Mais um feliz infectado pelo vírus do mérito

Sei que já escrevi demais sobre isto ontem e que, nestes tempos de diversidade, pluralismo e modernidade, textos com mais de 500 toques viram “textão”, falar ou escrever demais é pecado, mas vale o registro. Um garoto daquela famosa escola do CQC venceu a olimpíada de matemática. Vai ser premiado no Rio de Janeiro. Juro que me forcei a procurar um aspecto negativo no fato, mas admito que achei muito legal. Afinal, mais um garoto entra no círculo virtuoso do aprendizado e do mérito. A gente vê esse tipo de foto, de garotos orgulhosos diante de estantes de livros desde sempre, e sempre achou que ali estava um sinal de avanço da humanidade. Era olhar para aquilo e pensar: a) Aos 15 anos: “Nossa, eu quero ser um discípulo de John Keating em Sociedade dos Poetas Mortos”. b) Aos 25 anos: “Vou destruir tudo e escrever um best-seller!” e c) Aos 40 anos: “Gente, parem de confundir r com acento agudo!”.

Todas as escolas, da mais chique à mais pobre, sempre formaram traficantes, corruptos, estelionatários e assassinos. Felizmente (para quem é ideólogo) ou infelizmente (para quem é só humano), o crime não tem classe nem faixa de renda – no máximo muda de nome a depender delas. Para quem é adolescente, fisiológico ou mental, isso é coisa boa. Não estou acostumado a discutir fatos, e sim opiniões. E o fato é que, levada em consideração a história do Ida Nelson, do La Salle, do Dinâmico, do Einstein, do Dom Bosco, da ETFAM, do Militar, do Auxialiadora, do Doroteia, do Christus e do Latu Sensu, apenas para ficarmos nas principais escolas particulares da minha época, formamos na década de 80 e 90 alguns dos piores e melhores espécimes humanos do circuito local. Arrisco dizer que escola não define caráter mais do que família, mas vá lá. Dito assim, sabemos que a escola não é mais definidora das pessoas do que o ambiente em que elas moram. Mas o fato é que muito bandido saiu das mesmas escolas de onde saíram alguns dos melhores profissionais da nossa cidade.

Combinamos nisto? Ok. Meu argumento, portanto, é que traficantes saem de qualquer lugar, porque o crime não depende somente de escolaridade, de “chance na vida”, de valorização do poder público ou privado.

No caso da escola de pobres que começaram a vencer olimpíadas de matemática, e não somente de hip hop, fico extremamente feliz. E digo o porquê. Porque cansei de ler notícia sobre quão violenta é a comunidade tal ou qual. Porque sempre acreditei que, mais do que personagens de uma luta de classes falsa, sempre houve gente da melhor qualidade em qualquer lugar, e não somente na elite ou na periferia. Essas pessoas, alheias a ideologias reprovadas eleitoralmente, reprovadas pela história e pelas urnas até hoje, querem apenas viver e ser felizes. Não querem tutores ideológicos.

Todas as escolas do mundo, da West Point americana (com suas glórias e seus abusos) à mais reles escola primária amazonense, formaram engenheiros, arquitetos, advogados, médicos e escroques, traficantes e ladrões.

O que difere o nosso (e estou sendo elegante com este “nosso”) velho discurso coxinha de sempre e a realidade destes garotos é simples. Todas as escolas sempre conviveram com a elite e com a ralé de qualquer sociedade. O que a escola Waldocke Fricke de Lyra decidiu fazer foi parar de formar apenas um destes lados. E é isto, arrisco dizer, o que tanto incomoda certos gurus do pensamento coxinha: nas periferias do Brasil, tem gente que cansou de bater lata. Tem menino da periferia que quer resolver teoremas matemáticos, e não somente aprender rap. E melhor ainda: ninguém precisou trocar os alunos; os ótimos alunos estavam apenas escondidos sob o manto do medo da violência, do tráfico, da mediocridade. Você tira o que atrapalha o ensino, e os ótimos alunos aparecem.

Um dos efeitos mais belos da cultura da educação é este: para o ódio dos que buscam na mediocridade e no pobrismo apenas uma forma de dormir mais tranquilos, as pessoas querem apenas melhorar de vida. Sob este ponto de vista, não existe nada mais conservador do que pensar que pobre é pobre, burro é burro, elite é elite, rico é rico.

Os resultados que a educação mais simples e básica começam a mostrar no Amazonas desmoralizam as teorias de quem acha que pobre tem dono.

Ninguém tem dono. Principalmente quem vence olimpíada de matemática.

Boa noite.

http://new.d24am.com/noticias/amazonas/aluno-escola-policia-militar-conquista-ouro-olimpiada-matematica/137113

2 mil alunos voltaram a estudar em Manaus. Quem sou eu ou Juliano Dip?

Há alguns dias comentei matéria local sobre uma escola militar (ou militarizada) no bairro do Tarumã, em Manaus. Expus minha má vontade com a proximidade entre crianças e armas, com o regime disciplinar diferenciado e com a sensação, que a matéria passava, de que as crianças estavam de alguma forma sendo coagidas.

E eu estava errado. Percebi isto depois de alguns comentários, de gente que tem filhos na escola, e de gente que convive com os efeitos dela no bairro. Não gosto da militarização como resposta ao que vai errado na sociedade civil, pelos motivos óbvios a qualquer brasileiro malmente informado. Não gosto de armas, não gosto de padronização, não gosto da hierarquia que põe a disciplina acima da educação em si. Mas eu sou um garoto branco, de classe média, que sempre tive tudo à mão, e logo mais eu volto a este ponto.

Ontem, assisti a um vídeo de uma moça que se diz mãe de um aluno da agora famosa escola estadual Waldocke Fricke de Lyra, defendendo a escola e criticando o viés da reportagem, claramente crítico à “intervenção militar” ocorrida na unidade estadual de educação em 2012. E hoje assisti à reportagem (clique aqui para assistir) do jornalista Juliano Dip, no programa CQC da Band, em que o foco era a rigidez que tomou conta da rotina das crianças.

