Machista? Lula? Desculpe, não vi.

Até ontem, qualquer referência ao corpo feminino, especialmente à genitália e as adjetivações sobre seu aspecto, tamanho, espessura e cor, era (porque é mesmo) uma violência torpe, herdada do machismo arraigado na cultura brasileira, de dominação de gênero e de raça.

Mas quem diria, “grelo duro” agora é elogio. Foi necessário, claro, um tanto de pesquisa antropológica, o que causou aquele silêncio inicial de dois dias após a veiculação dos grampos, mas o fato é que, na boca de Lula, “grelo duro” deixou de ser machismo chulo e virou ode à força feminina. Esse Lula é um divo mesmo. Quase ganhou uma hashtag #AgoraÉQueÉLula

Mas Lula foi além. Ao saber que o quarto de Clara Ant, sua funcionária no instituto, tinha sido invadido por 5 homens, Lula disse que Clara achou que aquilo era um “presente de Deus”.

Aí eu pensei: eita, agora o Lula se estrepou. Sugeriu que mulheres solteiras, porque solteiras, querem ter o quarto invadido por 5 homens, numa alusão velada ao estupro. De quebra, acha que elas devem agradecer pela violência, já que mulher solteira quer mesmo é sexo, melhor ainda se grupal, e melhor ainda se não consensual. Daqui a pouco vai ter textão no Facebook, campanha #EstuproNãoÉPresente, vídeo com a Camila Pitanga fazendo carão, memes com montagens de Lula demoníaco, boicote aos produtos Lula etc.

Em outra conversa, com Jaques Wagner, Lula diz que manifestantes tinham chamado Marta Suplicy, que saiu do PT, de “puta” e “vagabunda”. Ao que Wagner comemora: “É bom pra nega aprender”.

Aí eu pensei: eita, agora o Lula se fumou. Tem puta, tem vagabunda, tem nega na conversa. Vai ter vídeo no Youtube ensinando que Lula pode chamar Marta de incompetente ou de vira-casaca, que tudo bem, mas vagabunda, puta e nega, não! Vai ter #LulaFascista no Twitter, vai ter movimento “Je Suis Marta”, vai ter fogueira, vai ter Pato Fu, vai ter poema da Elisa Lucinda.

E o que aconteceu? Procuradas pela “grande mídia”, as blogueiras do “grelo duro” viraram Barbies compreensivas, do tipo que corre pra pôr a chinela do marido na soleira da porta ao ouvir o carro estacionar. Lola Aronovich viu machismo, mas não sabe explicar aonde. Daniela Lima ensinou que aquilo era um elogio às “mulheres fortes”, típico do nordeste. Maíra Liguori, da ONG Think Olga, disse que, naquela situação que inspira tantos textos na internet (a da mulher cercada por homens desconhecidos), uma mulher tem todo o direito de sentir desejo sexual.

A própria Clara Ant, vítima do mau gosto de Lula, defende o chefe. Diz que, ao longo de décadas de convívio, nunca foi desrespeitada, e que a piada se deu diante dela.

E é este o ponto. Sim, “grelo duro” sempre significou mulher forte, de fibra. Sim, mulher tem fantasia sexual, inclusive com um homem ou mais, inclusive com outra mulher ou mais. Quem se negava a aceitar isso eram as ativistas, e não Lula, nem Clara, nem Marta.

Vejam, o errado não é que as ativistas sejam sensatas antes de julgar Lula. Erradas elas estão quando julgam pessoas comuns, sem sensatez alguma. As ativistas não foram cobradas porque Lula estava certo e elas erradas, e sim por que o padrão atual de comportamento é o apedrejamento prévio. A reportagem da Folha tinha uma tese a testar, a de que a militância virtual feminista ia gaguejar quando o agressor fosse alguém de seu espectro ideológico. E a Folha acertou, pois provou que Lula tem um tratamento todo diferenciado, mesmo sendo só mais um machista.

A luta pela igualdade de gênero é causa das mais justas e imperiosas possíveis, e devia passar bem acima das guerras sujas da política, porque o machismo é cultural, mas não pode virar patrimônio tombado. Não, o machismo não é bom. Nem deve ser paisagem, que a gente vê e não quer mudar. Merece ser combatido e convidado a se retirar das relações sociais, de trabalho, dentro da coletividade, em casa. Nesse aspecto, que decepção ver tanta “mina” aguerrida defender o autor famoso de comentários que, na mesa de um Bar Quitandinha, certamente desencadeariam uma campanha colérica na internet pelo fechamento do local.

Mas não é Lula quem está errado. Não que o estilo com que conversa, inclusive com a mulher e os filhos, seja o mais delicado e educativo. É que Lula é somente gente. E é homem, e é brasileiro, sujeito a comentários e piadas sexistas, homofóbicas e racistas. Lula é gente, e oriundo do nordeste e de família pobre, tem consigo toda a carga cultural típica da região e da falta de tato causada pela pobreza. Ele próprio gosta de lembrar disso.

