiro. Nem de machão nem de gay. Essa conversa de rico e pobre, branco e preto é pré-adolescência tardia de quem quer dar um sentido falsamente importante à própria biografia de coxinha – esta sim, daquelas com catupiry e farinha de rosca crocante. Conheço uns petistas que odeiam a Globo e praticamente narram a novela das nove no Facebook. Outros querem brincar de milico contra estudante, mesmo na democracia, basta ver o dizer “Anos rebeldes, novo capítulo” na faixa da foto acima. Devia ser de gente que odiava a Globo também. Adolescentes vêm e vão, e no Brasil a garotada, em vez de aprender a querer mudar o mundo, está aprendendo a odiar a Globo.

Todos sabem, mas o cinismo de uns acaba dando ares de profetas aos poucos que dizem ter sabido desde o início: você quer finalmente revoltar um brasileiro, mexa no bolso dele. Como Collor em 1990. Como Dilma em 2015. Tempere este angu com recessão de um lado e gastança do outro, como Collor em 1992, passeando de jet-ski enquanto o dinheiro das pessoas era confiscado nos bancos. Ou como Dilma em 2015, passeando de limusine (e sem pagar!) nos EUA, enquanto todas as grandes montadoras demitem ou dão férias coletivas no Brasil.

É profundamente cínico ou abissalmente burro quem ignora o efeito de uma eleição acirrada, em que o lado vencedor vence mentindo, para seis meses depois mergulhar o país numa recessão com impostos aumentando, desemprego aumentando, inflação aumentando, crescimento negativo etc. Sério que você acha que, neste Flamengo e Vasco, depois de ganhar aos 49 do segundo tempo com um gol de mão, os derrotados vascaínos devam dar as mãos aos flamenguistas para salvar o futebol brasileiro?

Se as três enormes manifestações de 2015, contra Dilma e o PT, são coisa de quem odeia pobre e preto, porque estes milhões de neonazistas brasileiros esperaram 13 anos para ir às ruas? Aprendam uma coisa: à exceção torpe e clássica dos piores tipos de ser humano, que pingam aqui e ali, ora defendendo ditadura de direita, ora defendendo luta armada de esquerda, a imensa maioria está realmente de saco cheio. E só isso. Assim como você não é terrorista por defender playboy que quebra vidraça de agência bancária, não é nazista quem vai a um protesto de milhões no qual há um punhado de lunáticos.

A maioria está de saco cheio de gambiarra socialmente simpática. De discursinho engomado de professor banana, que é banana, mas defende governo de ladrões porque teve gente que saiu da pobreza durante o assalto. De gente que diz que havia corrupção antes. Aí eu pergunto: era mesmo necessário fazer doutorado para dizer “ele rouba, mas faz”, igual a qualquer miserável que assina documento com o polegar sujo de tinta? O saco cheio é de gente que nem percebe a própria incoerência, dizendo que sabe que este governo não presta, mas é melhor do que o que entraria no lugar. Entenda, seu problema não é odiar o PSDB, porque isso qualquer panaca faz. O seu problema é defender mulheres que dizem “ele me bate toda noite, mas é um ótimo pai e paga as contas”. A gente até tenta buscar uma metáfora mais sutil, mas vê essa gente de camisa Lacoste, tão gorda de churrasco de sindicato que mal lhe cabe o boné vermelho da CUT no ato pró-luta armada no Planalto, e só lembra de quem passa vergonha, é humilhado e precisa enganar a si próprio para defender uma utopia que não existe mais. O petista é aquela mulher cujo marido não vale nada, mas que adora olhar para a vida da vizinha.

Eu não fui às ruas contra Collor, contra Lula nem contra Dilma. Porque se há gente que protesta dançando axé, há gente que protesta escrevendo. E se há gente que gosta de consertar burrada mexendo em resultado de eleição, há gente que valoriza mais o aprendizado das urnas. Eu acho que o Brasil, inclusive os vascaínos que perderam a partida aos 49 do segundo tempo com um gol flamenguista de mão, merece Dilma até o fim. A gente precisa valorizar mais as regras postas, senão viramos uma republiqueta na qual manda quem grita mais.

Hoje Dilma é somente a face menos odiada do PT. O asco do país é com a sigla, e não com ela que, coitada, só vai entender o que lhe ocorreu depois que voltar pra casa, espero que em janeiro de 2019. O ranço nunca foi com pobre, com preto, com índio, com nordestino, porque durante uma década muita gente entrou no mercado consumidor, no avião, no carro, no computador, na tevê a cabo. E se você acredita que tem gente com raiva porque os pobres agora podem comprar uma geladeira, ou você é um professor banana ou um dia será. Porque o galo cantou e você não sabe aonde foi.

Se não é o seu caso, liberte-se. Estou convencido de que essa gente que protesta domingo, com a família toda, não nasceu para isso. E é por isto que a coisa não pega. Para tocar fogo no país e derrubar um governo, é preciso mais do que revoltados online, é preciso revoltados reais, de preferência profissionais. E estes são os petistas do passado. Gente que hoje vive amuada, sem uma meta para dobrar na vida, sem um santo padroeiro para quem rezar. Gente que um dia sonhou com um país mais justo e democrático, e hoje precisa se contentar em chamar o Aécio de playboy. Essa gente precisa de uma causa de verdade.

Então que tal combater a corrupção, a inflação, a recessão e o desemprego, exatamente como 23 anos atrás?

Corrupção, inflação, recessão e desemprego não andam faltando.

