É como no futebol: “Quem não faz, ouve!”
by Ismael Benigno

Não interessa se eu gosto ou não das músicas (desculpem, canções) dos Los Hermanos. Mas se o tal Bruno Medina, integrante da banda mais culta e barbada do país, se dá ao trabalho de escrever para Michel Teló, então eu também posso. Não para pedir que o vetor de contaminação de “Ai, se eu te pego!” fique longe do Brasil, como o Bruno fez, mas para perguntar por que, afinal, músico culto e barbado não gosta de sucesso?
Em sua carta a Teló, Medina lembra que passou pelo mesmo inferno do sucesso, ao ver Anna Júlia ser tocada no país inteiro durante vários meses. Deve ser horrível mesmo. Imagine você, culto e barbado, com sua camisa xadrez e seu All-Star puído na fila do pão, sendo reconhecido por um refrão sem verbo, sem conjunção, sem sequer um pronome!
“Ô, Anna Júlia-a-aaaaa-a-aaaa…”
Kurt Kobain, que encantou a moçada da barba, da camisa xadrez e do All-Star puído, se matou depois de ver diversas músicas do Nirvana virarem sucesso. E olhe que as músicas nem eram lá essas coisas.
Não sei o que é pior, se é a usina atômica da Som Livre, disparando mísseis de longo alcance a cada seis meses, como Luan Santana e Michel Teló, ou aqueles que sabem fazer música mas preferem não fazer, porque sua proposta filosófica ou seu ideário cultural não combinam com sucesso.
A carta do Hermano Medina não é importante por causa de Michel Teló, mas por remexer uma chaga da cultura nacional, a ideia de que o que é bom não pode ser popular, ou deixa de ser bom porque ficou popular. Incapazes de oferecer qualquer coisa que levante fervura na música brasileira, os Los Hermanos decidiram criticar o que consideram porcaria, utilizando como parâmetro seu único sucesso! É odiar demais Anna Júlia!
Há vários meses o Brasil vem assistindo, passivamente, a Rede Globo e a Som Livre enriquecendo esse urânio musical na cara da ONU, sem reação. Até que Luan Santana fechasse o pacote Video Show – Faustão – Fantástico – Criança Esperança – Show da Virada, vimos aquele rapaz completamente desconhecido nos intervalos do Jornal Nacional, num DVD gravado num lugar estranhamente lotado. Assim que Luan foi disparado e fez o estrago que fez, a ogiva Michel Teló começou a ser montada. Ou você não viu, durante meses, o rapaz nos intervalos do JN, em comerciais da Som Livre, gravando seu DVD aparentemente no mesmo lugar e com o mesmo público de seu sucessor?
Sobre Michel Teló, o que dizer mais? A música é uma porcaria? É, como também é Luan Santana, Maria Gadú, Parangolé e Ana Carolina. Nada disso, porém, tira dos criadores de porcaria o direito de fazer sucesso. “I got a feeling, uuuu-hú…”, dos Black Eyed Peas, é tão rasa e boba quanto “Delícia, delícia, assim você me mata…”, mas tem melodia. E música, amigos, é melodia, gostemos ou não. O problema da música brasileira não é o Teló, igual a ele há mais mil – e a Som Livre já tem uma meia-dúzia de hits de verão no forno.
Não é a música “Ai, se eu te pego!” o que incomoda. Muita porcaria igual já foi sucesso no Brasil, e muita porcaria igual ainda será sucesso no Brasil. O que incomoda é não saber como agir diante de quem adorou o hit do verão 2012. Pra mim não é chato, é constrangedor. Numa festinha de fim de ano e cercado de pessoas cantando “Ai, se eu te pego!”, como o Bruno Medina, eu me sinto o único humano no meio de babuínos. Nem melhor, nem mais culto, nem mais higiênico. Apenas humano.
O problema é a jequice brasileira de querer ser cult. Se tentassem, com suas camisas xadrez, suas barbas grandes, suas guitarras encardidas e seus All-Star puídos, apenas fazer uma música de sucesso – e que também fosse boa! –, os Los Hermanos ajudariam o Brasil a se livrar do Michel Teló mais facilmente do que apenas destilando rancor. Rancor contra porcarias como “Ai, se eu te pego!”, que não tomam o lugar da música boa na preferência nacional. Apenas ocupam um lugar, deixado vazio por gente talentosa que tem nojinho de sucesso.
Os Los Hermanos, que terminaram a banda e deixaram milhares de fãs (muitos amigos meus) órfãos de suas dissonâncias, desafinações e acordes exóticos, ainda vão precisar escrever muito, pedindo que outros artistas se retirem do país por terem feito tanto sucesso quanto (cof-cof) Anna Júlia. Vocês não vão nos livrar de música ruim mandando o Teló embora do país. Experimentem fazer música boa, mas que também faça sucesso!
Vêm aí Maria Cecília e Rodolfo, uma dupla de sertanejo universitário que também gravou um DVD, no mesmo lugar e para as mesmas milhares de pessoas, e que também está nos intervalos do Jornal Nacional há vários meses. Como o “Meteoro da Paixão” de Luan, e “Ai, se eu te pego!”, do Teló, eles também têm sua ogiva nuclear: “Você de volta – versão axé”.
Anotem esses nomes, Los Hermanos: Maria Cecília e Rodolfo. Eles têm até outro sucesso no DVD deles, especialmente pra vocês: “A fila andou”.
Muito bom mesmo! Medina não acrescentou em nada a discussão sobre o sucesso do Michel Teló. Acho que o motivo para a carta foi tanta raiva no Ano Novo, isso sim. Música ruim tem em qualquer lugar mesmo, mas é sempre aquela mania de defender os seus e tacar o pau no dos outros. Como se Los Hermanos fosse a melhor banda do mundo. Que nem é mais, porque já acabou né?! Ótimo texto. Abraços!
Pqp! Estou aplaudindo aqui na varanda (apenas mentalmente, mas estou). Abs
Não é novidade, eu sei. Mas que texto sensacional, hein?! =)
[...] escrito desde segunda-feira, mas fiquei enrolando pra publicar. Considerei não publicar depois desse post do Ismael e desse post do Gravz que meio que falaram muito do que eu gostaria de ter escrito. Mas como [...]
Quando comecei a lê seu comentário, lembrei-me rapidamente de quando o pessoal do Ceará (Fagner/Belchior/Ednardo) despontou para o cenário da música brasileira. Enquanto era novo, exótico – servia a cultura emergente: depois que se popularizaram principalmente Fagner, aconteceu isso que com tamanha clareza declaras: ‘‘que é bom não pode ser popular, ou deixa de ser bom porque ficou popular”.
Parabéns, pela a análise – José Leôncio
Excelente Texto! Michel Telló não é pra ouvir, refletir e poetizar não gente! é pra ouvir, puxar o parceiro e Dançar!!! Deixa pra Filosofar ouvindo Chico Buarque e Vinícius (Música p/ ouvir e refletir)!! E dúvido quem nunca ouviu “ai se eu te pego” e não pensou em alguém p/ cantar e apontar?!! rsrsrs
A banda Los Hermanos surfou (na crista) nessa onda do fala-nada-e -refrão-grudento e quando, supostamente, recusou-se a manter a mesmice, em verdade não trouxe nada novo para debaixo do sol musical tupiniquim: Romantismo melado, molengo, aquela voz meio-morta pra adolescente punheteiro e garotas intelectuais de leitura nada-além-de “comer, rezar, amar”. Aí fica atualíssima a resposta de Jobim para a pergunta “qual o caminho para a música brasileira?” —> “O aeroporto!”.