O Mito do Tracajá, de Platão

Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.
Osmar Frattini, o piloto: ele podia ter feito uma tomografia no Albert Einstein se Huck fosse mais humano, mas a injustiça social o mandou para casa.

Alguém na minha lista de leitura encontrou uma motivação revolucionária em seus fios brancos de cabelo. Disse que havia neles a vontade de não se “comportar” como os outros, que, imagino eu, eram os fios pretos e conservadores. Meses atrás, num desses vídeos que fazem sucesso na internet, um tracajá ajudava outro, que estava de pernas para o ar, a se desvirar – e assim virava personagem de parábola sobre “gente que ainda consegue ver os problemas dos outros nesses tempos de ódio”.

O que a gente deduz sem muito esforço, nestes “tempos de ódio”, é que é possível ideologizar absolutamente tudo, do médico esfaqueado ao bobó de camarão, do cachorro abandonado à cor do cabelo, do rolezinho no shopping ao tipo de parto que a mulher escolhe para fazer.

Eu não acho ruim que cada geração crie sua própria agenda política. Pelo contrário, acho muito saudável a disposição de materializar suas posições sobre tudo no mundo. Desesperador seria ver jovens calados diante das injustiças, líderes estudantis quietos diante de professores mal pagos, jovens entrando na política para fazer política de velhos.

Desde ontem, o falso debate é o privilégio da elite branca paulista quando o assunto é estar a bordo, com a família inteira, de um avião cujos dois motores pararam de funcionar. Luciano Huck e Angélica, além dos três filhos, duas babás e dois pilotos, sobreviveram à queda de um avião. Pela explicação do próprio piloto, todos foram resgatados da aeronave, pediram ajuda e foram socorridos. A família dos apresentadores primeiro. O piloto ajudou o copiloto, ferido com mais gravidade, e ambos foram para a Santa Casa. Depois de receber sutura num corte na testa, o piloto foi liberado. Os apresentadores, com suspeitas de fratura na bacia e na vértebra, foram transferidos para o Albert Einstein, em São Paulo.

E então começou – ou eu só percebi ali – a chanchada do absurdo. Luciano, que seria um apresentador que se aproveita da pobreza das pessoas para ter audiência, conseguiu uma vaga no SUS para o piloto, enquanto ele ia ao melhor hospital do país. Todas as notícias davam conta de que todos a bordo, a classe trabalhadora (pilotos), as escravas (babás), os aristocratas (o casal) e seus herdeiros reais (os filhos) foram levados ao mesmo hospital, público. Seu Wilson, um agricultor que viu o pedido de socorro, não teve tempo de avaliar aquele imbróglio sociológico de luta de classes naquele momento. Em vez de correr para o Facebook para julgar a classe social de pessoas que precisavam de ajuda, acabou… ajudando.

Deu em toda a grande mídia (a pequena mídia estava ocupada chamando contribuintes insatisfeitos com a política econômica petista de “nazistas”) que Osmar Frattini, o piloto, saiu por último porque era o responsável pelo voo. E que depois fez sutura e saiu ele próprio carregando o frasco de soro que tomava. Não porque era o pobre abandonado à própria sorte pelo casal ricaço, mas porque não estava ferido, podia andar e ir para casa.

O que mais falta? Internar todos, mesmo aqueles sem ferimentos graves, juntos com Angélica, com suspeita de fratura, apenas para satisfazer a tara filosófica e tardia de gente da internet? É isso mesmo? Vamos criar cota para feridos em acidentes aéreos?

Se cabe aqui um apelo, é para que esse raio esquerdizador faça pausas maiores, dê um tempo ao bom senso. É preciso compreender que o cabelo revolucionário pode ser o branco, e o conservador, o cabelo preto. É preciso intuir que o tracajá de cabeça para baixo é o de esquerda, por não respeitar as convenções da sociedade, e que pode ter sido atrapalhado por um colega de direita, um tracajá coxinha que faz tudo certinho. É preciso compreender a história de vida do bobó de camarão, que um cachorro vira-lata pode ser fascista, que o sovaco com pelos descoloridos pode ser sinal de simpatia neonazista. Não há nada mais conservador do que a imagem que os revolucionários fazem de um conservador.

Tudo é parte de uma metáfora sarcástica da minha parte, claro, extremamente sem sentido. Mas convenhamos: quem começou foi quem instituiu cota até para quem vai se ferir num desastre de avião.

Enfim, um bom argumento para consumir propaganda

mockup_ganhenatelaPropagandas viram crédito de celular – Amazonenses desenvolvem aplicativo para ganhar créditos a partir de propagandas

Créditos para celular a partir da visualização de propagandas? Essa é a proposta do aplicativo ‘Ganhe na Tela’. Desenvolvido no Amazonas com a ajuda da FabriQ Aceleradora, o projeto foi idealizado para dar benefícios aos usuários e ajudar a potencializar os negócios das empresas.

Como funciona?

O usuário precisa baixar o aplicativo, inicialmente disponibilizado para o sistema Android, cadastrar o número de celular e o email. Após o processo, basta travar o celular e ao destravar os anúncios vão aparecer na tela por 5 segundos, basta clicar para resgatar os créditos.

