A caça à raposa portuguesa

A caçada à raposa inglesa era um dos mais tradicionais esportes britânicos. Nobres, empresários, aristocratas e até príncipes usavam cavalos e cachorros para isso desde o século 16. A largada para a caçada era uma das ocasiões mais festivas para os ingleses endinheirados, que saiam em direção à floresta em meio a aplausos e banquetes no gramado, como se fossem à guerra.

Essa semana lembrei do príncipe Charles sobre seu cavalo, cercado de cães de caça, cavalgando em direção aos bosques sob aplausos, ao me deparar com a força tarefa montada por todo político manauara em anos pares: a água. Mas, como num programa de culinária, somos pobres e não temos os mesmos ingredientes da receita original. No lugar dos cavalos, usamos órgãos públicos, no lugar dos cães fox hound, usamos amigos da imprensa, e no lugar da raposa inglesa, usamos carne de ex-prefeito português.

A cada dois anos o debate da água deixa a elite amazonense, toda ela abastecida por poços artesianos em condomínios de luxo, com a boca seca de ansiedade. Os caçadores sonham com a raposa, tomam chá e planejam como caçar a raposa, ensinam aos cães o cheiro da raposa, preparam os cavalos para esmagar a raposa. O problema não é a água, é a raposa.

Em 2004, a caça à raposa inglesa foi proibida por lei, e até hoje os riquinhos têm pesadelos com o fim da farra. A expectativa é que, depois do episódio em que uma raposa entrou numa casa e atacou dois bebês, em plena Londres, a lei seja revogada e o esporte volte a ser legal. Para isso, seus amantes contam com o atual governo, conservador e simpático à causa.

A raposa é um bicho perigoso e, preservada, pode se reproduzir indefinidamente. Nas áreas urbanas do Reino Unido há 25 mil raposas como aquela que atacou as crianças. E como lá, aqui isso não pode ficar assim. A diversão, brutalmente interrompida em 2004, não pode voltar a ser ameaçada.

O importante, quando a temporada de caça começa a cada dois anos, é proteger a mais antiga tradição do nosso reino: a caça aos bichos que moram do lado de fora do clube.

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