Richard e Paula

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Se há um aspecto que transcende a discussão sobre o furor argumentativo na internet, é a legitimidade do senso, da noção de que, na tarefa de explicar a alma humana e suas angústias existenciais, a complexidade é muito bem-vinda. Não existe algo com o que eu concorde mais do que tratar histórias individuais como individuais. Por isso a explosão de movimentos, de agendas de minorias, de grupos organizados, de multidões de 20, 30 pessoas. O que a sociedade quer é tão esfarelado quanto a quantidade de informação a que essa sociedade tem acesso. Não há mais lados, posições, agrupamentos. É cada um por si, e sim, essa expressão pode significar algo bom. Digo isto há muitos anos: grandes multidões são formadas por milhares de histórias individuais, e por isso sempre defendi que cada um faça a sua história. No curso da história, histórias pessoais se cruzam em afinidades, em argumentos e discursos, em desejos e em demandas. É fácil desmontar ideias artificialmente coletivas, mas é impossível impedir que milhares de indivíduos criativos, produtivos e conscientes façam certas revoluções.

Toda essa digressão é apenas para lamentar o discurso de tantas pessoas que, à medida em que acertadamente reconhecem a complexidade da natureza humana, caem de forma fácil na armadilha da “coisificação” (para usar um termo querido por tantos) do outro, na construção de um caráter para o outro, na transformação, do outro, naquilo em que se quer bater, porque é fácil bater no que conhecemos.

Mas e quando o outro não é aquilo em que se quer bater? E quando ele está dizendo algo que, por estar falando mais alto do que ele, você não percebeu que é diferente do que você esperava? Stephen Covey disse que a maioria das pessoas não está interessada em ouvir para entender. A maioria das pessoas está interessada em ouvir para responder.

Li uma história em quadrinhos do cartunista Toby Morris sobre as oportunidades que algumas pessoas têm e que outras, não. A história mostra Richard, um garoto que tem brinquedos, pais que o ajudam na lição e comida na geladeira. E Paula, que tem a casa “cheia de gente”, que não convive com os pais e que estuda numa escola que não valoriza professores nem alunos. A ideia do pequeno roteiro é mostrar que Richard foi escolhido, por um ser superior, para ter brinquedos, pais presentes e comida na geladeira. E que Paula, por alguma falha na conjunção dos astros no céu, ficou de fora deste clube de privilégios.

É claro que, em tempos tão sem tempo, convém à Agência Reguladora das Virtudes desenhar para que o outro, que sempre é menos inteligente e mais malvado, possa entender o que se quer dizer. E o quadrinho quer dizer que algumas pessoas foram escolhidas, outras não. E que por isto fica justificada a existência de cotas raciais na faculdade – nem falemos aqui de cota em concurso público e na vida política.

Mas há detalhes que não entraram no desenho de Morris: não se trata de oportunidades, mas da percepção que temos do que é oportunidade.

Não há um jeito melhor de explicar como funciona esse “paraíso das oportunidades” quando podemos falar do que vivemos, certo? Afinal, este é um recurso discursivo muito utilizado por quem exige direitos desrespeitados pela maioria: falar de nossa própria experiência, contar o que passamos, como vivemos.

Há centenas, talvez milhares de fatores que expliquem por que Richard vive numa casa seca, e Paula numa casa úmida. E por que Richard tem livros, e Paula não. E por que Richard tem o que comer, e Paula não. Esses fatores não entraram na história, são quadrinhos que deveriam ter sido desenhados antes do nascimento de Richard, antes do nascimento de Paula. A história começou na consequência, e não na causa. Ninguém vem ao mundo de uma casca de noz, há sempre um passado.

É preciso lembrar, a vida é muito mais complexa do que desejamos. Mas se a proposta é a de simplificar para se fazer entender, apelemos ao mesmo artifício – a generalização – que Toby usou. Afinal, está claro, para ele Richard foi beneficiado pelos astros, beneficiado por pais generosos e que não adoecem, beneficiado por professores, beneficiado por chefes, beneficiado por gerentes de banco e até por colegas de trabalho. O veredito está pronto: um menino destes, que teve brinquedos, comeu e estudou vai fatalmente virar um profissional mesquinho, insensível, arrogante e ignorante sobre a existência de Paula.

Já Paula, na generalização do autor, é a menina esforçada, mas que foi esquecida pelas forças do cosmos. Teve vários irmãos, que também nasceram do nada, por pura providência divina; é filha de pais trabalhadores, mas que adoecem. É aluna de professores desmotivados e empregada de patrões exploradores. A história e os personagens desenhados por Morris são irreais? Claro que não. Mas são apenas o instantâneo que ele pinçou para provar um argumento, o dele.

Senão, vejamos como outros argumentos são tão verossímeis quanto. Minha generalização é um pouco diferente. Richard nasceu numa família comum, endividada e com gente que também adoecia. Perdeu o pai – que também adoecia – aos três anos, foi criado pela avó junto com dois outros irmãos, enquanto a mãe fazia três turnos na escola pública do bairro. Enquanto outras mães dormiam, ela passava a noite na calçada, esperando para matricular os filhos no inglês a um preço que podia pagar. Pagou a escola deles com a ajuda de amigos e vizinhos, perdeu o crescimento deles. Richard era o menino que queria jogar bola na rua em dias de semana, mas que precisava dizer aos amigos que tinha tarefa para fazer. Era o menino que acordava chorando aos sábados, para estudar inglês, enquanto os outros dormiam.

