O Malfazejo

por Ismael Benigno

Higienópolis não é aqui

Foto: Antônio Menezes / A Crítica

A primeira incursão da intelectualidade amazonense na análise da questão haitiana em Manaus saiu hoje, num artigo da jornalista Mazé Mourão, intitulado genialmente ‘O Haiti não é aqui’. No texto, a imortal da Academia Amazonense de Letras esculhamba a invasão de haitianos em Manaus e, em tom de reclamação, escreve: “A cidade está um verdadeiro contraste de cores, rostos e roupas”. O texto segue, falando na esperteza dos refugiados ao tomar vagas de manauaras, nos ônibus e no mercado de trabalho, e tasca um dos maiores clássicos paulistas contra migrantes nordestinos: “Por que os haitianos não ficam em Tabatinga ou vão povoar outros municípios amazonenses?

Manaus realmente anda esculhambada, mas é de longe o melhor dos municípios amazonenses pra quem precisa de emprego, casa e dinheiro. Não fico feliz em ver tanta gente chegando à cidade também. Meu instinto humanitário não vai muito longe, e consigo enxergar, ali na esquina, problemas sociais como violência, emprego e moradia explodindo no colo da cidade.

O componente racial atrapalha a discussão, porque qualquer crítica é creditada ao racismo. O perigo maior da ‘invasão’ haitiana em Manaus, porém, não é social. Era o de que a questão acabasse analisada com nosso manjadíssimo elitismo de província. E o perigo se concretizou.

Vamos ter problemas à frente, como teríamos se os imigrantes miseráveis fossem brancos, asiáticos ou árabes. O mais preocupante, no entanto, é ver que a primeira manifestação da elite pensante da cidade acabou mais parecendo um chilique da socialite Narcisa Tamborindeguy contra pobres do que uma tentativa de entender o problema que ainda vamos ter. Até porque boa parte da elite econômica manauara chegou aqui – e isso Mazé sabe – só com a roupa do corpo, e hoje esbanja riqueza.

A julgar pelos indicadores oficiais comemorados pelo próprio governo, o Amazonas tem plenas condições de receber refugiados estrangeiros. Somos ricos, nosso interior é pujante, nossa produção industrial e rural é enorme, batemos recordes de emprego e temos programas sociais feitos sob medida para pessoas sem teto. Então onde está o problema?

O problema não é a diferença entre os números e a realidade, coisa que todos conhecemos. Sinal disso deu o governador Omar Aziz que, com razão, disse que precisa priorizar os problemas do povo amazonense. O problema não é saber que a capital está afundada em seus próprios problemas e que o interior está entregue à própria sorte, mesmo sem ter sofrido terremoto. O problema é transformar um problema social em discussão de champanheria.

Na discussão do quesito Haiti, Manaus começou muito mal.


O título do post é referência à psicóloga Guiomar Ferreira, que em agosto de 2010 criticou o projeto de construção de uma estação do metrô em Higienópolis, bairro chique de São Paulo, alegando que o metrô atrai mendigos, drogados, ‘essa gente diferenciada’.

Notas de segunda-feira

Silicone – Depois que o Governo Federal decidiu socorrer mulheres que possuem implantes defeituosos de silicone, comprados em clínicas particulares, a Associação das Atrizes Gostosas e Ajudantes de Palco do Brasil (AGAPB) vai entrar na justiça exigindo que o SUS também arque com as cirurgias para a retirada de tatuagens com os nomes de ex-namorados. Empresários também querem que o governo também banque cigarros eletrônicos aos fumantes.

Globalização – Com o escândalo das próteses PIP e Rofil na Europa, analistas americanos estimam que a cidade do Rio de Janeiro terá um dos desfiles mais caídos de sua história.

Ciência – Um estudo americano apontou quais os valores sagrados para um grupo de pessoas analisadas. Depois de afirmar serem contrários ao casamento gay, por exemplo, os ‘pacientes’ recebiam oferta de dinheiro para trocar de opinião. Traços culturais e religiosos também pesaram no teste, e mostraram, entre outras coisas, que árabes entre 20 e 35 anos, que usem óculos, morem em Manaus e exerçam cargo eletivo diziam uma coisa em público e faziam outra dentro da câmara de ressonância.

Batistis – O Brasil, segundo maior ‘cliente’ mundial do site Megaupload, fechado pelo FBI na semana passada, estuda oferecer asilo aos fundadores do serviço mundial de troca de arquivos. José Dirceu e Tarso Genro já tentam convencer Ruy Castro a escrever a biografia Kim Schmitz.

Negona – O vereador Marcel Alexandre (PSC) é o mais novo prefeito da cidade de Manaus, depois de Massami Miki (PSL), Isaac Tayah (PTB) e Carlos Souza (PP). Todo mundo já foi prefeito de Manaus em 2012, menos o Amazonino, que está no Canadá. Analistas dizem que a Kamélia, símbolo do carnaval manauara e que foi recebida pelo ex-prefeito Massami, está na linha sucessória.

Mulher — A polícia de Mato Grosso conseguiu prender um rapaz de 27 anos foragido da Justiça desde agosto do ano passado, quando conseguiu escapar da prisão disfarçado de mulher. Após denúncia anônima – certamente de outra mulher – e abordado pela polícia dentro de um carro enquanto retocava o batom na chegada de uma festa, o criminoso apresentou documento de identidade falsificado.