Percebi, então, que meu excesso do que fazer me priva de coisas importantes, como a polêmica sobre os resultados positivos contra a rotina militar (portanto negativa) de uma escola estadual assumida pela PM do Amazonas. Mas mais incômodo do que perder a discussão é perceber como, em debates com viés ideológico assim, o público ou os beneficiários geralmente são ignorados. E neste caso, ninguém ligou para os alunos. Nem os militares de sempre, tarados pela imposição de padrões disciplinares que nivelam comportamentos de pessoas essencialmente diferentes, nem o programa CQC, que chega ao local da reportagem com a notícia pronta.

Por definição, militar é para defender o país. Guerrear. Matar gente. A prioridade de um assassino uniformizado e pago pelo Estado, contra inimigos estrangeiros, não é formar cidadãos felizes, amados e seguros de sua importância para a nação. É matar, caso necessário, em nome do país. Fato é, porém, que as escolas militares sempre se destacaram pela qualidade de ensino, pelo sucesso acadêmico de seus alunos e pela felicidade suprema de pais babões, fossem eles conservadores de direita ou simpatizantes da esquerda – e eu conheço bem ambos os tipos.

E é aqui que sobra a constatação que faltou ao CQC, porque o programa estava ocupado não com a investigação de uma tese, mas com sua comprovação. E a tese era a de que a Polícia Militar havia transformado uma escola infantil em um quartel, com crianças amedrontadas, intimidadas por armas de fogo, acuadas pela rigidez de homens de voz grossa.

É onde entro eu, branco, de classe média e com tudo à mão. É onde entram também todos os brancos, de classe média e que têm tudo à mão, mas que se apaixonam por um ideário fascinante, que infelizmente é carente de comprovação científica. O mundo das crianças que querem apenas “desenvolver seu senso crítico e cultural”, e não viver apenas de disciplina, como critica um educador entrevistado na reportagem. É o mundo dos repórteres que acham que, em determinadas áreas das grandes cidades, existem pneus de carro do pai que furam e causam atrasos ao aluno. Quando não há sequer pai em casa.

A gente vê o vídeo e percebe aquele desentrosamento entre perguntas e repostas, porque neste tipo de reportagem se pergunta “Houve protesto da comunidade quando os militares assumiram?”, e não “O que o senhor acha que educa mais, um revólver ou um livro?”. Uma ideia linda, como a humanização de um bairro degradado pela violência através da educação, é estuprada por um discurso político. Senão vejamos: os professores são civis, e não há militares ou armas nas salas de aula. A comparação entre livros e armas está, portanto, torta. A insinuação de que as armas proíbem os alunos de reclamar do calor é absurda. A de que os alunos batendo continência a uma colega são inferiores a ela é errada. O capitão Idevandro tenta explicar que os alunos se revezam naquela posição de “porteiros” das escola, mas a pauta está pronta. Segundo o repórter, ele não reclamaria do calor a um policial armado. E o policial retruca, dizendo que a polícia, armada, serve para a proteção dos alunos, e não para atacar os alunos. Era o momento de perguntar, então: “Já houve algum incidente entre um policial armado e algum aluno indisciplinado dentro dessa escola?”.

Repito, como cidadão: não gosto de armas e não gostaria do meu filho perto de uma. Como jornalista que não sou, no entanto, ficaria curioso sobre a taxa de incidentes com armas de policiais dentro da escola, comparada à taxa de incidentes com armas de não policiais, o que parece, pelos depoimentos, ter sido a rotina da escola antes da “intervenção”.

Juliano Dip pergunta ao aluno: “precisava cortar o cabelo para diminuir a violência aqui?”, e o aluno gagueja ao responder que aquelas são as regras da escola. “Normas são normas”, responde outra aluna. É quando o repórter acerta: a uma criança, não é natural chamar um colega de “senhor”. Ou bater continência em sala de aula. Ou ser proibida de usar batom. E aqui voltamos ao pouco entrosamento entre educação infantil e militares. Eu e Juliano Dip, que fomos criados em escolas civis e cheias de namoricos e zoação podemos estranhar, claro, mas isso existe.

E se isto existe, e existe há muito tempo – com resultados acadêmicos fabulosos –, também existe a rigidez de qualquer escola “conteudista” que se destaque nas avaliações oficiais, de norte a sul. Na escola do meu filho não se pode usar batom, bermuda, sequer tênis colorido. Há outras em que nem mãos dadas são permitidas entre alunos. Para complementar, são escolas com sistemas absurdos de segurança, com direito a guardas armados e rádios comunicadores até dentro de sala de aula. Há escolas particulares e civis nas quais os alunos sequer podem escolher a brincadeira do intervalo. São os professores que decidem e controlam a “diversão”. Nas mais renomadas e antigas escolas militares do Brasil, um coturno mal engraxado dá punição, nota baixa dá detenção no fim de semana. O CQC e Juliano Dip pretendem visitar cada uma das escolas militares do país para questionar a felicidade de seus alunos, que conseguiram suas vagas depois de verdadeiro vestibular para serem admitidos?

Rua fechada a favor da PM

Em setembro de 2013, duas mil pessoas, entre pais e alunos desta mesma escola de Manaus, fecharam a avenida Torquato Tapajós. Protestavam contra a troca do diretor da escola. Juliano Dip ou eu poderíamos imaginar que reclamavam da “intervenção militar”, feita sem consulta à comunidade, mas era o contrário. Como relata matéria do jornal A Crítica, pais e alunos temiam que a gestão da escola voltasse a ser civil. Eu e Juliano não compreendemos muito bem a necessidade de que certas escolas passem por este choque, mas quem conhece a Comunidade da Carbrás, nascida de uma invasão e foco de tráfico de drogas e violência, sabe que, comparados os dois flagelos, é melhor cantar o hino nacional do que ser espancado por traficantes no pátio da escola.