Aos 7 anos Paula teve problemas de vista, mas seus pais não perceberam porque os filhos eram cinco, um com bronquite e outro com déficit de atenção. O mais velho era ressentido com o pai, que o abandonou no colo da mãe. Paula era matriculada ano após ano naquela escola de professores desmotivados, e passava de ano porque o ensino público brasileiro está proibido de reprovar. Às vezes os cinco faltavam às aulas para ficar na rua, porque a escola de tempo integral prometida não veio, e porque seus pais apenas passavam, aos seus descendentes, a criação que receberam de seus pais.

Paula foi ensinada, por pais ausentes e pelos Richards socialmente conscientes, que é preciso valorizar as peculiaridades de cada um, respeitar suas limitações, preservar seus sentimentos, muito mais do que perseguir uma nota maior em matemática. Paula aprendeu a tocar chimbau, dançar hip-hop, porque alguém a convenceu de que, mais do que resolver equações e treinar pronomes e advérbios, o importante é se auto afirmar. Mais do que o esforço para tirar mais de 7,5, é preciso comemorar um 7.

Sigamos com a métrica do preconceito. Ande pela periferia da sua cidade, e o que você vai ver são as Paulas de seis, quatro, às vezes três anos de idade, correndo só de calcinhas em ruas esburacadas, saltando sobre o esgoto que escorre diante das casas sem reboco. Ande pela periferia e conte em quantas dessas casas há uma churrasqueira acesa, um alto-falante ligado e garrafas de cerveja nas mesas. Conte quantos são os smartphones nas mãos dos meninos e meninas, que os usam para tirar fotos sensuais com paredes cor-de-rosa e colchões de espuma encardidos ao fundo. Ande pelas escolas públicas de ensino médio, conte quantas estão fazendo reforço, viradões, mutirões de estudos, preparação para vestibulares e exames.

As oportunidades que Paula não tem não são culpa de Richard. E as oportunidades que Richard tem não são obra do acaso. A bem da verdade, no país de hoje, Paulas e Richards não são muito diferentes nas preocupações com salário, dinheiro, família, despesas, inflação, remédios, doenças etc. Imaginar que felicidade e angústia são classes sociais é absurdo. Querer que Richard seja um boçal para facilitar o entendimento de uma história em quadrinhos é desonesto.

Mas atenção: se há culpados pelo destino das Paulas que vemos diariamente, não são as Paulas. Não acho que apenas o esforço delas pode mudar tudo, porque isso não é verdade. Escolas de tempo integral são disputadas a tapa pelos pais da periferia. Escolas de inglês, quadras de esporte, estúdios musicais e espaços artísticos seriam sucesso eterno, e isto é prova de que todos, todos querem acesso ao que é bom. O que não vale é, na impossibilidade de termos isso, culpar os Richards.

Há um sem-número de aspectos da vida de Richard e Paula a avaliar. Sua vida educacional é apenas um deles, mas é o que foi escolhido como tema da HQ.

Sim, há o Richard egoísta e arrogante. Mas há o Richard consciente, humilde, o Richard que, mesmo tendo tido pais generosos, professores realizados e chefes inspiradores, cresceu e consegue enxergar as dificuldades dos outros. Posso apostar que Toby Morris é um Richard, estudou em escola boa, teve pais apoiadores, e sua própria obra desmonta sua generalização, limitada e preconceituosa. Vi alguns Richards na internet, filhos de pais amorosos e alunos de professores felizes, repercutindo a HQ de Morris. Vocês são o argumento definitivo contra a generalização de Toby. Ele também, ainda que todos vocês prefiram achar que o problema está nos Richards.

É preciso se compreender que o momento em que Richard entra na faculdade não é um presente de Deus, uma oportunidade caída do céu, e sim o resultado de cada um dos sábados em que não jogou bola, de cada uma das festas que perdeu, de cada noite de sereno que sua mãe passou na fila da matrícula. Quando se fala em meritocracia, não se fala a partir do nascimento de Richard, mas do que veio antes. Começando pela luta de seus pais, pelo planejamento familiar, pelo foco na educação dos filhos, pela disciplina, pelo esforço. Meritocracia não vem de privilégio, e sim de cansaço pelo trabalho até às 22h, pelo choro da reprovação de um filho, pela ansiedade pelo resultado de uma prova. Que privilégio há em não dormir, em abrir mão de conforto para comprar os livros de um filho? Que privilégio há em não jogar bola todos os dias?

Ninguém é obrigado a estudar aos sábados, assim como ninguém está proibido de fazer churrasco às segundas. Mas o fato é que nosso mundo não é regido por julgamentos morais, e sim de resultados. Não está em discussão o caráter de Richard ou de Paula, nem as escolhas que seus pais fizeram. É a entrevista de emprego que vai mostrar, um dia, a importância daquela aula de reforço depois de um 7,5.

A confusão entre conquistas e privilégios causa a falsa sensação de que não há nada errado com o país e com suas prioridades, mas sim com o vizinho que conseguiu comprar uma casa, financiar um carro, um emprego bom. O Brasil se sabota há várias décadas, fazendo de conta que educa suas crianças, e no fim acaba culpando aquelas que saíram da linha de produção da mediocridade e do analfabetismo funcional. Investe na cultura da demonização de quem empreende noite e dia, de quem estuda noite e dia, de quem trabalha noite e dia, porque acha que país justo é aquele que premia tanto quem estudou aos sábados quanto quem fez churrasco às segundas.