De acordo com gerente de projeto do aplicativo, Daniel Goettenauer, um grupo de seis pessoas criaram o aplicativo para dar benefícios reais aos usuários. “O prazo de resgate é de 48 horas”.

Mais informações no Facebook  e na Google Play.

FabriQ Aceleradora

É um programa de aceleração que ajuda a fomentar o empreendedorismo no Norte do Brasil. O programa oferece treinamentos, mentores capacitados e infraestrutura para o processo de criação de empresas do setor.

Jaraqui Valley

Assim como o Vale do Silício, o Jaraqui Valley no Amazonas reúne startups para ajudar no processo da área de inovação.

Em Nova Iorque com a mamãe

Há horas em que, apenas a bem do exercício mental, a gente dá uma colher de chá e imagina que há verdadeira ingenuidade no que é somente cinismo em certos discursos. Do que falo? Outro dia vi um vídeo, indicado por alguém no Facebook, de um pedaço de entrevista do humorista Gregório Duvivier ao Jô Soares, no qual o rapaz explicava a vida de quem é de esquerda no Brasil. E ser de esquerda no Brasil, segundo quem é de esquerda no Brasil, parece ser o mesmo que ser gay no Irã. Parece o mesmo que ser cristão na Nigéria. O Duvivier dramatizava: “A gente fala presidenta, e o cara já grita ‘petralha’!”; “Eu tava almoçando no Leblon e o cara me mandou ir comer com os pobres no bandejão!”.

Eu leio o Duvivier e imagino Anne Frank chorando com o relato.

A dois dias da eleição em 2014, Duvivier traçava, em sua coluna na Folha, o perfil do eleitor oposicionista: rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Um amigo, Aécio ferrenho, disse que sonha com um Brasil em que ele possa ir pra Nova Iorque com o dólar um pra um”, escreveu. As urnas mostraram que metade do país era formada do que Gregório e tantos outros pintavam como rico, fascista, racista, machista, violento, criminoso, sonegador, traficante. “Volta pra Cuba! Mas eu nem fui!”, brinca Gregório.

“Vai para Cuba!”, aliás, é talvez o slogan de toda uma geração de idiotas brasileiros. Pelo mau gosto, pela agressividade, pela pouca profundidade, pela ignorância e pela preguiça mental. Mas mais ainda porque o ser humano não gosta de seguir ordens. Muito menos de ter tirada a sua liberdade de escolha. Não deve haver muitas opções de destino no aeroporto de uma democracia como Cuba ou Coreia do Norte. Essa coisa de dar opção é capitalismo de mercado. Opções que o Brasil dá, que a França dá, que os EUA dão.

Outra porta-voz do mesmo tipo de pensamento, a deputada Jandira Feghali, do Partido Comunista, foi fotografada numa confortável poltrona da classe executiva de um voo da Air France para Paris. Ontem. O terceirizado Leonardo Sakamoto foi pego tomando café em Nova Iorque. Vi as fotos e, sinceramente, não vi nada demais. Fico feliz ao ver socialistas desfrutando dos benefícios do mercado. Infeliz eu ficaria ao ver capitalistas desfrutando dos trabalhos forçados em Pyong Yang.

Só que, sem grande surpresa, a galera cai de pau nesse tipo de coisa. A foto vira montagem, a piada vira meme, chegam as acusações de hipocrisia e os xingamentos baixos de praxe, pois baixeza é o sobrenome das redes sociais. E o que esta patota diz em sua defesa? É aonde entra o cinismo, porque é cínico ou é retardado mental – ou autista, diria outra comunista famosa – quem passa a vida ouvindo lé e entendendo cré. Até onde sei, Jandira ainda não se pronunciou, pois deve estar servindo sopa aos mendigos da Champs-Élysées. Sakamoto, uma coxinha branca de 110 quilos que se acha um acarajé apimentado da negra Bahia, disse que estava trabalhando contra o trabalho escravo. Duvivier, assumindo a defesa de todos numa frase feita, dizia que ser de esquerda não é fazer voto de pobreza. “Eu quero é que todo mundo seja rico!”, esclarecia. Jandira é profissional nisto há muitos anos. Gregório e Leonardo é que chegaram agora e querem sentar na janelinha. Da Air France, claro.

Acreditemos novamente que o problema aí é ingenuidade. Duvivier faz piada ruim atacando o PT para fingir que é neutro. Não sei para quê, não há qualquer problema em declarar preferência política, Gregório, não estamos em Caracas. Aliás, se vale um parêntese aqui, eis aí a receita mais eficaz para anular um ótimo humorista: torne-o militante político. Veja o vídeo acima e comprove. Não existe nada menos engraçado do que humor militante – e não sei se ocorreu com mais alguém, porque não assisto mais, mas a febre do canal Porta dos Fundos parece ter esfriado, não?

Eis o ponto. O problema não é o Sakamoto desfilar com um Macbook Pro, de uma marca conhecida pelas denúncias de trabalho escravo em sua cadeia de produção asiática. O problema não é o Duvivier almoçar no Leblon. O problema não é Jandira voar para Paris na classe executiva. O problema, senhores e senhoras, é que ao mesmo tempo vocês ataquem este meio de vida, e pior, ataquem quem o mantém de pé e se beneficia dele. O problema não é comer no prato de uma cafeteria em Manhattan, o problema é cuspir nele depois. Não é comer vitela em Paris, é ridicularizar outros que comem. O problema não é comer no Leblon, é comer no Leblon chamando seus vizinhos de fascistas, nas página de um jornal que chama de golpista.