Desde o clássico vídeo em que chamava Pelotas (RS) de “cidade exportadora de viados”, passando pela confissão de que se aproveitava das viúvas dos companheiros mortos na época do sindicato, Lula vem provando quase diariamente que não é, nem de longe, credenciado para as lutas atuais das vítimas de racismo, machismo, homofobia e preconceito de gênero. Lula é só gente, e daquele tipo de gente cheia de preconceitos, incorreções políticas, falta de zelo e cuidado com o outro, insensibilidade e ignorância. Não à toa, sem perceber, a nação se identificou com ele, desde sempre, mais por seus defeitos do que por suas qualidades.

Não à toa Lula é um mito brasileiro.

E como mito, vai redesenhar os limites que andavam meio exageradamente curtos para a tolerância com o machismo. Se até ontem andava arriscado comentar a anatomia feminina em tom de elogio, agora é esperar para ver ‘minas’ na praia, sem biquíni, lançando a campanha “Vai ter grelo duro sim!”

Foi melhor assim. O Brasil precisava que Lula viesse ajudar as pessoas a calibrar sua raiva pré-fabricada. De alguma forma, Lula pode ter ajudado as ativistas a perceber que continuamos todos humanos, apesar – ou por causa – das bobagens que dizemos e fazemos.

Quando Lula falou que Clara Ant achou a invasão de 5 homens ao seu quarto um presente de Deus, ele não fez apologia ao estupro coletivo, à dominação de gênero, ao abuso de poder nem à truculência de um estado policialesco. Ele só fez uma piada de mau gosto – que aliás, é o melhor gosto para uma piada.

Talvez seja o caso de emprestarmos a Lula (sem botar nada no nome dele, por favor!) as piadas que não podemos mais fazer, ou os comentários preconceituosos que nossa cultura e nossas raízes brasileiras nos legaram. A gente acaba deslizando em pequenos machismos diariamente, sem perceber, e nunca é perdoado por eles. É a hora de Lula assumir o Ministério do Comentário Preconceituoso. Pra ninguém correr o risco de ser agredido, perder o emprego, ter a loja vandalizada nem o nome manchado na internet, todos mandariam suas piadas escrotas de WhatsApp e telefone para o Ministro Lula.

A apologia que se quer aqui não é a do machismo. É a do bom senso. As ativistas do radicalismo feminista estão aí provando que, com um pouco de boa vontade, dá até para ver elogio num “grelo duro”, dá até para ver liberdade sexual numa referência sarcástica ao estupro.

Tirando o meu sarcasmo, eu acho que Lula é preconceituoso como qualquer machão brasileiro. E tirando o meu sarcasmo, eu esperava que o ativismo de gênero falasse mais alto do que o ativismo político. E eu estava errado. E é uma decepção ver que a valentia do movimento tem limite político.

Deixemos o machismo para trás e lutemos por cada vez mais igualdade e justiça, mas tentemos perdoar mais como Lula é perdoado.

Compreender como Lula é compreendido.

Amar mais, como Lula é amado.

Polarização uma ova!

– O país está polarizado!
– O Fla x Flu político está acirrado!
– O Brasil está dividido!
Meu amigo, não existe divisão entre ladrão e vítima, agressor e agredido, Justiça e criminoso.
Marcelo Odebrecht foi condenado. Luis Estevão foi finalmente preso. Executivos de 4 empreiteiras foram presos. Lobistas, doleiros e diversas outras espécies de milionários foram presos. Deputados foram presos. Senadores foram presos.
Polarização tem que ter torcida, precisa de lados opostos. E não vejo, felizmente, ninguém saindo em defesa dos empreiteiros, dos executivos, dos lobistas, dos doleiros, dos deputados e dos senadores presos na Lava Jato. Eles não têm torcida a favor. Não existe “Odebrecht Bolado”, não existe blogueiro pró-Alberto Yussef, não existe militante virtual a favor de Nestor Cerveró.
Na verdade, a maior parte do país está se lixando para o Flu. Aécio Neves parece estar envolvido na Lava Jato também. Boa parte da oposição tem rabo preso, é da laia do Eduardo Cunha ou fica fazendo selfie com Felicianos e Malafaias.
À exceção dos poucos beócios que acham que se cura petismo ladrão com pastor evangélico ladrão, a grande massa brasileira gostaria de ver todos juntos, de mãos dadas, de preferência fora da vida pública para sempre.
Não há polarização, porque só há torcida de um lado. Torcida paga, aparelhada, uniformizada para cometer crimes, agredir pessoas nas ruas, invadir propriedade alheia, praticar terrorismo e, no fim do dia, receber 50 reais e um sanduíche, tudo custeado com dinheiro do imposto sindical, dinheiro dos trabalhadores que ainda não foram demitidos, e também dinheiro dos que já estão no programa Seguro Desemprego.
Ou seja, a mãe de família brasileira, demitida por causa da crise, não sabe, mas está pagando aquelas camisetas novinhas, vermelhas, que o MST usa para invadir, vandalizar e saquear prédios públicos e privados.
Não há polarização. Não há partida acontecendo. A eleição acabou há 16 meses. O Brasil não está querendo que Aécio assuma o poder. Na verdade, até a metade do país que votou em Aécio quer é que ele se exploda.
O Brasil não está dizendo qual facção deve assumir o poder.
O Brasil está dizendo qual facção deve sair do poder.
Entendeu?

Agonia Moral

O artigo de J. R. Guzzo, na edição de 2 de março da revista VEJA, é tão melancólico e brutalmente triste que parece o réquiem de uma biografia já fechada.

