
Como um romance de horror e o terror real poderiam nos ensinar a definir prioridades para as mentiras que precisamos derrubar.
Quando idealizou o roteiro de “A Vila”, em 2004, o diretor de cinema M. Night Shyamalan buscava a metáfora perfeita para o clima dentro dos Estados Unidos depois do 11 de Setembro de 2001. Isso é o que alguns especialistas em cinema – ou em Shyamalan, ou em Estados Unidos – defendem como a forma que o indiano encontrou para que seu filme driblasse a censura informal americana, causada primeiro pelo trauma dos ataques, depois pela privação de algumas liberdades individuais, com o “Ato Patriótico”, proposto por Bush e aprovado pelo congresso americano 45 dias depois dos atentados.
“A Vila” conta a história de um grupo de oito pessoas que, depois de perderem entes queridos de forma violenta nos centros urbanos americanos, decidem criar o refúgio perfeito para sua comunidade. Na Vila não há circulação de dinheiro, tudo o que é produzido é consumido pela coletividade. Ninguém do grupo, de 60 pessoas, pode sair da Vila, cercada por um bosque onde, diz o conselho de anciãos – os idealizadores do lugar –, há criaturas perigosas à espera de novas vítimas.
Quando o filho pequeno de August Nicholson, um dos “anciãos”, morre por falta de cuidados médicos, o estilo de vida da Vila é posto em dúvida. Lucius Hunt decide atravessar a floresta. Então carcaças de animais começam a surgir sem pêlos, como forma de intimidar quem mais se encorajasse a seguir os passos de Hunt, interpretado por Joaquim Phoenix.
Shyamalan não confirmou que seu filme era uma alegoria deliberada do espírito americano pós-11 de Setembro, mas as semelhanças entre o enredo de seu filme e o clima de século XIX implantado por Osama Bin Laden na Terra da Liberdade não permitem muitas dúvidas. Com o Ato Patriótico, proposto e aprovado sem o consentimento da população americana, o governo Bush abria brechas para que o poder público invadisse a privacidade dos cidadãos, com o pretexto de que tais medidas visavam interceptar e impedir novos atos de terrorismo em solo americano. Mesmo grampos telefônicos e buscas ilegais, sem a necessidade de se mostrar os motivos para isso, foram aprovados pelo Congresso.
Até ali pouco se sabia, entre a população americana, sobre os bosques que cercavam o país. Para o conselho de anciãos de Washington era essa ignorância notória da sociedade sobre as “criaturas” externas, aliada ao trauma dos ataques, o cimento perfeito para a consolidação do público sobre o particular. Estrangeiros, especialmente árabes, começaram a ser hostilizados, e uma onda de desconfiança se espalhou pelo país.
O bosque
Mas quando o advogado Brandon Mayfield, de Portland, foi apontado pelo FBI como personagem de uma conexão entre supostos terroristas daquele país e terroristas que promoveram ataque que matou 191 pessoas no metrô de Madri, na Espanha, em 2004, o segredo do bosque americano começou a ruir. Como Lucius Hunt, Mayfield passou por cima das regras impostas pelos anciãos e questionou o que, pela conivência de uma nação amedrontada, vinha sendo implantado no país sem consulta pública. Mayfield provou sua inocência e processou o governo pela invasão de sua vida. Num acordo, foi indenizado em US$ 2 milhões.
Como “Corpo Fechado” (2000) e “Sinais” (2002), “A Vila” não repetiu o sucesso mundial de “O Sexto Sentido” (1999), filme que levou Shyamalan do anonimato ao estrelato em poucos dias. Mas seu enredo ilustra o poder de manipulação que o medo outorga a quem assina o destino de uma sociedade inteira – por menor que ela seja. O microcosmo da vila Covington de 1897 é uma maquete da sociedade americana do início dos anos 2000, mas também o ponto de partida para a discussão de outras vilas.
O isolamento geográfico, a idealização da comunidade perfeita e a escolha de um fator externo como ameaça são o prefácio da cartilha de todo déspota moderno. Para criar paraísos socialistas na América Latina, feudos eleitorais no ABC Paulista, capitanias hereditárias no nordeste brasileiro ou o ambiente para a ‘direitização’ de um país na América do Norte, esse tripé é tão antigo quanto eficaz quando se quer pôr de joelhos até a sociedade mais intelectualmente preparada. Em 2001, poucos sábios se levantaram contra os efeitos do medo. O inimigo externo se materializara diante das câmeras de TV do mundo todo, ao vivo. Não havia argumento contra o medo.
Vilas e vilas
Mas há maquetes das maquetes. Encravada no meio dos bosques amazônicos, São José da Barra do Rio Negro foi escolhida a vila onde montueiros de caboclos, índios, portugueses e nordestinos se reuniriam para montar uma das cidades mais esquisitas do mundo. Havia aqui, desde antes de Cabral, o charmoso isolamento geográfico, árvores de copas altas, mato fechado e uma infinidade de espécies não catalogadas que poderiam ser eleitas como as “criaturas ameaçadoras” locais. Aliada a isso, a ignorância nativa e o histórico pacifismo involuntário de sua gente são o que no Êxodo bíblico era a “Terra prometida”, que mana leite e mel a quem nela chegar.
