Quando garoto, eu ficava com pena daqueles peixes na feira, empilhados sobre a pedra, com os olhos brancos e sem o brilho das escamas. Uma vez perguntei à minha avó, cabocla do interior, como os homens pegavam os peixes. Ela me explicou que os peixes mais jovens, apesar da rapidez e da força, eram os mais fáceis de serem pescados, porque pegavam qualquer isca que se jogasse. Os peixes mais velhos, muito grandes e sem sabor eram mais espertos, já sabiam escolher o que comiam. Estavam já sem sabor, mas vivos. Havia uma lógica, tucunarés jovens, brigões e fortes eram os primeiros a morrer. Tambaquis velhos e sem graça ficavam em paz, morriam de velhice, no rio, onde haviam nascido. Não aprendi muito mais coisas sobre a realidade da vida dos peixes. Mas mesmo hoje, aos 38 anos, ainda continuo ficando triste ao ver tantos peixes jovens e bonitos sobre aquela pedra, sem brilho nas escamas, com seus olhos brancos. Não importa quantos eu venha a ver, sempre bate aquela pena deles. Um peixe jovem e morto é só um peixe morto.