Como essa aldeia global não é mais Macondo e as coisas já têm nome, a isto a humanidade convencionou chamar de hipocrisia. Porque as pessoas que vivem no Leblon, que viajam para Nova Iorque e para Paris (e eu sou um capitalista que nunca fiz nada disto) não estão cobrando voto de pobreza de vocês, e sim voto de coerência. O que elas querem não é que vocês sejam pobres, mas honestos. Afinal, se o modo de vida delas virou “fascista”, “coxinha”, “elitista”, “alienado”, por que vocês vivem este modo de vida? Afinal, que diferença moral há em duas pessoas que tomam café, almoçam ou viajam para onde quiserem, se for com o dinheiro do seu esforço? Por que, entre estas duas pessoas, há uma moralmente melhor, apenas porque ela discursa na tribuna, num blog ou no Youtube, contra quem viaja para Paris, contra quem mora no Leblon, contra quem toma café em Nova Iorque? É ou não, no mínimo injusto, que certas ocupantes da classe executiva da Air France possam falar mal de seus vizinhos de poltrona no Congresso, enquanto os vizinhos de poltrona não podem se defender?

A deficiência mental ou moral, num caso destes, é parte de um caráter coletivo. Às vezes leio mensagens de esquerdistas distantes muitos quilômetros dos outros, geográfica e virtualmente, e o discurso é desconcertantemente o mesmo: o Brasil vive uma crise de ódio dos ricos pelos pobres, dos brancos pelos negros, dos cristãos pelos umbandistas, de policiais por crianças, de motoristas por ciclistas etc. Eles não conseguem explicar que vírus foi este que atacou metade da nação. Só repetem a mesma mentira, atacam o mesmo passado, agridem as mesmas figuras, insistem nas mesmas versões.

O discurso de Duvivier, compartilhado por seus correligionários Brasil afora, portanto, é retardado ou cínico? Eu arrisco um palpite: é cínico. Porque Gregório sabe do que se trata. Mas sabe, a coisa é meio futebol, você pode ter visto que o atacante do teu time simulou um pênalti, mas ele é o teu time. Gregório sabe que as pessoas não se odeiam assim, no espaço de tempo entre março e outubro. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem, enfim, que as pessoas só cansaram de serem xingadas em blogs, em colunas, em discursos, em programas de tv, em artigos, sites e portais pagos com dinheiro público, principalmente no meio de uma crise econômica e de um escândalo de corrupção. Gregório, Jandira e Sakamoto sabem disto tudo, mas são cínicos demais para ter a honestidade intelectual de fugir do caminho fácil da vitimização, quando, do alto de seus canais de comunicação de massa, estão muito mais para opressores do que para oprimidos.

Jandira Feghali pode continuar viajando de classe executiva para Paris. Duvivier pode continuar almoçando no Leblon. Sakamoto pode continuar tomando café na esquina do Metropolitan Museum. Nossos heróis esquerdistas brasileiros fazem isso há muitos anos, pois vieram de famílias estruturadas – que eles chamam de conservadoras –, e ninguém deu a mínima. Na verdade, ninguém dá a mínima. E esta é uma das coisas mais belas de uma economia democrática de mercado, como o Brasil, como os Estados Unidos ou como a França.

Em economias democráticas de mercado, cada um faz o que quiser, principalmente com o seu dinheiro, tenha sido ele ganho honestamente num contrato com a Folha, num mandato parlamentar comunista ou num contrato de prestação de serviços com a Presidência da República. Em economias democráticas, quem recebe salário do governo faz o que quiser com ele, da mesma forma que quem recebe salário de empresários.

Mas nas democracias essa liberdade é tão importante que serve também a quem encontra hipócritas na rua, fingindo-se perseguidos, ou no avião, fingindo-se do povo, ou num restaurante do Leblon, fingindo-se na Favela da Maré.

E vamos ser justos, depois que você abre o jornal mais importante do país e lê seu vizinho falando mal da vida que você e seus filhos levam, que é a mesma que ele leva, tirar umas fotos e fazer uns memes de internet com a cara dele é o mínimo de justiça que você pode buscar, né?

Escrevi, mas não traguei

Um dos meus vídeos preferidos do grupo Porta dos Fundos se chama “KKK”. Nele o ator Fábio Porchat reúne uma moçada para fundar um grupo de encapuzados racistas. Escreve um manifesto do movimento, distribui mantas, tochas e pede a adesão de todos. Ao ser confrontado com o imprevisto, recolhe tudo às pressas, canta e dança para salvar a pele. Me perdoe o advogado-procurador Luis Edson Fachin, mas vi um vídeo seu na internet, e só pensava no Porchat acima, gritando “não tem nada nessa pasta, pelo amor de Deus!”.