É preciso repetir: não gosto da fórmula. Por mim, não haveria exércitos no mundo. Nem militares, muito menos militares gerindo escolas, por uma simples questão de foco. Por mim e por Juliano, todas as escolas seriam usinas de gênios livres de amarras acadêmicas, recitando versos de Leminski e trocando partituras de Lenine na hora do recreio. Por mim e por Juliano, depois da aula todos fariam aulas de teatro e conheceriam mais as obras de Burle Marx. Ocorre que, para aquelas crianças que hoje precisam chamar o colega de “senhor”, a vida hoje é muito melhor do que na época em que viam briga de facas no intervalo. Ou um colega baleado em frente à escola. Fato é que todos iam ao recreio com as mochilas nas costas para não serem roubados pelos colegas. Fato é que havia tráfico de drogas e agressões físicas na escola. E sinto muito, ninguém consegue recitar Leminski e apanhar dos colegas ao mesmo tempo. Não há melodia de Lenine que transforme um aluno baleado em música.

O ingrediente ignorado neste tipo de narrativa é sempre o da vítima. E neste ponto, apesar de ser um ponto de vista muito parecido com o meu em termos teóricos (nem eu nem Juliano colocaríamos nossos filhos ali), a prática é outra. O fato é que, para além da teoria que eu e Juliano vivemos e aprendemos nas nossas escolas monitoradas por guardas armados, meus filhos e os dele estariam descendo um nível para chegar ao nível atual da escola Waldocke Fricke de Lyra. Para aquelas crianças, a escola Waldocke Fricke de Lyra é hoje um sonho realizado. Para os pais, uma chance em meio à degradação anterior.

É compreensível que atores de teatro e jornalistas de Bauru estranhem um mundo no qual a sociedade é capaz de agradecer pela presença da polícia, mas isto se deve apenas à diferença entre teoria e realidade. Manuais de redação podem sugerir coisa diversa, mas o fato é que, segundo um dos professores civis da escola, “as crianças começaram a ver que poderiam ser vistas de uma maneira diferente”, que a chegada dos militares era uma “oportunidade”.

Juliano pode estranhar que um egresso do BOPE esteja na direção de uma escola, mas isso pode ser apenas ignorância sobre a formação média de diretores de escolas militares de todo o país, além de provável ignorância sobre o tipo de realidade em que viviam aquelas famílias. A fórmula do abandono de pobres à própria sorte pode ser natural para quem consegue enxergar poesia na pobreza, melodia na carência e ingenuidade na violência. O caso da escola amazonense é ótimo porque esconde problemas históricos e profundos do Brasil inteiro, como a bagunça institucional, a falência da segurança pública, a política (eleitoral) de incentivar invasões de terra e perenizar o analfabetismo. Na ponta menos importante deste novelo de problemas está a minha opinião sobre militares, está a opinião de Juliano sobre a PM.

Infelizmente, para mim e para Juliano Dip, as periferias brasileiras, na minha Manaus ou na sua Bauru, estão cheias de meninos, meninas e pais abandonados pela ideologia do “deixa assim porque pobre também é feliz”. É triste ver pais e crianças fechando uma rua e pedindo que militares permaneçam no poder, ainda que seja apenas numa escola primária de Manaus. É triste mesmo, para mim, que sou um civil convicto.

Mas como ignorar a fala de Daniel Cara, educador entrevistado por Juliano Dip na reportagem, que diz que “nessas regiões com maior violência é preciso ter mais presença do poder público e não tratar a educação como a solução dos problemas da comunidade”?!

Repito, esta é a fala de um educador, que concorda com o viés da reportagem.

Ocorre que, numa equação formada por Estado, professores, alunos e pais de um ambiente em que nada parecia funcionar, tanto a minha quanto a opinião de Juliano Dip não valem absolutamente nada. Podem render algumas frases de efeito e aplausos de uma plateia cheirosinha, de alunos de escolas rígidas (mas civis!) de Bauru.

Mas sinceramente, acho que a opinião dos pais, dos alunos e dos professores vale um pouco mais do que isto, não?

 

Um 8 de julho sem memorial

Oito de julho. Não tentemos comparar a gravidade das coisas mas, sendo realmente francos, sabemos o que é realmente importante para o espírito coletivo de cada país. No Brasil da naturalização da barbárie e da pobreza, tragédia histórica mesmo é a goleada de 7 a 1 sofrida diante da Alemanha em 2014. Não, esta não é uma crítica às preferências nacionais. Na verdade é o contrário: eu acho que o Brasil deu importância de menos à tragédia da Copa. E, por mais que a lembrança seja tão traumática para todos nós, não entendi, até agora, por que aqueles 90 minutos não viraram matéria de estudo, de documentários, de reportagens especiais, de investigações, de mesas redondas, de autópsias e análises de especialistas.

Fui crítico da Copa desde 2009, cinco anos antes dela. Reclamei porque sabia, como todo mundo sabia, que depois da festa viria uma conta salgada, ficariam estádios às moscas, denúncias de corrupção, obras inacabadas, reclamação, os mesmos problemas de mobilidade etc. Todos sabiam. Os que vociferavam contra as críticas eram as madalenas de sempre, mais a serviço do patrão do que a serviço da sinceridade. Mas até estes sabiam.

Além da bela festa e da mistura genial de turistas e nativos, ficou para o futebol, dentro de campo, o que para mim seria a redenção nacional. Roubaríamos muito, atrasaríamos muito, erraríamos muito e reclamaríamos muito depois, mas com uma estrela a mais no peito da camisa amarela.

Mas faça um exercício. Imagine que, depois de 64 anos, o país do futebol finalmente sedie uma Copa do Mundo de futebol. E que, bem ou mal, o país do futebol chegue às semifinais. E que jogue contra a Alemanha, num estádio lotado, a poucos dias de uma provável final contra nossos maiores rivais, os argentinos. Que importante mesmo era pensar na Argentina. A gente sentia frio na barriga: “E se os argentinos nos vencem numa final no Maracanã?!”. Convenhamos, seria nosso 11 de Setembro.

E então, o jogo com a Alemanha começa e, sem que haja tempo para entender o que está acontecendo, um tiro de fuzil  atravesse a garganta de Kennedy, diante do povo e das câmeras. Ou que, durante o café da manhã, um Boeing entre pela janela do seu escritório no 92° andar. E que, ainda tentando entender o que está acontecendo, outro tiro estoure o crânio do presidente. E que, ainda escovando os dentes, você veja outro Boeing atravessando o prédio ao lado. E então todo mundo vai ao chão, os tiros continuam, outro avião cai no Pentágono.

