O ogro, a princesa e o descolado que você viu? Não, os PMs, o delegado e a realidade que você não viu!

by Ismael Benigno

Sim, falar do Big Brother é meio 2001. Mas se o próprio programa não sabe a hora de se aposentar, por que não comentar o fato que, finalmente, o transformou em pauta interessante?

Pra começo de conversa, não assisto o programa. Também não o demonizo como futilidade de quem não tem com o que se preocupar. É pior: eu ignoro o Big Brother. Assisti boa parte da sétima edição (acho que foi essa), vencida pelo Diego Alemão. Antes dela e depois dela, nunca acompanhei. O que perdi com isso? Somados os três meses anuais que duram cada edição, fiz as contas e vi que perdi três anos de discussões, piadinhas e bafafás de cortiço, apenas maquiados por uma casa de rico, onde até o gramado deve ser do patrocinador.

O Big Brother virou pauta interessante porque, depois de mais de dez anos, finalmente deu um bug, apresentou defeito, deu tilte. O episódio do suposto estupro não foi importante em si, porque convenhamos, se ainda é difícil pra você entender que sexo com uma pessoa desacordada é estupro, ou você para de beber logo ou evita pegar no sono na presença de pessoas estranhas. O escândalo não é o rapaz, depois de se amassar com a moça, não suportar ir dormir sem sexo. Infelizmente, isso é o que mais tem por aí, depois das baladas, entre essa moçada jovem, bonita, sarada e confusa sobre o que é sexo consentido ou não. Estupro é estupro, e o fato de um deles ter ocorrido ao vivo, pro país inteiro ver, é a primeira grande falha num programa moldado, formatado pra não ser reality, apesar do nome.

Não vejo muita diferença entre o Daniel Filho convocar a Mariana Ximenes pra ser a mocinha ou o Eduardo Moscovis pra ser o descamisado de uma novela, e o Boninho convocar a Patrícia para ser a princesa e o Manoel pra ser o nerd do Big Brother. Que diferença faz se a Patrícia não é atriz profissional como a Mariana? Se há um enredo a ser seguido ou regras (secretas) a serem cumpridas, qual a diferença entre o BBB e a novela da Griselda?

O escândalo está na direção, na produção e na apresentação do programa. Não me importo se uma moça sofreu abuso sem perceber. Não me importo se um rapaz deu uma infringida rapidinha no Código Penal. O que me incomoda é ver, a troco de milhões de reais em patrocínios e publicidade, uma gigante como a Globo se prestar ao papel de acobertar um crime, e pior, tentar encobri-lo criando um casal romântico de mentira. Pela lógica do que vi na tevê e na internet desde domingo, os casamentos forçados de meninas iranianas com homens que poderiam ser seus pais poderiam facilmente virar uma linda história de amor, se o regime aiatolá fosse parceiro comercial da emissora. É isso mesmo? Um crime não é bem um crime, se ele oferecer riscos financeiros à maior mina de ouro da televisão brasileira?

Com que cara o jornalista Pedro Bial vai recitar seus poemas e romantizar a alma dos participantes mais tarde, quando for anunciar o ‘primeiro’ eliminado do programa? O Pedro Bial, que vi cobrindo a queda do Muro de Berlim em 1989 e que hoje vejo apenas recitando poema de paredão de Big Brother, vai mesmo conseguir recuperar no espectador aquela aura de decifrador de sonhos, mago das palavras?

Pra mim, o que fica do episódio é a cena patética da emissora tentando esconder a falha da Matrix. O tesão do rapaz avançou além do script, os cameramen não foram treinados para tanta realidade. A produção desligou o pay-per-view, cortou o som dos microfones, a moça sumiu da frente das câmeras por horas e horas, e o rapaz foi simplesmente deletado da tela, sem uma cena de carro despencando, como nas novelas.

Deu tudo errado. A polícia chegou ao estúdio pra dar uma espiadinha, um inquérito foi aberto, os atores foram interrogados. A imprensa internacional ficou sabendo, noticiou, o assunto tomou conta da internet, onde milhares de dúvidas legais foram surgindo ao longo do dia. Machismo, hipocrisia, humor, estupro, abuso, fingimento, contradições, a moça acordou com short ou sem short… E a dona disso tudo, na voz de seu poeta-apresentador, fez cara de paisagem: “O espetáculo tem que continuar!”, disse Bial, depois de anunciar a deleção do rapaz, que teria infringido uma regra do programa, e não o Código Penal.

Hoje, como tudo o que cerca o Big Brother desde sempre, a polêmica já é quase passado. Passam as bundas, os rostos, as gírias, as intrigas e as estratégias da madrugada. Passa o PPV do programa, passa a fatura do cartão, esquecem-se os nomes do ogro, da princesa, do nerd e da barraqueira, e ficam apenas os milhões, milhões e milhões, arrecadados pela emissora e pelos anunciantes, além dos milhões recebidos pelo diretor, pelos produtores e pelo apresentador.

Ouço a humanidade falar mal da Rede Globo há muito tempo. Nunca dei bola, até ontem, quando vi que uma das maiores emissoras de tevê do planeta aceitou encobrir um estupro transmitido ao vivo, mesmo amordaçando funcionários e participantes, que agora são obrigados – provavelmente pelas ‘regras do programa’ – a silenciar sobre o caso.

Não deixa de ser uma deliciosa ironia, para alguém que nunca gostou da fórmula, ver que o ‘show da realidade’ da Rede Globo é uma tentativa frustrada de controlar seres humanos de olho no caixa, como se a realidade pudesse ser controlada.

O suposto estupro do Big Brother não desmoralizou a moça, tampouco o rapaz. Desmoralizou a emissora e seus magos milionários. Desmoralizou os versinhos de serenata de Pedro Bial, desmoralizou o playboy Boninho, que nunca fez questão de esconder que vale muito pouco como ser humano.

Desmoralizou, acima de tudo, a legião de aficionados na atração, fascinados pela tal tevê realidade e defensores das nuanças sociológicas e filosofais que o programa tem, escondidas ali entre uma garrafa de energético Fusion, um tablete de caldo de galinha Knorr, um carro Fiat ou uma sanduicheira Carrefour.

Realidade e sociologia uma ova, minha gente. Dos doze anos de programa, a única vez em que a realidade participou da festa foi ontem, quando a polícia foi apurar um crime. E quando a realidade entrou na ‘casa mais vigiadada do Brasil’, você, espectador, foi impedido de dar sequer uma ouvidinha, quanto mais uma espiadinha. Quem diria, você ‘pagou-pra-ver’ um reality show, mas desligaram o som e tiraram a imagem da reality do ar.

Durma com uma realidade dessas.

Aliás, não durma.