Amém.



Esse mundo não vê essas coisas muitas vezes. Já disseram que estrelas deveriam explodir no céu para avisar as pessoas sobre coisas especiais. Mas elas não explodem, apenas têm seu momento e morrem. Nossos ícones estão mortos. Agora, nesta sexta-feira, é a vez daquele que os católicos, tão emotivos e volúveis, já chamam de “O Papa Santo”. Um homem que reuniu multidões desde sua eleição até o fim, paralisado e emudecido pela doença e pelas balas que, sem que muitos percebamos, o mataram. Agora perguntam, alguns jornalistas, o que explica essa comoção, entre os jovens, pela agonia e pela morte desse homem, enterrado num caixão de madeira simples, diretamente na terra. Simples: como eu, boa parte dos hoje trintões teve a oportunidade, ainda na facilmente impressionável infância, de vê-lo passar bem perto. Sua surpreendente eleição, associada à sua incansável peregrinação pelo mundo, fosse esse mundo o cristão, o judeu ou o muçulmano, criou o mito do Papa arrebatador, presente e sensível. Esse homem, que parecia ordenar a seus auxiliares que nada fizessem para ajudá-lo em público, pois queria passar por todo o martírio de uma morte, pública, lenta e bela, precisou de 10 minutos com Gorbatchev para que os cristãos ganhassem a liberdade de rezar missas no coração da Cortina de Ferro. Não, não convenceu grandes e maus líderes a ver as coisas de uma nova maneira. Não conseguiu a paz entre judeus e palestinos, não pôde entrar na China, não abriu os olhos de Fidel Castro, e falou com Bush, pregando no deserto, jogando pérolas aos porcos da guerra. Mas é arrepiante como todos estes, pressionados pela imagem de um homem morto, se curvaram. Bush ajoelhou, Fidel voltou à igreja depois de 45 anos. Times rivais se abraçaram, lojas foram apagadas e multidões, num silêncio ensurdecedor, pareciam dizer, em Roma, que este mundo que conhecemos tem sim, um botão “pause”. O mundo parou. Nunca se viu isso. Nunca.

João Paulo nos ganhou, os jovens, porque homens fortes, decentes e acima de tudo coerentes fazem falta. Não deixou bens, apenas escritos, que pediu que fossem incinerados depois de sua morte. Escreveu, muito, e nunca pediu que esquecessem o que havia escrito. Pediu o perdão e perdoou. Manteve-se firme, com sua inabalável fé, enquanto todos, absortos em problemas tão atuais quanto evitáveis, buscavam fazer da Igreja um espelho do que há de bom e de mau no mundo. Eu, como tanta gente espalhada por aquela Praça de São Pedro e pelo planeta, não perdi um pai, um amigo ou um líder. Perdi uma referência, antes de menino, agora de Ser Humano. Vivo num mundo cruelmente volúvel, adaptável ao mal, encrudelecido por um cotidiano em que o bizarro e a barbárie precisam de apenas alguns dias para cair no desprezo. Esse homem não arredou o pé de suas convicções, ora intransigentes, ora autoritárias. Esbravejou, como um certo homem da Bíblia que encontrou um mercado dentro de sua Igreja. Ignorou tapetes vermelhos para beijar o chão; ensinou – e não aprendemos – a vencer a burrice dos canhões com simples palavras. Agora o vejo ser enterrado, não com tristeza, mas com certa preocupação, pois o Vaticano não costuma acertar muito. Sei, soa um tanto ingênuo acreditar que o Bem ainda tem grandes representantes na terra, mas eu acreditei. E um misto de alívio e orgulho me toma, quando penso que meus heróis não morrem de overdose, mas no cumprimento do dever de serem bons. Bons o bastante para silenciar o mundo com sua morte.

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