AGONIA MORAL

O EX-PRESIDENTE LULA perdeu a batalha mais importante de sua vida. Tem pela frente, ainda, um demorado tiroteio nas altas, médias e baixas cortes da Justiça Penal brasileira. Mas não tem mais esperanças de sobreviver a uma doença para a qual não existe cura conhecida: a destruição de sua força moral. Trata-se do conjunto de atributos que realmente separa os homens, e mesmo as nações, em matéria de sucesso ou fracasso, e ao qual se costuma dar o nome genérico de caráter. Sabe-se desde sempre o que entra nesse conjunto. Entram aí o valor da palavra dada, a reputação, o respeito aos outros e a si próprio, a capacidade de transmitir confiança. É a força que faz uma pessoa falar e ser naturalmente acreditada. É a coragem para assumir responsabilidades, enfrentar momentos adversos, não abandonar os amigos em dificuldade. É o exercício da honestidade e da integridade comuns.Em suma, é o que na linguagem do dia a dia se chama de “vergonha na cara” — ou honra pessoal. Muito mais que fama, força ou riqueza, é o que realmente faz a diferença. Fará toda a diferença para Lula.

Sua batalha está perdida porque ele perdeu o bem mais precioso que poderia ter — a força moral decisiva para tornar-se alguém que valha a pena como pessoa e como homem público.Hoje, vivendo acuado num prédio de escritórios do bairro paulistano do Ipiranga, com suas despesas pagas por magnatas, cercado não pela massa dos pobres que diz ter salvado, mas por negociantes de “marketing”, burocratas do PT, parasitas variados e uma armada de advogados que pouquíssimos brasileiros poderiam pagar, Lula está só. Do povo, nem sinal. O homem que tanto menosprezou os adversários falando de sua popularidade de 100% não pode ir a um campo de futebol — nem ao estádio do Corinthians, em Itaquera, cuja construção impôs para a Copa do Mundo de 2014, da qual não conseguiu assistir a um único jogo. Não pode ir jantar um frango com polenta em São Bernardo. Não pode ir a uma loja, comer um pastel de feira ou andar sem a proteção de um regimento de seguranças. Não pode ir ao infeliz sítio de Atibaia que tanto frequentou até faz pouco, e no qual empreiteiros amigos socaram uma fortuna em reformas — e muito menos a esse amaldiçoado tríplex do Guarujá.

Não pode, no fim das contas, sair à rua — e, como se fosse um castigo, não pode gastar livremente no seu próprio país os milhões de reais que ganhou fazendo palestras para construtoras de obras públicas e outros colossos da elite empresarial brasileira. Que líder de massas é esse? Aos 70 anos de idade, Lula veio acabar metido na situação contrária à que Guimarães Rosa descreve num conto particularmente genial de sua vasta coleção de contos geniais, o Burrinho Pedrês. Como se lembram os leitores da história, o modesto burrinho sabia uma coisa mais importante que todas as outras, para quem, como ele, tinha sido sorteado com uma vida difícil — jamais entrava em lugar algum de onde não soubesse como sair depois. O ex-presidente entrou com tudo. Agora precisa sair, mas não sabe onde está a saída. É certo que Lula não será ajudado, nessa procura por um caminho capaz de tirá-lo do buraco, por nenhuma das manobras que vem utilizando há trinta anos para dar a volta em seus problemas.

A causa verdadeira do colapso que vive hoje é o fato de ter entrado em estado de coma moral — e isso não se resolve chamando um gerente de propaganda para bolar comerciais de TV, da mesma forma que “imagem”, por mais esperteza que se empregue em sua criação, não substitui caráter. Também não adianta gastar dinheiro com advogados que passam o tempo armando chicanas processuais e outros truques destinados a impedir que se julgue o mérito real dos fatos alegados contra ele; isso pode funcionar como estratégia de fuga, mas não cria valores em cima dos quais se consiga construir uma reputação.

Não é possível sair do lugar em que o ex-presidente se enfiou distribuindo camisetas vermelhas, fretando ônibus e pagando diárias, sempre com dinheiro pública falida, quem pagou a cozinha Kitchens, quem mora de graça na casa de quem. Mais que qualquer outra coisa, ficou uma palavra-guia, a palavra que não pode mais calar na biografia de Lula: empreiteira, empreiteira, empreiteira. É aí, na hora da verdade, que ele encontrou de fato sua perdição.Nada destruiu tanto a autoridade moral de Lula quanto seu convívio com as empreiteiras de obras brasileiras, durante e depois de seus dois mandatos. Nunca antes, em toda a história do Brasil, houve um presidente da República com tantos e tão íntimos amigos entre os empreiteiros. Alguém é capaz de citar outro? Em apenas quatro anos, de 2011 a 2014, momento em que a casa começou enfim a cair, Lula recebeu 27 milhões de reais para fazer palestras encomendadas pelos gigantes da construção pesada no país.