Venhamos e convenhamos, a tal indicação de Dilma para o STF parece azedar a cada minuto, não? E nem é necessário grande conhecimento do mundo político ou jurídico para perceber que a coisa toda vai desafinando, como se um simples ato de ofício tivesse virado tema nacional. Talvez o governo tenha exagerado na desfaçatez, principalmente depois do longo silêncio que imperou desde a aposentadoria de Joaquim Barbosa, responsável maior pelo julgamento do mensalão e ex-ocupante da cadeira que Dilma quer ocupar, agora, com alguém que advoga contra direitos como o de propriedade. Ou com alguém que costumava ser procurador e advogado ao mesmo tempo. Ou alguém que escreve artigos e defende teses jurídicas que atacam a instituição do casamento. Fachin acha que propriedade é algo relativo, diante das injustiças da sociedade. E que amantes são tão esposas e esposos quanto as esposas e os esposos. Favor não me confundir: estou longe de defender o casamento tradicional ou de ignorar os direitos de homens e mulheres enganados por seus cônjuges. Sequer me escandalizo com a defesa, de Fachin, de que o casamento precisa ser mais libertário e, digamos, coletivo.

Eu não estou nem aí para o que cada um faz e diz. Mas o mínimo que se espera de qualquer pessoa, seja eu, você ou Fachin, é que haja franqueza. E na investidura de um cargo que traz na essência a obrigação da justiça, do desapego ideológico e do mais primitivo respeito ao que ainda está na Constituição, interessa e muito o que pensa o advogado-procurador Fachin. E é neste ponto que o procurador-advogado se enrola. Porque politicamente não se pode deixar o eleitor perceber que o golpe dos fatos foi mortal. Ir à internet, num site montado por uma agência de publicidade que tem contratos com o governo, e dizer que “algumas intervenções pontuais e episódicas não definem 35 anos de carreira” é a cara do desastre.

Como já mostrado e provado, Fachin pensa o que pensa. Se estivesse concorrendo a uma vaga de limpador de vidraças, o que pensa sobre propriedade e casamento não interessaria aos brasileiros. Mas se esses temas, tão e sempre abordados com dubiedade e até cinismo por juristas avessos às leis, estão entre os temas a serem discutidos no Supremo, importa, sim, o que o procurador-advogado pensa sobre eles. Ir à internet, portanto, para fazer propaganda política, precisa ser algo digno da mensagem. E sim, sua indicação ao STF virou fato político. Afinal, tem campanha eleitoral, tem programa eleitoral, tem vídeo editado, tem agência de propaganda por trás, tem texto lido diante da câmera, tem o famoso “minha trajetória foi pautada pela serenidade e transparência”. Tem site montado por profissionais, tem campanha nos blogs estatais, tem hashtag nas redes sociais. Tem, portanto, tudo o que uma campanha eleitoral profissional precisa ter.

Aqui surge, aliás, uma dúvida: já que a candidatura é assumidamente governista e independe das rígidas regras eleitorais do Executivo e do Legislativo, quero perguntar: o financiamento desta campanha está sendo público ou privado? Como é uma candidatura petista e o PT prometeu que não trabalha mais com doação de empresas, quem está pagando tudo isto?

Não sei se Fachin vai passar ao STF. A depender do conhecido apego de Renan Calheiros pelo interesse público, pode ser que o procurador-advogado vire ministro da mais alta corte do país, mesmo pensando o que pensa sobre temas tão caros à sociedade. Não, não é proibido ou errado que um ministro do Supremo tenha posições progressistas. É só mais honesto, com o povo, assumir o que pensa. E de quebra, assim como quem não quer nada, respeitar a Constituição que ainda vigora no Brasil. Botar no Supremo um militante de esquerda que põe em dúvida o direito à propriedade e defende invasores de terra é o mesmo que botar ali um militante de direita que defende o espancamento de menores infratores e a deportação de imigrantes. À luz da lei maior do país, defender certas coisas não é bonito nem feio, é só errado. Dispensa discussão, dispensa vídeo na internet, dispensa hashtag de publicitário pago por empenho.

Sim, havia uma seara ainda livre da baixeza política brasileira. As cortes superiores do país, plurais e diversificadas em sua mistura de matizes ideológicos, estão finalmente virando matéria-prima do circo de horrores que domina a América Latina. Antes ainda podíamos separar Gilmar Mendes e Lewandowski, Marco Aurélio e Zavaski, Ellen Gracie e Peluso, mas ninguém questionava o apego de qualquer um deles aos princípios da Constituição do país. Ninguém lhes punha sob a suspeita de ter atuado ilegalmente, como procurador ou advogado. Parece piada, mas neste momento a indicação de um nome ao Supremo virou guerra de robôs fake na internet. Veja, o problema não é atacar o casamento, a propriedade, agricultores ou empresários. Isto é direito de todos. O problema é vir a público desmentir o que pensa sobre essas coisas.

Eis uma das grandes dificuldades filosóficas que sempre tive: se os terroristas, os membros da Ku Klux Klan, os justiceiros e os radicais ideológicos têm tanta certeza e orgulho de que estão certos, por que escondem seus rostos?

É claro que Fachin não faz parte deste grupo. É somente um advogado, um procurador e um candidato ao STF que tem posições interessantes sobre alguns trechos da Constituição. É como um, vejamos, pastor presbiteriano ateu, a escrever artigos aqui e ali questionando trechos da Bíblia que carrega sob os braços, por dever de ofício.

