Revira-te, Umberto!

Capa de A Crítica nesta quarta-feira, 20 de setembro

Eu nunca vou esquecer este dia. Não pela imagem grotesca, bizarra até para o mais reles e indigesto tablóide sensacionalista da mais atrasada e vendida das imprensas nacionais. Nunca vou esquecer porque esta imagem brinda o terror de ver, estarrecido, a capacidade humana de chafurdar na lama por um bico, por 10 milhões, por um emprego. A capacidade de jornalistas de fazer coisas assim. E o pior, melancolicamente dizendo coisas que nem mesmo eles acreditam. “Ismael, todo mundo rouba, não tem jeito!”.

Se estamos no país que Arnaldo Jabor tão precisamente definiu como aquele país em que nossa mulher diz “tu não é honesto não, tu é leso, isso sim!”, estamos no país das bocetas ensanguentadas na primeira página do maior jornal de uma capital estadual, que tem 2 milhões de habitantes. Estamos no país dos Lurians, das Soraias, do Dossiê do secretário de Lula, do “o senhor não sabia que 90% dos deputados pegam uma beiradinha nas emendas?” de Suassuna. Estamos no país onde políticos sabidamente ladrões, nacionalmente conhecidos como ladrões, desfilam pelas minhas ruas, transformando em merda tudo o que tocam, como uma lagião de Midas do avesso. É incrível, tudo o que essa gente toca vira merda.

Estamos no país da consciência comprada, não importa a escolaridade, a formação de quem se vende. Vejo cidadãos que “lavaram a alma” da honestidade dois anos atrás, hoje defendendo, por um salário, ladrões. Vejo inteligências privilegiadas se atrofiando na atmosfera frenética e despida de moral das campanhas. Mal acredito nas palavras que têm saído da boca de amigos que mal reconheço, amigos que uma vez já foram mais idealistas, honestos consigo mesmos, centrados no bom senso que sempre acolhe quem é honesto. Hoje parecem zumbis, de olhos vidrados, meio ausentes. Outros mostram a empáfia de quem se revela mau no fim do filme, surpreendendo a platéia cativada. Não há elogio gratuito, crítica gratuita. É tudo, absolutamente tudo comprado.

Hoje uma página da minha vida se virou, o jornal que vejo pela casa há 30 anos morreu. O jornal de domingo, comprado quentinho nas tardes de sábado, acabou pra mim.

É com muita tristeza que digo isso. E com nojo, de toda essa classe jornalística manauense, vendida, covarde porque calada, grotescamente incompetente e parasita, provinciana e burra. Não tenho pena de jornalistas que fazem o que A Crítica fez hoje. Estas pessoas deviam ter vergonha de lidar com a notícia. Lavar a boca antes de falar em jornalismo.

Que vergonha.

Que vergonha.

9 responses on “Revira-te, Umberto!