Richards e Paulas concordariam que um mundo justo teria um terreno, um igarapé, um carrinho popular, uma geladeira cheia, quartos com brinquedos e empregos vitalícios para cada ser humano nascido. Este mundo, porém, ainda não foi inventado, e se for, provavelmente será por um Richard que estou muito. E como há Richards que se preocupam com os outros e querem melhorar o mundo, eu tenho fé.

Havia na porta dos banheiros de um cursinho pré-vestibular em São Paulo um cartaz que dizia “enquanto você mija, há um japonês estudando”. Quem o lia não saía às ruas denunciando o privilégio dos asiáticos no acesso às melhores universidades. A mensagem era clara: quem quisesse uma vaga precisava controlar melhor sua bexiga.

Este ainda é o nosso mundo, injusto e cruel. E para ele temos duas opções: ou preparamos nossos filhos para ser Richards, ensinando-os a enxergar os problemas das Paulas, ou deixamos que nossas Paulas sigam o mesmo caminho de todas, e depois fiquemos felizes porque um Richard de bom coração decidiu desenhar o drama delas.

Sim, há uma lição maior a todos nós. É a de que não são nem os Richards e nem as Paulas os que estragam nossas vidas. É a cultura de algumas sociedades, baseada no repúdio à justiça, na demonização do esforço, no preconceito, na mistificação do rico e do pobre, no julgamento do caráter alheio e na ingenuidade com que se encara o futuro dos nossos filhos.

Nota: Sou contra cotas raciais, mas sou a favor de cotas sociais no acesso à universidade pública no Brasil. E nelas, Paula estaria selecionada para ter as mesmas oportunidades que Richard, cursando a mesma faculdade que ele.

O Mito do Tracajá, de Platão

Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.
Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.

Alguém na minha lista de leitura encontrou uma motivação revolucionária em seus fios brancos de cabelo. Disse que havia neles a vontade de não se “comportar” como os outros, que, imagino eu, eram os fios pretos e conservadores. Meses atrás, num desses vídeos que fazem sucesso na internet, um tracajá ajudava outro, que estava de pernas para o ar, a se desvirar – e assim virava personagem de parábola sobre “gente que ainda consegue ver os problemas dos outros nesses tempos de ódio”.

O que a gente deduz sem muito esforço, nestes “tempos de ódio”, é que é possível ideologizar absolutamente tudo, do médico esfaqueado ao bobó de camarão, do cachorro abandonado à cor do cabelo, do rolezinho no shopping ao tipo de parto que a mulher escolhe para fazer.

Eu não acho ruim que cada geração crie sua própria agenda política. Pelo contrário, acho muito saudável a disposição de materializar suas posições sobre tudo no mundo. Desesperador seria ver jovens calados diante das injustiças, líderes estudantis quietos diante de professores mal pagos, jovens entrando na política para fazer política de velhos.

Desde ontem, o falso debate é o privilégio da elite branca paulista quando o assunto é estar a bordo, com a família inteira, de um avião cujos dois motores pararam de funcionar. Luciano Huck e Angélica, além dos três filhos, duas babás e dois pilotos, sobreviveram à queda de um avião. Pela explicação do próprio piloto, todos foram resgatados da aeronave, pediram ajuda e foram socorridos. A família dos apresentadores primeiro. O piloto ajudou o copiloto, ferido com mais gravidade, e ambos foram para a Santa Casa. Depois de receber sutura num corte na testa, o piloto foi liberado. Os apresentadores, com suspeitas de fratura na bacia e na vértebra, foram transferidos para o Albert Einstein, em São Paulo.

E então começou – ou eu só percebi ali – a chanchada do absurdo. Luciano, que seria um apresentador que se aproveita da pobreza das pessoas para ter audiência, conseguiu uma vaga no SUS para o piloto, enquanto ele ia ao melhor hospital do país. Todas as notícias davam conta de que todos a bordo, a classe trabalhadora (pilotos), as escravas (babás), os aristocratas (o casal) e seus herdeiros reais (os filhos) foram levados ao mesmo hospital, público. Seu Wilson, um agricultor que viu o pedido de socorro, não teve tempo de avaliar aquele imbróglio sociológico de luta de classes naquele momento. Em vez de correr para o Facebook para julgar a classe social de pessoas que precisavam de ajuda, acabou… ajudando.

Deu em toda a grande mídia (a pequena mídia estava ocupada chamando contribuintes insatisfeitos com a política econômica petista de “nazistas”) que Osmar Frattini, o piloto, saiu por último porque era o responsável pelo voo. E que depois fez sutura e saiu ele próprio carregando o frasco de soro que tomava. Não porque era o pobre abandonado à própria sorte pelo casal ricaço, mas porque não estava ferido, podia andar e ir para casa.

O que mais falta? Internar todos, mesmo aqueles sem ferimentos graves, juntos com Angélica, com suspeita de fratura, apenas para satisfazer a tara filosófica e tardia de gente da internet? É isso mesmo? Vamos criar cota para feridos em acidentes aéreos?