Fachin seria assim, um representante da Constituição, que não acredita em pedaços dela. Ele não admite agora, mas é só porque não percebe que, já que decidiu fazer política, é politicamente que já nasceu errado: em política, senhor advogado-procurador, “algumas intervenções pontuais e episódicas” definem, sim, 35 anos de carreira. Vestir um capuz branco, preto, azul ou vermelho não vai mudar o fato de que, ali embaixo, se esconde alguém que pensa o que pensa.

Não acho que são suas opiniões o que devem impedi-lo de ser ministro do STF. É a falta de coragem de defendê-las. Pastores presbiterianos precisam ter fé em Deus. Ministros do Supremo precisam acreditar na Constituição.

11 de dezembro, oito anos depois.

10624986_10205264122385796_3279498198339093292_nQuando lembro da época em que tinha oito anos, lembro da cor das casas, da cor dos quartos dos amigos, dos “decalques” Hang Loose e Quebra-Mar que cobriam as janelas dos irmãos mais velhos, das empregadas que ajudavam a juntar tudo o que derrubávamos, lembro de coisas simples como o cheiro da comida da casa de cada um. Ou que cartuchos de Atari cada um tinha, o nome do cachorro dos vizinhos, a marca das bicicletas e a estampa dos skates. Ontem, da janela embaçada do trabalho e olhando para os carros ali embaixo, lembrei da janela embaçada do quarto do Gustavo, em Ipanema, de onde, numa manhã de chuva em 1981, eu olhava para a banca de revistas lá embaixo, esperando a hora de comprar novos pacotes de figurinhas, para os álbuns da Turma da Mônica e para brincar de “bafo” depois. Quando eu lembro daquela época, lembro de detalhes mínimos como o cheiro das maletas de carrinhos, da valise que os pais usavam, enfiadas com flanelas entre os bancos da frente das Belinas e dos Monzas. Lembro de descer a Paraíba ouvindo “A Voz do Brasil” todo dia, no carro do Tapajós, ao lado do André e da Mônica. Lembro do cheiro do Rio de Janeiro, do polegar direito duro depois de horas e horas jogando “Enduro”. O cheiro da comida da casa do Janus, o cachorro do Roosevelt, o picadinho com macarrão da Dona Rosa, a crise de apendicite do Fábio, o medo do “Matinha”. Ontem, 10 de dezembro de 2014, eu já não era mais eu, e sim o pai do vizinho. Ao chegar em casa de noite, vi o Jordan, filho do vizinho, brincando com o Marcos lá em casa, e me vi nele, 30 anos atrás, sentindo o cheiro da comida e prestando atenção nas coisas, em mim, que um dia eu guardava nos pais dos amigos. O curso das coisas é tão perfeito que, à medida que vamos ficando velhos, e isso é ruim, também viramos o “pai do amigo”, e isso é ótimo. Hoje meu filho faz oito anos de idade. Nasceu num 11 de dezembro chuvoso igual a hoje, em 2006, enquanto eu chorava de medo da felicidade. Quando eu lembro dos meus oito anos, me dá dó de hoje ser o pai dele, e não mais ele. De ter que sair cedo, debaixo de chuva, com a minha valise e a minha Belina, para trabalhar. Ele vai acordar daqui a pouco e ver a mesma janela embaçada, sentir a mesma saudade e viver a mesma felicidade de quem vai se formando com base nas cores, nos sons e nos cheiros que vai lembrar nos próximos oitenta anos da vida dele. Tenho saudade de ser o menino de oito anos, mas estou aprendendo como é bom ser da minha comida o cheiro que os amigos dele vão lembrar. É da janela do meu Del Rey que os primos dele vão sentir o vento, ouvindo as minhas músicas. Eu te amo assim mesmo, meu filho. É um tanto egoísta da minha parte, mas é que te fazer feliz é minha missão, desde aquela chuva de 2006. Por isso vamos ter cachorro quente, batata frita, refrigerante, maratona de videogame, cheiro de comida, bola batendo no portão da garagem e meninos suados guardando, para sempre, as lembranças da melhor parte da vida de qualquer um. Feliz aniversário, Marcos. E obrigado por toda a felicidade que você é para mim, para sua mãe, para suas avós, tios, amigos, primos e cadela.

Revolta é para profissionais

Inevitável, até para os menos interessados, ficar sabendo das manifestações que ocorrem em São Paulo, dia sim outro também, fechando a Avenida Paulista a partir do vão do MASP. Num dia com os indignados anti-Dilma, no outro com os indignados pró-Dilma, com os jornalistas pró-Dilma no meio. Aí a gente lê textos e assiste a vídeos e fica pensando: o que aconteceu com a indignação brasileira? Estamos mesmo condenados ao peleguismo de um lado e à ignorância do outro? E a resposta é sim, estamos.

Ora, se em vez de gritar “Independência ou Morte!” em 1822, vestido para a guerra e montado num corcel às margens do Ipiranga, Dom Pedro na verdade estava vestido de tropeiro e sentado numa mula, cercado por 20 gatos pingados e com uma baita diarreia, por que você acha que o brasileiro saberia protestar contra alguma coisa em 2014?