Foi presenteado, também, com contribuições milionárias para sustentar as despesas do seu Instituto Lula — isso e mais viagens de jatinho, uma antena de celular a 100 metros do sítio que utiliza em Atibaia, e as obras de reforma nesse mesmo e malfadado sítio, que agora atormentam sua vida. Os presentes não vieram apenas das empreiteiras, certo, mas isso não melhora sua situação em nada — vieram de fontes mais sombrias ainda, como um consórcio de estaleiros que vivem de contratos com a Petrobras, o Banco BTG Pactuai, um “centro de estudos” de Angola. Através da francesa GDF Suez, há traços até da inesquecível Astra Oil, que vendeu à Petrobras o ferro-velho da refinaria americana de Pasadena, algo tão parecido com uma negociata em estado puro, mas tão parecido, que até hoje não foi possível descobrir a diferença.

Ganhar dinheiro fazendo palestras para essa gente está dentro da lei? Está. Está dentro da moral comum? Não está, e é aí que começa e acaba o problema. Um ex-presidente da República não pode, simplesmente não pode, aceitar dinheiro de empresas que dependem do Tesouro para sobreviver. É isso, e ponto final. Como seria possível confiar na imparcialidade, na palavra e na integridade de valores de alguém que anda em tais companhias, ainda mais quando se sabe da influência que exerce no governo que está aí? Lula recebeu dinheiro das empreiteiras porque foi presidente do Brasil por oito anos, e não por seus conhecimentos em matéria de viadutos, ferrovias e usinas hidrelétricas; ninguém lhe daria um tostão furado se tivesse sido apenas presidente de sindicato. Lula diz o tempo todo que só chegou ao comando da nação porque os pobres votaram nele. Mas não vê nenhum problema no ato de transformar em dinheiro vivo, agora, o apoio que recebeu dos humildes — a quem deve tudo, inclusive sua transformação em milionário.

O expresidente, de tempos em tempos, diz que tem o direito de ser rico. Tem, mas não tem. Não pode botar no bolso, sem se desmoralizar, 27 milhões de reais de empreiteiros — nem ser seu amigo íntimo, prestar-lhes serviços, permitir que lhe paguem despesas, aceitar que sejam sócios de um dos seus filhos e sabe-se lá ainda o que mais. Um homem público como ele não pode, nessas coisas, ser igual aos demais cidadãos. Tem de abrir mão de uma porção de confortos; é o preço a pagar para manter inteira a sua moral. Se achar injusto, bastará deixar a vida pública; ninguém é obrigado a ser presidente da República.

Lula acostumou-se a achar que tem direito a tudo, e não está sujeito a nada. Imaginou que pudesse ser o mais querido entre as empreiteiras — e que isso não iria lhe trazer problema algum. Achou que seus dois filhos pudessem ganhar milhões fazendo negócios com empresas que dependem do governo. Não viu nada de mais em meter-se com uma quadrilha que vendeu apartamentos na planta a bancários, roubou o dinheiro que recebeu deles e foi à falência sem entregar os prédios.

Com exceção, claro, de um ou outro que foi concluído por uma empreiteira, mais uma, e reservado aos amigos — entre eles o que abriga o tríplex do Guarujá. O que Lula, que nem bancário é, estava fazendo no meio dessa gente? As histórias vão adiante e adiante; o que apareceu escrito aqui está muito longe de ser tudo. Mas é o suficiente. Este é um combate que claramente chegou ao fim.

Linchamento do bem

fechaquitandinhaSaiu um vídeo do bar que estão querendo fechar à força, depois da acusação de conivência com um caso de assédio sobre duas clientes. É vídeo, né? Não sobra muito o que interpretar, mesmo sem o áudio. Como sou um libertário convicto, defendo que cada um procure saber o que houve antes de dar seu veredito. De preferência, que não haja veredito, porque hoje você usa uma hashtag #FechaQuitandinha, amanhã a vítima do linchamento pode ser você – e pior, por causa de uma acusação equivocada, talvez infundada, algumas vezes até falsa.
 
A coisa sempre vai muito bem no efeito manada do Facebook. Um textão seguido por milhares de likes, milhares de compartilhamentos… uma nota de esclarecimento mal feita, o visível despreparo dos estabelecimentos – essas entidades ainda preocupadas com velharias como fluxo de caixa, fornecedores, clientes, salários, contas a pagar, estoque etc. – quanto às novas ‘narrativas’ da internet e bum, você vai para casa sem saber se amanhã ainda tem seu bar, se seus funcionários ainda têm emprego, se vai conseguir pagar suas contas.
 
E segue a reciclagem bem maquiada da cultura perversa e medieval do linchamento. A procissão virtual contra a intolerância, de tocha na mão, inspeciona casas, perfis, piadas, estabelecimentos, escolas, adesivos de carros, à procura de larvas de preconceito e incorreção.
 
Não é o caso de opinar sobre o que leva alguém a abrir uma campanha pública pelo fim de uma empresa. Só nós sabemos a dor e a revolta sobre o que passamos na própria pele. Não está em questão aqui a justeza da revolta da autora do texto. Sim, parece evidente ali que, enquanto clientes de um bar, elas foram incomodadas por dois estranhos. E quem gosta de ser incomodado por estranhos num momento de lazer?
 
O que preocupa, num caso desses, como nos casos da Escola Base e da mulher linchada no Guarujá, é como um simples e analfabeto “É ela!!!”, gritado numa taberna da periferia, tem o mesmo efeito de um textão universitário, compartilhado em páginas engajadas da internet.
 
