No jornal REPÓRTER deste fim de semana
A que ponto pode chegar uma pessoa no afã de melhorar as condições de vida do povo carente de uma cidade?
A pergunta poderia parecer inapropriada, se a tal cidade ficasse na Inglaterra ou na Dinamarca, países ultrapassados onde os políticos não possuem carro oficial à disposição, verba de gabinete ou auxílio-moradia. Mas no Brasil, o que pode à primeira vista parecer uma pergunta infantil, daquelas “irrespondíveis” a tantos pais, como “por que o céu é azul?”, no final ganha ares de mistério universal. Afinal, por que algumas pessoas são capazes de absolutamente tudo para servir o povo?
A pergunta ecoou durante a semana que acabou, a última semana antes do início oficial da campanha eleitoral pela Prefeitura de Manaus e pelas trinta e sete vagas do parlamento municipal. E não foi à toa. O espetáculo protagonizado por Amazonino Mendes, Francisco Garcia (e sua filha, Rebecca) e Carlos Souza ofuscou até os emocionantes jogos da EuroCopa 2008. Amazonino e Carlos, os mais atuantes no palco, diminuiram o interesse do manauense pelo futebol. E o futebol europeu, o que não é pouco.
Enquanto a Alemanha eliminava a Turquia com um gol aos 44 minutos do segundo tempo das semifinais, Amazonino e Carlos perambulavam por Brasília e adjascências feito vendedores da Enciclopédia Britânica, batendo de porta em porta atrás de trinta e oito assinaturas de parlamentares do PP, o partido no qual Souza foi obrigado a ficar depois da tal fidelidade partidária. Amazonino, dono regional do PTB, tomou pra si a missão de convencer a direção nacional do partido dos mensaleiros a entregar-se a seu mais novo projeto político: tornar-se novamente prefeito de Manaus, para em 2010 tornar-se novamente governador do Amazonas.
Acostumado à política dos anos 80 e 90, Amazonino ignorou, durante sua cruzada brasiliense, o fato de que hoje até moradores do bairro Amazonino Mendes têm acesso, de uma forma ou de outra, às notícias. Não peçamos tanto a quem mora numa das maiores invasões de Manaus, batizada – num gesto de extrema gratidão – com o nome do eterno “grande líder”. No Amazonino Mendes pouca gente deve ter acompanhado o reality show brasiliense. Mas houve uma parcela da população, aquela com opinião formada e formadora de opinião, que acompanhou todos os passos do ex-governador e do irmão coragem, com tal grau de detalhamento que descobriu, enquanto tudo acontecia, que o documento assinado por 38 membros do PP nacional, utilizado pela dupla para referendar sua chapa, era simplesmente uma fraude.
A reunião em que as trinta e oito assinaturas teriam sido colhidas contou com quatro deputados do partido. Para que não restassem dúvidas, o encontro esvaziado da sigla foi registrado em vídeo. Convenções partidárias dependem, individualmente, dos regimentos dos partidos. É até admissível que o PP, um partido que estrelou o espetáculo do crescimento de sua base com a ajuda de Delúbio Soares e companhia, encampasse uma pataquada deste tamanho, e que pudesse decidir os rumos da sigla sem a necessidade de reuniões oficiais. Mas fica difícil defender a autenticidade de um documento recheado de assinaturas de políticos que não sabiam o que assinavam. Foi o que aconteceu. Em fax reproduzido pela imprensa no final da noite de quinta-feira, 26, ficava claro que Amazonino e Carlos fraudaram o documento, a ata oficial de uma reunião que não ocorreu.
Resultado: tanto o vice-presidente do partido, Ricardo Barros, quanto o irmão coragem serão denunciados formalmente à Polícia Federal por falsidade ideológica. Amazonino não deve ser denunciado porque, ao menos oficialmente, era um corpo estranho dentro da sigla, tão nobremente representada em nível nacional por Sandro Mabel e Pedro Corrêa. É possível que dentro do regimento interno, da Constituição Federal e da jurisprudência partidária Amazonino tenha inaugurado mais uma de suas grandes obras, a intervenção judicial de uma sigla sobre os atos de outra.
Mas Amazonino Mendes não assanhou-se sobre o PP por conta própria. Fontes do REPÓRTER próximas aos eventos de quarta-feira em Brasília disseram que Walter Spinelli, advogado do partido, não aceitou que a reunião com a direção nacional da sigla fosse realizada sem a presença de Francisco e Rebecca Garcia, membros da direção regional e municipal do PP no Amazonas. Amazonino teria, então, apresentado um documento que continha a assinatura dos Garcia, dando plenos poderes para que o petebista entrasse em sua casa no meio da noite e escolhesse qual de suas filhas seria sua esposa. Em outras palavras, Amazonino garantia que os Garcia tinham deixado o PP regional à disposição do PTB. Amazonino irritou-se com a atitude de Spinelli e escolheu Carlos como seu vice.