Se cabe aqui um apelo, é para que esse raio esquerdizador faça pausas maiores, dê um tempo ao bom senso. É preciso compreender que o cabelo revolucionário pode ser o branco, e o conservador, o cabelo preto. É preciso intuir que o tracajá de cabeça para baixo é o de esquerda, por não respeitar as convenções da sociedade, e que pode ter sido atrapalhado por um colega de direita, um tracajá coxinha que faz tudo certinho. É preciso compreender a história de vida do bobó de camarão, que um cachorro vira-lata pode ser fascista, que o sovaco com pelos descoloridos pode ser sinal de simpatia neonazista. Não há nada mais conservador do que a imagem que os revolucionários fazem de um conservador.

Tudo é parte de uma metáfora sarcástica da minha parte, claro, extremamente sem sentido. Mas convenhamos: quem começou foi quem instituiu cota até para quem vai se ferir num desastre de avião.

Enfim, um bom argumento para consumir propaganda

mockup_ganhenatelaPropagandas viram crédito de celular – Amazonenses desenvolvem aplicativo para ganhar créditos a partir de propagandas

Créditos para celular a partir da visualização de propagandas? Essa é a proposta do aplicativo ‘Ganhe na Tela’. Desenvolvido no Amazonas com a ajuda da FabriQ Aceleradora, o projeto foi idealizado para dar benefícios aos usuários e ajudar a potencializar os negócios das empresas.

Como funciona?

O usuário precisa baixar o aplicativo, inicialmente disponibilizado para o sistema Android, cadastrar o número de celular e o email. Após o processo, basta travar o celular e ao destravar os anúncios vão aparecer na tela por 5 segundos, basta clicar para resgatar os créditos.

De acordo com gerente de projeto do aplicativo, Daniel Goettenauer, um grupo de seis pessoas criaram o aplicativo para dar benefícios reais aos usuários. “O prazo de resgate é de 48 horas”.

Mais informações no Facebook  e na Google Play.

FabriQ Aceleradora

É um programa de aceleração que ajuda a fomentar o empreendedorismo no Norte do Brasil. O programa oferece treinamentos, mentores capacitados e infraestrutura para o processo de criação de empresas do setor.

Jaraqui Valley

Assim como o Vale do Silício, o Jaraqui Valley no Amazonas reúne startups para ajudar no processo da área de inovação.

Em Nova Iorque com a mamãe

Há horas em que, apenas a bem do exercício mental, a gente dá uma colher de chá e imagina que há verdadeira ingenuidade no que é somente cinismo em certos discursos. Do que falo? Outro dia vi um vídeo, indicado por alguém no Facebook, de um pedaço de entrevista do humorista Gregório Duvivier ao Jô Soares, no qual o rapaz explicava a vida de quem é de esquerda no Brasil. E ser de esquerda no Brasil, segundo quem é de esquerda no Brasil, parece ser o mesmo que ser gay no Irã. Parece o mesmo que ser cristão na Nigéria. O Duvivier dramatizava: “A gente fala presidenta, e o cara já grita ‘petralha’!”; “Eu tava almoçando no Leblon e o cara me mandou ir comer com os pobres no bandejão!”.

Eu leio o Duvivier e imagino Anne Frank chorando com o relato.

A dois dias da eleição em 2014, Duvivier traçava, em sua coluna na Folha, o perfil do eleitor oposicionista: rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Um amigo, Aécio ferrenho, disse que sonha com um Brasil em que ele possa ir pra Nova Iorque com o dólar um pra um”, escreveu. As urnas mostraram que metade do país era formada do que Gregório e tantos outros pintavam como rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Volta pra Cuba! Mas eu nem fui!”, brinca Gregório.

“Vai para Cuba!”, aliás, é talvez o slogan de toda uma geração de idiotas brasileiros. Pelo mau gosto, pela agressividade, pela pouca profundidade, pela ignorância e pela preguiça mental. Mas mais ainda porque o ser humano não gosta de seguir ordens. Muito menos de ter tirada a sua liberdade de escolha. Não deve haver muitas opções de destino no aeroporto de uma democracia como Cuba ou Coreia do Norte. Essa coisa de dar opção é capitalismo de mercado. Opções que o Brasil dá, que a França dá, que os EUA dão.

Outra porta-voz do mesmo tipo de pensamento, a deputada Jandira Feghali, do Partido Comunista, foi fotografada numa confortável poltrona da classe executiva de um voo da Air France para Paris. Ontem. O terceirizado Leonardo Sakamoto foi pego tomando café em Nova Iorque. Vi as fotos e, sinceramente, não vi nada demais. Fico feliz ao ver socialistas desfrutando dos benefícios do mercado. Infeliz eu ficaria ao ver capitalistas desfrutando dos trabalhos forçados em Pyong Yang.

Só que, sem grande surpresa, a galera cai de pau nesse tipo de coisa. A foto vira montagem, a piada vira meme, chegam as acusações de hipocrisia e os xingamentos baixos de praxe, pois baixeza é o sobrenome das redes sociais. E o que esta patota diz em sua defesa? É aonde entra o cinismo, porque é cínico ou é retardado mental – ou autista, diria outra comunista famosa – quem passa a vida ouvindo lé e entendendo cré. Até onde sei, Jandira ainda não se pronunciou, pois deve estar servindo sopa aos mendigos da Champs-Élysées. Sakamoto, uma coxinha branca de 110 quilos que se acha um acarajé apimentado da negra Bahia, disse que estava trabalhando contra o trabalho escravo. Duvivier, assumindo a defesa de todos numa frase feita, dizia que ser de esquerda não é fazer voto de pobreza. “Eu quero é que todo mundo seja rico!”, esclarecia. Jandira é profissional nisto há muitos anos. Gregório e Leonardo é que chegaram agora e querem sentar na janelinha. Da Air France, claro.