Não está certo se o bar errou ou não. O vídeo, além de mostrar que o texto-denúncia tinha erros grosseiros, não faz muito mais pela imagem do estabelecimento. E nestes casos, em que um bar com 25 anos de estrada é acusado de construir sua história protegendo agressores amigos e destratando mulheres agredidas, a ordem natural deveria ser simplesmente ir perdendo clientes, até morrer de inanição. Fechar as portas, virar passado. Se o tal Quitandinha realmente for um antro de machismo institucional, em que garçons, gerentes, sócios e até policiais agem em conluio para acobertar agressões às suas clientes, é melhor que vá perdendo seu nome, seus clientes, seu faturamento e, finalmente, que feche as portas. É justíssimo.
 
Mas abrir uma campanha “Fecha Quitandinha” na internet?!
 
Gente, a ilusão de que vocês seriam muito melhores do que os linchadores do Guarujá acabou.
 
Vocês só tem ensino universitário. Essa é a única diferença.
E no fim, ela não faz diferença alguma.

Apertando, puxando e prendendo em causa própria

Foto: Reprodução Último Segundo / Instagram

Apenas para me ajudar a entender a lógica da campanha pela descriminalização do porte de drogas no Brasil. O argumento é o de que o usuário de drogas não é criminoso, e portanto não pode ser tratado como tal. Deve, sim, receber tratamento médico contra sua dependência. Ocorre que as mesmas pessoas dizem ser contra o tráfico – afinal, quem pode ser a favor? A mágica então se daria, imagino, com cada viatura policial pesando as trouxinhas encontradas nas blitze. E seguindo o exemplo dos aeroportos, cada usuário teria uma “cota pessoal”. Acima daquele peso, a ‘bagagem excedente’ configuraria tráfico.

A causa tem apoio de todo mundo que é bacana. Mas não se engane, esse pessoal não está pensando nos trapos humanos das cracolândias. A ideia é apenas poder definir como foto de capa do Facebook uma imagem do autor com um cigarrinho na boca, de preferência em frente a uma estante de livros.

Nem é o caso de questionar como combater a boca de fumo que passará a trabalhar com 300 entregadores em vez de 5, cada um carregando apenas a quantidade permitida. Dez gramas no bolso de um estudante são caso de saúde, mas 10 gramas no bolso de 300 estudantes configuram tráfico. Ou não?

Mas a minha dúvida é ainda maior. Quando a polícia encontra fotos de crianças nuas no computador de um homem, ele é um doente solitário ou é chefe de uma rede de exploração sexual infantil? Calma, a ideia não é relacionar pedófilos e maconheiros, e sim testar um argumento à luz dos fatos. O de que a única diferença entre a escória da sociedade e artistas barbadinhos é a quantidade envolvida.

Ora, pedófilos solitários são presos porque geram demanda a um mercado criminoso. Um pedófilo não é um explorador infantil, é apenas o cliente dele. Mas como é um bicho mercantil, o ser humano consegue vender qualquer coisa pela qual haja alguém interessado. E há gente interessada em drogas, como há gente interessada em meninos de 6 anos só de cueca.

Particularmente, eu acho que um pedófilo é doente e merece tratamento, enquanto o maconheiro é só maconheiro. Outra coisa, aliás, que não entendo no discurso ‘maconhista’: se a maconha é inofensiva e não causa dependência, por que defendem que o usuário dela merece tratamento, e não cadeia?

Enquanto pedófilos (salvas as notórias e sórdidas exceções) se escondem no quartinho escuro de sua chaga biológica, mental e moral, maconheiros postam foto no Instagram, com hashtag e tudo, exigindo a descriminalização do porte de maconha. Pedófilos pegam cana braba, são estuprados na cadeia. Maconheiros viralizam na internet.

Minha proposta de regulamentação para o porte de maconha incluiria a obrigatoriedade de produção própria. Cada maconheiro do Instagram teria que plantar sua própria maconha, no pomar da casa de praia do papai no Guarujá ou na varanda do apartamento da mamãe no Leblon, e assim acabaria inibindo o tráfico. Da campanha pela descriminalização na internet, salvos os raros casos em que o maconheiro plantou sua própria erva, aposto que a grande maioria dos ‘maconhistas’ do Instagram comprou seu cigarrinho pronto. E se comprou, comprou de um traficante. Sou um libertário, e pra mim cada um faz o que quiser com seu corpo e sua mente, desde que produza a própria erva – seria até um programa bacana de agricultura familiar, não? Na campanha eleitoral apareceria o Duvivier numa enorme plantação livre de tóxicos, exibindo um maço de canabis como se fosse alface, ao som do jingle do João Santana…

É, para dizer o mínimo, estranho que vender droga seja crime, mas comprar, não. É como aprovar a caça de distribuidores de pornografia infantil, mas permitir que pedófilos continuem livres se tiverem até 15 fotos de crianças nuas em casa. Repito, estou apenas trabalhando com o argumento posto por seus autores. Pedófilos são muito mais nocivos à sociedade do que maconheiros. O problema é que ambos alimentam um mercado que, na outra ponta, é criminoso.