Não me parece inadequado – talvez seja só cruel – admitir que os 7 a 1 foram nossa grande tragédia nacional moderna. Porque o futebol é a grande religião brasileira, e aquelas foram 7 charges pornográficas e violentas contra o que temos de mais sagrado. É inenarrável a cena de uma superpotência sendo humilhada diante do planeta, ao vivo, para o choque de 5 bilhões de pessoas. Mas isto precisa ser narrado. Aqueles 90 minutos deviam ser dissecados em praça pública. A trajetória do Brasil, naqueles cinco ou seis jogos, devia virar filme. E, no entanto, não virou nada. Até hoje aguardo que alguém, algum canal, algum programa anuncie uma volta dolorosa àquele 8 de julho, e nada. Não há replay, projeção tridimensional, holograma, computação gráfica mostrando as jogadas, a movimentação, o posicionamento tático. Nada.

É como se a consciência nacional tivesse rasgado a data do calendário e ainda estivéssemos dias antes de 8 de julho. A gente liga a TV durante um Brasil e Paraguai, num jogo disputado no Chile, e vê o Ronaldo Fenômeno comentar que sim, claro que a camisa amarela do Brasil impõe respeito aos adversários. E o Brasil perde o jogo, logo depois, e é eliminado. A crônica esportiva se rende preguiça bipolar: ora “a camisa amarela impõe respeito” (caso estejamos jogando bem), ora “não existe mais jogo fácil, amigo!” (caso estejamos jogando mal). Impera o marketing a serviço de determinadas carreiras, todos voltam ao trabalho, resmungam algo contra o time e vida que segue. Antes o Brasil vencia de 7 do Peru e a gente bocejava. Hoje perde do Paraguai e a gente boceja.

O Brasil joga como a seleção olímpica americana de basquete em 1987. Os americanos eram os brasileiros do basquete. Deviam estar comentando o peso da camiseta branco, azul e vermelha quando as cestas de três de Oscar Schmidt começaram a cair. E naquele momento, perdendo, eles eram os brasileiros do futebol. E sem que jogássemos um mínimo, nós nos sentíamos os americanos do basquete.

Mas os EUA são muito mais do que o basquete. Para começar, são aplicados, gostam de números, estatísticas, história, passado. Movem suas paixões nacionais ao sabor do trabalho, e não morreram depois da derrota de 1987. Na verdade, ali aprenderam a nunca mais perder. Não porque o Brasil fosse uma nova potência a ser respeitada no basquete, mas porque a arrogância dá as mais amargas lições e, a depender do aluno, os melhores resultados depois delas.

Eu compreendo, de verdade, a nula indignação do povo brasileiro com as obras inacabadas, com os estádios empoeirados, com os mesmos problemas de mobilidade, comunicação, saúde e infraestrutura. E compreendo que há grandezas que não se comparam. Futebol é religião, cidadania é ceticismo fundamentalista. Sinceramente, não acho errado que a bandalheira esteja esquecida. A gente aprende a fazer certas concessões argumentativas quando existe paixão envolvida. Agora, ficar sem as obras e também sem a paixão é dureza, não?

Oito de julho, o 11 de Setembro de nossa maior paixão nacional, vai ocorrer daqui a pouco mais de um dia. Para marcar este aniversário, o Brasil deveria voltar atrás, não para mudar o resultado daquela partida, mas para revê-la em câmera lenta, para tentar entendê-la e para aprender que não se aprende a lição virando-se a página da história.

O futebol brasileiro precisa aprender a perder. Mas a coisa é ainda pior. Para isto, precisa primeiro saber que perdeu.

Richard e Paula

Primeiro, clique na imagem.

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Se há um aspecto que transcende a discussão sobre o furor argumentativo na internet, é a legitimidade do senso, da noção de que, na tarefa de explicar a alma humana e suas angústias existenciais, a complexidade é muito bem-vinda. Não existe algo com o que eu concorde mais do que tratar histórias individuais como individuais. Por isso a explosão de movimentos, de agendas de minorias, de grupos organizados, de multidões de 20, 30 pessoas. O que a sociedade quer é tão esfarelado quanto a quantidade de informação a que essa sociedade tem acesso. Não há mais lados, posições, agrupamentos. É cada um por si, e sim, essa expressão pode significar algo bom. Digo isto há muitos anos: grandes multidões são formadas por milhares de histórias individuais, e por isso sempre defendi que cada um faça a sua história. No curso da história, histórias pessoais se cruzam em afinidades, em argumentos e discursos, em desejos e em demandas. É fácil desmontar ideias artificialmente coletivas, mas é impossível impedir que milhares de indivíduos criativos, produtivos e conscientes façam certas revoluções.

Toda essa digressão é apenas para lamentar o discurso de tantas pessoas que, à medida em que acertadamente reconhecem a complexidade da natureza humana, caem de forma fácil na armadilha da “coisificação” (para usar um termo querido por tantos) do outro, na construção de um caráter para o outro, na transformação, do outro, naquilo em que se quer bater, porque é fácil bater no que conhecemos.

Mas e quando o outro não é aquilo em que se quer bater? E quando ele está dizendo algo que, por estar falando mais alto do que ele, você não percebeu que é diferente do que você esperava? Stephen Covey disse que a maioria das pessoas não está interessada em ouvir para entender. A maioria das pessoas está interessada em ouvir para responder.

Li uma história em quadrinhos do cartunista Toby Morris sobre as oportunidades que algumas pessoas têm e que outras, não. A história mostra Richard, um garoto que tem brinquedos, pais que o ajudam na lição e comida na geladeira. E Paula, que tem a casa “cheia de gente”, que não convive com os pais e que estuda numa escola que não valoriza professores nem alunos. A ideia do pequeno roteiro é mostrar que Richard foi escolhido, por um ser superior, para ter brinquedos, pais presentes e comida na geladeira. E que Paula, por alguma falha na conjunção dos astros no céu, ficou de fora deste clube de privilégios.