Mais um feliz infectado pelo vírus do mérito

Sei que já escrevi demais sobre isto ontem e que, nestes tempos de diversidade, pluralismo e modernidade, textos com mais de 500 toques viram “textão”, falar ou escrever demais é pecado, mas vale o registro. Um garoto daquela famosa escola do CQC venceu a olimpíada de matemática. Vai ser premiado no Rio de Janeiro. Juro que me forcei a procurar um aspecto negativo no fato, mas admito que achei muito legal. Afinal, mais um garoto entra no círculo virtuoso do aprendizado e do mérito. A gente vê esse tipo de foto, de garotos orgulhosos diante de estantes de livros desde sempre, e sempre achou que ali estava um sinal de avanço da humanidade. Era olhar para aquilo e pensar: a) Aos 15 anos: “Nossa, eu quero ser um discípulo de John Keating em Sociedade dos Poetas Mortos”. b) Aos 25 anos: “Vou destruir tudo e escrever um best-seller!” e c) Aos 40 anos: “Gente, parem de confundir r com acento agudo!”.

Todas as escolas, da mais chique à mais pobre, sempre formaram traficantes, corruptos, estelionatários e assassinos. Felizmente (para quem é ideólogo) ou infelizmente (para quem é só humano), o crime não tem classe nem faixa de renda – no máximo muda de nome a depender delas. Para quem é adolescente, fisiológico ou mental, isso é coisa boa. Não estou acostumado a discutir fatos, e sim opiniões. E o fato é que, levada em consideração a história do Ida Nelson, do La Salle, do Dinâmico, do Einstein, do Dom Bosco, da ETFAM, do Militar, do Auxialiadora, do Doroteia, do Christus e do Latu Sensu, apenas para ficarmos nas principais escolas particulares da minha época, formamos na década de 80 e 90 alguns dos piores e melhores espécimes humanos do circuito local. Arrisco dizer que escola não define caráter mais do que família, mas vá lá. Dito assim, sabemos que a escola não é mais definidora das pessoas do que o ambiente em que elas moram. Mas o fato é que muito bandido saiu das mesmas escolas de onde saíram alguns dos melhores profissionais da nossa cidade.

Combinamos nisto? Ok. Meu argumento, portanto, é que traficantes saem de qualquer lugar, porque o crime não depende somente de escolaridade, de “chance na vida”, de valorização do poder público ou privado.

No caso da escola de pobres que começaram a vencer olimpíadas de matemática, e não somente de hip hop, fico extremamente feliz. E digo o porquê. Porque cansei de ler notícia sobre quão violenta é a comunidade tal ou qual. Porque sempre acreditei que, mais do que personagens de uma luta de classes falsa, sempre houve gente da melhor qualidade em qualquer lugar, e não somente na elite ou na periferia. Essas pessoas, alheias a ideologias reprovadas eleitoralmente, reprovadas pela história e pelas urnas até hoje, querem apenas viver e ser felizes. Não querem tutores ideológicos.

Todas as escolas do mundo, da West Point americana (com suas glórias e seus abusos) à mais reles escola primária amazonense, formaram engenheiros, arquitetos, advogados, médicos e escroques, traficantes e ladrões.

O que difere o nosso (e estou sendo elegante com este “nosso”) velho discurso coxinha de sempre e a realidade destes garotos é simples. Todas as escolas sempre conviveram com a elite e com a ralé de qualquer sociedade. O que a escola Waldocke Fricke de Lyra decidiu fazer foi parar de formar apenas um destes lados. E é isto, arrisco dizer, o que tanto incomoda certos gurus do pensamento coxinha: nas periferias do Brasil, tem gente que cansou de bater lata. Tem menino da periferia que quer resolver teoremas matemáticos, e não somente aprender rap. E melhor ainda: ninguém precisou trocar os alunos; os ótimos alunos estavam apenas escondidos sob o manto do medo da violência, do tráfico, da mediocridade. Você tira o que atrapalha o ensino, e os ótimos alunos aparecem.

Um dos efeitos mais belos da cultura da educação é este: para o ódio dos que buscam na mediocridade e no pobrismo apenas uma forma de dormir mais tranquilos, as pessoas querem apenas melhorar de vida. Sob este ponto de vista, não existe nada mais conservador do que pensar que pobre é pobre, burro é burro, elite é elite, rico é rico.

Os resultados que a educação mais simples e básica começam a mostrar no Amazonas desmoralizam as teorias de quem acha que pobre tem dono.

Ninguém tem dono. Principalmente quem vence olimpíada de matemática.

Boa noite.

http://new.d24am.com/noticias/amazonas/aluno-escola-policia-militar-conquista-ouro-olimpiada-matematica/137113

2 mil alunos voltaram a estudar em Manaus. Quem sou eu ou Juliano Dip?

Há alguns dias comentei matéria local sobre uma escola militar (ou militarizada) no bairro do Tarumã, em Manaus. Expus minha má vontade com a proximidade entre crianças e armas, com o regime disciplinar diferenciado e com a sensação, que a matéria passava, de que as crianças estavam de alguma forma sendo coagidas.

E eu estava errado. Percebi isto depois de alguns comentários, de gente que tem filhos na escola, e de gente que convive com os efeitos dela no bairro. Não gosto da militarização como resposta ao que vai errado na sociedade civil, pelos motivos óbvios a qualquer brasileiro malmente informado. Não gosto de armas, não gosto de padronização, não gosto da hierarquia que põe a disciplina acima da educação em si. Mas eu sou um garoto branco, de classe média, que sempre tive tudo à mão, e logo mais eu volto a este ponto.

Ontem, assisti a um vídeo de uma moça que se diz mãe de um aluno da agora famosa escola estadual Waldocke Fricke de Lyra, defendendo a escola e criticando o viés da reportagem, claramente crítico à “intervenção militar” ocorrida na unidade estadual de educação em 2012. E hoje assisti à reportagem (clique aqui para assistir) do jornalista Juliano Dip, no programa CQC da Band, em que o foco era a rigidez que tomou conta da rotina das crianças.

