Nós, reclamões

by Ismael Benigno

O apagão de ontem em Manaus, supostamente causado por um raio que atingiu a hidrelétrica de Balbina, é desses episódios que ajudam a clarear as idéias sobre a nossa capacidade de piorar. Antes que você torça o nariz para o meu negativismo, talvez culpando o raio pela infelicidade na mira, pense comigo. Além das chuvas de verão, aqueles torós de dois minutos que desligam a cidade na primeira metade do ano, há toda a estação das chuvas, de outubro até junho do ano seguinte, de chuvas torrenciais para queimar postes, desligar celulares, apagar rádios, danificar semáforos e parar a capital amazonense.

O fato é que não importa a força da chuva ou a mira do raio, eles sempre vão atingir o ponto fraco de Manaus. Não é negativismo, é observação histórica. Associados às lacunas de infraestrutura, os apagões de inverno (causado pelas chuvas) e os apagões de verão (causados pela falta de chuva) tornam Manaus um destino questionável para turistas ou empresários. Com cinco vezes menos gente e menos carros do que São Paulo, já temos engarrafamentos proporcionalmente similares aos dos paulistanos.

A impressão é a de que entramos no circuito nacional da calamidade pública. Já temos o mesmo granizo, os mesmos vendavais e os mesmos deslizamentos de terra do sudeste. Os mesmos congestionamentos diários, seja dia ou noite. Já temos seqüestro relâmpago, arrastão, crack, transporte falido e nenhuma perspectiva, de médio ou longo prazos, de resolver problemas básicos como saneamento, comunicações, educação. Já há suspeitas de que resíduos químicos de fábricas ilegais estão na atmosfera, e começam a surgir notícias de que a chuva ácida já é, também, coisa nossa.

O apagão de ontem, que deixou as irmãs Manaus e Iranduba sem energia, não foi uma fatalidade. Fatalidade é que, num cenário de falência estrutural como o atual, ainda haja gente que critique o comodismo dos realistas. O segredo é simples. A graça de reclamar em Manaus é que, além de cômodo, sempre estamos certos.

Publicado no jornal Dez Minutos de hoje.

Foto: Ney Mendes, no site A Crítica online.