É claro que, em tempos tão sem tempo, convém à Agência Reguladora das Virtudes desenhar para que o outro, que sempre é menos inteligente e mais malvado, possa entender o que se quer dizer. E o quadrinho quer dizer que algumas pessoas foram escolhidas, outras não. E que por isto fica justificada a existência de cotas raciais na faculdade – nem falemos aqui de cota em concurso público e na vida política.

Mas há detalhes que não entraram no desenho de Morris: não se trata de oportunidades, mas da percepção que temos do que é oportunidade.

Não há um jeito melhor de explicar como funciona esse “paraíso das oportunidades” quando podemos falar do que vivemos, certo? Afinal, este é um recurso discursivo muito utilizado por quem exige direitos desrespeitados pela maioria: falar de nossa própria experiência, contar o que passamos, como vivemos.

Há centenas, talvez milhares de fatores que expliquem por que Richard vive numa casa seca, e Paula numa casa úmida. E por que Richard tem livros, e Paula não. E por que Richard tem o que comer, e Paula não. Esses fatores não entraram na história, são quadrinhos que deveriam ter sido desenhados antes do nascimento de Richard, antes do nascimento de Paula. A história começou na consequência, e não na causa. Ninguém vem ao mundo de uma casca de noz, há sempre um passado.

É preciso lembrar, a vida é muito mais complexa do que desejamos. Mas se a proposta é a de simplificar para se fazer entender, apelemos ao mesmo artifício – a generalização – que Toby usou. Afinal, está claro, para ele Richard foi beneficiado pelos astros, beneficiado por pais generosos e que não adoecem, beneficiado por professores, beneficiado por chefes, beneficiado por gerentes de banco e até por colegas de trabalho. O veredito está pronto: um menino destes, que teve brinquedos, comeu e estudou vai fatalmente virar um profissional mesquinho, insensível, arrogante e ignorante sobre a existência de Paula.

Já Paula, na generalização do autor, é a menina esforçada, mas que foi esquecida pelas forças do cosmos. Teve vários irmãos, que também nasceram do nada, por pura providência divina; é filha de pais trabalhadores, mas que adoecem. É aluna de professores desmotivados e empregada de patrões exploradores. A história e os personagens desenhados por Morris são irreais? Claro que não. Mas são apenas o instantâneo que ele pinçou para provar um argumento, o dele.

Senão, vejamos como outros argumentos são tão verossímeis quanto. Minha generalização é um pouco diferente. Richard nasceu numa família comum, endividada e com gente que também adoecia. Perdeu o pai – que também adoecia – aos três anos, foi criado pela avó junto com dois outros irmãos, enquanto a mãe fazia três turnos na escola pública do bairro. Enquanto outras mães dormiam, ela passava a noite na calçada, esperando para matricular os filhos no inglês a um preço que podia pagar. Pagou a escola deles com a ajuda de amigos e vizinhos, perdeu o crescimento deles. Richard era o menino que queria jogar bola na rua em dias de semana, mas que precisava dizer aos amigos que tinha tarefa para fazer. Era o menino que acordava chorando aos sábados, para estudar inglês, enquanto os outros dormiam.

Aos 7 anos Paula teve problemas de vista, mas seus pais não perceberam porque os filhos eram cinco, um com bronquite e outro com déficit de atenção. O mais velho era ressentido com o pai, que o abandonou no colo da mãe. Paula era matriculada ano após ano naquela escola de professores desmotivados, e passava de ano porque o ensino público brasileiro está proibido de reprovar. Às vezes os cinco faltavam às aulas para ficar na rua, porque a escola de tempo integral prometida não veio, e porque seus pais apenas passavam, aos seus descendentes, a criação que receberam de seus pais.

Paula foi ensinada, por pais ausentes e pelos Richards socialmente conscientes, que é preciso valorizar as peculiaridades de cada um, respeitar suas limitações, preservar seus sentimentos, muito mais do que perseguir uma nota maior em matemática. Paula aprendeu a tocar chimbau, dançar hip-hop, porque alguém a convenceu de que, mais do que resolver equações e treinar pronomes e advérbios, o importante é se auto afirmar. Mais do que o esforço para tirar mais de 7,5, é preciso comemorar um 7.

Sigamos com a métrica do preconceito. Ande pela periferia da sua cidade, e o que você vai ver são as Paulas de seis, quatro, às vezes três anos de idade, correndo só de calcinhas em ruas esburacadas, saltando sobre o esgoto que escorre diante das casas sem reboco. Ande pela periferia e conte em quantas dessas casas há uma churrasqueira acesa, um alto-falante ligado e garrafas de cerveja nas mesas. Conte quantos são os smartphones nas mãos dos meninos e meninas, que os usam para tirar fotos sensuais com paredes cor-de-rosa e colchões de espuma encardidos ao fundo. Ande pelas escolas públicas de ensino médio, conte quantas estão fazendo reforço, viradões, mutirões de estudos, preparação para vestibulares e exames.

As oportunidades que Paula não tem não são culpa de Richard. E as oportunidades que Richard tem não são obra do acaso. A bem da verdade, no país de hoje, Paulas e Richards não são muito diferentes nas preocupações com salário, dinheiro, família, despesas, inflação, remédios, doenças etc. Imaginar que felicidade e angústia são classes sociais é absurdo. Querer que Richard seja um boçal para facilitar o entendimento de uma história em quadrinhos é desonesto.

Mas atenção: se há culpados pelo destino das Paulas que vemos diariamente, não são as Paulas. Não acho que apenas o esforço delas pode mudar tudo, porque isso não é verdade. Escolas de tempo integral são disputadas a tapa pelos pais da periferia. Escolas de inglês, quadras de esporte, estúdios musicais e espaços artísticos seriam sucesso eterno, e isto é prova de que todos, todos querem acesso ao que é bom. O que não vale é, na impossibilidade de termos isso, culpar os Richards.

Há um sem-número de aspectos da vida de Richard e Paula a avaliar. Sua vida educacional é apenas um deles, mas é o que foi escolhido como tema da HQ.