Percebi, então, que meu excesso do que fazer me priva de coisas importantes, como a polêmica sobre os resultados positivos contra a rotina militar (portanto negativa) de uma escola estadual assumida pela PM do Amazonas. Mas mais incômodo do que perder a discussão é perceber como, em debates com viés ideológico assim, o público ou os beneficiários geralmente são ignorados. E neste caso, ninguém ligou para os alunos. Nem os militares de sempre, tarados pela imposição de padrões disciplinares que nivelam comportamentos de pessoas essencialmente diferentes, nem o programa CQC, que chega ao local da reportagem com a notícia pronta.

Por definição, militar é para defender o país. Guerrear. Matar gente. A prioridade de um assassino uniformizado e pago pelo Estado, contra inimigos estrangeiros, não é formar cidadãos felizes, amados e seguros de sua importância para a nação. É matar, caso necessário, em nome do país. Fato é, porém, que as escolas militares sempre se destacaram pela qualidade de ensino, pelo sucesso acadêmico de seus alunos e pela felicidade suprema de pais babões, fossem eles conservadores de direita ou simpatizantes da esquerda – e eu conheço bem ambos os tipos.

E é aqui que sobra a constatação que faltou ao CQC, porque o programa estava ocupado não com a investigação de uma tese, mas com sua comprovação. E a tese era a de que a Polícia Militar havia transformado uma escola infantil em um quartel, com crianças amedrontadas, intimidadas por armas de fogo, acuadas pela rigidez de homens de voz grossa.

É onde entro eu, branco, de classe média e com tudo à mão. É onde entram também todos os brancos, de classe média e que têm tudo à mão, mas que se apaixonam por um ideário fascinante, que infelizmente é carente de comprovação científica. O mundo das crianças que querem apenas “desenvolver seu senso crítico e cultural”, e não viver apenas de disciplina, como critica um educador entrevistado na reportagem. É o mundo dos repórteres que acham que, em determinadas áreas das grandes cidades, existem pneus de carro do pai que furam e causam atrasos ao aluno. Quando não há sequer pai em casa.

A gente vê o vídeo e percebe aquele desentrosamento entre perguntas e repostas, porque neste tipo de reportagem se pergunta “Houve protesto da comunidade quando os militares assumiram?”, e não “O que o senhor acha que educa mais, um revólver ou um livro?”. Uma ideia linda, como a humanização de um bairro degradado pela violência através da educação, é estuprada por um discurso político. Senão vejamos: os professores são civis, e não há militares ou armas nas salas de aula. A comparação entre livros e armas está, portanto, torta. A insinuação de que as armas proíbem os alunos de reclamar do calor é absurda. A de que os alunos batendo continência a uma colega são inferiores a ela é errada. O capitão Idevandro tenta explicar que os alunos se revezam naquela posição de “porteiros” das escola, mas a pauta está pronta. Segundo o repórter, ele não reclamaria do calor a um policial armado. E o policial retruca, dizendo que a polícia, armada, serve para a proteção dos alunos, e não para atacar os alunos. Era o momento de perguntar, então: “Já houve algum incidente entre um policial armado e algum aluno indisciplinado dentro dessa escola?”.

Repito, como cidadão: não gosto de armas e não gostaria do meu filho perto de uma. Como jornalista que não sou, no entanto, ficaria curioso sobre a taxa de incidentes com armas de policiais dentro da escola, comparada à taxa de incidentes com armas de não policiais, o que parece, pelos depoimentos, ter sido a rotina da escola antes da “intervenção”.

Juliano Dip pergunta ao aluno: “precisava cortar o cabelo para diminuir a violência aqui?”, e o aluno gagueja ao responder que aquelas são as regras da escola. “Normas são normas”, responde outra aluna. É quando o repórter acerta: a uma criança, não é natural chamar um colega de “senhor”. Ou bater continência em sala de aula. Ou ser proibida de usar batom. E aqui voltamos ao pouco entrosamento entre educação infantil e militares. Eu e Juliano Dip, que fomos criados em escolas civis e cheias de namoricos e zoação podemos estranhar, claro, mas isso existe.

E se isto existe, e existe há muito tempo – com resultados acadêmicos fabulosos –, também existe a rigidez de qualquer escola “conteudista” que se destaque nas avaliações oficiais, de norte a sul. Na escola do meu filho não se pode usar batom, bermuda, sequer tênis colorido. Há outras em que nem mãos dadas são permitidas entre alunos. Para complementar, são escolas com sistemas absurdos de segurança, com direito a guardas armados e rádios comunicadores até dentro de sala de aula. Há escolas particulares e civis nas quais os alunos sequer podem escolher a brincadeira do intervalo. São os professores que decidem e controlam a “diversão”. Nas mais renomadas e antigas escolas militares do Brasil, um coturno mal engraxado dá punição, nota baixa dá detenção no fim de semana. O CQC e Juliano Dip pretendem visitar cada uma das escolas militares do país para questionar a felicidade de seus alunos, que conseguiram suas vagas depois de verdadeiro vestibular para serem admitidos?

Rua fechada a favor da PM

Em setembro de 2013, duas mil pessoas, entre pais e alunos desta mesma escola de Manaus, fecharam a avenida Torquato Tapajós. Protestavam contra a troca do diretor da escola. Juliano Dip ou eu poderíamos imaginar que reclamavam da “intervenção militar”, feita sem consulta à comunidade, mas era o contrário. Como relata matéria do jornal A Crítica, pais e alunos temiam que a gestão da escola voltasse a ser civil. Eu e Juliano não compreendemos muito bem a necessidade de que certas escolas passem por este choque, mas quem conhece a Comunidade da Carbrás, nascida de uma invasão e foco de tráfico de drogas e violência, sabe que, comparados os dois flagelos, é melhor cantar o hino nacional do que ser espancado por traficantes no pátio da escola.

