O Armagedom manauara
by Ismael Benigno
No final da tarde de ontem, imaginei o presidente, Morgan Freeman, entrando em rede estadual de rádio e televisão, para dar a triste notícia aos manauaras:
– Manauaras e manauaras, hoje peço a atenção de vocês para cumprir o meu dever como Comandante em Chefe desta gloriosa nação. Infelizmente a notícia que lhes trago não é boa. Cientistas do nosso observatório espacial na Mansão do Tarumã detectaram, há 10 meses, o que seria uma imensa massa de ar e água em direção à órbita manauestre. Depois de meses e meses de intenso trabalho, cálculos matemáticos e projeções, foi elaborado um relatório conclusivo sobre o que nos aguarda para as próximas horas. Batizamos a massa de ar e água de CHUVA, um composto letal para nossa raça. Uma missão não tripulada tentou desviar o objeto para o Pará, mas não tivemos êxito. Portanto, sinto informar que agora é oficial…
E continuou, pausadamente e com aquele tom grave.
– Vai chover em Manaus.
Manauaras, manauaras e manauarinhas vão parando em frente às vitrines das lojas de eletroeletrônicos na Avenida Eduardo Ribeiro. Camelôs sintonizam suas pequenas tevês ching-ling para ver o pronunciamento. Famílias inteiras se abraçam no Largo São Sebastião e vêem, sobre a cúpula do Teatro Amazonas, a gigantesca cumulonimbus se aproximando…
E Morgan Freeman continua.
– A chuva nos atingirá precisamente às 17h30 desta sexta, 6 de janeiro do ano 2012 da Era Cristã. O impacto imediato das bilhões de gotas de água matará milhares de nós, instantaneamente. Semáforos deixarão de funcionar, serviços de telefonia entrarão em colapso, rádios e tevês sairão do ar. Manaus ficará seis meses na escuridão. A falta de luz natural matará nossa vegetação, e os gases tóxicos farão outras milhares de vítimas. As aulas ficarão suspensas, o Discovery Kids será cancelado. Na Cachaçaria do Dedé, no shopping Manauara, dezenas de clientes aproveitarão a escuridão para sair sem pagar suas contas. Luzes de emergência não funcionarão, cruzamentos serão fechados e milhares de motoristas dirigirão com o pisca-alerta ligado. Alimentos e bebidas ficarão escassos, por isso planejamos o racionamento de comida e água. As saídas da cidade serão interditadas, barreiras deslizarão na BR-174 e nossa ponte, este colosso arquitetônico que nos liga à civilização irandubense, será fechada por causa das gotas de água espacial.
A música emocionante cresce ao fundo. Flamenguistas e vascaínos se abraçam no Eldorado. Filhos pedem perdão aos pais e nas prateleiras das lojas de conveniência, garrafas de vodca e energético são vendidas a R$ 300 o kit, e vendem como água. Redações ficam em povorosa, infográficos começam a ser desenhados para explicar à população como funciona o fenômeno da chuva. No enorme telão instalado no cruzamento da Sete de Setembro com a Eduardo Ribeiro, a multidão olha para o alto e prossegue ouvindo Morgan Freeman. O silêncio é total.
– Desde que nossos cientistas me informaram sobre a chuva, decidimos pensar em formas de assegurar que a raça manauara não será extinta pela chuva. Construímos 12 enormes abrigos subterrâneos, preparados para receber representantes da nossa elite intelectual, aqueles que, depois da chuva, terão a missão de repovoar a cidade, preservando o espírito manauara, guerreiro, obstinado, capaz de renascer das trevas e devolver à cidade a o papel protagonista que ela se acostumou a ter no cenário mundial. Por isso, escolhemos a dedo aqueles que darão à nossa civilização uma nova chance. Apresentadores de tevê, colunistas sociais, jornalistas, donos de canais de rádio e tevê, proprietários de pequenas empreiteiras e importadoras, sócios de agências de publicidade, donos de cartórios, revendedores da Apple, instaladores de porcelanato, policiais militares e donos de institutos de pesquisa.
E Morgan Freeman termina:
– Manaus já atravessou catástrofes antes, e sempre renascemos para provar que somos mais fortes. Foi assim que nossos antepassados sobreviveram à miséria, à falta de água, ao analfabetismo e aos surtos de malária. Sim, muitos manauaras perderão suas vidas, suas motos e suas bancas de camelô. Pais, filhos, irmãos e cunhados perderão seus entes, mas com os escolhidos por nosso governo, sei que o destino de nossa cidade é ressurgir das águas. Que Deus nos abençoe e nos proteja.
Muito bom o texto..rir demais tbm :)
Nada a acrescentar! Rindo demais……
quem tem seu barco que tente entrar na cota!
hahahahahahahaha tenho 2 colocações à fazer:
1) Com esses “escolhidos” ficaria BEM dificil repovoar a cidade
2) Quem dera se o Morgan Freeman fosse de fato nosso líder/comandante