Acreditemos novamente que o problema aí é ingenuidade. Duvivier faz piada ruim atacando o PT para fingir que é neutro. Não sei para quê, não há qualquer problema em declarar preferência política, Gregório, não estamos em Caracas. Aliás, se vale um parêntese aqui, eis aí a receita mais eficaz para anular um ótimo humorista: torne-o militante político. Veja o vídeo acima e comprove. Não existe nada menos engraçado do que humor militante – e não sei se ocorreu com mais alguém, porque não assisto mais, mas a febre do canal Porta dos Fundos parece ter esfriado, não?

Eis o ponto. O problema não é o Sakamoto desfilar com um Macbook Pro, de uma marca conhecida pelas denúncias de trabalho escravo em sua cadeia de produção asiática. O problema não é o Duvivier almoçar no Leblon. O problema não é Jandira voar para Paris na classe executiva. O problema, senhores e senhoras, é que ao mesmo tempo vocês ataquem este meio de vida, e pior, ataquem quem o mantém de pé e se beneficia dele. O problema não é comer no prato de uma cafeteria em Manhattan, o problema é cuspir nele depois. Não é comer vitela em Paris, é ridicularizar outros que comem. O problema não é comer no Leblon, é comer no Leblon chamando seus vizinhos de fascistas, nas página de um jornal que chama de golpista.

Como essa aldeia global não é mais Macondo e as coisas já têm nome, a isto a humanidade convencionou chamar de hipocrisia. Porque as pessoas que vivem no Leblon, que viajam para Nova Iorque e para Paris (e eu sou um capitalista que nunca fiz nada disto) não estão cobrando voto de pobreza de vocês, e sim voto de coerência. O que elas querem não é que vocês sejam pobres, mas honestos. Afinal, se o modo de vida delas virou “fascista”, “coxinha”, “elitista”, “alienado”, por que vocês vivem este modo de vida? Afinal, que diferença moral há em duas pessoas que tomam café, almoçam ou viajam para onde quiserem, se for com o dinheiro do seu esforço? Por que, entre estas duas pessoas, há uma moralmente melhor, apenas porque ela discursa na tribuna, num blog ou no Youtube, contra quem viaja para Paris, contra quem mora no Leblon, contra quem toma café em Nova Iorque? É ou não, no mínimo injusto, que certas ocupantes da classe executiva da Air France possam falar mal de seus vizinhos de poltrona no Congresso, enquanto os vizinhos de poltrona não podem se defender?

A deficiência mental ou moral, num caso destes, é parte de um caráter coletivo. Às vezes leio mensagens de esquerdistas distantes muitos quilômetros dos outros, geográfica e virtualmente, e o discurso é desconcertantemente o mesmo: o Brasil vive uma crise de ódio dos ricos pelos pobres, dos brancos pelos negros, dos cristãos pelos umbandistas, de policiais por crianças, de motoristas por ciclistas etc. Eles não conseguem explicar que vírus foi este que atacou metade da nação. Só repetem a mesma mentira, atacam o mesmo passado, agridem as mesmas figuras, insistem nas mesmas versões.

O discurso de Duvivier, compartilhado por seus correligionários Brasil afora, portanto, é retardado ou cínico? Eu arrisco um palpite: é cínico. Porque Gregório sabe do que se trata. Mas sabe, a coisa é meio futebol, você pode ter visto que o atacante do teu time simulou um pênalti, mas ele é o teu time. Gregório sabe que as pessoas não se odeiam assim, no espaço de tempo entre março e outubro. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem, enfim, que as pessoas só cansaram de serem xingadas em blogs, em colunas, em discursos, em programas de tv, em artigos, sites e portais pagos com dinheiro público, principalmente no meio de uma crise econômica e de um escândalo de corrupção. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem disto tudo, mas são cínicos demais para ter a honestidade intelectual de fugir do caminho fácil da vitimização, quando, do alto de seus canais de comunicação de massa, estão muito mais para opressores do que para oprimidos.

Jandira Feghali pode continuar viajando de classe executiva para Paris. Duvivier pode continuar almoçando no Leblon. Sakamoto pode continuar tomando café na esquina do Metropolitan Museum. Nossos heróis esquerdistas brasileiros fazem isso há muitos anos, pois vieram de famílias estruturadas – que eles chamam de conservadoras –, e ninguém deu a mínima. Na verdade, ninguém dá a mínima. E esta é uma das coisas mais belas de uma economia democrática de mercado, como o Brasil, como os Estados Unidos ou como a França.

Em economias democráticas de mercado, cada um faz o que quiser, principalmente com o seu dinheiro, tenha sido ele ganho honestamente num contrato com a Folha, num mandato parlamentar comunista ou num contrato de prestação de serviços com a Presidência da República. Em economias democráticas, quem recebe salário do governo faz o que quiser com ele, da mesma forma que quem recebe salário de empresários.

Mas nas democracias essa liberdade é tão importante que serve também a quem encontra hipócritas na rua, fingindo-se perseguidos, ou no avião, fingindo-se do povo, ou num restaurante do Leblon, fingindo-se na Favela da Maré.

E vamos ser justos, depois que você abre o jornal mais importante do país e lê seu vizinho falando mal da vida que você e seus filhos levam, que é a mesma que ele leva, tirar umas fotos e fazer uns memes de internet com a cara dele é o mínimo de justiça que você pode buscar, né?