É preciso repetir: não gosto da fórmula. Por mim, não haveria exércitos no mundo. Nem militares, muito menos militares gerindo escolas, por uma simples questão de foco. Por mim e por Juliano, todas as escolas seriam usinas de gênios livres de amarras acadêmicas, recitando versos de Leminski e trocando partituras de Lenine na hora do recreio. Por mim e por Juliano, depois da aula todos fariam aulas de teatro e conheceriam mais as obras de Burle Marx. Ocorre que, para aquelas crianças que hoje precisam chamar o colega de “senhor”, a vida hoje é muito melhor do que na época em que viam briga de facas no intervalo. Ou um colega baleado em frente à escola. Fato é que todos iam ao recreio com as mochilas nas costas para não serem roubados pelos colegas. Fato é que havia tráfico de drogas e agressões físicas na escola. E sinto muito, ninguém consegue recitar Leminski e apanhar dos colegas ao mesmo tempo. Não há melodia de Lenine que transforme um aluno baleado em música.

O ingrediente ignorado neste tipo de narrativa é sempre o da vítima. E neste ponto, apesar de ser um ponto de vista muito parecido com o meu em termos teóricos (nem eu nem Juliano colocaríamos nossos filhos ali), a prática é outra. O fato é que, para além da teoria que eu e Juliano vivemos e aprendemos nas nossas escolas monitoradas por guardas armados, meus filhos e os dele estariam descendo um nível para chegar ao nível atual da escola Waldocke Fricke de Lyra. Para aquelas crianças, a escola Waldocke Fricke de Lyra é hoje um sonho realizado. Para os pais, uma chance em meio à degradação anterior.

É compreensível que atores de teatro e jornalistas de Bauru estranhem um mundo no qual a sociedade é capaz de agradecer pela presença da polícia, mas isto se deve apenas à diferença entre teoria e realidade. Manuais de redação podem sugerir coisa diversa, mas o fato é que, segundo um dos professores civis da escola, “as crianças começaram a ver que poderiam ser vistas de uma maneira diferente”, que a chegada dos militares era uma “oportunidade”.

Juliano pode estranhar que um egresso do BOPE esteja na direção de uma escola, mas isso pode ser apenas ignorância sobre a formação média de diretores de escolas militares de todo o país, além de provável ignorância sobre o tipo de realidade em que viviam aquelas famílias. A fórmula do abandono de pobres à própria sorte pode ser natural para quem consegue enxergar poesia na pobreza, melodia na carência e ingenuidade na violência. O caso da escola amazonense é ótimo porque esconde problemas históricos e profundos do Brasil inteiro, como a bagunça institucional, a falência da segurança pública, a política (eleitoral) de incentivar invasões de terra e perenizar o analfabetismo. Na ponta menos importante deste novelo de problemas está a minha opinião sobre militares, está a opinião de Juliano sobre a PM.

Infelizmente, para mim e para Juliano Dip, as periferias brasileiras, na minha Manaus ou na sua Bauru, estão cheias de meninos, meninas e pais abandonados pela ideologia do “deixa assim porque pobre também é feliz”. É triste ver pais e crianças fechando uma rua e pedindo que militares permaneçam no poder, ainda que seja apenas numa escola primária de Manaus. É triste mesmo, para mim, que sou um civil convicto.

Mas como ignorar a fala de Daniel Cara, educador entrevistado por Juliano Dip na reportagem, que diz que “nessas regiões com maior violência é preciso ter mais presença do poder público e não tratar a educação como a solução dos problemas da comunidade”?!

Repito, esta é a fala de um educador, que concorda com o viés da reportagem.

Ocorre que, numa equação formada por Estado, professores, alunos e pais de um ambiente em que nada parecia funcionar, tanto a minha quanto a opinião de Juliano Dip não valem absolutamente nada. Podem render algumas frases de efeito e aplausos de uma plateia cheirosinha, de alunos de escolas rígidas (mas civis!) de Bauru.

Mas sinceramente, acho que a opinião dos pais, dos alunos e dos professores vale um pouco mais do que isto, não?

 

Um 8 de julho sem memorial

Oito de julho. Não tentemos comparar a gravidade das coisas mas, sendo realmente francos, sabemos o que é realmente importante para o espírito coletivo de cada país. No Brasil da naturalização da barbárie e da pobreza, tragédia histórica mesmo é a goleada de 7 a 1 sofrida diante da Alemanha em 2014. Não, esta não é uma crítica às preferências nacionais. Na verdade é o contrário: eu acho que o Brasil deu importância de menos à tragédia da Copa. E, por mais que a lembrança seja tão traumática para todos nós, não entendi, até agora, por que aqueles 90 minutos não viraram matéria de estudo, de documentários, de reportagens especiais, de investigações, de mesas redondas, de autópsias e análises de especialistas.

Fui crítico da Copa desde 2009, cinco anos antes dela. Reclamei porque sabia, como todo mundo sabia, que depois da festa viria uma conta salgada, ficariam estádios às moscas, denúncias de corrupção, obras inacabadas, reclamação, os mesmos problemas de mobilidade etc. Todos sabiam. Os que vociferavam contra as críticas eram as madalenas de sempre, mais a serviço do patrão do que a serviço da sinceridade. Mas até estes sabiam.

Além da bela festa e da mistura genial de turistas e nativos, ficou para o futebol, dentro de campo, o que para mim seria a redenção nacional. Roubaríamos muito, atrasaríamos muito, erraríamos muito e reclamaríamos muito depois, mas com uma estrela a mais no peito da camisa amarela.

