Suponhamos que Cabul, a capital do Afeganistão, ostentasse um crescimento econômico anual médio de 10% no final dos anos 90. Suponhamos também que o governo Talebã investisse pesado na criação de um ambiente economicamente favorável ao investimento externo. E que, escolhido pelo Comitê Olímpico Internacional para sede dos jogos de 2008, o lindo país das burcas e dos apedrejamentos públicos ocupasse o noticiário mundial, com sua pujança econômica e com a grandiosidade de suas instalações.
– Este é o complexo de natação, em forma de aquário – anunciariam os generais, empunhando seus AK-47.
– ooohhh! – avaliaria a imprensa especializada.
– Este é o complexo de atletismo, em forma de ninho de pássaros, com cobertura móvel.
– Uau! – decretariam os analistas internacionais.
Inovador mesmo seria um complexo de vôlei em forma de bala de fuzil, ou uma piscina olímpica com dois anéis em forma de algemas. É claro, o mundo precisa se acostumar com o país que vai sediar a Olimpíada, e a ordem é retratar os costumes chineses, os monumentos e a culinária exótica chineses. Mas o que chama a atenção de verdade é o silêncio conivente com a sistemática violação dos direitos humanos mais elementares à liberdade de opinião, religiosa e de imprensa.
Eis o caso dos conflitos no Tibete. Enquanto os monges e os turistas estrangeiros falam em centenas de mortos, o governo chinês aponta 13 mortes. Voltemos a 1989 e lembremos do Massacre da Praça da Paz Celestial, quando o exército matou 3.600 estudantes e feriu outros 60 mil. Sob a fria luz das estatísticas, se o país tem um bilhão de habitantes e o tal Massacre acabou com a vida de apenas 0,0036% da população, o incidente deveria ser chamado, no máximo, de Belisquinho da Praça da Paz Celestial.
É certo que durante os jogos, sob os olhos complacentes do mundo, o governo chinês não irá manipular o número de medalhas de ouro conquistadas por seus atletas, como faz com seus cidadãos assassinados. Não será necessário, o mundo está apaixonado pela China. O Rio tem o Cristo, NY tem Times Square, Paris tem a torre, a Itália tem a comida. O que a China tem? Dinheiro.
Em 1936, depois de saudar os campeões brancos, Adolph Hitler se negou a cumprimentar o campeão do salto em altura, o americano e negro Cornelius Johnson. Pressionado pelo COI a cumprimentar todos ou ninguém, Hitler não cumprimentou mais ninguém. Os jogos de Berlim foram a grande oportunidade de Hitler mostrar ao mundo as maravilhas da Alemanha nacional-socialista. Os alemães se esforçaram para realizar a maior Olimpíada da história e a cobertura jornalística nunca foi tão grande.
Pra seguir a tradição linha-dura, o COI poderia exigir que nenhuma execução sumária ocorresse durante os jogos.
Se a China obedeceria ou não, seriam outros quinhentos.
Ou outros três mil e seiscentos.