Escrevi, mas não traguei

Um dos meus vídeos preferidos do grupo Porta dos Fundos se chama “KKK”. Nele o ator Fábio Porchat reúne uma moçada para fundar um grupo de encapuzados racistas. Escreve um manifesto do movimento, distribui mantas, tochas e pede a adesão de todos. Ao ser confrontado com o imprevisto, recolhe tudo às pressas, canta e dança para salvar a pele. Me perdoe o advogado-procurador Luis Edson Fachin, mas vi um vídeo seu na internet, e só pensava no Porchat acima, gritando “não tem nada nessa pasta, pelo amor de Deus!”.

Venhamos e convenhamos, a tal indicação de Dilma para o STF parece azedar a cada minuto, não? E nem é necessário grande conhecimento do mundo político ou jurídico para perceber que a coisa toda vai desafinando, como se um simples ato de ofício tivesse virado tema nacional. Talvez o governo tenha exagerado na desfaçatez, principalmente depois do longo silêncio que imperou desde a aposentadoria de Joaquim Barbosa, responsável maior pelo julgamento do mensalão e ex-ocupante da cadeira que Dilma quer ocupar, agora, com alguém que advoga contra direitos como o de propriedade. Ou com alguém que costumava ser procurador e advogado ao mesmo tempo. Ou alguém que escreve artigos e defende teses jurídicas que atacam a instituição do casamento. Fachin acha que propriedade é algo relativo, diante das injustiças da sociedade. E que amantes são tão esposas e esposos quanto as esposas e os esposos. Favor não me confundir: estou longe de defender o casamento tradicional ou de ignorar os direitos de homens e mulheres enganados por seus cônjuges. Sequer me escandalizo com a defesa, de Fachin, de que o casamento precisa ser mais libertário e, digamos, coletivo.

Eu não estou nem aí para o que cada um faz e diz. Mas o mínimo que se espera de qualquer pessoa, seja eu, você ou Fachin, é que haja franqueza. E na investidura de um cargo que traz na essência a obrigação da justiça, do desapego ideológico e do mais primitivo respeito ao que ainda está na Constituição, interessa e muito o que pensa o advogado-procurador Fachin. E é neste ponto que o procurador-advogado se enrola. Porque politicamente não se pode deixar o eleitor perceber que o golpe dos fatos foi mortal. Ir à internet, num site montado por uma agência de publicidade que tem contratos com o governo, e dizer que “algumas intervenções pontuais e episódicas não definem 35 anos de carreira” é a cara do desastre.

Como já mostrado e provado, Fachin pensa o que pensa. Se estivesse concorrendo a uma vaga de limpador de vidraças, o que pensa sobre propriedade e casamento não interessaria aos brasileiros. Mas se esses temas, tão e sempre abordados com dubiedade e até cinismo por juristas avessos às leis, estão entre os temas a serem discutidos no Supremo, importa, sim, o que o procurador-advogado pensa sobre eles. Ir à internet, portanto, para fazer propaganda política, precisa ser algo digno da mensagem. E sim, sua indicação ao STF virou fato político. Afinal, tem campanha eleitoral, tem programa eleitoral, tem vídeo editado, tem agência de propaganda por trás, tem texto lido diante da câmera, tem o famoso “minha trajetória foi pautada pela serenidade e transparência”. Tem site montado por profissionais, tem campanha nos blogs estatais, tem hashtag nas redes sociais. Tem, portanto, tudo o que uma campanha eleitoral profissional precisa ter.

Aqui surge, aliás, uma dúvida: já que a candidatura é assumidamente governista e independe das rígidas regras eleitorais do Executivo e do Legislativo, quero perguntar: o financiamento desta campanha está sendo público ou privado? Como é uma candidatura petista e o PT prometeu que não trabalha mais com doação de empresas, quem está pagando tudo isto?

Não sei se Fachin vai passar ao STF. A depender do conhecido apego de Renan Calheiros pelo interesse público, pode ser que o procurador-advogado vire ministro da mais alta corte do país, mesmo pensando o que pensa sobre temas tão caros à sociedade. Não, não é proibido ou errado que um ministro do Supremo tenha posições progressistas. É só mais honesto, com o povo, assumir o que pensa. E de quebra, assim como quem não quer nada, respeitar a Constituição que ainda vigora no Brasil. Botar no Supremo um militante de esquerda que põe em dúvida o direito à propriedade e defende invasores de terra é o mesmo que botar ali um militante de direita que defende o espancamento de menores infratores e a deportação de imigrantes. À luz da lei maior do país, defender certas coisas não é bonito nem feio, é só errado. Dispensa discussão, dispensa vídeo na internet, dispensa hashtag de publicitário pago por empenho.

Sim, havia uma seara ainda livre da baixeza política brasileira. As cortes superiores do país, plurais e diversificadas em sua mistura de matizes ideológicos, estão finalmente virando matéria-prima do circo de horrores que domina a América Latina. Antes ainda podíamos separar Gilmar Mendes e Lewandowski, Marco Aurélio e Zavaski, Ellen Gracie e Peluso, mas ninguém questionava o apego de qualquer um deles aos princípios da Constituição do país. Ninguém lhes punha sob a suspeita de ter atuado ilegalmente, como procurador ou advogado. Parece piada, mas neste momento a indicação de um nome ao Supremo virou guerra de robôs fake na internet. Veja, o problema não é atacar o casamento, a propriedade, agricultores ou empresários. Isto é direito de todos. O problema é vir a público desmentir o que pensa sobre essas coisas.

