por João Pereira Coutinho, na Folha de S. Paulo
O problema do mundo é não ser um pouco mais relativista. Eu sei, eu sei: o relativismo é mau, dizem, porque a idéia de que os valores dependem de meras escolhas individuais, sem nenhuma justificação externa ou racional, é uma fraqueza epistemológica e ética da maior gravidade. Fato. Mas eu falo de um relativismo ligeiro, um relativismo banal, o relativismo das coisas menores. Como um tempero que se coloca sobre o prato da vida, só para dar algum sabor mortal a tudo o que fazemos e sentimos. É o relativismo suave que ensina que nada tem uma imporância tão absolutamente esmagadora quando o fim é certo e o esquecimento também.
Lembro tudo isso com notícias que leio na imprensa portuguesa. Nos últimos dias, soube que 32 mulheres foram assassinadas em 2008 por seus namorados ou maridos. Existem cenários macabros de homens que apontam uma arma e disparam sem pestanejar em plena via pública. O resto é igualmente macabro: estrangulamentos, espancamentos, envenenamentos. O diabo a quatro. Motivos? Passionais, sempre passionais: o homem descobre, ou suspeita, que a mulher não é casta. E num gesto de loucura, comete a loucura.
E então recordo uma conversa que tive uns anos atrás com um amigo, em São Paulo, e o relato que ele me fazia de um conhecido jornalista que entrara em cenário idêntico: descobrira que a namorada, mais jovem, se afastara dele para procurar uma “nova vida”, como se diz nas telenovelas; e ele, de cabeça perdida, incapaz de aceitar a rejeição, pegou na arma e fez o que fez. Arruinou a vida, a carreira, os amigos, a família, e etc. etc. etc.
Ouvi a história e perguntei aos meus pobres neurónios se eu seria capaz disso: amar uma mulher ao ponto de a matar por despeito. E a resposta, toc toc toc, é negativa. Tudo por causa de meu relativismo suave, que me acompanha dia após dia como um animal de estimação. Sim, tenho minhas fúrias, como qualquer pessoa racional. E existem momentos de um desespero tão profundo, e tão medonho, que chorar é um luxo. Mas mesmo quando o demónio se intromete na pacatez dos meus dias, existe um lado de mim que ri dele. Como se o espírito deixasse o corpo e, planando sobre a carcaça, contemplasse o absurdo da minha condição. O absurdo da condição humana. E uma voz invisível segreda-me ao ouvido: será que vale a pena, companheiro? Será que vale a pena tudo isso quando tu estarás morto no futuro médio? E, depois da voz, vem a imagem: como num filme de Bergman, eu, velho e morto, em caixão aberto.
O relativismo liberta-nos para fazer o mal, como acreditava Dostoiévski? Não creio. Em doses temperadas, o relativismo é um convite para não fazermos o mal. Ele esvazia o nosso patético ego como uma agulha que fura o balão de uma criança. E ele é sobretudo útil em matéria de amor: somos amados, magoados, atraiçoados. Acreditamos que, depois do abandono, teremos uma dor inultrapassável, que se vai prolongar pelos séculos seguintes.
Mas a verdade é bem mais triste e, paradoxalmente, bem mais feliz. Tudo passa. A dor vai diluindo-se em tristezas menores, que ficam como o pó esquecido nos cantos da casa. E certo dia descobrimos que o tempo cobriu tudo com invisíveis mortalhas; e o passado é o porto de onde a nossa embarcação já se afastou há muito. Vemo-lo ao longe, por entre a neblina. Mas não há regresso.
Desesperado leitor: se achas que a dor de hoje te autoriza a tudo, lembra-te que és nada e que a tua vida será nada. E festeja essa certeza com a alegria sincera dos náufragos resgatados.
João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.
Um dia os fariseus chegaram a Jesus e disseram : “Você não pode curar esse homem no sábado” (e era verdade, ele não podia…), mas Jesus o curou mesmo assim (mostrando inclusive que eles faziam coisas menos importantes que também eram proibidas, e não eram punidos. . . )
Depois chegarama ele trazendo uma mulher flagrada em adultério. Eles disseram: “Ela deve morrer…” (o que era verdade, pela lei, ela devia morrer), mas Jesus deu um jeito de livrar ela, afinal, a verdade era que ela precisava viver (ninguém quer morrer, todo mundo quer uma segunda chance, e foi i que Jesus deu a ela). . .
“Não seja excessivamente justo
nem demasiadamente sábio;
por que destruir-se a si mesmo?
Não seja demasiadamente ímpio
e não seja tolo;
por que morrer antes do tempo?”
Eclesiastes 7
Pena que o ser humano não entenda, ele é muito binário, 8 ou 80, 0 ou 1, sim ou não, certo ou errado, e não se preocupa somente em ser VERDADEIRO, e isso causa males terríveis (ex: Idade Média, Guerra Santa, Governo do Bush…)
E na política, um exemplo bom aconteceu agora, em Manaus, como o Ismael disse “não foi um prefeito ‘perfeito’? RUA!”
Não consegui conter o riso depois de ler a coluna.
Pois fui ler o ultimo artigo do tal João Pereira Coutinho. Vejam o início… vai parecer familiar(rsrsrs):
“É a política, estúpido!
Vejam só como eu sou ingênuo: uns tempos atrás, em Nova York, acordei pelas dez da manhã, saí para a rua e encontrei dezenas e dezenas de jornalistas à minha espera. Eu, pelo menos, acreditava que sim. E acreditava mais: num acesso de megalomania, julguei que a Academia Sueca resolvera reconhecer, pela primeira vez na sua história, a crônica como gênero literário digno de um Nobel. ”
Megalomania:
Substantivo feminino.
1.Psiq. Mania de grandeza; superestima patológica de si mesmo, das próprias qualidades; macromania.
Muito familiar não é mesmo?!?!