Higienópolis não é aqui

by Ismael Benigno

Foto: Antônio Menezes / A Crítica

A primeira incursão da intelectualidade amazonense na análise da questão haitiana em Manaus saiu hoje, num artigo da jornalista Mazé Mourão, intitulado genialmente ‘O Haiti não é aqui’. No texto, a imortal da Academia Amazonense de Letras esculhamba a invasão de haitianos em Manaus e, em tom de reclamação, escreve: “A cidade está um verdadeiro contraste de cores, rostos e roupas”. O texto segue, falando na esperteza dos refugiados ao tomar vagas de manauaras, nos ônibus e no mercado de trabalho, e tasca um dos maiores clássicos paulistas contra migrantes nordestinos: “Por que os haitianos não ficam em Tabatinga ou vão povoar outros municípios amazonenses?

Manaus realmente anda esculhambada, mas é de longe o melhor dos municípios amazonenses pra quem precisa de emprego, casa e dinheiro. Não fico feliz em ver tanta gente chegando à cidade também. Meu instinto humanitário não vai muito longe, e consigo enxergar, ali na esquina, problemas sociais como violência, emprego e moradia explodindo no colo da cidade.

O componente racial atrapalha a discussão, porque qualquer crítica é creditada ao racismo. O perigo maior da ‘invasão’ haitiana em Manaus, porém, não é social. Era o de que a questão acabasse analisada com nosso manjadíssimo elitismo de província. E o perigo se concretizou.

Vamos ter problemas à frente, como teríamos se os imigrantes miseráveis fossem brancos, asiáticos ou árabes. O mais preocupante, no entanto, é ver que a primeira manifestação da elite pensante da cidade acabou mais parecendo um chilique da socialite Narcisa Tamborindeguy contra pobres do que uma tentativa de entender o problema que ainda vamos ter. Até porque boa parte da elite econômica manauara chegou aqui – e isso Mazé sabe – só com a roupa do corpo, e hoje esbanja riqueza.

A julgar pelos indicadores oficiais comemorados pelo próprio governo, o Amazonas tem plenas condições de receber refugiados estrangeiros. Somos ricos, nosso interior é pujante, nossa produção industrial e rural é enorme, batemos recordes de emprego e temos programas sociais feitos sob medida para pessoas sem teto. Então onde está o problema?

O problema não é a diferença entre os números e a realidade, coisa que todos conhecemos. Sinal disso deu o governador Omar Aziz que, com razão, disse que precisa priorizar os problemas do povo amazonense. O problema não é saber que a capital está afundada em seus próprios problemas e que o interior está entregue à própria sorte, mesmo sem ter sofrido terremoto. O problema é transformar um problema social em discussão de champanheria.

Na discussão do quesito Haiti, Manaus começou muito mal.


O título do post é referência à psicóloga Guiomar Ferreira, que em agosto de 2010 criticou o projeto de construção de uma estação do metrô em Higienópolis, bairro chique de São Paulo, alegando que o metrô atrai mendigos, drogados, ‘essa gente diferenciada’.