Sim, há o Richard egoísta e arrogante. Mas há o Richard consciente, humilde, o Richard que, mesmo tendo tido pais generosos, professores realizados e chefes inspiradores, cresceu e consegue enxergar as dificuldades dos outros. Posso apostar que Toby Morris é um Richard, estudou em escola boa, teve pais apoiadores, e sua própria obra desmonta sua generalização, limitada e preconceituosa. Vi alguns Richards na internet, filhos de pais amorosos e alunos de professores felizes, repercutindo a HQ de Morris. Vocês são o argumento definitivo contra a generalização de Toby. Ele também, ainda que todos vocês prefiram achar que o problema está nos Richards.

É preciso se compreender que o momento em que Richard entra na faculdade não é um presente de Deus, uma oportunidade caída do céu, e sim o resultado de cada um dos sábados em que não jogou bola, de cada uma das festas que perdeu, de cada noite de sereno que sua mãe passou na fila da matrícula. Quando se fala em meritocracia, não se fala a partir do nascimento de Richard, mas do que veio antes. Começando pela luta de seus pais, pelo planejamento familiar, pelo foco na educação dos filhos, pela disciplina, pelo esforço. Meritocracia não vem de privilégio, e sim de cansaço pelo trabalho até às 22h, pelo choro da reprovação de um filho, pela ansiedade pelo resultado de uma prova. Que privilégio há em não dormir, em abrir mão de conforto para comprar os livros de um filho? Que privilégio há em não jogar bola todos os dias?

Ninguém é obrigado a estudar aos sábados, assim como ninguém está proibido de fazer churrasco às segundas. Mas o fato é que nosso mundo não é regido por julgamentos morais, e sim de resultados. Não está em discussão o caráter de Richard ou de Paula, nem as escolhas que seus pais fizeram. É a entrevista de emprego que vai mostrar, um dia, a importância daquela aula de reforço depois de um 7,5.

A confusão entre conquistas e privilégios causa a falsa sensação de que não há nada errado com o país e com suas prioridades, mas sim com o vizinho que conseguiu comprar uma casa, financiar um carro, um emprego bom. O Brasil se sabota há várias décadas, fazendo de conta que educa suas crianças, e no fim acaba culpando aquelas que saíram da linha de produção da mediocridade e do analfabetismo funcional. Investe na cultura da demonização de quem empreende noite e dia, de quem estuda noite e dia, de quem trabalha noite e dia, porque acha que país justo é aquele que premia tanto quem estudou aos sábados quanto quem fez churrasco às segundas.

Richards e Paulas concordariam que um mundo justo teria um terreno, um igarapé, um carrinho popular, uma geladeira cheia, quartos com brinquedos e empregos vitalícios para cada ser humano nascido. Este mundo, porém, ainda não foi inventado, e se for, provavelmente será por um Richard que estou muito. E como há Richards que se preocupam com os outros e querem melhorar o mundo, eu tenho fé.

Havia na porta dos banheiros de um cursinho pré-vestibular em São Paulo um cartaz que dizia “enquanto você mija, há um japonês estudando”. Quem o lia não saía às ruas denunciando o privilégio dos asiáticos no acesso às melhores universidades. A mensagem era clara: quem quisesse uma vaga precisava controlar melhor sua bexiga.

Este ainda é o nosso mundo, injusto e cruel. E para ele temos duas opções: ou preparamos nossos filhos para ser Richards, ensinando-os a enxergar os problemas das Paulas, ou deixamos que nossas Paulas sigam o mesmo caminho de todas, e depois fiquemos felizes porque um Richard de bom coração decidiu desenhar o drama delas.

Sim, há uma lição maior a todos nós. É a de que não são nem os Richards e nem as Paulas os que estragam nossas vidas. É a cultura de algumas sociedades, baseada no repúdio à justiça, na demonização do esforço, no preconceito, na mistificação do rico e do pobre, no julgamento do caráter alheio e na ingenuidade com que se encara o futuro dos nossos filhos.

Nota: Sou contra cotas raciais, mas sou a favor de cotas sociais no acesso à universidade pública no Brasil. E nelas, Paula estaria selecionada para ter as mesmas oportunidades que Richard, cursando a mesma faculdade que ele.

O Mito do Tracajá, de Platão

Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.
Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.

Alguém na minha lista de leitura encontrou uma motivação revolucionária em seus fios brancos de cabelo. Disse que havia neles a vontade de não se “comportar” como os outros, que, imagino eu, eram os fios pretos e conservadores. Meses atrás, num desses vídeos que fazem sucesso na internet, um tracajá ajudava outro, que estava de pernas para o ar, a se desvirar – e assim virava personagem de parábola sobre “gente que ainda consegue ver os problemas dos outros nesses tempos de ódio”.

O que a gente deduz sem muito esforço, nestes “tempos de ódio”, é que é possível ideologizar absolutamente tudo, do médico esfaqueado ao bobó de camarão, do cachorro abandonado à cor do cabelo, do rolezinho no shopping ao tipo de parto que a mulher escolhe para fazer.

Eu não acho ruim que cada geração crie sua própria agenda política. Pelo contrário, acho muito saudável a disposição de materializar suas posições sobre tudo no mundo. Desesperador seria ver jovens calados diante das injustiças, líderes estudantis quietos diante de professores mal pagos, jovens entrando na política para fazer política de velhos.

Desde ontem, o falso debate é o privilégio da elite branca paulista quando o assunto é estar a bordo, com a família inteira, de um avião cujos dois motores pararam de funcionar. Luciano Huck e Angélica, além dos três filhos, duas babás e dois pilotos, sobreviveram à queda de um avião. Pela explicação do próprio piloto, todos foram resgatados da aeronave, pediram ajuda e foram socorridos. A família dos apresentadores primeiro. O piloto ajudou o copiloto, ferido com mais gravidade, e ambos foram para a Santa Casa. Depois de receber sutura num corte na testa, o piloto foi liberado. Os apresentadores, com suspeitas de fratura na bacia e na vértebra, foram transferidos para o Albert Einstein, em São Paulo.

