A Revolução dos Beagles

De um lado ou de outro, sejam quais forem os lados de qualquer questão, tem sido muito difícil para qualquer um não virar um chato. Veja o caso dos “Beagles de São Roque”, por exemplo. De um lado, claro, está o ativismo contra os maus tratos aos animais. Do outro, nós, os chatos que transformamos em esporte a caça ao chato. Na tentativa de escapar da chatice contrarrevolucionária (sim, a chatice fofinha é a revolução), tenho tentado fazer qualquer coisa a respeito dos cachorros resgatados na sexta-feira, mas está difícil. Não apenas porque os adeptos do slacktivism decidiram pegar seu carro e mudar o mundo, resgatando cachorros fofos, mas porque vivemos um tempo em que a piada já chega pronta. Veja a foto acima, por exemplo, e veja aonde foi parar a revolução nacional de junho. Não é ridículo que um bombeiro estenda a sua escada para salvar gatinhos presos em cima de uma árvore, mas é muito ridículo que a cara da nossa revolução seja um égua destes, usando a “máscara da vingança”, pose para fotos carregando um beagle assustado, sim, mas também gordo, saudável, limpo e brilhoso.

A ditadura da “Presepada de Facebook” impera e todos precisam botar seu próprio rosto – mas mascarado, por favor! – numa camiseta em estilo Che Guevara de butique bacana. O que é a “Presepada de Facebook”? É qualquer resultado objetivo, seja um vídeo, uma foto, uma montagem ou uma arte gráfica que venha de um ato de coragem supremo para os revolucionários destes dias. Pode ser uma vidraça quebrada do Itaú, pode ser um pedaço de caixa eletrônico de algum banco americano, pode ser uma foto de alguma BMW pichada na concessionária na esquina… e também pode ser o furto de um cachorro. Para tanto, é necessário apenas que essa meninada desengajada de tudo invente monstros, vilões, bandidos e bichos-papões que precisem ser combatidos. Podem ser políticos, pastores, empresas, bancos, governos… o importante é ter um vilão!

fabiana_justusDe sexta para cá, a “presepada de Facebook” mais famosa foram as fotos, tratadas no Photoshop, de “ativistas” carregando cachorrinhos assustados. Numa das fotos, a ativista salva o animal com uma mão, e com a outra mostra o dedo médio para o nada. Não dá para ver o alvo do “cotoco” da moça, o fundo da imagem é preto para dar gravidade à cena. Vi aquela foto e pensei o que poderia significar aquele gesto. “Abaixo o sacrifício dos beagles!”, ou simplesmente “Não é só pelos 178 beagles!”?

Nas redes sociais de linho à beira-mar, embaladas pelas seções de fofoca rápida, as subcelebridades comemoravam de seus smartphones. A gracinha Leandra Leal incentivava a adoção dos cãezinhos. A panicat Renata Molinaro falava das atrocidades do Instituto Royal. A top model Gianne Albertoni pedia para todos assinarem a petição online, pedindo providências contra o laboratório. Mais e mais cachorrinhos brotavam do Royal, assustadinhos, brilhosinhos, sem cicatrizes horrendas e sem mutações grotescas, e Fabiana Karla, aos prantos, distribuía hashtags super-engajadas como #assassinos, #ILovePets, #AcordaSaoRoque e #SOSBeagles. A apresentadora Antônia Fontenelle, as modelos Daniela Albuquerque e Renata Kuerten divulgavam os links da operação de resgate. Juju Salimeni lamentou: “É o fim saber que isso ainda existe e que seres humanos têm coragem de fazer isso!”. Por meia hora, o Instagram parou de exibir os “treinos” das gostosas profissionais, pois elas estavam sendo cidadãs.

O clima era de desembarque na Normandia, e eu imagino, pelo horário da operação (duas da manhã de sexta) o que teve de gente que precisou ir com o iPhone para o banheiro da boate para se engajar na luta dos “Beagles de São Roque”.

Para os contrarrevolucionários do lado daqui, como não poderia deixar de ser, nosso deboche aos revolucionários sempre é confundido com deboche às suas causas, como se o problema fosse a crença de cada um e não sua própria chatice religiosa. Não, eu não quero que cachorros fofos sejam mal tratados, sacrificados, congelados, perfurados, torturados, dissecados e usados para fazer sabão. Eu quero é que a ditadura da “presepada de Facebook” dê um tempo ao bom senso.

É preciso que saibamos que o meme de hoje é o nada de amanhã, como antigamente era o jornal de ontem embrulhando o peixe de hoje. Se cada um quer sua própria foto revolucionária, seja dando um cotoco para o nada, seja salvando um beagle, uma baleia cachalote ou um louva-deus, é muito fácil produzir as cenas no computador, sem que leis precisem ser quebradas, sem que o trabalho dos outros precise ser destruído, sem que dinheiro público precise ser rasgado e sem que carros importados precisem ser depredados.

Em tempo de “presepada de Facebook”, é até paradoxal que, para fazer sucesso virtual, esses ativistas precisem depredar coisas reais.

Vejo tanta gente bacana apoiando a bondade alheia, a bondade ativista, a bondade de ação, a bondade que não negocia, a bondade que não dialoga, a bondade que não arreda pé, não pega leve, não fala baixo nem pede desculpas, e imagino o que seria, para estes simpatizantes da presepada de Facebook alheia, se um grupo organizado de 20 ou 30 “ativistas” decidisse que seu trabalho é uma maldade contra a natureza, os beagles ou a vida em geral.

E se 120 pessoas, cada uma no seu carro, vindas de uma cidade vizinha, fossem chegando e estacionando no seu escritório? E se lhe acusassem de estar maltratando a natureza ao imprimir um relatório de 170 páginas em papel A4, com qualidade alta e sem economia de tinta? E se cada um destes ativistas roubasse três, quatro páginas do seu relatório, as levasse para o carro e sumisse com seu trabalho?

O caso dos “Beagles de São Roque” é um convite à chatice de lado a lado, compreendo. Devo estar caindo num dos lados da chatice -– o importante para mim, porém, é apenas que identifiquem o meu lado.

Mas cumpre dizer que a pelagem dos cachorros estava ótima, brilhosa e com cores fortes. Todos perceberam isso, mas ninguém admitiu. Sinal de que as pomadinhas e os xampus que sairiam daqueles testes, daqui a alguns meses ou anos, iriam fazer muito sucesso na cabeça das ativistas da seita mais chata dos últimos tempos, a ditadura da “Presepada de Facebook”.

Há uma página no Facebook chamada “500 terrenos para capinar antes de cuidar da vida alheia”, imagino que inclusive a dos beagles de São Roque.

Se as panicats descobrissem essa página, deixariam o bom senso em paz e ainda poderiam criar novas hashtags para o site EGO: #PartiuCapinagem #TreinoPuxadoNoTerrenoDoMeuTio e #CapinarFazBem seriam sucesso absoluto nas academias de ginástica, opa!, academias de treino!

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3 thoughts on “A Revolução dos Beagles

  1. ana disse:

    horrível, horrível………………

  2. wilson prata disse:

    Pensei que quando fosse abordar o assunto, iria usar o texto do uncle king (Tio Rei), visto que duas vezes no mesmo mês, estou tendo que concordar com ele. Eu merecia ate ouvir um “in your face, b-i-t-c-h”.

  3. Bruxinha disse:

    A lucidez de sempre…

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