Paulistanos – Enquete realizada por um portal de notícias elegeu o presente que todo paulistano gostaria de ganhar no aniversário de 458 anos de São Paulo: uma passagem para o Rio de Janeiro.

Genial – O ex-governador Eduardo Braga (PMDB) insiste em dar dinheiro (dos outros), R$ 50 mil para cada um, entre os camelôs de Manaus. Segundo o senador, o valor será suficiente para que os ambulantes deixem o centro da cidade, abram seu negócio e vivam dignamente nas áreas periféricas de Manaus. Aí vem a pergunta: você acha mesmo que isso pode dar certo?

Queridinhos – Moradores da invasão conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos (SP) foram eleitos pela ONU como o povo mais amado do Brasil. A constatação tomou como base a quantidade de gente preocupada, na internet, com os desalojados pela polícia paulista.

Ah, bom! – Infraestrutura, transporte público, educação e saúde são os piores problemas brasileiros, apesar da enorme carga tributária, aponta pesquisa do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), divulgada ontem. A informação foi um alívio para políticos de norte a sul do país, já que não é do DataFolha nem do Ibope.

Agora foi? – Era aguardada para hoje, novamente, a entrega da carta de renúncia do vereador Paulo De’Carli (PSDB), que prometeu deixar livre seu mandato por coerência, já que trocou de partido.

Pé frio – Mick Jagger deve aparecer em um evento organizado pelo primeiro-ministro David Cameron, para promover a Grã-Bretanha durante a reunião das pessoas mais ricas e poderosas do mundo em Davos, nesta semana. Com a notícia, as pessoas mais ricas e poderosas do mundo já estão se despedindo de sua condição.

As notas de segunda-feira são peças de humor e fictícias, e não têm nada relacionado com jornalismo.

(R)EVOLUÇÃO ?!

Por Élder Silva

Grande transformação, mudança sensível de qualquer natureza, seja de modo progressivo, contínuo, seja de maneira repentina”; “movimento de revolta contra um poder estabelecido, e que visa promover mudanças profundas.

Quem nunca se pegou pensando numa profunda reflexão sobre que caminhos deve se tomar para a “estabilidade” social ou pessoal? A vida da humanidade seja filosófica, psicológica, econômica, política ou amorosa passa por um exigido momento revolucionário, alteração de destino. As atenções para tais mudanças, nos últimos tempos estão calcadas no acesso incontrolável a informação, porém o sentimento que inspira esta vontade de alterar futuros dias na linha do tempo é o mesmo: Evolução!

Geralmente as juventudes são as mais facilmente sensíveis a este sentimento, ocupando um papel privilegiado no estímulo e na frente dessas transformações, alguns com o raciocínio saudável e muitos presos a períodos passageiros de dominação e/ou manipulação do que vira comum debater mesmo que ainda instintivamente. O século XXI parece estar fadado a revolucionar o status quo pelo caminho onde a banalidade evidente estiver mais próxima de sua visão ou mais colorida por imagens de internet e televisão. Leituras e debates mais sacados pela sua origem no antepassado têm ficado descartados, – as folhas são bem mais fáceis de alcançar do que a raiz – deve ser daí que vem a inversão e deturpação de valores humanos que as civilizações mais antigas levaram séculos para pensar, escrever e repassar aos seus súditos. Muitos chamam a isso de liberdade, e em nome desses conceitos da livre iniciativa acabam sendo prisioneiros de uma liberdade onde o que menos importa é o aspecto significativo dos questionamentos.

Lutar, reagir, falar, gritar e colocar ao mundo angustias individuais e coletivas é a prática mais adequada ao processo revolucionário. Será ?! Ultimamente as redes sociais têm expelido por meio de piadas e adesão incoerente, o meio mais eficaz de se travar mudanças, sendo muitas de mero acaso do momento. O significativo foi alterado para segundo plano pelo que é mais fácil, transpondo sem percepção que tais novas estruturas levantadas continuarão frágeis ao acaso e ainda assim atendendo interesses menores, pois o individualismo é atual regra. Transformações do ter e não do ser tem impulsionado o termo revolução na sociedade contemporânea, não se preocupando em derrubar castelos e sim a busca pela decaptação do rei mais evidente, contudo ainda assim, é possível avistar pensamentos ou conjunto de pensamentos habilitados em planejamento e organização pela mudança.

A subversão não deve ser maníaca, muito menos versão de face única e sim no equilíbrio entre o momento aparente e a desgastada profundidade de conceitos, responsabilizando a destreza no mundo atual para despertar o coletivo, transformando os sentimentos em causas nobremente conscientes, valorizando e valorando seus atores e agentes participativos, e isso poucos partidos, entidades, movimentos tem tido êxito, por usar um discurso romântico superficial afastando o pragmatismo e a reflexão lógica, detendo mentes mais simples a aderir o conceito de mudança. Revolução sim, se faz por amor sine qua non mesmo que ainda tenham (r)deformado o conceito de amor para necessidades e desejos.

Lute, reaja, fale e confronte! Na internet, nas ruas, nas instituições, na cama (sozinho ou acompanhado), na música, nos bares, nas festas, enfim nas camadas e meios mais diversos e diversificados. Nunca esquecendo que a (r)evolução mais profunda está na consolidação do conjunto de valores filosóficos, psicológicos, econômicos, políticos e amorosos. O resto será acumulação.