Tento explicar. Quando comparamos a história oficial com os relatos fatuais, fica mais fácil entender por que pacifismo não pode ser confundido com preguiça. E o caso brasileiro é de preguiça. No século 17, para que o país se tornasse independente da coroa portuguesa, não se ouviu um tiro, não se viu uma cabeça rolando. Nem um pingo de sangue, nem um estampido de canhão. Era independência para inglês ver, uma cena tão épica quanto falsa, na qual o monarca era cercado por dragões da independência que ainda nem existiam.

Não que seja o caso de fazer apologia da violência, mas convenhamos, quando ninguém percebe que houve uma revolução, é porque revolução não houve. O povo de antanho, bovino como hoje, não participava da vida política nacional, e a escravidão perdurou por mais 60 anos, o latifúndio, os privilégios aristocráticos etc. Dom Pedro nunca deu grito algum, até porque sua diarreia lhe faria passar vergonha.

E como isso pode ajudar a explicar o que se vê hoje? Bom, desde junho do ano passado – inclusive em junho do ano passado –, antes de se vestir de amarelo, as pessoas comuns precisavam saber quantos estariam nas ruas, o que estariam vestindo, contra o que estariam gritando. Brasileiro precisa primeiro saber se o evento vai bombar. O critério do cidadão brasileiro para mudar o país é baseado, portanto, na possibilidade de passar vergonha se não aparecer ninguém mais para mudar o país. Não faltam motivos, nestes dias, para ir às ruas protestar contra os governos. O problema é a patrulha jornalística, que afia suas canetas assim que não-militantes anunciam alguma aglomeração. Marcar protesto no Facebook, sem conhecer o público, sem fazer chamada, sem contar pontos para quem quer ganhar casa, sem os convênios sindicais que rendem 50 a 80 reais por manifestante, é simplesmente suicídio – ou um convite ao constrangimento.

Não por outro motivo já há, nas redações de norte a sul, a tradicional reportagem “Protesto contra corrupção reúne [X] pessoas em [CIDADE]”, desde que X < 400. Caso X > 400, como acabou ocorrendo um junho de 2013, o que era deboche rapidamente vira emoção. E, como emoção, também morre logo depois. Há uma militância velada nas redações – e o problema não é ser militância, mas ser velada – que está sempre a postos para caçar o lado ridículo de qualquer manifestação popular, desde que ela seja espontânea, sem comando e sem cor padronizada. Ou seja, no Brasil, protesto só é protesto se for ensaiado. Ou parece ter limite mínimo de participação: com menos de X pessoas, é mico. A partir dali, é protesto. Se der 5X, é revolução. Se aparecerem 50X, vira “jornada patriótica” na voz de Sandra Annenberg.

Ou por outra: protesto de rua, neste país, é coisa de profissionais como os sindicatos ou os movimentos de sem terra, sem teto e sem ocupação definida. Sem convidar ninguém, sem precisar convencer uma viva alma, essa gente bota 5 a 10 mil orcs nas ruas, dizendo-se trabalhadores, mas todos livres às quatro da tarde de uma quinta para parar as cidades. Quando tanto, apelam à turma do quebra-quebraameaçam parar o país se Sauron não vencer a eleição. E não se ouve um pio da imprensa caçadora de lunáticos sem uniforme.

No Brasil, para reclamar é preciso ter registro no “sindicato dos manifestantes profissionais”, e o que se vê nas avenidas das grandes cidades é ora o PT com seus orcs vermelhos, organizados, uniformizados e portando faixas padronizadas, ora o povo de verdade, sentado numa mula, com dor de barriga, vestindo ceroulas e sem saber dizer o que quer. Assim fica fácil o trabalho do deboche. Sim, é muito Brasil pagar manifestantes com dinheiro público, mas é mais Brasil ainda protestar contra a corrupção pedindo impeachment da presidente legitimamente eleita.

E o deboche, que requer bem menos esforço e trabalho do que enfrentar a vergonha de ir à rua, voltou às redações. O caráter nacional médio é feito desse comodismo sábio e do perfeito timing para evitar eventos esvaziados. Brasileiro só vai se todo mundo for. Só gosta se todo mundo gostar. Só se emociona se todo mundo se emocionar. Se o país entrasse em guerra, os convocados iriam esquecer o capacete, mas levariam o smartphone.

Para mim, isso explica essa cólica comportamental na qual o brasileiro caiu. Diante da escolha entre ser gado de esquerda ou infeliz de direita, o povo normal prefere ficar em casa e acompanhar as manifestações pelo UOL, à espera da próxima matéria, ou sobre os 1.000 envergonhados anti-governo, ou sobre os 10.000 sem vergonha pró-governo.

Dom Pedro estava sentado numa mula, com dor de barriga, cercado por soldados de mentira e à beira de um riacho, gente. Para proclamar a nossa independência. Você acha que o brasileiro ia mudar tanto assim depois de uma cena destas?

O brasileiro não tem medo de morrer na batalha por sua independência. Tem medo só de pagar mico e “viralizar na internet”.

