O meu medo é de que um dia falem bem da gente. Me acostumei à realidade de que, se algum estudo ou relatório nos apontam como péssimos em educação ou em saúde, é exatamente porque somos ótimos em educação e saúde. Tive novas provas na noite de quinta, vendo o Jornal Nacional, que divulgava o ranking nacional do SUS, um estudo feito pelo ministério da Saúde sobre o atendimento básico no Brasil. A pesquisa apontava o Rio de Janeiro como a terceira pior rede de atenção básica do país. Aniversariante da semana, a Cidade Maravilhosa, uma das mais famosas do mundo e ex-capital federal, virou o detalhe mais importante da notícia.
Não é para menos. Constrangido, Sérgio Cabral, governador do Rio, precisou jogar a culpa nas cidades menores da região metropolitana do Rio, onde a rede é ‘frágil’. Do outro lado da lista das capitais, com a melhor nota, está Vitória do Espírito Santo.
Fato é que, à exceção da vergonha carioca, esse tipo de ranking quase nunca traz surpresas. Chatices como desenvolvimento humano, mortalidade infantil e taxa de analfabetismo sempre privilegiam estados das regiões sul e sudeste, trazem no meio os estados corriqueiros do nordeste e, no fim, a bendita região norte. Surpresa mesmo seria ver Rondônia, Acre, Pará e Amazonas em outras posições que não fossem as últimas. Deduzo isso vendo tevê e ouvindo rádio: quanto pior vamos, mais felizes estamos.
Aluguei minha casa por um ano a um casal catarinense, transferido pela empresa. Me devolveram a casa essa semana. Dona Elizabeth não tentou ser simpática: “Ismael, não suportei, não vejo a hora de voltar. Na minha terra eu não precisava trancar a porta a toda hora, a gente tá pagando caro uma escola particular pior do que a pública onde nosso filho estudava lá, as coisas são caras demais!”
Fingi concordar só pra ser educado. No fundo eu pensava “Então já vai é tarde. Se não gostou daqui, tem mais é que voltar para a terra dela! O Amazonas é pra quem o ama”.
Gente do sul é muito chata, com esses números de sempre.
Publicado originalmente no jornal Dez Minutos.