Mas faça um exercício. Imagine que, depois de 64 anos, o país do futebol finalmente sedie uma Copa do Mundo de futebol. E que, bem ou mal, o país do futebol chegue às semifinais. E que jogue contra a Alemanha, num estádio lotado, a poucos dias de uma provável final contra nossos maiores rivais, os argentinos. Que importante mesmo era pensar na Argentina. A gente sentia frio na barriga: “E se os argentinos nos vencem numa final no Maracanã?!”. Convenhamos, seria nosso 11 de Setembro.

E então, o jogo com a Alemanha começa e, sem que haja tempo para entender o que está acontecendo, um tiro de fuzil  atravesse a garganta de Kennedy, diante do povo e das câmeras. Ou que, durante o café da manhã, um Boeing entre pela janela do seu escritório no 92° andar. E que, ainda tentando entender o que está acontecendo, outro tiro estoure o crânio do presidente. E que, ainda escovando os dentes, você veja outro Boeing atravessando o prédio ao lado. E então todo mundo vai ao chão, os tiros continuam, outro avião cai no Pentágono.

Não me parece inadequado – talvez seja só cruel – admitir que os 7 a 1 foram nossa grande tragédia nacional moderna. Porque o futebol é a grande religião brasileira, e aquelas foram 7 charges pornográficas e violentas contra o que temos de mais sagrado. É inenarrável a cena de uma superpotência sendo humilhada diante do planeta, ao vivo, para o choque de 5 bilhões de pessoas. Mas isto precisa ser narrado. Aqueles 90 minutos deviam ser dissecados em praça pública. A trajetória do Brasil, naqueles cinco ou seis jogos, devia virar filme. E, no entanto, não virou nada. Até hoje aguardo que alguém, algum canal, algum programa anuncie uma volta dolorosa àquele 8 de julho, e nada. Não há replay, projeção tridimensional, holograma, computação gráfica mostrando as jogadas, a movimentação, o posicionamento tático. Nada.

É como se a consciência nacional tivesse rasgado a data do calendário e ainda estivéssemos dias antes de 8 de julho. A gente liga a TV durante um Brasil e Paraguai, num jogo disputado no Chile, e vê o Ronaldo Fenômeno comentar que sim, claro que a camisa amarela do Brasil impõe respeito aos adversários. E o Brasil perde o jogo, logo depois, e é eliminado. A crônica esportiva se rende preguiça bipolar: ora “a camisa amarela impõe respeito” (caso estejamos jogando bem), ora “não existe mais jogo fácil, amigo!” (caso estejamos jogando mal). Impera o marketing a serviço de determinadas carreiras, todos voltam ao trabalho, resmungam algo contra o time e vida que segue. Antes o Brasil vencia de 7 do Peru e a gente bocejava. Hoje perde do Paraguai e a gente boceja.

O Brasil joga como a seleção olímpica americana de basquete em 1987. Os americanos eram os brasileiros do basquete. Deviam estar comentando o peso da camiseta branco, azul e vermelha quando as cestas de três de Oscar Schmidt começaram a cair. E naquele momento, perdendo, eles eram os brasileiros do futebol. E sem que jogássemos um mínimo, nós nos sentíamos os americanos do basquete.

Mas os EUA são muito mais do que o basquete. Para começar, são aplicados, gostam de números, estatísticas, história, passado. Movem suas paixões nacionais ao sabor do trabalho, e não morreram depois da derrota de 1987. Na verdade, ali aprenderam a nunca mais perder. Não porque o Brasil fosse uma nova potência a ser respeitada no basquete, mas porque a arrogância dá as mais amargas lições e, a depender do aluno, os melhores resultados depois delas.

Eu compreendo, de verdade, a nula indignação do povo brasileiro com as obras inacabadas, com os estádios empoeirados, com os mesmos problemas de mobilidade, comunicação, saúde e infraestrutura. E compreendo que há grandezas que não se comparam. Futebol é religião, cidadania é ceticismo fundamentalista. Sinceramente, não acho errado que a bandalheira esteja esquecida. A gente aprende a fazer certas concessões argumentativas quando existe paixão envolvida. Agora, ficar sem as obras e também sem a paixão é dureza, não?

Oito de julho, o 11 de Setembro de nossa maior paixão nacional, vai ocorrer daqui a pouco mais de um dia. Para marcar este aniversário, o Brasil deveria voltar atrás, não para mudar o resultado daquela partida, mas para revê-la em câmera lenta, para tentar entendê-la e para aprender que não se aprende a lição virando-se a página da história.

O futebol brasileiro precisa aprender a perder. Mas a coisa é ainda pior. Para isto, precisa primeiro saber que perdeu.

Richard e Paula

Primeiro, clique na imagem.

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Se há um aspecto que transcende a discussão sobre o furor argumentativo na internet, é a legitimidade do senso, da noção de que, na tarefa de explicar a alma humana e suas angústias existenciais, a complexidade é muito bem-vinda. Não existe algo com o que eu concorde mais do que tratar histórias individuais como individuais. Por isso a explosão de movimentos, de agendas de minorias, de grupos organizados, de multidões de 20, 30 pessoas. O que a sociedade quer é tão esfarelado quanto a quantidade de informação a que essa sociedade tem acesso. Não há mais lados, posições, agrupamentos. É cada um por si, e sim, essa expressão pode significar algo bom. Digo isto há muitos anos: grandes multidões são formadas por milhares de histórias individuais, e por isso sempre defendi que cada um faça a sua história. No curso da história, histórias pessoais se cruzam em afinidades, em argumentos e discursos, em desejos e em demandas. É fácil desmontar ideias artificialmente coletivas, mas é impossível impedir que milhares de indivíduos criativos, produtivos e conscientes façam certas revoluções.

