Pobre Acre

by Ismael Benigno

O jornalista Altino Machado teve acesso a uma cartilha, elaborada pelo Governo do Acre e distribuída entre servidores estaduais, que dita 42 regras de uso das redes sociais na internet, com o Twitter e o Facebook. A peça é uma violação de direitos pessoais dos funcionários, não por listar regras universais de etiqueta que independem de governos ou empresas, mas por ditar o que os funcionários devem fazer com suas contas pessoais, obrigando-os a passar à frente conteúdo político e institucional, mesmo não querendo.

Parece absurdo, mas o Governo do Acre está obrigando seus servidores comissionados a puxar o saco do chefe. Está na regra 21: “Dê RT no @tiao_viana”. A assessoria do governo diz algo lógico: nada mais normal do que órgãos de assessoria serem orientados sobre seu comportamento institucional. O problema é quando a ‘assessoria’ deixa o perfil institucional e o funcionário, pessoa física, passa a ser policiado sobre o que faz já em casa, de sandália de dedo e bermudas.

O Governo do Acre precisa entender que, independente do número de RTs que receba, na internet a qualidade da imagem vale mais do que sua massificação. As autoridades acreanas também precisam saber distinguir veículos ou meios de massa de um meio onde, às vezes, ser muito comentado não traz votos, mas sérias manchas na imagem.

Outros pontos da cartilha ensinam os bons caminhos aos funcionários: “Tenha bom senso ao seguir alguém no Twitter. Ao seguir pessoas você evidencia suas relações”. O famoso “dize-me com quem andas e te direi quem és” é outra excrescência que o planeta inteiro sabia existir no território acreano, mas que agora foi declarada publicamente.

O caso acreano de manipulação e policiamento de servidores públicos, apesar de extremamente raro, merece atenção. A conivência do resto do mundo com a cartilha traz o risco de que, em pouco tempo, outros governos acabem cometendo o erro de confundir máquina pública com aparelhamento político pessoal, pago com dinheiro público.

Se essa novidade puder ficar apenas no Acre, que os estados vizinhos fiquem de olho e evitem cometer o mesmo erro.