Eis uma das grandes dificuldades filosóficas que sempre tive: se os terroristas, os membros da Ku Klux Klan, os justiceiros e os radicais ideológicos têm tanta certeza e orgulho de que estão certos, por que escondem seus rostos?

É claro que Fachin não faz parte deste grupo. É somente um advogado, um procurador e um candidato ao STF que tem posições interessantes sobre alguns trechos da Constituição. É como um, vejamos, pastor presbiteriano ateu, a escrever artigos aqui e ali questionando trechos da Bíblia que carrega sob os braços, por dever de ofício.

Fachin seria assim, um representante da Constituição, que não acredita em pedaços dela. Ele não admite agora, mas é só porque não percebe que, já que decidiu fazer política, é politicamente que já nasceu errado: em política, senhor advogado-procurador, “algumas intervenções pontuais e episódicas” definem, sim, 35 anos de carreira. Vestir um capuz branco, preto, azul ou vermelho não vai mudar o fato de que, ali embaixo, se esconde alguém que pensa o que pensa.

Não acho que são suas opiniões o que devem impedi-lo de ser ministro do STF. É a falta de coragem de defendê-las. Pastores presbiterianos precisam ter fé em Deus. Ministros do Supremo precisam acreditar na Constituição.

11 de dezembro, oito anos depois.

10624986_10205264122385796_3279498198339093292_nQuando lembro da época em que tinha oito anos, lembro da cor das casas, da cor dos quartos dos amigos, dos “decalques” Hang Loose e Quebra-Mar que cobriam as janelas dos irmãos mais velhos, das empregadas que ajudavam a juntar tudo o que derrubávamos, lembro de coisas simples como o cheiro da comida da casa de cada um. Ou que cartuchos de Atari cada um tinha, o nome do cachorro dos vizinhos, a marca das bicicletas e a estampa dos skates. Ontem, da janela embaçada do trabalho e olhando para os carros ali embaixo, lembrei da janela embaçada do quarto do Gustavo, em Ipanema, de onde, numa manhã de chuva em 1981, eu olhava para a banca de revistas lá embaixo, esperando a hora de comprar novos pacotes de figurinhas, para os álbuns da Turma da Mônica e para brincar de “bafo” depois. Quando eu lembro daquela época, lembro de detalhes mínimos como o cheiro das maletas de carrinhos, da valise que os pais usavam, enfiadas com flanelas entre os bancos da frente das Belinas e dos Monzas. Lembro de descer a Paraíba ouvindo “A Voz do Brasil” todo dia, no carro do Tapajós, ao lado do André e da Mônica. Lembro do cheiro do Rio de Janeiro, do polegar direito duro depois de horas e horas jogando “Enduro”. O cheiro da comida da casa do Janus, o cachorro do Roosevelt, o picadinho com macarrão da Dona Rosa, a crise de apendicite do Fábio, o medo do “Matinha”. Ontem, 10 de dezembro de 2014, eu já não era mais eu, e sim o pai do vizinho. Ao chegar em casa de noite, vi o Jordan, filho do vizinho, brincando com o Marcos lá em casa, e me vi nele, 30 anos atrás, sentindo o cheiro da comida e prestando atenção nas coisas, em mim, que um dia eu guardava nos pais dos amigos. O curso das coisas é tão perfeito que, à medida que vamos ficando velhos, e isso é ruim, também viramos o “pai do amigo”, e isso é ótimo. Hoje meu filho faz oito anos de idade. Nasceu num 11 de dezembro chuvoso igual a hoje, em 2006, enquanto eu chorava de medo da felicidade. Quando eu lembro dos meus oito anos, me dá dó de hoje ser o pai dele, e não mais ele. De ter que sair cedo, debaixo de chuva, com a minha valise e a minha Belina, para trabalhar. Ele vai acordar daqui a pouco e ver a mesma janela embaçada, sentir a mesma saudade e viver a mesma felicidade de quem vai se formando com base nas cores, nos sons e nos cheiros que vai lembrar nos próximos oitenta anos da vida dele. Tenho saudade de ser o menino de oito anos, mas estou aprendendo como é bom ser da minha comida o cheiro que os amigos dele vão lembrar. É da janela do meu Del Rey que os primos dele vão sentir o vento, ouvindo as minhas músicas. Eu te amo assim mesmo, meu filho. É um tanto egoísta da minha parte, mas é que te fazer feliz é minha missão, desde aquela chuva de 2006. Por isso vamos ter cachorro quente, batata frita, refrigerante, maratona de videogame, cheiro de comida, bola batendo no portão da garagem e meninos suados guardando, para sempre, as lembranças da melhor parte da vida de qualquer um. Feliz aniversário, Marcos. E obrigado por toda a felicidade que você é para mim, para sua mãe, para suas avós, tios, amigos, primos e cadela.

Revolta é para profissionais

Inevitável, até para os menos interessados, ficar sabendo das manifestações que ocorrem em São Paulo, dia sim outro também, fechando a Avenida Paulista a partir do vão do MASP. Num dia com os indignados anti-Dilma, no outro com os indignados pró-Dilma, com os jornalistas pró-Dilma no meio. Aí a gente lê textos e assiste a vídeos e fica pensando: o que aconteceu com a indignação brasileira? Estamos mesmo condenados ao peleguismo de um lado e à ignorância do outro? E a resposta é sim, estamos.