Toda essa digressão é apenas para lamentar o discurso de tantas pessoas que, à medida em que acertadamente reconhecem a complexidade da natureza humana, caem de forma fácil na armadilha da “coisificação” (para usar um termo querido por tantos) do outro, na construção de um caráter para o outro, na transformação, do outro, naquilo em que se quer bater, porque é fácil bater no que conhecemos.

Mas e quando o outro não é aquilo em que se quer bater? E quando ele está dizendo algo que, por estar falando mais alto do que ele, você não percebeu que é diferente do que você esperava? Stephen Covey disse que a maioria das pessoas não está interessada em ouvir para entender. A maioria das pessoas está interessada em ouvir para responder.

Li uma história em quadrinhos do cartunista Toby Morris sobre as oportunidades que algumas pessoas têm e que outras, não. A história mostra Richard, um garoto que tem brinquedos, pais que o ajudam na lição e comida na geladeira. E Paula, que tem a casa “cheia de gente”, que não convive com os pais e que estuda numa escola que não valoriza professores nem alunos. A ideia do pequeno roteiro é mostrar que Richard foi escolhido, por um ser superior, para ter brinquedos, pais presentes e comida na geladeira. E que Paula, por alguma falha na conjunção dos astros no céu, ficou de fora deste clube de privilégios.

É claro que, em tempos tão sem tempo, convém à Agência Reguladora das Virtudes desenhar para que o outro, que sempre é menos inteligente e mais malvado, possa entender o que se quer dizer. E o quadrinho quer dizer que algumas pessoas foram escolhidas, outras não. E que por isto fica justificada a existência de cotas raciais na faculdade – nem falemos aqui de cota em concurso público e na vida política.

Mas há detalhes que não entraram no desenho de Morris: não se trata de oportunidades, mas da percepção que temos do que é oportunidade.

Não há um jeito melhor de explicar como funciona esse “paraíso das oportunidades” quando podemos falar do que vivemos, certo? Afinal, este é um recurso discursivo muito utilizado por quem exige direitos desrespeitados pela maioria: falar de nossa própria experiência, contar o que passamos, como vivemos.

Há centenas, talvez milhares de fatores que expliquem por que Richard vive numa casa seca, e Paula numa casa úmida. E por que Richard tem livros, e Paula não. E por que Richard tem o que comer, e Paula não. Esses fatores não entraram na história, são quadrinhos que deveriam ter sido desenhados antes do nascimento de Richard, antes do nascimento de Paula. A história começou na consequência, e não na causa. Ninguém vem ao mundo de uma casca de noz, há sempre um passado.

É preciso lembrar, a vida é muito mais complexa do que desejamos. Mas se a proposta é a de simplificar para se fazer entender, apelemos ao mesmo artifício – a generalização – que Toby usou. Afinal, está claro, para ele Richard foi beneficiado pelos astros, beneficiado por pais generosos e que não adoecem, beneficiado por professores, beneficiado por chefes, beneficiado por gerentes de banco e até por colegas de trabalho. O veredito está pronto: um menino destes, que teve brinquedos, comeu e estudou vai fatalmente virar um profissional mesquinho, insensível, arrogante e ignorante sobre a existência de Paula.

Já Paula, na generalização do autor, é a menina esforçada, mas que foi esquecida pelas forças do cosmos. Teve vários irmãos, que também nasceram do nada, por pura providência divina; é filha de pais trabalhadores, mas que adoecem. É aluna de professores desmotivados e empregada de patrões exploradores. A história e os personagens desenhados por Morris são irreais? Claro que não. Mas são apenas o instantâneo que ele pinçou para provar um argumento, o dele.

Senão, vejamos como outros argumentos são tão verossímeis quanto. Minha generalização é um pouco diferente. Richard nasceu numa família comum, endividada e com gente que também adoecia. Perdeu o pai – que também adoecia – aos três anos, foi criado pela avó junto com dois outros irmãos, enquanto a mãe fazia três turnos na escola pública do bairro. Enquanto outras mães dormiam, ela passava a noite na calçada, esperando para matricular os filhos no inglês a um preço que podia pagar. Pagou a escola deles com a ajuda de amigos e vizinhos, perdeu o crescimento deles. Richard era o menino que queria jogar bola na rua em dias de semana, mas que precisava dizer aos amigos que tinha tarefa para fazer. Era o menino que acordava chorando aos sábados, para estudar inglês, enquanto os outros dormiam.

Aos 7 anos Paula teve problemas de vista, mas seus pais não perceberam porque os filhos eram cinco, um com bronquite e outro com déficit de atenção. O mais velho era ressentido com o pai, que o abandonou no colo da mãe. Paula era matriculada ano após ano naquela escola de professores desmotivados, e passava de ano porque o ensino público brasileiro está proibido de reprovar. Às vezes os cinco faltavam às aulas para ficar na rua, porque a escola de tempo integral prometida não veio, e porque seus pais apenas passavam, aos seus descendentes, a criação que receberam de seus pais.

Paula foi ensinada, por pais ausentes e pelos Richards socialmente conscientes, que é preciso valorizar as peculiaridades de cada um, respeitar suas limitações, preservar seus sentimentos, muito mais do que perseguir uma nota maior em matemática. Paula aprendeu a tocar chimbau, dançar hip-hop, porque alguém a convenceu de que, mais do que resolver equações e treinar pronomes e advérbios, o importante é se auto afirmar. Mais do que o esforço para tirar mais de 7,5, é preciso comemorar um 7.