  1. Oi Mael, Muitas vezes a realidade nos assusta. É uma realidade que não vivemos nas nossas vidas de classe média, privilegiados que somos porque temos emprego, casa e comida. Esse mundo real tem me assediado diariamente. Só eu sei as unhas que roí, todas, somente contemplando o lado negro das vidas que nunca pensamos existir, não assim, ao vivo e a cores. Eu sei que tenho surpreendido você, vi isso no seu sorriso meio amarelo na última vez que jantamos. Mas sei que o meu pensamento, minha posição frente ao atual quadro político, não tem nada a ver com salário. Esse eu ganharia apenas pra fazer meu trabalho, sem emitir opiniões nas horas de lazer, ou vestir a camisa de uma causa. O que eu vejo hoje são pessoas que precisam comer amanhã, e que relembram com saudade de um tempo em que comiam. São pessoas que tinham seu trabalho e que foram privados dele. São pessoas que se sentem órfãos. Não são funcionários públicos que perderam uma boquinha, ou amigos que deixaram de ter privilégios. São aqueles que nada tem, e que deveriam ter. São aqueles irmãos nossos, pessoas como nós, que amam, acordam, dormem, criam os filhos e morrem, pelos os quais nós temos que ter a humildade de deixar de lado convicções de um mundo idealizado e fazer a escolha do que vai, pelo menos no amanhã mais próximo, lhes dar a possibilidade de viver um pouco mais dignamente. Quanto aos valores, eles permanecem os mesmos. Continuo achando que é errado roubar, matar, mentir, e prejudicar quem quer que seja. E são esses valores que eu ensino aos meus filhos, para que eles passem aos seus filhos. Não com palavras, mas com atitudes, porque caridade é para ser feita a cada minuto do dia, seja com um sorriso, com um emprego, ou com dez reais na hora do aperto. E nessa onda, um dia esses valores serão maioria, e o mundo será melhor do que é hoje. Mas até lá, enquanto somos minoria, aqueles que não tem o pão de amanhã merecem comer. E nenhuma mulher merece parir no corredor de um hospital. Se isso acontece no mundo real, nós, que estamos em outro mundo, devemos saber. Infelizmente, teve que ser por esse meio. Se pessoas com os nossos valores fossem maioria, isso não seria assunto de página de jornal, e sim de polícia, de direitos humanos, de ministério público. Pode até ser eleitoreiro, pode ser feio de se ver, agressivo aos nossos olhos acostumados a belezas estéticas. Mas é o mundo que essa criança que nasceu teve que ver assim que chegou por aqui. Não esqueça nunca que, apesar das diferenças de pensamento, vocês são os melhores amigos que eu tenho. Beijos e até o próximo chopp.

  2. Hoje o jornal A Critica implodiu seu referencial de credibilidade. Estamos (leitores) estarrecidos diante de tamanho  desrespeito. O diabo não mora mais nos detalhes;ele se mostra inteiro e cobra suas dívidas publicamente.

  3. A cada dia que passa, você ganha mais o meu respeito. É assim que se constrói uma reputação. Parabéns. Gostaria muito de conhecê-lo, qualquer hora dessas no Galvez.

  4. Preciso complementar, agora que reli seu artigo. Os elogios nunca são gratuitos, as críticas nunca é legítima, e mesmo se não sejam comprados, têm pelo menos um desejo escuso de quem a faz: um cargo, fazer um agrado a algum poderoso. Mesmo quando ninguém parece pra comprar, essa gente está disposta a se vender, com a desculpa da necessidade de manter emprego, comida na mesa, padrão, espaço etc. Seu Blog supera o clubdosterriveis, outro blog que merece admiração, embora a proposta seja diferente, porque você mostra a cara.

  5. Sinceramente. O jornal morreu mesmo. A cada dia afirma que se vendeu mesmo. Há um mês atrás fiz uma assinatura do mesmo por 6 meses. Estou vendo uma maneira de cancelar a assinatura. É nojento. A revolta deles não é por causa de uma possível injúria contra a família, não. É porque infelizmente o negócio se desfez e eles não vão poder contar com um novo parque gráfico já que os equipamentos sucateados do jornal imprimem borras e sujeiras por todo o lado.