Texto: Elder Silva (@eldersrsilva)

Revisão: Nayara Gonçalves (@Nay_sg)

“[...] as profundas transformações, tanto no ser humano como na sociedade, podem ocorrer em períodos de tempo reduzidos. Quando menos esperamos, a vida coloca diante de nós um desafio para testar nossa coragem e nossa vontade de mudança; nesse momento, não adianta fingir que nada acontece, ou desculpar-se dizendo que ainda não estamos prontos. O desafio não espera. A vida não olha para trás. Alguns segundos é tempo mais que suficiente para sabermos decidir se aceitamos ou não o nosso destino. [...]” Paulo Coelho

*Élder Silva é líder estudantil.

Laico, porém injusto.

Por Sandro Augusto*

A Prefeitura Municipal de Manaus, administrada por Amazonino Armando Mendes, realizou no sambódromo, um reveillon gospel, cuja atração principal, o cantor Thalles Roberto, foi contratado pelo dobro do valor já inflacionado do seu cachê.

Muitos foram para as redes sociais e jornais questionar: “Onde fica a laicidade do município?”, “Já pode rasgar a constituição?”, “Por que a PMM está patrocinando um evento religioso?”, etc. Ponham a mão na cabeça e repitam comigo: Como assim?!?!

Podem me criticar o quanto quiserem: mas eu sou a favor da festa destinada aos evangélicos.

Naquela noite, foram mais 2 festas espalhadas pela cidade e bancadas com dinheiro municipal: Ponta Negra e Zona Leste. Eventos estes, também destinados a quem interessar possa. Mas os evangélicos não iriam (pelo menos acho que não), devido suas crenças e convicções.

Me questionaram quanto às outras crenças que foram excluídas: budistas, hinduístas, umbandistas, judeus, islâmicos, etc. Não sei! Talvez fazer uma festa pra cada. Sei lá. Mas sempre vai sobrar alguém.

Não vou me alongar aqui neste assunto e nem no já muito discutido superfaturamento da festança. O que quero frisar neste artigo é o desrespeito com os valores locais

A Fundação Municipal de Turismo – Manaustur, cujo titular – Pop da Selva – Arlindo Jr. gastou R$1,062 milhões com o “circo” no reveillon da cidade. Bruno e Marrone sozinhos levaram R$700mil, Calcinha Preta, R$200mil e Thales Roberto, R$130mil. Também tivemos artistas locais, ganhando entre R$2mil a R$4mil. Notaram a disparidade?

Temos na cidade, o espetáculo teatral “Um Sonho de Natal” da Igreja Nova Batista, todos que foram assistir saíram com a mesma impressão: Espetacular, emocionante, lindo! E pelo que me contam, não se trata de um evento destinado a uma religião em específico e sim de arte ecumênica. Pergunta: a prefeitura contribuiu para esta atração?

Papai Noel estatal, só aparece na Ponta Negra e no Largo São Sebastião. Ele podia ir nas praças dos bairros, nas escolas, nas creches, até mesmo nas ruas. Isso faria muita criança feliz e com pouco dinheiro gasto. Isso pode não dar retorno financeiro, mas dá voto. E por que não é feito? Com atitudes pequenas se podem fazer grandes realizações.

Não sou contra artistas nacionais, eles são importantes, abrilhantam nossas festas. E sei que são caros, claro! Mas, se passarmos a procurar entre nossos artistas independentes da motivação religiosa, veremos que temos muito a oferecer para nossa população. Paguem o que lhes é justo e devido, valorizem a prata da casa. Quem sabe um dia eles possam valer até mais do que um desses “medalhões” nacionais.

 

* Sandro Augusto é meu amigo.

O ogro, a princesa e o descolado que você viu? Não, os PMs, o delegado e a realidade que você não viu!

Sim, falar do Big Brother é meio 2001. Mas se o próprio programa não sabe a hora de se aposentar, por que não comentar o fato que, finalmente, o transformou em pauta interessante?

Pra começo de conversa, não assisto o programa. Também não o demonizo como futilidade de quem não tem com o que se preocupar. É pior: eu ignoro o Big Brother. Assisti boa parte da sétima edição (acho que foi essa), vencida pelo Diego Alemão. Antes dela e depois dela, nunca acompanhei. O que perdi com isso? Somados os três meses anuais que duram cada edição, fiz as contas e vi que perdi três anos de discussões, piadinhas e bafafás de cortiço, apenas maquiados por uma casa de rico, onde até o gramado deve ser do patrocinador.

O Big Brother virou pauta interessante porque, depois de mais de dez anos, finalmente deu um bug, apresentou defeito, deu tilte. O episódio do suposto estupro não foi importante em si, porque convenhamos, se ainda é difícil pra você entender que sexo com uma pessoa desacordada é estupro, ou você para de beber logo ou evita pegar no sono na presença de pessoas estranhas. O escândalo não é o rapaz, depois de se amassar com a moça, não suportar ir dormir sem sexo. Infelizmente, isso é o que mais tem por aí, depois das baladas, entre essa moçada jovem, bonita, sarada e confusa sobre o que é sexo consentido ou não. Estupro é estupro, e o fato de um deles ter ocorrido ao vivo, pro país inteiro ver, é a primeira grande falha num programa moldado, formatado pra não ser reality, apesar do nome.