Os branquinhos do Instagram fingem não saber, mas as pessoas que vendem os cigarrinhos exibidos no Instagram são as mesmas pessoas que vendem as pedrinhas da Cracolândia. Nessa loja tem produto que ajuda a escrever roteiro de piadinha de Youtube, mas também tem produto que destroça famílias inteiras.

Isto não é matéria de opinião, e sim de lógica.

Falta um PT para articular um impeachment

Quando foi deposto do cargo em 1992, o que não é verdade porque renunciou antes disso, Collor não tinha contra si qualquer denúncia provada de corrupção ou favorecimento pessoal. Nem um recibo assinado, nem uma conversa grampeada. Tinha contra si, além da revolta pelo confisco da poupança da população, a arrogância messiânica que quase sempre precede desastres institucionais. Contra si tinha o país inteiro nas ruas, pintado de verde e amarelo, quando verde e amarelo eram apenas as cores do país, e não as cores do “fascismo”, insulto usado hoje até contra adversário de frescobol. Collor tinha, em resumo, a vontade de todos contra si. Foi derrubado não por um Fiat Elba nem por um motorista linguarudo, e sim pela perda das condições de governar. Havia ali Lulas e Brizolas, Afifs e Freires, todos unidos a Lindberghs e Eduardos, Fernandos e Aécios, ACMs, Bornhausens e até o Enéas.

Collor nunca foi condenado pelos crimes pelos quais caiu do poder. O STF o inocentou em abril do ano passado, por falta de provas. Mas Collor é, ainda hoje, uma das personificações da corrupção nacional. Assim quiseram todos os citados acima, encabeçados por Lula, que àquela época ainda não apelava para que se aguardasse os julgamentos antes de condenar alguém. Lula nunca aguardou. Pelo contrário, notabilizou-se pela violência com que chamou de ladrões um por um daqueles que viriam a ser seus aliados anos depois. Renan, Maluf, Collor, Sarney… No Youtube há mais vídeos de Lula articulando o impeachment de Collor, que o venceu nas urnas, do que petista preso hoje em dia.

E que nome se dá, hoje, a quem perde eleição e articula o impeachment de quem ganhou?

O impeachment é uma previsão constitucional, jovens. Serviu, um dia, para destituir do cargo o primeiro presidente democraticamente eleito depois de 20 anos de ditadura. Sem provas contundentes, sem condenação judicial, sem o “batom na cueca”. Dá para ser mais “golpista” do que tirar do cargo o primeiro presidente eleito por um povo finalmente livre de uma ditadura? Seja honesto e admita que, lá no distante 1992, você estaria de rostinho pintado na Paulista, sim, para depor um presidente eleito com 53% dos votos, contra 46% de Luís Inácio “Ele não tem mais condições de governar” da Silva. E você não acharia que isso era golpe.

Eu sou contra o impeachment da Dilma. Como era contra o do Collor. Portanto, não questiono os seus argumentos porque eles vão contra os meus. Eles só estão errados, nada mais. Eu entendo a situação dos governistas de hoje, sejam eles orgulhosos ou enrustidos. Se vale como consolo, defender-se das críticas da população é sina de todo governo. O PT só não abaixa a cabeça, como Collor, porque é arrogante demais. E nessa busca desesperada por um argumento, vale qualquer um. Um deles, o de que os manifestantes são burros porque, com a saída de Dilma, assume o corrupto PMDB. Ou o corrupto PSDB. No Twitter, um petista de São Paulo diz que o povo ataca o PT, mas quem lidera o ranking de acusados da Lava-jato é o PP, seguido do PMDB. Ora, meu jovem, ninguém se revolta contra PP e PMDB porque eles nunca enganaram ninguém. São exatamente aquilo que são, desde sempre. O PT enganou muita gente boa que eu conheço; não inventou a corrupção, só a transformou em método de governo e de perpetuação no poder.

Se um escândalo de 30 bilhões de reais, que vai se ramificando entre estatais, órgãos de controle, as maiores empresas do Brasil e os partidos que governam o país há mais de uma década é pouco para alguns, para outros é grave. Quem vai para a rua, e os repórteres captaram isto ontem, quase nunca está pensando no que vem depois de Dilma, caso ela caia. A verdade é que o povo está se lixando para Aécio Neves, que há poucos meses quase virou presidente. Assim como os milhares de cara-pintadas não eram petistas em 1992. Quem tirou Collor do poder não foi Lula nem Lindbergh Farias. Foi o povo, acompanhado por um Congresso Nacional tão ruim ou pior do que o atual, mas que sabia que, num clima geral de quase unanimidade contra um governante, quem vota contra o clamor das ruas é otário. E assim foi em 1992.

Não somos os únicos corruptos do mundo, claro. Somos apenas muito corruptos, e cínicos o suficiente para inventarmos desculpas para nossa corrupção. Até um sueco tem seu preço na tabela de valores de propina, claro, mas o brasileiro é do tipo que fura fila de drive-thru. Na China esse tipo toma tiro, no Japão se mata, na Arábia é decapitado, nos EUA é banido da vida política, na Europa cai em desgraça nas capas dos tabloides. No Brasil, esse tipo rouba, é flagrado roubando, é afastado, volta, é eleito novamente, vira presidente do Congresso, vira salvador da governabilidade. O brasileiro é o bandido perfeito porque faz implante capilar viajando em avião oficial e usa gado fantasma para explicar pensão de empreiteira paga para a amante. Esse tipo é corrupto até escovando os dentes.