  6. Chris, vou começar pelo fim. Convicções políticas, momentâneas ou enraizadas, não devem ter qualquer relação com o carinho entre amigos. Porque privilegiados com educação e maturidade, nós somos capazes de divergir se amando. Aí está a beleza – uma delas – desse tipo de debate. Comentei com a Hellen (sim, assustado com seus pontos de vista), que chego a admirar sua convicção, o fato de vestir a camisa sem ser paga pra isso – concordo com você. Não se engane, vejo isso em você, e isso talvez me assuste até mais, porque essa cooptação é muito mais sólida, não depende de salários ou vantagens. Há tantos anos quantos vivi até hoje eu vejo as mesmas cenas sempre, dos casebres abandonados à própria sorte no meio dos rios, nestas épocas adornados com os cartazes dos políticos. Mas essas pessoas nunca saem dos casebres, nunca ganham o direito à dignidade, à educação, ao saneamento. Direitos que estão na lei, e que em 20 e tantos anos de esmolas e bonés e rabetas e camisetas e máquinas de costura poderiam ter sido assegurados por gestão, por seriedade, por decência no trato com o dinheiro dos outros. Não vou minimizar o sofrimento de quem precisa comer hoje. Sei, daqui do alto dos meus privilégios urbanos e burgueses, que essa gente sofre, sem emprego, sem renda, sem escola e sem saúde – e por culpa de quem? -, mas Amazonino não pode se colocar na posição de sopro de novidade na política amazonense, como se nos últimos 4 anos Eduardo tivesse transformado o paraíso que ele construiu em inferno. Nem Amazonino, nem Eduardo, nem Alfredo, nem Mestrinho, nem Pauderney trabalharam para mudar isso. Você sabe disso. Quanto às fotos de A Crítica, não há muito mais o que comentar. A repulsa está espalhada pela cidade. A atitude do jornal de expor um fato do que jeito que fez mostrou à população muito mais sobre o caráter do jornal do que sobre os problemas nas maternidades do estado. A coisa é tão bizarra e tosca que o fato perdeu a importância. Nossos olhos não estão acostumados a belezas estéticas, e não foi por isso que nos chocamos com as fotos de A Crítica. O mundo cão sempre esteve aí, à disposição dos urubus. Já fui atendido várias vezes pelos Pronto-Socorros da cidade, vi muito disso. Não se trata disso, se trata de expor algo que é de conhecimento público com claros objetivos eleitorais. Se foi dessa forma que aquela criança chegou ao mundo e se foi este o mundo que ela primeiro viu, é uma pena. Mas mais ultrajante será, quando crescer, ver as imagens de sua mãe exposta à cidade nos arquivos soturnos do que de pior já se fez na imprensa de Manaus. Quando tudo isso passar, e Amazonino ou Eduardo se eleger, as casinhas alagadas continuarão lá, entregues à miséria centenária, as mães continuarão parindo no chão, as empreiteiras continuarão recebendo dinheiro roubado e o "dinheirinho pro cabôco" continuará pagando o pratinho de comida de hoje. E assim o Amazonas viverá eternamente. 24 anos após 24 anos, eternamente à espera da próxima esmola, do próximo prato de comida. A fome bate todos os dias. A vencer a lógica da campanha de que você fala, torçamos para que Amazonino viva pra sempre, então. De outra forma nossa gente morre de inanição. Chris, não se engane. Amo você, e por isso podemos dizer o que queremos um pro outro. E quero logo que isso tudo termine, pra poder tomar um chope com você. Um beijo, Mael.

  7. Olha… Que história é essa de "Amo você, e por isso podemos dizer o que queremos um pro outro. E quero logo que isso tudo termine, pra poder tomar um chope com você. Um beijo, Mael."? Brincadeira…

  8. Só mesmo causando ciúme pra ver você por aqui, Cecília… Mas não se preocupe, vou tomar um chope com a Chris hoje e falar muito bem de você, pra ela se colocar no lugar dela…rs… Epitácio, obrigado pelas palavras de elogio. Mas é uma pena que precisemos elogiar, atualmente, os que fazem apenas a obrigação de se dar o respeito. Volte sempre por aqui, esses comentários são sempre bons. rs… Rodrigo, fazer o quê, estamos aparentemente fadados a ler arremedos de notícias impressos em máquinas de altíssima qualidade. Algo bem parecido com os cartazes dos candidatos. Botox, photoshop e o escambau, tudo pra estampar a fuça dessa gente.

  9. Tô indo aí tomar uma cerveja.. já que o chopp tá meio difícil… Amo vcs também.. incluindo o baby que eu já me considero madrinha (claro que disposta a dividir o cargo com mais alguém.. =]]] ).. Até daqui a pouquinho..

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