Não vejo muita diferença entre o Daniel Filho convocar a Mariana Ximenes pra ser a mocinha ou o Eduardo Moscovis pra ser o descamisado de uma novela, e o Boninho convocar a Patrícia para ser a princesa e o Manoel pra ser o nerd do Big Brother. Que diferença faz se a Patrícia não é atriz profissional como a Mariana? Se há um enredo a ser seguido ou regras (secretas) a serem cumpridas, qual a diferença entre o BBB e a novela da Griselda?

O escândalo está na direção, na produção e na apresentação do programa. Não me importo se uma moça sofreu abuso sem perceber. Não me importo se um rapaz deu uma infringida rapidinha no Código Penal. O que me incomoda é ver, a troco de milhões de reais em patrocínios e publicidade, uma gigante como a Globo se prestar ao papel de acobertar um crime, e pior, tentar encobri-lo criando um casal romântico de mentira. Pela lógica do que vi na tevê e na internet desde domingo, os casamentos forçados de meninas iranianas com homens que poderiam ser seus pais poderiam facilmente virar uma linda história de amor, se o regime aiatolá fosse parceiro comercial da emissora. É isso mesmo? Um crime não é bem um crime, se ele oferecer riscos financeiros à maior mina de ouro da televisão brasileira?

Com que cara o jornalista Pedro Bial vai recitar seus poemas e romantizar a alma dos participantes mais tarde, quando for anunciar o ‘primeiro’ eliminado do programa? O Pedro Bial, que vi cobrindo a queda do Muro de Berlim em 1989 e que hoje vejo apenas recitando poema de paredão de Big Brother, vai mesmo conseguir recuperar no espectador aquela aura de decifrador de sonhos, mago das palavras?

Pra mim, o que fica do episódio é a cena patética da emissora tentando esconder a falha da Matrix. O tesão do rapaz avançou além do script, os cameramen não foram treinados para tanta realidade. A produção desligou o pay-per-view, cortou o som dos microfones, a moça sumiu da frente das câmeras por horas e horas, e o rapaz foi simplesmente deletado da tela, sem uma cena de carro despencando, como nas novelas.

Deu tudo errado. A polícia chegou ao estúdio pra dar uma espiadinha, um inquérito foi aberto, os atores foram interrogados. A imprensa internacional ficou sabendo, noticiou, o assunto tomou conta da internet, onde milhares de dúvidas legais foram surgindo ao longo do dia. Machismo, hipocrisia, humor, estupro, abuso, fingimento, contradições, a moça acordou com short ou sem short… E a dona disso tudo, na voz de seu poeta-apresentador, fez cara de paisagem: “O espetáculo tem que continuar!”, disse Bial, depois de anunciar a deleção do rapaz, que teria infringido uma regra do programa, e não o Código Penal.

Hoje, como tudo o que cerca o Big Brother desde sempre, a polêmica já é quase passado. Passam as bundas, os rostos, as gírias, as intrigas e as estratégias da madrugada. Passa o PPV do programa, passa a fatura do cartão, esquecem-se os nomes do ogro, da princesa, do nerd e da barraqueira, e ficam apenas os milhões, milhões e milhões, arrecadados pela emissora e pelos anunciantes, além dos milhões recebidos pelo diretor, pelos produtores e pelo apresentador.

Ouço a humanidade falar mal da Rede Globo há muito tempo. Nunca dei bola, até ontem, quando vi que uma das maiores emissoras de tevê do planeta aceitou encobrir um estupro transmitido ao vivo, mesmo amordaçando funcionários e participantes, que agora são obrigados – provavelmente pelas ‘regras do programa’ – a silenciar sobre o caso.

Não deixa de ser uma deliciosa ironia, para alguém que nunca gostou da fórmula, ver que o ‘show da realidade’ da Rede Globo é uma tentativa frustrada de controlar seres humanos de olho no caixa, como se a realidade pudesse ser controlada.

O suposto estupro do Big Brother não desmoralizou a moça, tampouco o rapaz. Desmoralizou a emissora e seus magos milionários. Desmoralizou os versinhos de serenata de Pedro Bial, desmoralizou o playboy Boninho, que nunca fez questão de esconder que vale muito pouco como ser humano.

Desmoralizou, acima de tudo, a legião de aficionados na atração, fascinados pela tal tevê realidade e defensores das nuanças sociológicas e filosofais que o programa tem, escondidas ali entre uma garrafa de energético Fusion, um tablete de caldo de galinha Knorr, um carro Fiat ou uma sanduicheira Carrefour.

Realidade e sociologia uma ova, minha gente. Dos doze anos de programa, a única vez em que a realidade participou da festa foi ontem, quando a polícia foi apurar um crime. E quando a realidade entrou na ‘casa mais vigiadada do Brasil’, você, espectador, foi impedido de dar sequer uma ouvidinha, quanto mais uma espiadinha. Quem diria, você ‘pagou-pra-ver’ um reality show, mas desligaram o som e tiraram a imagem da reality do ar.

Durma com uma realidade dessas.

Aliás, não durma.

Pobre Acre

O jornalista Altino Machado teve acesso a uma cartilha, elaborada pelo Governo do Acre e distribuída entre servidores estaduais, que dita 42 regras de uso das redes sociais na internet, com o Twitter e o Facebook. A peça é uma violação de direitos pessoais dos funcionários, não por listar regras universais de etiqueta que independem de governos ou empresas, mas por ditar o que os funcionários devem fazer com suas contas pessoais, obrigando-os a passar à frente conteúdo político e institucional, mesmo não querendo.