Ora, se em vez de gritar “Independência ou Morte!” em 1822, vestido para a guerra e montado num corcel às margens do Ipiranga, Dom Pedro na verdade estava vestido de tropeiro e sentado numa mula, cercado por 20 gatos pingados e com uma baita diarreia, por que você acha que o brasileiro saberia protestar contra alguma coisa em 2014?

Tento explicar. Quando comparamos a história oficial com os relatos fatuais, fica mais fácil entender por que pacifismo não pode ser confundido com preguiça. E o caso brasileiro é de preguiça. No século 17, para que o país se tornasse independente da coroa portuguesa, não se ouviu um tiro, não se viu uma cabeça rolando. Nem um pingo de sangue, nem um estampido de canhão. Era independência para inglês ver, uma cena tão épica quanto falsa, na qual o monarca era cercado por dragões da independência que ainda nem existiam.

Não que seja o caso de fazer apologia da violência, mas convenhamos, quando ninguém percebe que houve uma revolução, é porque revolução não houve. O povo de antanho, bovino como hoje, não participava da vida política nacional, e a escravidão perdurou por mais 60 anos, o latifúndio, os privilégios aristocráticos etc. Dom Pedro nunca deu grito algum, até porque sua diarreia lhe faria passar vergonha.

E como isso pode ajudar a explicar o que se vê hoje? Bom, desde junho do ano passado – inclusive em junho do ano passado –, antes de se vestir de amarelo, as pessoas comuns precisavam saber quantos estariam nas ruas, o que estariam vestindo, contra o que estariam gritando. Brasileiro precisa primeiro saber se o evento vai bombar. O critério do cidadão brasileiro para mudar o país é baseado, portanto, na possibilidade de passar vergonha se não aparecer ninguém mais para mudar o país. Não faltam motivos, nestes dias, para ir às ruas protestar contra os governos. O problema é a patrulha jornalística, que afia suas canetas assim que não-militantes anunciam alguma aglomeração. Marcar protesto no Facebook, sem conhecer o público, sem fazer chamada, sem contar pontos para quem quer ganhar casa, sem os convênios sindicais que rendem 50 a 80 reais por manifestante, é simplesmente suicídio – ou um convite ao constrangimento.

Não por outro motivo já há, nas redações de norte a sul, a tradicional reportagem “Protesto contra corrupção reúne [X] pessoas em [CIDADE]”, desde que X < 400. Caso X > 400, como acabou ocorrendo um junho de 2013, o que era deboche rapidamente vira emoção. E, como emoção, também morre logo depois. Há uma militância velada nas redações – e o problema não é ser militância, mas ser velada – que está sempre a postos para caçar o lado ridículo de qualquer manifestação popular, desde que ela seja espontânea, sem comando e sem cor padronizada. Ou seja, no Brasil, protesto só é protesto se for ensaiado. Ou parece ter limite mínimo de participação: com menos de X pessoas, é mico. A partir dali, é protesto. Se der 5X, é revolução. Se aparecerem 50X, vira “jornada patriótica” na voz de Sandra Annenberg.

Ou por outra: protesto de rua, neste país, é coisa de profissionais como os sindicatos ou os movimentos de sem terra, sem teto e sem ocupação definida. Sem convidar ninguém, sem precisar convencer uma viva alma, essa gente bota 5 a 10 mil orcs nas ruas, dizendo-se trabalhadores, mas todos livres às quatro da tarde de uma quinta para parar as cidades. Quando tanto, apelam à turma do quebra-quebraameaçam parar o país se Sauron não vencer a eleição. E não se ouve um pio da imprensa caçadora de lunáticos sem uniforme.

No Brasil, para reclamar é preciso ter registro no “sindicato dos manifestantes profissionais”, e o que se vê nas avenidas das grandes cidades é ora o PT com seus orcs vermelhos, organizados, uniformizados e portando faixas padronizadas, ora o povo de verdade, sentado numa mula, com dor de barriga, vestindo ceroulas e sem saber dizer o que quer. Assim fica fácil o trabalho do deboche. Sim, é muito Brasil pagar manifestantes com dinheiro público, mas é mais Brasil ainda protestar contra a corrupção pedindo impeachment da presidente legitimamente eleita.

E o deboche, que requer bem menos esforço e trabalho do que enfrentar a vergonha de ir à rua, voltou às redações. O caráter nacional médio é feito desse comodismo sábio e do perfeito timing para evitar eventos esvaziados. Brasileiro só vai se todo mundo for. Só gosta se todo mundo gostar. Só se emociona se todo mundo se emocionar. Se o país entrasse em guerra, os convocados iriam esquecer o capacete, mas levariam o smartphone.

Para mim, isso explica essa cólica comportamental na qual o brasileiro caiu. Diante da escolha entre ser gado de esquerda ou infeliz de direita, o povo normal prefere ficar em casa e acompanhar as manifestações pelo UOL, à espera da próxima matéria, ou sobre os 1.000 envergonhados anti-governo, ou sobre os 10.000 sem vergonha pró-governo.

Dom Pedro estava sentado numa mula, com dor de barriga, cercado por soldados de mentira e à beira de um riacho, gente. Para proclamar a nossa independência. Você acha que o brasileiro ia mudar tanto assim depois de uma cena destas?

O brasileiro não tem medo de morrer na batalha por sua independência. Tem medo só de pagar mico e “viralizar na internet”.