O julgamento do leito número 6

Quando a vida e a morte lhe dão a oportunidade de começar a pensar nelas, todo ateu ou cético prefere rezar de olhos abertos. Se não é na cama de um hospital, pode ser perdido na mata, no meio de um assalto com reféns ou num avião com problemas no trem de pouso. Nessas condições e pelas dificuldades inerentes à incredulidade materialista deste tipo de ser humano, exotismos como Deus, o Diabo, o Céu e o Inferno precisam ser materializados em ferro, plástico, vidro, tecidos, sons e cores. Por isto os olhos abertos. Para este tipo de gente, imaterialismos são traços de quem transforma a preguiça de explicar o mundo em bobagens etéreas, geralmente ligadas a forças superiores. Até que um estampido de descarga de carro ou um rojão fazem deus virar Deus num instante.

Veja meu caso. Para mim, Deus tem um metro e vinte de altura e trinta centímetros de largura. É feito de alumínio e plástico, tem uma aleta central e 24 aletas transversais, dois relés e duas lâmpadas de 40 watts. É revestido em tinta metálica e traz uma película protetora de plástico extremamente difícil de arrancar. Há Deus de sobrepor e Deus de embutir, e a instalação de Deus geralmente é simples, mas depende da habilidade do instalador para lidar com um reator apenas, para duas lâmpadas.

Depois de quatro décadas vendo essa figura pintada nos domos e capelas, sempre majestosa, de barba e batas brancas, descobri Deus assim, embutido no forro de gesso da UTI número 6 de um hospital de emergências em Manaus. Aceso sobre mim, do fio de cabelo à unha do pé, como um scanner fixo ou um portal celeste. É óbvio que há um sentido mais prosaico e científico para aquela luz toda, mas o fato é que, com o prognóstico de que vai morrer, é natural que o paciente procure Deus no que há de mais luminoso por perto, principalmente se for uma luminária daquelas.

Tentei em todas as horas manter o centro da minha testa, entre um olho e o outro, alinhado à Sua aleta central, que percorria de cima abaixo toda a Sua divindade de 1,20m. Com o passar das horas, evitei virar o rosto, olhar diretamente no olho Dele ou ler Seus pensamentos. Durante três dias e duas noites, foi aos pés daquela luminária que chorei e que confessei meus pecados. Eram o que me cercava: Deus acima e ao centro, uma TV de 14 polegadas no canto esquerdo da parede, um porta-desinfetante para mãos no canto direito, logo na entrada, uma cadeira para acompanhante do lado direito e, à direita e atrás da cabeça, o monitor cardíaco.

Cheguei ali e, funcionando a 140 batidas por minuto – quando o normal fica entre 50 e 80 –, logo percebi que aquele aparelho decidiria o meu futuro, mostrando pressão arterial, frequência cardíaca e curva respiratória, pulso, capnografia, saturação de oxigênio, termômetro, equipado com baterias recarregáveis e a capacidade de detectar 13 tipos de arritmias. E o mais impressionante, com um sinal sonoro diferente para cada coisa dessas.

Se você nunca entendeu (ou sequer percebeu) a variedade de sons de uma UTI, passe seis horas seguidas ali, de preferência de visita e sem muito o que ler. Com o tempo, sua mente monta a sequência de bipes que viaja de um leito ao outro. Você já sabe que, depois de dois bipes agudos e um grave no leito 2, é a vez do leito 6, do 5, do 1, do 4 e depois do 3. Então há quase um segundo de silêncio absoluto e a sequência toda recomeça, entremeada pelo som vagaroso da ventilação mecânica do paciente do leito 1. A UTI, então, vira uma sinfonia diante do desconhecido e do tédio, comandada por Ele, o monitor cardíaco. E me permita o “Ele” com maiúsculas também, mas depois do primeiro dia é que percebi: a UTI número 6 virou, entre os dias 3 e 6 de setembro, a minha sala particular de julgamento.

E o monitor cardíaco era o Diabo.

Durante as 50 horas do meu julgamento, Deus apagou algumas vezes. Umas sem que eu notasse, dopado pelos medicamentos que precisavam quase parar meu coração. Nas outras eu pedi que Ele saísse do recinto. Não deve haver juízo teológico para o fato, mas o fato é que, naquela situação específica, Deus fez umas pausas, mas o Diabo nunca saiu do meu lado. “O acusador” não me deixava dormir, com seus bipes e sua tela em LCD, mostrando, bem grande, que o Ancoron na veia não me redimia pelos 140 batimentos. Dormi e acordei, fui ao banheiro e voltei e, sem trégua, aquele número ficava estampado atrás de mim, com O Acusador numa posição que me obrigava a me contorcer para vê-lo. Passei dias e noites literalmente, entre Deus e o Diabo, com pequenos intervalos comerciais para ver a Ana Maria Braga mostrar como é o emprego de coletor de sêmen de boi.

Eu vinha sentindo palpitações e faltas de ar esporádicas havia um mês. Marquei uma consulta e o médico, depois das perguntas de praxe, mediu minha pressão e meus batimentos cardíacos. Dali tirei a mochila dos ombros, desmarquei duas reuniões e lembrei que não tinha me despedido do Marcos mais cedo. Eu estava à beira de um colapso. Duas horas e depois de três ampolas de Adenosina, eu permanecia a 140 batimentos por minuto. O passo seguinte era ser levado, em cadeira de rodas e empurrado como um barril de 100 quilos de nitroglicerina, até a UTI número 6, para ter pêlos raspados, vestir a bata e receber os eletrodos da acusação.