Parece absurdo, mas o Governo do Acre está obrigando seus servidores comissionados a puxar o saco do chefe. Está na regra 21: “Dê RT no @tiao_viana”. A assessoria do governo diz algo lógico: nada mais normal do que órgãos de assessoria serem orientados sobre seu comportamento institucional. O problema é quando a ‘assessoria’ deixa o perfil institucional e o funcionário, pessoa física, passa a ser policiado sobre o que faz já em casa, de sandália de dedo e bermudas.

O Governo do Acre precisa entender que, independente do número de RTs que receba, na internet a qualidade da imagem vale mais do que sua massificação. As autoridades acreanas também precisam saber distinguir veículos ou meios de massa de um meio onde, às vezes, ser muito comentado não traz votos, mas sérias manchas na imagem.

Outros pontos da cartilha ensinam os bons caminhos aos funcionários: “Tenha bom senso ao seguir alguém no Twitter. Ao seguir pessoas você evidencia suas relações”. O famoso “dize-me com quem andas e te direi quem és” é outra excrescência que o planeta inteiro sabia existir no território acreano, mas que agora foi declarada publicamente.

O caso acreano de manipulação e policiamento de servidores públicos, apesar de extremamente raro, merece atenção. A conivência do resto do mundo com a cartilha traz o risco de que, em pouco tempo, outros governos acabem cometendo o erro de confundir máquina pública com aparelhamento político pessoal, pago com dinheiro público.

Se essa novidade puder ficar apenas no Acre, que os estados vizinhos fiquem de olho e evitem cometer o mesmo erro.

 

Notas de segunda-feira

Fauna — Por questões ambientais, moradores do bairro da Cidade Nova, em Manaus, foram obrigados a desviar o caminho de volta pra casa neste domingo, 8. É que entrou em vigor o defeso de três espécies nativas da região, ameaçadas de extinção. Durante o período de reprodução de amantes do forró, do funk ‘proibidão’ e do axé, que dura até a quarta-feira de cinzas, motoristas, pedestres e agentes públicos não podem interromper o acasalamento em público dessas espécies. Quem for apanhado buzinando, atirando objetos ou água gelada nos animais pode ser multado pela Prefeitura. (foto: Evandro Seixas / A Crítica)

Falando em Prefeitura – Pais que levaram seus filhos à Cidade da Criança, na zona Centro-sul da cidade, decidiram criar uma associação para pedir, junto à Prefeitura, sua mudança de endereço para o local. Com áreas verdes, água nas torneiras, gramado, calçadas, playgrounds, segurança, espaço e casinhas que não vão pagar IPTU, o local virou alvo da cobiça dos manauaras crescidos. Mas parte do grupo desistiu do pleito assim que o prefeito da cidadezinha surgiu no palanque de inauguração.

Solução — Promete ser um sucesso a nova campanha de desarmamento do governo de Budapeste contra o aumento nos índices de violência na capital húngara. Após receber folhetos com um ranking dos bandidos mais procurados (5º – Estupradores; 4º – Assaltantes; 3º – Sequestradores; 2º – Latrocidas e 1º – Blogueiros e tuiteiros), moradores estão ouvindo a promessa de que, com a campanha, ficarão livres da violência em poucos dias.

Não ria — Corvos e ursos também choraram a morte de Kin Jong-il, afirma a agência estatal de notícias norte-coreana KCNA. A notícia só não é mais ridícula porque, pensando bem, é perfeitamente possível de ser escrita qualquer hora dessas do outro lado mundo.

E pipa? — Moisés Cohen, médico responsável pelas cirurgias em Rodrigo Minotauro e Júnior Cigano, lutadores do UFC, defende que, comparados no quesito ‘qual machuca mais?’, o futebol e o MMA não diferem muito. “A maior preocupação com os esportes de contato é o trauma no crânio, que chamamos concussão cerebral, quando o cérebro se movimenta dentro da caixa craniana por causa de uma pancada. Mas isso também pode ocorrer no futebol”, diz. É importante lembrar também dos perigos do Lego. Crianças menores de três anos, brincando de blocos de montar no chão do quarto, também podem se desequilibrar e bater a cabecinha no chão. A diferença entre o futebol, o Lego e o MMA é que, nos dois primeiros, a pancada é um acidente, não o esporte em si.

Cruz e espada — Fabricantes começaram a semana lucrando com o aumento nas vendas de garrafões plásticos de 20 litros, depois que o Fantástico provou que postos de gasolina roubam os clientes abastecendo menos do que o vendido. Motoristas estão pedindo que os frentistas encham os garrafões para se certificar que não estão sendo lesados, sem saber que os fabricantes dos garrafões vendem vasilhames de 18,6 litros, em vez de 20.

Carisma — Henrique Oliveira e Sabino Castelo Branco, campeões de gastos com verba parlamentar em Brasília, são também conhecidos pela timidez com que atuam no plenário da Câmara dos Deputados. Dom Luiz Soares Vieira está mais apto para assumir uma cadeira no Congresso Nacional. Tempo de tevê, obras sociais e participação em debates sobre os temas que afetam a população, o arcebispo de Manaus tem muito mais do que os dois parlamentares. Difícil vai ser convencer a Rede Amazônica a abrir mão de sua principal notícia diária.