E então começou – ou eu só percebi ali – a chanchada do absurdo. Luciano, que seria um apresentador que se aproveita da pobreza das pessoas para ter audiência, conseguiu uma vaga no SUS para o piloto, enquanto ele ia ao melhor hospital do país. Todas as notícias davam conta de que todos a bordo, a classe trabalhadora (pilotos), as escravas (babás), os aristocratas (o casal) e seus herdeiros reais (os filhos) foram levados ao mesmo hospital, público. Seu Wilson, um agricultor que viu o pedido de socorro, não teve tempo de avaliar aquele imbróglio sociológico de luta de classes naquele momento. Em vez de correr para o Facebook para julgar a classe social de pessoas que precisavam de ajuda, acabou… ajudando.

Deu em toda a grande mídia (a pequena mídia estava ocupada chamando contribuintes insatisfeitos com a política econômica petista de “nazistas”) que Osmar Frattini, o piloto, saiu por último porque era o responsável pelo voo. E que depois fez sutura e saiu ele próprio carregando o frasco de soro que tomava. Não porque era o pobre abandonado à própria sorte pelo casal ricaço, mas porque não estava ferido, podia andar e ir para casa.

O que mais falta? Internar todos, mesmo aqueles sem ferimentos graves, juntos com Angélica, com suspeita de fratura, apenas para satisfazer a tara filosófica e tardia de gente da internet? É isso mesmo? Vamos criar cota para feridos em acidentes aéreos?

Se cabe aqui um apelo, é para que esse raio esquerdizador faça pausas maiores, dê um tempo ao bom senso. É preciso compreender que o cabelo revolucionário pode ser o branco, e o conservador, o cabelo preto. É preciso intuir que o tracajá de cabeça para baixo é o de esquerda, por não respeitar as convenções da sociedade, e que pode ter sido atrapalhado por um colega de direita, um tracajá coxinha que faz tudo certinho. É preciso compreender a história de vida do bobó de camarão, que um cachorro vira-lata pode ser fascista, que o sovaco com pelos descoloridos pode ser sinal de simpatia neonazista. Não há nada mais conservador do que a imagem que os revolucionários fazem de um conservador.

Tudo é parte de uma metáfora sarcástica da minha parte, claro, extremamente sem sentido. Mas convenhamos: quem começou foi quem instituiu cota até para quem vai se ferir num desastre de avião.

Enfim, um bom argumento para consumir propaganda

mockup_ganhenatelaPropagandas viram crédito de celular – Amazonenses desenvolvem aplicativo para ganhar créditos a partir de propagandas

Créditos para celular a partir da visualização de propagandas? Essa é a proposta do aplicativo ‘Ganhe na Tela’. Desenvolvido no Amazonas com a ajuda da FabriQ Aceleradora, o projeto foi idealizado para dar benefícios aos usuários e ajudar a potencializar os negócios das empresas.

Como funciona?

O usuário precisa baixar o aplicativo, inicialmente disponibilizado para o sistema Android, cadastrar o número de celular e o email. Após o processo, basta travar o celular e ao destravar os anúncios vão aparecer na tela por 5 segundos, basta clicar para resgatar os créditos.

De acordo com gerente de projeto do aplicativo, Daniel Goettenauer, um grupo de seis pessoas criaram o aplicativo para dar benefícios reais aos usuários. “O prazo de resgate é de 48 horas”.

Mais informações no Facebook  e na Google Play.

FabriQ Aceleradora

É um programa de aceleração que ajuda a fomentar o empreendedorismo no Norte do Brasil. O programa oferece treinamentos, mentores capacitados e infraestrutura para o processo de criação de empresas do setor.

Jaraqui Valley

Assim como o Vale do Silício, o Jaraqui Valley no Amazonas reúne startups para ajudar no processo da área de inovação.

Em Nova Iorque com a mamãe

Há horas em que, apenas a bem do exercício mental, a gente dá uma colher de chá e imagina que há verdadeira ingenuidade no que é somente cinismo em certos discursos. Do que falo? Outro dia vi um vídeo, indicado por alguém no Facebook, de um pedaço de entrevista do humorista Gregório Duvivier ao Jô Soares, no qual o rapaz explicava a vida de quem é de esquerda no Brasil. E ser de esquerda no Brasil, segundo quem é de esquerda no Brasil, parece ser o mesmo que ser gay no Irã. Parece o mesmo que ser cristão na Nigéria. O Duvivier dramatizava: “A gente fala presidenta, e o cara já grita ‘petralha’!”; “Eu tava almoçando no Leblon e o cara me mandou ir comer com os pobres no bandejão!”.

Eu leio o Duvivier e imagino Anne Frank chorando com o relato.

A dois dias da eleição em 2014, Duvivier traçava, em sua coluna na Folha, o perfil do eleitor oposicionista: rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Um amigo, Aécio ferrenho, disse que sonha com um Brasil em que ele possa ir pra Nova Iorque com o dólar um pra um”, escreveu. As urnas mostraram que metade do país era formada do que Gregório e tantos outros pintavam como rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Volta pra Cuba! Mas eu nem fui!”, brinca Gregório.

“Vai para Cuba!”, aliás, é talvez o slogan de toda uma geração de idiotas brasileiros. Pelo mau gosto, pela agressividade, pela pouca profundidade, pela ignorância e pela preguiça mental. Mas mais ainda porque o ser humano não gosta de seguir ordens. Muito menos de ter tirada a sua liberdade de escolha. Não deve haver muitas opções de destino no aeroporto de uma democracia como Cuba ou Coreia do Norte. Essa coisa de dar opção é capitalismo de mercado. Opções que o Brasil dá, que a França dá, que os EUA dão.

Outra porta-voz do mesmo tipo de pensamento, a deputada Jandira Feghali, do Partido Comunista, foi fotografada numa confortável poltrona da classe executiva de um voo da Air France para Paris. Ontem. O terceirizado Leonardo Sakamoto foi pego tomando café em Nova Iorque. Vi as fotos e, sinceramente, não vi nada demais. Fico feliz ao ver socialistas desfrutando dos benefícios do mercado. Infeliz eu ficaria ao ver capitalistas desfrutando dos trabalhos forçados em Pyong Yang.

