Perdi outra peça de 1982
by Ismael Benigno
Cresci sem uma referência masculina na família. Com a morte do meu pai, quando eu tinha três anos, sobraram duas mães (como assim tratei e fui tratado por mãe e vó), uma irmã e um irmão. Isso deve explicar meu desapego pelo futebol. Não sou torcedor, apenas um simpatizante do Fluminense – e isso também por motivos sentimentais de infância. O que ouvia falar era da minha vó, falando em Garrincha e Pelé (nessa ordem mesmo), comparando as seleções dos anos 60, 70 e aquelas dos 80 e 90. Minha vó falava coisas como “Quando era o Pelé, o Brasil já tinha feito 10, 15 gols a essa hora!”.
Assim, exagerando as cores das seleções que jogavam em preto e branco, ela fazia pouco caso de Careca, Dunga, Zico, Ricardo Gomes, Cafu e Ronaldinho. O único senão ficava naquele time de 82. Como se não bastasse a qualidade da tal Seleção Canarinho, eu assisti aquela copa internado na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Operei o coração aos oito anos de idade, bem no meio da Copa. Ali, sentado no chão com outros meninos, lembro de um gol do Zico, contra a Nova Zelândia, “de voleio”, como dizem os entendidos (veja no vídeo no fim do post). Era 23 de junho, na manhã seguinte eu entraria numa sala de cirurgia, sentado na maca, sendo estacionado ao lado de outra maca, coberta por facas, tesouras, pinças e seringas. E era fácil se apaixonar pelo Zico, pelo Júnior, pelo Éder, pelo Falcão e pelo Sócrates.
Duas semanas depois da cirurgia, no quarto do hospital, o cheiro de pólvora da 10 de Julho, o asfalto pintado de verde e amarelo e as bandeirinhas paravam no ar, sem som, sem cheiro e sem movimento. Eu olhei pela janela, e não havia ninguém na rua. Era 5 de julho, e na pequena tevê emprestada pelo Tio Roberto, eu e a mamãe víamos Paolo Rossi, grosso, travoso, branquelo, derrubar o país do samba e do futebol. A Itália acabaria campeã dias depois, devolvendo a lógica ao seu lugar. Afinal, um time que eliminara o Brasil de Telê Santana só podia ser campeão.
Com aquela luz amarelada, aquele sol, o Sarriá era a cara das ruas que eu via em Manaus. Coberto de papel picado. Ao lado do campo, atrás das grades de proteção, aquela gente bronzeada inconfundível sambava, vestida de amarelo, com bonés e barrigas de fora. No campo, o Júnior sambava depois de fazer um gol contra os argentinos. Os calções eram curtos, as camisas justas, os cabelos grandes e os meiões arreados eram o único sinal de um jogador mais irreverente.
Os dois gols contra a Itália foram de Falcão e Sócrates, as provas humanas de que aquele time era perfeito, misturado, diferente. Falcão e Sócrates fizeram gols em Dino Zoffi. fizeram isso contra o maior goleiro que eu já vi. Ver Zoffi sentado, perto da trave e sobre aquele papel picado, me dava a sensação de que aquele jogo era no campinho da rua Portugal, perto de casa, tamanho era o clima de domingão no Maracanã.
Quando Telê morreu, em 2006, cheguei a comentar que para mim, ele era maior do que a seleção. Senti mais a morte dele do que a de Sócrates, ontem, admito. A morte do Magrão é uma tragédia porque simboliza o desaparecimento lento aquele time.
Pra mim, que não sou um aficionado por futebol, a tristeza não é de torcedor, é de menino. E para um menino de oito anos, não importa se a lembrança é triste ou alegre. O fascínio é o mesmo. Até hoje, com um pouquinho de força, dá pra sentir o cheiro dos foguetes e ouvir aquele batuque da torcida ao fundo da transmissão do Luciano do Vale.
O problema, quando vejo um desses caras morrer, é lembrar de quando minha vida se resumia aos paparicos da família, à pilha de gibis do lado da tevê, ao meu cubo mágico e aquele cheiro de pólvora.
A morte do Sócrates e do Telê me lembra as bandeirinhas paralisadas no ar, na 10 de Julho deserta daquele 5 de julho de 1982.