Nas últimas décadas, o Conselho de Anciãos amazonenses vem comandando a cidade no sentido inverso daquele idealizado por Edward Walker, interpretado por William Hurt em “A Vila”. Se no romance de horror de Shyamalan fazia mais sentido o isolamento da felicidade coletiva, desde os anos 50 vem prevalecendo na Cidade Sorriso a concepção do inferno coletivo, intocado por almas intrusas porque, neste caso, é o mundo externo quem tem medo ou fez um acordo tácito de paz conosco. Não se incomoda quem habita a vila de Manaus, e nenhum manauara precisará sair em disparada para o meio da floresta.
O episódio de um jornalista mineiro que achou lixo, prostitutas, preconceito e torcedores do Flamengo em Manaus é didático, não porque haja alguma relevância no festival de boçalidade do artigo de Eugênio Santana, autor de livros que não cita, poeta de poemas que não transcreve, jornalistas de reportagens que não indica e gerente de empresas que não nomeia. O rebu causado por seu artigo é didático porque exibe mais do espírito manauara do que de seu próprio caráter ou falta de profissionalismo. Eugênio não atentou contra a soberania manauara, mas violou o acordo tácito entre o mundo externo e os moradores da vila.
Não há ambiente melhor do que o caos para que a ordem seja buscada. Essa premissa só é derrubada quando o caos é regiamente institucionalizado, como se a bagunça generalizada estivesse dentro de um roteiro. O que ocorre em Manaus é um dos maiores crimes de “lesa-vila” de que se tem notícia, porque a manutenção da desarrumação é organizada e meticulosamente feita com a ajuda do silêncio de quem deveria falar, a imprensa em primeiro lugar, os sábios locais em segundo, a sociedade organizada em último. Se estúdios de rádio e TV, redações de jornal e a imprensa oficial burlam seu ofício de contar os segredos de seus oráculos e se o coletivo é a geléia geral da balbúrdia, está montado o cenário para que um clube de anciãos estenda suas garras sobre a sociedade.
Fica desnecessário julgar se nossos anciãos são ou não bem intencionados. Em 2001, pouco se podia duvidar do patriotismo de George W. Bush. O importante, quando tudo parece perdido, é que essa sociedade desmontada comece seu remonte, e isso passa necessariamente pelas categorias historicamente ligadas à discussão da sociedade, como os estudantes, os intelectuais, os professores, os acadêmicos. São estas pessoas as que tradicionalmente são procuradas, nas aldeias mais remotas da Oceania e nas maiores metrópoles da Europa, para apontar uma direção para o povo.
“Mundo Bizarro”
Manaus vive um de seus piores momentos como cidade, e suas mazelas são tão óbvias que é custoso encontrar novas formas de listá-las sem acabar no lugar-comum do transporte público, da mobilidade urbana, do saneamento e do investimento em educação. Mas o fato é que a engrenagem que criou o mando histórico do nosso clube de anciãos é uma máquina paralela que tirou da cidade décadas de possibilidade de crescimento. O manauara, rodeado por outros pequenos vilarejos no interior amazonense, não se diferencia das republiquetas africanas onde amiúde são descobertos tiranos que desviavam a riqueza de um país inteiro. Não necessariamente para si, apesar de ser essa a regra geral, mas para a manutenção dessa ordem.
Como uma dessas republiquetas, Manaus se arvora o direito à autodeterminação, exigindo a soberania para que siga no caminho do assassinato seguido de gerações de cérebros e talentos. Como republiqueta, Manaus pendura no seu mural de estadistas locais uma penca de políticos que, fora do perímetro da floresta, mostram o que são, anões morais e políticos. Nossos estadistas não sobrevivem à mata fechada do mundo externo.
Antes que decidamos discutir as soluções para a novadelização do centro ou para as vias de escoamento do trânsito, portanto, precisamos primeiro perguntar uns aos outros: afinal, chegou a hora de debater a vila que queremos para nossos netos ou não? A primeira impressão é a de que todo debate de esvazia em si. Oportunidades de longo prazo são rapidamente desperdiçadas, como os projetos para o transporte coletivo, um dos problemas mais urgentes do manauara. Antes que comecemos a discutir o sexo dos anjos, a idiotia do jornalista mineiro ou a cor da iluminação de inauguração da Arena Amazônia, é preciso, sem discussão, instalar rede de esgoto, tubulação de água e fornecimento de energia em toda a cidade. É necessário, antes de ensinar o atendente de loja a falar espanhol, ensiná-lo a falar português.