O Brasil convive com a bandalheira há 500 anos, de forma ordeira e pacífica. O brasileiro não tem ódio de nada, nem de rico nem de pobre. Nem de branco nem de preto. Nem de crente nem de macumbeiro. Nem de machão nem de gay. Essa conversa de rico e pobre, branco e preto é pré-adolescência tardia de quem quer dar um sentido falsamente importante à própria biografia de coxinha – esta sim, daquelas com catupiry e farinha de rosca crocante. Conheço uns petistas que odeiam a Globo e praticamente narram a novela das nove no Facebook. Outros querem brincar de milico contra estudante, mesmo na democracia, basta ver o dizer “Anos rebeldes, novo capítulo” na faixa da foto acima. Devia ser de gente que odiava a Globo também. Adolescentes vêm e vão, e no Brasil a garotada, em vez de aprender a querer mudar o mundo, está aprendendo a odiar a Globo.

Todos sabem, mas o cinismo de uns acaba dando ares de profetas aos poucos que dizem ter sabido desde o início: você quer finalmente revoltar um brasileiro, mexa no bolso dele. Como Collor em 1990. Como Dilma em 2015. Tempere este angu com recessão de um lado e gastança do outro, como Collor em 1992, passeando de jet-ski enquanto o dinheiro das pessoas era confiscado nos bancos. Ou como Dilma em 2015, passeando de limusine (e sem pagar!) nos EUA, enquanto todas as grandes montadoras demitem ou dão férias coletivas no Brasil.

É profundamente cínico ou abissalmente burro quem ignora o efeito de uma eleição acirrada, em que o lado vencedor vence mentindo, para seis meses depois mergulhar o país numa recessão com impostos aumentando, desemprego aumentando, inflação aumentando, crescimento negativo etc. Sério que você acha que, neste Flamengo e Vasco, depois de ganhar aos 49 do segundo tempo com um gol de mão, os derrotados vascaínos devam dar as mãos aos flamenguistas para salvar o futebol brasileiro?

Se as três enormes manifestações de 2015, contra Dilma e o PT, são coisa de quem odeia pobre e preto, porque estes milhões de neonazistas brasileiros esperaram 13 anos para ir às ruas? Aprendam uma coisa: à exceção torpe e clássica dos piores tipos de ser humano, que pingam aqui e ali, ora defendendo ditadura de direita, ora defendendo luta armada de esquerda, a imensa maioria está realmente de saco cheio. E só isso. Assim como você não é terrorista por defender playboy que quebra vidraça de agência bancária, não é nazista quem vai a um protesto de milhões no qual há um punhado de lunáticos.

A maioria está de saco cheio de gambiarra socialmente simpática. De discursinho engomado de professor banana, que é banana, mas defende governo de ladrões porque teve gente que saiu da pobreza durante o assalto. De gente que diz que havia corrupção antes. Aí eu pergunto: era mesmo necessário fazer doutorado para dizer “ele rouba, mas faz”, igual a qualquer miserável que assina documento com o polegar sujo de tinta? O saco cheio é de gente que nem percebe a própria incoerência, dizendo que sabe que este governo não presta, mas é melhor do que o que entraria no lugar. Entenda, seu problema não é odiar o PSDB, porque isso qualquer panaca faz. O seu problema é defender mulheres que dizem “ele me bate toda noite, mas é um ótimo pai e paga as contas”. A gente até tenta buscar uma metáfora mais sutil, mas vê essa gente de camisa Lacoste, tão gorda de churrasco de sindicato que mal lhe cabe o boné vermelho da CUT no ato pró-luta armada no Planalto, e só lembra de quem passa vergonha, é humilhado e precisa enganar a si próprio para defender uma utopia que não existe mais. O petista é aquela mulher cujo marido não vale nada, mas que adora olhar para a vida da vizinha.

Eu não fui às ruas contra Collor, contra Lula nem contra Dilma. Porque se há gente que protesta dançando axé, há gente que protesta escrevendo. E se há gente que gosta de consertar burrada mexendo em resultado de eleição, há gente que valoriza mais o aprendizado das urnas. Eu acho que o Brasil, inclusive os vascaínos que perderam a partida aos 49 do segundo tempo com um gol flamenguista de mão, merece Dilma até o fim. A gente precisa valorizar mais as regras postas, senão viramos uma republiqueta na qual manda quem grita mais.

Hoje Dilma é somente a face menos odiada do PT. O asco do país é com a sigla, e não com ela que, coitada, só vai entender o que lhe ocorreu depois que voltar pra casa, espero que em janeiro de 2019. O ranço nunca foi com pobre, com preto, com índio, com nordestino, porque durante uma década muita gente entrou no mercado consumidor, no avião, no carro, no computador, na tevê a cabo. E se você acredita que tem gente com raiva porque os pobres agora podem comprar uma geladeira, ou você é um professor banana ou um dia será. Porque o galo cantou e você não sabe aonde foi.