O problema era que a reunião de Brasília contou com apenas quatro parlamentares, e Ricardo Barros precisou encerrá-la sem decidir nada, por falta de quórum. Amazonino e Souza decidiram, então, que uma passagem Manaus-Brasília-Manaus é cara demais para que não se resolvesse nada, e puseram em prática uma reunião itinerante. O plano consistia em conseguir as assinaturas onde quer que fosse. O deputado Ronivon Santiago, membro da executiva nacional do partido, foi abordado já no aeroporto, voltando para o Acre. Começava uma mega-operação pela coleta das assinaturas. Amazonino, talhado pela experiência política, sabia que Ronivon era o parceiro ideal para o trabalho de articular e ganhar votos – e assinaturas – no que fosse. Experiência não faltava aos dois nesta matéria particular.
O inusitado parecia tomar conta da cena, e chegou ao seu cume ainda na quarta, antes da revelação de que uma reunião fantasma ocorria na sede do PP em Brasília. O deputado Paulo Maluf negou-se (Maluf é sabidamente especialista neste verbo) a participar da reunião da Executiva Nacional do partido, porque discordava da forma como a direção nacional do partido conduzia a sigla no Amazonas. Movido certamente por seu espírito republicano, Maluf questionou os métodos com os quais o partido decidia seus rumos no Amazonas.
A quarta acabava, e a dupla conseguiu o voto de, além dos quatro deputados desavisados presentes, trinta e quatro assinaturas ectoplásmicas, colhidas na mesa mediúnica de uma reunião que ocorreu apenas no plano espiritual. No mundo real mesmo o que ocorreu foi a venda da Enciclopédia Britânica, de porta em porta na casa dos parlamentares do PP em Brasília – e até fora da capital federal. Reza a ata oficial que a reunião ocorreu no décimo-sétimo andar do Anexo I do Senado Federal, onde está a sede do partido, mas consta (não na ata, mas nos fatos) que a dupla precisou de uma estrutura logística bem mais complexa do que um elevador para conseguir as assinaturas que queria.
É quando surge mais insistentemente a pergunta: o que moveria um grande líder político amazonense a uma cruzada tão estafante sob o ar seco do Planalto Central? A certeza de que seu vice precisa ser a melhor opção possível ao povo manauense?
A presepada da reunião que não existiu foi apenas a cereja sobre o bolo de uma semana que parecia não acabar. A política no Amazonas acostumou seus cidadãos a nivelar por baixo o que em tese deve ser feito com articulações e convencimento. Não foi o que ocorreu, e nem por isso houve maiores escândalos na opinião pública, diante do impasse que tomou a candidatura de Amazonino Mendes às vésperas do início de uma campanha que, avaliavam os sempre otimistas partidários do agora petebista, parecia ser tranquila. Não cabe questionar o que teria levado Amazonino a escolher Carlos para compor sua chapa, dado que, segundo pesquisas não oficiais feitas pelo próprio partido, Carlos não agrega mais votos à chapa do que Rebecca poderia agregar. Por essa lógica (sim, ainda cabe este artigo de luxo na história toda), a pesquisa teria mostrado que Rebecca atrai outro tipo de eleitor para a chapa de Amazonino, enquanto Carlos chegou à política alimentado pelo mesmo tipo de eleitor que alimenta, com cada vez menos poder de decidir uma eleição, as candidaturas de Amazonino Mendes.
Houve quem dissesse, com a novela instalada na candidatura de Amazonino, que o PP revelava-se ali um partido de aluguel. O efeito de tal constatação compete em exotismo e efeito surpresa com a revelação de que o céu é azul. Sim, o PP é um partido de aluguel, e em nível nacional. Alguns episódios isolados, como os da semana que encerrou-se, podem sugerir que às vezes o aluguel é barato, e que bastam belos olhos a caciques políticos para que estes levem a sigla no bolso, de volta pra casa.
Teorias menos ingênuas rondaram os meios políticos da cidade, e uma figura de peso da ALE chegou a comentar com interlocutores que Eduardo Braga teria oferecido vantagens a Francisco Garcia, para que este agarrasse tão ferozmente o comando da sigla em Manaus, atrapalhando, assim, uma candidatura que vinha voando em céu de brigadeiro até então. As mesmas fontes da ALE, experientes no jogo político, contam que há fritura nas trincheiras do governo do Estado, e que pesquisas internas, que mostrariam um segundo turno hoje entre Amazonino e Serafim Corrêa, estariam fazendo o governador pensar em mexer peças importantes do seu jogo eleitoral, aos 44 minutos do segundo tempo.
Peões não faltam a Eduardo nem a Amazonino. O que falta é tempo para mais “articulações” pelos ares do Brasil. E claro, outro pequeno detalhe, este especialmente importante para Amazonino Mendes, celebrizado num debate de 2004 quando não soube responder uma pergunta de Artur Bisneto sobre inclusão digital:
Hoje as pessoas sempre ficam sabendo de tudo, mais dia ou menos dia.