Sigamos com a métrica do preconceito. Ande pela periferia da sua cidade, e o que você vai ver são as Paulas de seis, quatro, às vezes três anos de idade, correndo só de calcinhas em ruas esburacadas, saltando sobre o esgoto que escorre diante das casas sem reboco. Ande pela periferia e conte em quantas dessas casas há uma churrasqueira acesa, um alto-falante ligado e garrafas de cerveja nas mesas. Conte quantos são os smartphones nas mãos dos meninos e meninas, que os usam para tirar fotos sensuais com paredes cor-de-rosa e colchões de espuma encardidos ao fundo. Ande pelas escolas públicas de ensino médio, conte quantas estão fazendo reforço, viradões, mutirões de estudos, preparação para vestibulares e exames.

As oportunidades que Paula não tem não são culpa de Richard. E as oportunidades que Richard tem não são obra do acaso. A bem da verdade, no país de hoje, Paulas e Richards não são muito diferentes nas preocupações com salário, dinheiro, família, despesas, inflação, remédios, doenças etc. Imaginar que felicidade e angústia são classes sociais é absurdo. Querer que Richard seja um boçal para facilitar o entendimento de uma história em quadrinhos é desonesto.

Mas atenção: se há culpados pelo destino das Paulas que vemos diariamente, não são as Paulas. Não acho que apenas o esforço delas pode mudar tudo, porque isso não é verdade. Escolas de tempo integral são disputadas a tapa pelos pais da periferia. Escolas de inglês, quadras de esporte, estúdios musicais e espaços artísticos seriam sucesso eterno, e isto é prova de que todos, todos querem acesso ao que é bom. O que não vale é, na impossibilidade de termos isso, culpar os Richards.

Há um sem-número de aspectos da vida de Richard e Paula a avaliar. Sua vida educacional é apenas um deles, mas é o que foi escolhido como tema da HQ.

Sim, há o Richard egoísta e arrogante. Mas há o Richard consciente, humilde, o Richard que, mesmo tendo tido pais generosos, professores realizados e chefes inspiradores, cresceu e consegue enxergar as dificuldades dos outros. Posso apostar que Toby Morris é um Richard, estudou em escola boa, teve pais apoiadores, e sua própria obra desmonta sua generalização, limitada e preconceituosa. Vi alguns Richards na internet, filhos de pais amorosos e alunos de professores felizes, repercutindo a HQ de Morris. Vocês são o argumento definitivo contra a generalização de Toby. Ele também, ainda que todos vocês prefiram achar que o problema está nos Richards.

É preciso se compreender que o momento em que Richard entra na faculdade não é um presente de Deus, uma oportunidade caída do céu, e sim o resultado de cada um dos sábados em que não jogou bola, de cada uma das festas que perdeu, de cada noite de sereno que sua mãe passou na fila da matrícula. Quando se fala em meritocracia, não se fala a partir do nascimento de Richard, mas do que veio antes. Começando pela luta de seus pais, pelo planejamento familiar, pelo foco na educação dos filhos, pela disciplina, pelo esforço. Meritocracia não vem de privilégio, e sim de cansaço pelo trabalho até às 22h, pelo choro da reprovação de um filho, pela ansiedade pelo resultado de uma prova. Que privilégio há em não dormir, em abrir mão de conforto para comprar os livros de um filho? Que privilégio há em não jogar bola todos os dias?

Ninguém é obrigado a estudar aos sábados, assim como ninguém está proibido de fazer churrasco às segundas. Mas o fato é que nosso mundo não é regido por julgamentos morais, e sim de resultados. Não está em discussão o caráter de Richard ou de Paula, nem as escolhas que seus pais fizeram. É a entrevista de emprego que vai mostrar, um dia, a importância daquela aula de reforço depois de um 7,5.

A confusão entre conquistas e privilégios causa a falsa sensação de que não há nada errado com o país e com suas prioridades, mas sim com o vizinho que conseguiu comprar uma casa, financiar um carro, um emprego bom. O Brasil se sabota há várias décadas, fazendo de conta que educa suas crianças, e no fim acaba culpando aquelas que saíram da linha de produção da mediocridade e do analfabetismo funcional. Investe na cultura da demonização de quem empreende noite e dia, de quem estuda noite e dia, de quem trabalha noite e dia, porque acha que país justo é aquele que premia tanto quem estudou aos sábados quanto quem fez churrasco às segundas.

Richards e Paulas concordariam que um mundo justo teria um terreno, um igarapé, um carrinho popular, uma geladeira cheia, quartos com brinquedos e empregos vitalícios para cada ser humano nascido. Este mundo, porém, ainda não foi inventado, e se for, provavelmente será por um Richard que estou muito. E como há Richards que se preocupam com os outros e querem melhorar o mundo, eu tenho fé.

Havia na porta dos banheiros de um cursinho pré-vestibular em São Paulo um cartaz que dizia “enquanto você mija, há um japonês estudando”. Quem o lia não saía às ruas denunciando o privilégio dos asiáticos no acesso às melhores universidades. A mensagem era clara: quem quisesse uma vaga precisava controlar melhor sua bexiga.

Este ainda é o nosso mundo, injusto e cruel. E para ele temos duas opções: ou preparamos nossos filhos para ser Richards, ensinando-os a enxergar os problemas das Paulas, ou deixamos que nossas Paulas sigam o mesmo caminho de todas, e depois fiquemos felizes porque um Richard de bom coração decidiu desenhar o drama delas.

Sim, há uma lição maior a todos nós. É a de que não são nem os Richards e nem as Paulas os que estragam nossas vidas. É a cultura de algumas sociedades, baseada no repúdio à justiça, na demonização do esforço, no preconceito, na mistificação do rico e do pobre, no julgamento do caráter alheio e na ingenuidade com que se encara o futuro dos nossos filhos.

Nota: Sou contra cotas raciais, mas sou a favor de cotas sociais no acesso à universidade pública no Brasil. E nelas, Paula estaria selecionada para ter as mesmas oportunidades que Richard, cursando a mesma faculdade que ele.