Não é fácil. Não porque educar uma vila inteira requeira tempo e dinheiro, mas porque Manaus precisa de algo que parece ter sido perdido ao longo do tempo – ou que nunca tenha existido por aqui –, a noção de que a cidade vai mal, e não pode se refazer sem a participação do povo. O imobilismo das categorias que chacoalham a pasmaceira das nações, como os pensadores e os estudantes, é fenômeno nacional. Na ausência de um inimigo externo ou de uma causa pela qual lutar, como a Liberdade de Expressão, as pessoas que pensam a nação ficam à deriva, e estudante e pensador à deriva é estudante e pensador à venda.
Críticos dessa ordem logo viram “oposição” e o ato de apontar algo errado vai logo sendo rotulado na categoria dos que não gostam da vila. Esse é mais um ingrediente do “mundo bizarro” manauara, onde tudo é invertido. Elogiar a bagunça e defender o caos vira patriotismo, enxergar o que vai errado vira denuncismo, inveja.
Jesus Cristo costumava usar parábolas para transmitir suas lições ao povo. Como americanos, brasileiros ou manauaras, os judeus pareciam pouco letrados para entender o que ia na essência do coração do Mestre, que celebrizou a metáfora muito antes de outros salvadores latinos. M. Night Shyamalan escreveu sua parábola para tornar palatável a constatação daquilo no que a América vinha se tornando depois do 11 de Setembro.
A demonização do exterior, a idealização do local e a montagem fraudulenta dos argumentos que mantinham essa ordem de pé, no filme, acabaram derrubadas. Assim que os primeiros loucos arriscaram adentrar os bosques, foram sendo revelados os segredos não das “criaturas ameaçadoras”, mas dos criadores da vila. “Aqueles de quem não podemos falar”, como eram tratadas essas criaturas, estavam dentro das casas, e não na floresta.
Felicidade protegida
Em muito Manaus se assemelha à Vila Covington, na Pensilvânia, em 1798. Primeiro no ponto histórico em que as duas se encontram. Com infra-estrutura digna do século XIX, a realidade local torna crível a ficção americana. O medo do desconhecido e a passividade com que aquelas 60 pessoas aceitavam as regras feudais e os acordos tácitos com criaturas estranhas – que apesar de estranhas sabiam fazer acordos – vêm moldando o caráter manauara há décadas, sem que para isso exista o motivo maior de tanta mentira: o mundo perfeito. Se Edward Walker e seus anciãos tinham a seu favor o argumento de que havia um lugar bom a ser protegido, não temos a nossa Covington.
Em Manaus corre muito, muito dinheiro, e cada um precisa trabalhar muito para ter o que comer. Outros tantos precisam tomar dos outros. O reverso das duas histórias é tal que lutamos ardentemente para preservar o nosso direito de tolher o direito alheio, seja no trato da coisa pública, seja na poltrona do cinema, seja anulando uma das duas faixas de rolagem da rua em frente ao banco ou à escola. Para que os anciãos de Covington pudessem tramar e manter as formas de manter seus segredos seguros, era necessário que aquelas 60 pessoas vivessem num mundo considerado feliz. Com segurança, alimento, educação, saúde e proteção igualitários.
Este era o mundo americano antes de 11 de Setembro de 2001. Para que as liberdades individuais e a pujança econômica da América fossem defendidas, era necessário torrar trilhões de dólares em guerras e até revogar algumas dessas liberdades. Mas o imobilismo causado pelo medo do terror tinha data de vencimento. Assim que se ergueu do luto pelas vítimas do World Trade Center e do Pentágono, a nação de Roosivelt e Lincoln não se deixou domar e se tornar a nação de Bush. Quando se conquista a liberdade com guerras sangrentas e o sacrifício dos defensores dessa liberdade, fica muito difícil enganar tantas pessoas por tanto tempo.
As mentiras de Edward Walker puseram fim ao paraíso terreno de “A Vila”. As mentiras de George W. Bush puseram fim à idealização de uma América aleijada, religiosa e intolerante. Foi assim que Ivy, a menina cega do filme de Shyamalan, correu em pela floresta em busca do remédio que salvaria a vida de Lucius Hunt e encontrou a verdade. Foi assim que a América se livrou das mentiras de guerra de seus anciãos.
Antes de eleger criaturas externas como inimigos, Manaus precisa primeiro acabar com suas próprias mentiras, como a de que nossa Vila de São José da Barra do Rio Negro é feliz. Depois a mentira que nos contaram sobre as criaturas ameaçadoras da floresta.
“Aqueles de quem não podemos falar” são sempre os anciãos da nossa própria vila.
Eu sempre penso sobre isso, que manaus é uma cidade bizarra. Como vc disse, aqui rola muito dinheiro (apartamentos de 100 e poucos metros quadrados custando 1 milhão+ de reais já são corriqueiros; marinas com lanchas e jet skis até o teto) e falta tudo, da água a nutella – que eu nunca mais achei pelos supermercados.
Ao passo que o povo tonto daqui é super orgulhoso porque só aqui tem tucumã e o encontro das águas.