Só que, sem grande surpresa, a galera cai de pau nesse tipo de coisa. A foto vira montagem, a piada vira meme, chegam as acusações de hipocrisia e os xingamentos baixos de praxe, pois baixeza é o sobrenome das redes sociais. E o que esta patota diz em sua defesa? É aonde entra o cinismo, porque é cínico ou é retardado mental – ou autista, diria outra comunista famosa – quem passa a vida ouvindo lé e entendendo cré. Até onde sei, Jandira ainda não se pronunciou, pois deve estar servindo sopa aos mendigos da Champs-Élysées. Sakamoto, uma coxinha branca de 110 quilos que se acha um acarajé apimentado da negra Bahia, disse que estava trabalhando contra o trabalho escravo. Duvivier, assumindo a defesa de todos numa frase feita, dizia que ser de esquerda não é fazer voto de pobreza. “Eu quero é que todo mundo seja rico!”, esclarecia. Jandira é profissional nisto há muitos anos. Gregório e Leonardo é que chegaram agora e querem sentar na janelinha. Da Air France, claro.

Acreditemos novamente que o problema aí é ingenuidade. Duvivier faz piada ruim atacando o PT para fingir que é neutro. Não sei para quê, não há qualquer problema em declarar preferência política, Gregório, não estamos em Caracas. Aliás, se vale um parêntese aqui, eis aí a receita mais eficaz para anular um ótimo humorista: torne-o militante político. Veja o vídeo acima e comprove. Não existe nada menos engraçado do que humor militante – e não sei se ocorreu com mais alguém, porque não assisto mais, mas a febre do canal Porta dos Fundos parece ter esfriado, não?

Eis o ponto. O problema não é o Sakamoto desfilar com um Macbook Pro, de uma marca conhecida pelas denúncias de trabalho escravo em sua cadeia de produção asiática. O problema não é o Duvivier almoçar no Leblon. O problema não é Jandira voar para Paris na classe executiva. O problema, senhores e senhoras, é que ao mesmo tempo vocês ataquem este meio de vida, e pior, ataquem quem o mantém de pé e se beneficia dele. O problema não é comer no prato de uma cafeteria em Manhattan, o problema é cuspir nele depois. Não é comer vitela em Paris, é ridicularizar outros que comem. O problema não é comer no Leblon, é comer no Leblon chamando seus vizinhos de fascistas, nas página de um jornal que chama de golpista.

Como essa aldeia global não é mais Macondo e as coisas já têm nome, a isto a humanidade convencionou chamar de hipocrisia. Porque as pessoas que vivem no Leblon, que viajam para Nova Iorque e para Paris (e eu sou um capitalista que nunca fiz nada disto) não estão cobrando voto de pobreza de vocês, e sim voto de coerência. O que elas querem não é que vocês sejam pobres, mas honestos. Afinal, se o modo de vida delas virou “fascista”, “coxinha”, “elitista”, “alienado”, por que vocês vivem este modo de vida? Afinal, que diferença moral há em duas pessoas que tomam café, almoçam ou viajam para onde quiserem, se for com o dinheiro do seu esforço? Por que, entre estas duas pessoas, há uma moralmente melhor, apenas porque ela discursa na tribuna, num blog ou no Youtube, contra quem viaja para Paris, contra quem mora no Leblon, contra quem toma café em Nova Iorque? É ou não, no mínimo injusto, que certas ocupantes da classe executiva da Air France possam falar mal de seus vizinhos de poltrona no Congresso, enquanto os vizinhos de poltrona não podem se defender?

A deficiência mental ou moral, num caso destes, é parte de um caráter coletivo. Às vezes leio mensagens de esquerdistas distantes muitos quilômetros dos outros, geográfica e virtualmente, e o discurso é desconcertantemente o mesmo: o Brasil vive uma crise de ódio dos ricos pelos pobres, dos brancos pelos negros, dos cristãos pelos umbandistas, de policiais por crianças, de motoristas por ciclistas etc. Eles não conseguem explicar que vírus foi este que atacou metade da nação. Só repetem a mesma mentira, atacam o mesmo passado, agridem as mesmas figuras, insistem nas mesmas versões.

O discurso de Duvivier, compartilhado por seus correligionários Brasil afora, portanto, é retardado ou cínico? Eu arrisco um palpite: é cínico. Porque Gregório sabe do que se trata. Mas sabe, a coisa é meio futebol, você pode ter visto que o atacante do teu time simulou um pênalti, mas ele é o teu time. Gregório sabe que as pessoas não se odeiam assim, no espaço de tempo entre março e outubro. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem, enfim, que as pessoas só cansaram de serem xingadas em blogs, em colunas, em discursos, em programas de tv, em artigos, sites e portais pagos com dinheiro público, principalmente no meio de uma crise econômica e de um escândalo de corrupção. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem disto tudo, mas são cínicos demais para ter a honestidade intelectual de fugir do caminho fácil da vitimização, quando, do alto de seus canais de comunicação de massa, estão muito mais para opressores do que para oprimidos.

Jandira Feghali pode continuar viajando de classe executiva para Paris. Duvivier pode continuar almoçando no Leblon. Sakamoto pode continuar tomando café na esquina do Metropolitan Museum. Nossos heróis esquerdistas brasileiros fazem isso há muitos anos, pois vieram de famílias estruturadas – que eles chamam de conservadoras –, e ninguém deu a mínima. Na verdade, ninguém dá a mínima. E esta é uma das coisas mais belas de uma economia democrática de mercado, como o Brasil, como os Estados Unidos ou como a França.

Em economias democráticas de mercado, cada um faz o que quiser, principalmente com o seu dinheiro, tenha sido ele ganho honestamente num contrato com a Folha, num mandato parlamentar comunista ou num contrato de prestação de serviços com a Presidência da República. Em economias democráticas, quem recebe salário do governo faz o que quiser com ele, da mesma forma que quem recebe salário de empresários.

Mas nas democracias essa liberdade é tão importante que serve também a quem encontra hipócritas na rua, fingindo-se perseguidos, ou no avião, fingindo-se do povo, ou num restaurante do Leblon, fingindo-se na Favela da Maré.

E vamos ser justos, depois que você abre o jornal mais importante do país e lê seu vizinho falando mal da vida que você e seus filhos levam, que é a mesma que ele leva, tirar umas fotos e fazer uns memes de internet com a cara dele é o mínimo de justiça que você pode buscar, né?