Belém — Vários leitores enviaram comentários ofensivos sobre o artigo “Pobre Belém”, publicado no último sábado no jornal Dez Minutos e transcrito aqui. Ameaças de processo, denúncias ao Ministério Público e adjetivos como ‘idiota’ chegaram durante todo o fim de semana. Pobres blogueiros manauaras. De um lado, a censura light, do outro, Belém.

Lembrança — Meu avô, Ismael Benigno, teria completado 100 anos na última semana. Apaixonado pelo time e principal figura do bairro de São Raimundo, foi o responsável pela construção do Estádio da Colina, sócio da rádio Difusora do Amazonas, patrono do bairro e um ‘pai’ para boa parte dos moradores ali. Morreu ajudando a todos, na porta de casa, sem mandato, só por ajudar. Fizeram falta as mínimas homenagens a um dos homens que mais amaram esta cidade. O problema de Manaus é que ela é frígida.

Apesar de poder parecer, as notas de segunda-feira não têm nada de jornalístico. São baseadas em notícias fictícias e apenas peças de humor.

O Armagedom manauara

No final da tarde de ontem, imaginei o presidente, Morgan Freeman, entrando em rede estadual de rádio e televisão, para dar a triste notícia aos manauaras:

– Manauaras e manauaras, hoje peço a atenção de vocês para cumprir o meu dever como Comandante em Chefe desta gloriosa nação. Infelizmente a notícia que lhes trago não é boa. Cientistas do nosso observatório espacial na Mansão do Tarumã detectaram, há 10 meses, o que seria uma imensa massa de ar e água em direção à órbita manauestre. Depois de meses e meses de intenso trabalho, cálculos matemáticos e projeções, foi elaborado um relatório conclusivo sobre o que nos aguarda para as próximas horas. Batizamos a massa de ar e água de CHUVA, um composto letal para nossa raça. Uma missão não tripulada tentou desviar o objeto para o Pará, mas não tivemos êxito. Portanto, sinto informar que agora é oficial…

E continuou, pausadamente e com aquele tom grave.

– Vai chover em Manaus.

Manauaras, manauaras e manauarinhas vão parando em frente às vitrines das lojas de eletroeletrônicos na Avenida Eduardo Ribeiro. Camelôs sintonizam suas pequenas tevês ching-ling para ver o pronunciamento. Famílias inteiras se abraçam no Largo São Sebastião e vêem, sobre a cúpula do Teatro Amazonas, a gigantesca cumulonimbus se aproximando…

E Morgan Freeman continua.

– A chuva nos atingirá precisamente às 17h30 desta sexta, 6 de janeiro do ano 2012 da Era Cristã. O impacto imediato das bilhões de gotas de água matará milhares de nós, instantaneamente. Semáforos deixarão de funcionar, serviços de telefonia entrarão em colapso, rádios e tevês sairão do ar. Manaus ficará seis meses na escuridão. A falta de luz natural matará nossa vegetação, e os gases tóxicos farão outras milhares de vítimas. As aulas ficarão suspensas, o Discovery Kids será cancelado. Na Cachaçaria do Dedé, no shopping Manauara, dezenas de clientes aproveitarão a escuridão para sair sem pagar suas contas. Luzes de emergência não funcionarão, cruzamentos serão fechados e milhares de motoristas dirigirão com o pisca-alerta ligado. Alimentos e bebidas ficarão escassos, por isso planejamos o racionamento de comida e água. As saídas da cidade serão interditadas, barreiras deslizarão na BR-174 e nossa ponte, este colosso arquitetônico que nos liga à civilização irandubense, será fechada por causa das gotas de água espacial.

A música emocionante cresce ao fundo. Flamenguistas e vascaínos se abraçam no Eldorado. Filhos pedem perdão aos pais e nas prateleiras das lojas de conveniência, garrafas de vodca e energético são vendidas a R$ 300 o kit, e vendem como água. Redações ficam em povorosa, infográficos começam a ser desenhados para explicar à população como funciona o fenômeno da chuva. No enorme telão instalado no cruzamento da Sete de Setembro com a Eduardo Ribeiro, a multidão olha para o alto e prossegue ouvindo Morgan Freeman. O silêncio é total.

– Desde que nossos cientistas me informaram sobre a chuva, decidimos pensar em formas de assegurar que a raça manauara não será extinta pela chuva. Construímos 12 enormes abrigos subterrâneos, preparados para receber representantes da nossa elite intelectual, aqueles que, depois da chuva, terão a missão de repovoar a cidade, preservando o espírito manauara, guerreiro, obstinado, capaz de renascer das trevas e devolver à cidade a o papel protagonista que ela se acostumou a ter no cenário mundial. Por isso, escolhemos a dedo aqueles que darão à nossa civilização uma nova chance. Apresentadores de tevê, colunistas sociais, jornalistas, donos de canais de rádio e tevê, proprietários de pequenas empreiteiras e importadoras, sócios de agências de publicidade, donos de cartórios, revendedores da Apple, instaladores de porcelanato, policiais militares e donos de institutos de pesquisa.

E Morgan Freeman termina:

– Manaus já atravessou catástrofes antes, e sempre renascemos para provar que somos mais fortes. Foi assim que nossos antepassados sobreviveram à miséria, à falta de água, ao analfabetismo e aos surtos de malária. Sim, muitos manauaras perderão suas vidas, suas motos e suas bancas de camelô. Pais, filhos, irmãos e cunhados perderão seus entes, mas com os escolhidos por nosso governo, sei que o destino de nossa cidade é ressurgir das águas. Que Deus nos abençoe e nos proteja.