Sim, há todo o ritual do julgamento. E diante da Justiça, nada mais didático, para zerar as diferenças entre ricos e pobres, magros e gordos, jovens e velhos, do que ficar nu, coberto por apenas uma bata de algodão, aberta de cima abaixo – variando se pela frente ou por trás. Uma equipe se ocupa de preparar a cama, os acessos venosos, a raspagem dos pelos, os eletrodos, as máscaras de oxigênio, mangueiras e sensores. O Diabo é ligado, configurado e assume seu posto, à direita e atrás. A TV, desligada. À noite e durante a madrugada, passei a pedir que não desligassem Deus, pois o Diabo não descansava. Foram duas noites acusado por um, velado pelo outro.

Passei 50 horas ali dentro, regendo mentalmente os Diabos particulares de cada um dos leitos daquela UTI, conhecendo médicos e médicos, enfermeiros e enfermeiros. O julgamento de uma UTI é como andar de carro sem dirigir, depois de muito tempo. Você enxerga casas e prédios que nunca enxergou, assim como percebe quem é mais ou menos feliz no trabalho, quem se dedica e quem mata o tempo, quem está pensando nos filhos e quem está pensando nos pais. O enfermeiro que ainda sente a alma humana, mesmo depois de tantos julgamentos sangrentos. O médico que assume ser humano e o outro que mal olha nos teus olhos; o paciente ao lado, acostumado a julgamentos deste tipo, entrando e saindo do tribunal da UTI como um bandido rico, que não teme mais a Justiça, e gente como você, que sai para trabalhar e uma hora depois está diante de Deus e do Diabo.

Orei e chorei muito, com o meio da testa alinhado à aleta central da face de Deus. Pedi clemência e quase desisti, virando o corpo e vendo o sorriso do Diabo, a mostrar aquele número, 140. Na noite do dia 5 de setembro, flagelado pelo que pareciam 40 dias e 40 noites no deserto, quando o Diabo já cantava vitória a seis bipes sonoros bem altos e agudos, Jesus Cristo entrou na UTI número 6, empurrado por dois enfermeiros e saudado por dois médicos intensivistas. O desfibrilador, ou cardioversor, é aquilo mesmo que se vê nos filmes e seriados de TV. Duas placas metálicas, meladas em gel e que, posicionadas no seu peito, vão eletrocutar seu coração para que ele volte a bater normalmente.

Resisti o quanto pude, pois queria ver o momento do veredicto, mas duas doses de Dormonid e também Propofol acabaram por me vencer. Não vi túneis de luz nem ouvi harpas ao fundo. Lembro apenas de acordar e ver aquelas pessoas todas se dispersando e se afastando de mim. Vi a luz de Deus, mas não ouvi mais a voz do Diabo, e então pensei: morri.

Tentei falar algo, levantar a mão e chamar alguém, mas não consegui. Tentei me virar para ver a cara dO Acusador, e nada. Meu médico se aproximou, me ajudou a me recompor e disse “deu tudo certo, viu?”. Me ajudou a olhar para o Diabo, e eu batia a 80 vezes por minuto. A voz Dele estava baixa, pausada e derrotada. Vi Jesus Cristo ser levado de volta ao canto da sala, como sempre em silêncio, deitei novamente e vi, sobre mim, novamente Deus. Chorei de gratidão, prometi mundos e fundos.

Passei ainda uma noite ali, com medo do Diabo virar a mesa. Mas ficou tudo bem. Na manhã seguinte, quando o Diabo ainda recolhia seus eletrodos de acusação, devolvi a bata, vesti minha roupa, agradeci aos jurados, me despedi dEle e olhei novamente para Deus. Eu precisava sair, pois outro réu iria ser apresentado para julgamento.

Lembro do prazer de ver novamente a luz do dia. Era a manhã de 6 de setembro. A porta do tribunal ainda estava atrás de mim, que esperava para atravessar a rua, e eu ainda pensava no que tinha acabado de passar. Percebi que, sem poder me despedir de quem me importava, fui acusado, defendido, julgado e absolvido na cama do leito número 6 daquela UTI; que o Diabo não dorme e não cansa, que Jesus sempre vai estar por perto e que Deus, mesmo em silêncio, só é desligado se pedirmos. A TV, percebi depois, era o Mundo, sempre nos distraindo do que é importante — como canta Geraldo Azevedo, como uma lareira no canto da sala, queimando o dia inteiro a raiz que existe em nós. Cheguei ao ponto de enxergar no desinfetante a água benta e na cadeira de acompanhante, o banco de igreja do meu julgamento.

Não era a moral da história, em forma de clichê, de um conto qualquer. Era o que tinha acabado de me ocorrer. E se hoje não consigo mais ver o rosto da Ana Maria Braga da mesma forma, imagine como encaro um monitor cardíaco, mesmo num filme na TV.

Saiba, portanto, como identificar certos ateus humilhados pela vida e pela morte. Procure uma luminária de embutir, com duas lâmpadas e gabinete espelhado, e preste atenção em quem faz o sinal da cruz ao passar por ela.