Se não é o seu caso, liberte-se. Estou convencido de que essa gente que protesta domingo, com a família toda, não nasceu para isso. E é por isto que a coisa não pega. Para tocar fogo no país e derrubar um governo, é preciso mais do que revoltados online, é preciso revoltados reais, de preferência profissionais. E estes são os petistas do passado. Gente que hoje vive amuada, sem uma meta para dobrar na vida, sem um santo padroeiro para quem rezar. Gente que um dia sonhou com um país mais justo e democrático, e hoje precisa se contentar em chamar o Aécio de playboy. Essa gente precisa de uma causa de verdade.

Então que tal combater a corrupção, a inflação, a recessão e o desemprego, exatamente como 23 anos atrás?

Corrupção, inflação, recessão e desemprego não andam faltando.

Mais um feliz infectado pelo vírus do mérito

Sei que já escrevi demais sobre isto ontem e que, nestes tempos de diversidade, pluralismo e modernidade, textos com mais de 500 toques viram “textão”, falar ou escrever demais é pecado, mas vale o registro. Um garoto daquela famosa escola do CQC venceu a olimpíada de matemática. Vai ser premiado no Rio de Janeiro. Juro que me forcei a procurar um aspecto negativo no fato, mas admito que achei muito legal. Afinal, mais um garoto entra no círculo virtuoso do aprendizado e do mérito. A gente vê esse tipo de foto, de garotos orgulhosos diante de estantes de livros desde sempre, e sempre achou que ali estava um sinal de avanço da humanidade. Era olhar para aquilo e pensar: a) Aos 15 anos: “Nossa, eu quero ser um discípulo de John Keating em Sociedade dos Poetas Mortos”. b) Aos 25 anos: “Vou destruir tudo e escrever um best-seller!” e c) Aos 40 anos: “Gente, parem de confundir r com acento agudo!”.

Todas as escolas, da mais chique à mais pobre, sempre formaram traficantes, corruptos, estelionatários e assassinos. Felizmente (para quem é ideólogo) ou infelizmente (para quem é só humano), o crime não tem classe nem faixa de renda – no máximo muda de nome a depender delas. Para quem é adolescente, fisiológico ou mental, isso é coisa boa. Não estou acostumado a discutir fatos, e sim opiniões. E o fato é que, levada em consideração a história do Ida Nelson, do La Salle, do Dinâmico, do Einstein, do Dom Bosco, da ETFAM, do Militar, do Auxialiadora, do Doroteia, do Christus e do Latu Sensu, apenas para ficarmos nas principais escolas particulares da minha época, formamos na década de 80 e 90 alguns dos piores e melhores espécimes humanos do circuito local. Arrisco dizer que escola não define caráter mais do que família, mas vá lá. Dito assim, sabemos que a escola não é mais definidora das pessoas do que o ambiente em que elas moram. Mas o fato é que muito bandido saiu das mesmas escolas de onde saíram alguns dos melhores profissionais da nossa cidade.

Combinamos nisto? Ok. Meu argumento, portanto, é que traficantes saem de qualquer lugar, porque o crime não depende somente de escolaridade, de “chance na vida”, de valorização do poder público ou privado.

No caso da escola de pobres que começaram a vencer olimpíadas de matemática, e não somente de hip hop, fico extremamente feliz. E digo o porquê. Porque cansei de ler notícia sobre quão violenta é a comunidade tal ou qual. Porque sempre acreditei que, mais do que personagens de uma luta de classes falsa, sempre houve gente da melhor qualidade em qualquer lugar, e não somente na elite ou na periferia. Essas pessoas, alheias a ideologias reprovadas eleitoralmente, reprovadas pela história e pelas urnas até hoje, querem apenas viver e ser felizes. Não querem tutores ideológicos.

Todas as escolas do mundo, da West Point americana (com suas glórias e seus abusos) à mais reles escola primária amazonense, formaram engenheiros, arquitetos, advogados, médicos e escroques, traficantes e ladrões.

O que difere o nosso (e estou sendo elegante com este “nosso”) velho discurso coxinha de sempre e a realidade destes garotos é simples. Todas as escolas sempre conviveram com a elite e com a ralé de qualquer sociedade. O que a escola Waldocke Fricke de Lyra decidiu fazer foi parar de formar apenas um destes lados. E é isto, arrisco dizer, o que tanto incomoda certos gurus do pensamento coxinha: nas periferias do Brasil, tem gente que cansou de bater lata. Tem menino da periferia que quer resolver teoremas matemáticos, e não somente aprender rap. E melhor ainda: ninguém precisou trocar os alunos; os ótimos alunos estavam apenas escondidos sob o manto do medo da violência, do tráfico, da mediocridade. Você tira o que atrapalha o ensino, e os ótimos alunos aparecem.

Um dos efeitos mais belos da cultura da educação é este: para o ódio dos que buscam na mediocridade e no pobrismo apenas uma forma de dormir mais tranquilos, as pessoas querem apenas melhorar de vida. Sob este ponto de vista, não existe nada mais conservador do que pensar que pobre é pobre, burro é burro, elite é elite, rico é rico.

Os resultados que a educação mais simples e básica começam a mostrar no Amazonas desmoralizam as teorias de quem acha que pobre tem dono.

Ninguém tem dono. Principalmente quem vence olimpíada de matemática.

Boa noite.

http://new.d24am.com/noticias/amazonas/aluno-escola-policia-militar-conquista-ouro-olimpiada-matematica/137113