Pobre Belém

É grande o alvoroço na distante cidade de Belém, capital do lendário Pará, nestes primeiros dias de 2012.

O jornal Diário do Pará, certamente em defesa dos interesses de toda a sociedade belenense, denunciou que o prefeito local, Duciomar Costa, favoreceu a empreiteira Andrade Gutierrez numa concorrência pública, avaliada em R$ 430 milhões, para a construção, veja só, de uma estrada para o BRT – o ônibus sobre trilhos, solução escolhida pela maioria das cidades-sede da Copa 2014 para o transporte público. É importante lembrar: Belém não foi escolhida sede de jogos da copa e, inexplicavelmente, decidiu investir em transporte público assim mesmo, contra toda a lógica do mundo civilizado.

A construtora teria sido beneficiada com a saída das concorrentes do páreo, que teriam se retirado em protesto, depois de saber que a AG já estaria garantida como a vencedora da disputa. As denúncias são de que a empreiteira foi escolhida para contribuir com o caixa 2 do prefeito, que este ano disputa a reeleição. É que em Belém, diz a lenda, há esse costume de os políticos usarem obras públicas superfaturadas para rechear os cofres que serão usados nas campanhas políticas. Coisas do Pará.

Outro ingrediente na maniçoba da sujeira da prefeitura é o aniversário da cidade, que será comemorado no próximo dia 12. Em resposta ao jornal, a Andrade Gutierrez admitiu estar bancando, por pura bondade, ninguém menos que Ivete Sangalo para embalar a festa da cidde, ao cachê estimado em R$ 1,5 milhão.

Belém tem sérios problemas na área da saúde. Hospitais lotados e mal equipados, médicos mal pagos, falta de remédios e até mortes de bebês em série, na principal maternidade da capital. Imagine o que é ver postos de saúde sem remédio, crianças sem aula, denúncias de corrupção na prefeitura e, no meio disso tudo, um show milionário para coroar tanta bandalheira.

Tenho dó dos paraenses. Dias atrás, na noite de Natal, eu teria cantado, em solidariedade a esse povo distante: “Pobrezinhos, nasceram em Belém…”.

Publicado no jornal Dez Minutos deste sábado, 7 de janeiro.

É como no futebol: “Quem não faz, ouve!”

Não interessa se eu gosto ou não das músicas (desculpem, canções) dos Los Hermanos. Mas se o tal Bruno Medina, integrante da banda mais culta e barbada do país, se dá ao trabalho de escrever para Michel Teló, então eu também posso. Não para pedir que o vetor de contaminação de “Ai, se eu te pego!” fique longe do Brasil, como o Bruno fez, mas para perguntar por que, afinal, músico culto e barbado não gosta de sucesso?

Em sua carta a Teló, Medina lembra que passou pelo mesmo inferno do sucesso, ao ver Anna Júlia ser tocada no país inteiro durante vários meses. Deve ser horrível mesmo. Imagine você, culto e barbado, com sua camisa xadrez e seu All-Star puído na fila do pão, sendo reconhecido por um refrão sem verbo, sem conjunção, sem sequer um pronome!

“Ô, Anna Júlia-a-aaaaa-a-aaaa…”

Kurt Kobain, que encantou a moçada da barba, da camisa xadrez e do All-Star puído, se matou depois de ver diversas músicas do Nirvana virarem sucesso. E olhe que as músicas nem eram lá essas coisas.

Não sei o que é pior, se é a usina atômica da Som Livre, disparando mísseis de longo alcance a cada seis meses, como Luan Santana e Michel Teló, ou aqueles que sabem fazer música mas preferem não fazer, porque sua proposta filosófica ou seu ideário cultural não combinam com sucesso.

A carta do Hermano Medina não é importante por causa de Michel Teló, mas por remexer uma chaga da cultura nacional, a ideia de que o que é bom não pode ser popular, ou deixa de ser bom porque ficou popular. Incapazes de oferecer qualquer coisa que levante fervura na música brasileira, os Los Hermanos decidiram criticar o que consideram porcaria, utilizando como parâmetro seu único sucesso! É odiar demais Anna Júlia!

Há vários meses o Brasil vem assistindo, passivamente, a Rede Globo e a Som Livre enriquecendo esse urânio musical na cara da ONU, sem reação. Até que Luan Santana fechasse o pacote Video Show – Faustão – Fantástico – Criança Esperança – Show da Virada, vimos aquele rapaz completamente desconhecido nos intervalos do Jornal Nacional, num DVD gravado num lugar estranhamente lotado. Assim que Luan foi disparado e fez o estrago que fez, a ogiva Michel Teló começou a ser montada. Ou você não viu, durante meses, o rapaz nos intervalos do JN, em comerciais da Som Livre, gravando seu DVD aparentemente no mesmo lugar e com o mesmo público de seu sucessor?

Sobre Michel Teló, o que dizer mais? A música é uma porcaria? É, como também é Luan Santana, Maria Gadú, Parangolé e Ana Carolina. Nada disso, porém, tira dos criadores de porcaria o direito de fazer sucesso. “I got a feeling, uuuu-hú…”, dos Black Eyed Peas, é tão rasa e boba quanto “Delícia, delícia, assim você me mata…”, mas tem melodia. E música, amigos, é melodia, gostemos ou não. O problema da música brasileira não é o Teló, igual a ele há mais mil – e a Som Livre já tem uma meia-dúzia de hits de verão no forno.