O Mito do Tracajá, de Platão

Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.
Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.

Alguém na minha lista de leitura encontrou uma motivação revolucionária em seus fios brancos de cabelo. Disse que havia neles a vontade de não se “comportar” como os outros, que, imagino eu, eram os fios pretos e conservadores. Meses atrás, num desses vídeos que fazem sucesso na internet, um tracajá ajudava outro, que estava de pernas para o ar, a se desvirar – e assim virava personagem de parábola sobre “gente que ainda consegue ver os problemas dos outros nesses tempos de ódio”.

O que a gente deduz sem muito esforço, nestes “tempos de ódio”, é que é possível ideologizar absolutamente tudo, do médico esfaqueado ao bobó de camarão, do cachorro abandonado à cor do cabelo, do rolezinho no shopping ao tipo de parto que a mulher escolhe para fazer.

Eu não acho ruim que cada geração crie sua própria agenda política. Pelo contrário, acho muito saudável a disposição de materializar suas posições sobre tudo no mundo. Desesperador seria ver jovens calados diante das injustiças, líderes estudantis quietos diante de professores mal pagos, jovens entrando na política para fazer política de velhos.

Desde ontem, o falso debate é o privilégio da elite branca paulista quando o assunto é estar a bordo, com a família inteira, de um avião cujos dois motores pararam de funcionar. Luciano Huck e Angélica, além dos três filhos, duas babás e dois pilotos, sobreviveram à queda de um avião. Pela explicação do próprio piloto, todos foram resgatados da aeronave, pediram ajuda e foram socorridos. A família dos apresentadores primeiro. O piloto ajudou o copiloto, ferido com mais gravidade, e ambos foram para a Santa Casa. Depois de receber sutura num corte na testa, o piloto foi liberado. Os apresentadores, com suspeitas de fratura na bacia e na vértebra, foram transferidos para o Albert Einstein, em São Paulo.

E então começou – ou eu só percebi ali – a chanchada do absurdo. Luciano, que seria um apresentador que se aproveita da pobreza das pessoas para ter audiência, conseguiu uma vaga no SUS para o piloto, enquanto ele ia ao melhor hospital do país. Todas as notícias davam conta de que todos a bordo, a classe trabalhadora (pilotos), as escravas (babás), os aristocratas (o casal) e seus herdeiros reais (os filhos) foram levados ao mesmo hospital, público. Seu Wilson, um agricultor que viu o pedido de socorro, não teve tempo de avaliar aquele imbróglio sociológico de luta de classes naquele momento. Em vez de correr para o Facebook para julgar a classe social de pessoas que precisavam de ajuda, acabou… ajudando.

Deu em toda a grande mídia (a pequena mídia estava ocupada chamando contribuintes insatisfeitos com a política econômica petista de “nazistas”) que Osmar Frattini, o piloto, saiu por último porque era o responsável pelo voo. E que depois fez sutura e saiu ele próprio carregando o frasco de soro que tomava. Não porque era o pobre abandonado à própria sorte pelo casal ricaço, mas porque não estava ferido, podia andar e ir para casa.

O que mais falta? Internar todos, mesmo aqueles sem ferimentos graves, juntos com Angélica, com suspeita de fratura, apenas para satisfazer a tara filosófica e tardia de gente da internet? É isso mesmo? Vamos criar cota para feridos em acidentes aéreos?

Se cabe aqui um apelo, é para que esse raio esquerdizador faça pausas maiores, dê um tempo ao bom senso. É preciso compreender que o cabelo revolucionário pode ser o branco, e o conservador, o cabelo preto. É preciso intuir que o tracajá de cabeça para baixo é o de esquerda, por não respeitar as convenções da sociedade, e que pode ter sido atrapalhado por um colega de direita, um tracajá coxinha que faz tudo certinho. É preciso compreender a história de vida do bobó de camarão, que um cachorro vira-lata pode ser fascista, que o sovaco com pelos descoloridos pode ser sinal de simpatia neonazista. Não há nada mais conservador do que a imagem que os revolucionários fazem de um conservador.

Tudo é parte de uma metáfora sarcástica da minha parte, claro, extremamente sem sentido. Mas convenhamos: quem começou foi quem instituiu cota até para quem vai se ferir num desastre de avião.

Enfim, um bom argumento para consumir propaganda

mockup_ganhenatelaPropagandas viram crédito de celular – Amazonenses desenvolvem aplicativo para ganhar créditos a partir de propagandas

Créditos para celular a partir da visualização de propagandas? Essa é a proposta do aplicativo ‘Ganhe na Tela’. Desenvolvido no Amazonas com a ajuda da FabriQ Aceleradora, o projeto foi idealizado para dar benefícios aos usuários e ajudar a potencializar os negócios das empresas.

Como funciona?

O usuário precisa baixar o aplicativo, inicialmente disponibilizado para o sistema Android, cadastrar o número de celular e o email. Após o processo, basta travar o celular e ao destravar os anúncios vão aparecer na tela por 5 segundos, basta clicar para resgatar os créditos.

De acordo com gerente de projeto do aplicativo, Daniel Goettenauer, um grupo de seis pessoas criaram o aplicativo para dar benefícios reais aos usuários. “O prazo de resgate é de 48 horas”.

Mais informações no Facebook  e na Google Play.

FabriQ Aceleradora

É um programa de aceleração que ajuda a fomentar o empreendedorismo no Norte do Brasil. O programa oferece treinamentos, mentores capacitados e infraestrutura para o processo de criação de empresas do setor.

Jaraqui Valley

Assim como o Vale do Silício, o Jaraqui Valley no Amazonas reúne startups para ajudar no processo da área de inovação.