Não é a música “Ai, se eu te pego!” o que incomoda. Muita porcaria igual já foi sucesso no Brasil, e muita porcaria igual ainda será sucesso no Brasil. O que incomoda é não saber como agir diante de quem adorou o hit do verão 2012. Pra mim não é chato, é constrangedor. Numa festinha de fim de ano e cercado de pessoas cantando “Ai, se eu te pego!”, como o Bruno Medina, eu me sinto o único humano no meio de babuínos. Nem melhor, nem mais culto, nem mais higiênico. Apenas humano.

O problema é a jequice brasileira de querer ser cult. Se tentassem, com suas camisas xadrez, suas barbas grandes, suas guitarras encardidas e seus All-Star puídos, apenas fazer uma música de sucesso – e que também fosse boa! –, os Los Hermanos ajudariam o Brasil a se livrar do Michel Teló mais facilmente do que apenas destilando rancor. Rancor contra porcarias como “Ai, se eu te pego!”, que não tomam o lugar da música boa na preferência nacional. Apenas ocupam um lugar, deixado vazio por gente talentosa que tem nojinho de sucesso.

Os Los Hermanos, que terminaram a banda e deixaram milhares de fãs (muitos amigos meus) órfãos de suas dissonâncias, desafinações e acordes exóticos, ainda vão precisar escrever muito, pedindo que outros artistas se retirem do país por terem feito tanto sucesso quanto (cof-cof) Anna Júlia. Vocês não vão nos livrar de música ruim mandando o Teló embora do país. Experimentem fazer música boa, mas que também faça sucesso!

Vêm aí Maria Cecília e Rodolfo, uma dupla de sertanejo universitário que também gravou um DVD, no mesmo lugar e para as mesmas milhares de pessoas, e que também está nos intervalos do Jornal Nacional há vários meses. Como o “Meteoro da Paixão” de Luan, e “Ai, se eu te pego!”, do Teló, eles também têm sua ogiva nuclear: “Você de volta – versão axé”.

Anotem esses nomes, Los Hermanos: Maria Cecília e Rodolfo. Eles têm até outro sucesso no DVD deles, especialmente pra vocês: “A fila andou”.

Perdi outra peça de 1982

Cresci sem uma referência masculina na família. Com a morte do meu pai, quando eu tinha três anos, sobraram duas mães (como assim tratei e fui tratado por mãe e vó), uma irmã e um irmão. Isso deve  explicar meu desapego pelo futebol. Não sou torcedor, apenas um simpatizante do Fluminense – e isso também por motivos sentimentais de infância. O que ouvia  falar era da minha vó, falando em Garrincha e Pelé (nessa ordem mesmo), comparando as seleções dos anos 60, 70 e aquelas dos 80 e 90. Minha vó falava coisas como “Quando era o Pelé, o Brasil já tinha feito 10, 15 gols a essa hora!”.

Assim, exagerando as cores das seleções que jogavam em preto e branco, ela fazia pouco caso de Careca, Dunga, Zico, Ricardo Gomes, Cafu e Ronaldinho. O único senão ficava naquele time de 82. Como se não bastasse a qualidade da tal Seleção Canarinho, eu assisti aquela copa internado na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Operei o coração aos oito anos de idade, bem no meio da Copa. Ali, sentado no chão com outros meninos, lembro de um gol do Zico, contra a Nova Zelândia, “de voleio”,  como dizem os entendidos (veja no vídeo no fim do post). Era 23 de junho, na manhã seguinte eu entraria numa sala de cirurgia, sentado na maca, sendo estacionado ao lado de outra maca, coberta por facas, tesouras, pinças e seringas. E era fácil se apaixonar pelo Zico, pelo Júnior, pelo Éder, pelo Falcão e pelo Sócrates.

Duas semanas depois da cirurgia, no quarto do hospital, o cheiro de pólvora da 10 de Julho, o asfalto pintado de verde e amarelo e as bandeirinhas paravam no  ar,  sem som, sem cheiro e sem movimento. Eu olhei pela janela, e não havia ninguém na rua. Era 5 de julho, e na pequena tevê emprestada pelo Tio Roberto, eu e  a mamãe víamos Paolo Rossi, grosso, travoso, branquelo, derrubar o país do samba e do futebol. A Itália acabaria campeã dias depois, devolvendo a lógica ao seu lugar. Afinal, um time que eliminara o Brasil de Telê Santana só podia ser campeão.

Com aquela luz amarelada, aquele sol, o Sarriá era a cara das ruas que eu via em Manaus. Coberto de papel picado. Ao lado do campo, atrás das grades de proteção, aquela gente bronzeada  inconfundível sambava, vestida de amarelo, com bonés e barrigas de fora. No campo, o Júnior sambava depois de fazer um gol contra os argentinos. Os calções eram curtos, as camisas justas, os cabelos grandes e os meiões arreados eram o único sinal de um jogador mais irreverente.

Os dois gols contra a Itália foram de Falcão e Sócrates, as provas humanas de que aquele time era perfeito, misturado, diferente. Falcão e Sócrates fizeram gols em Dino Zoffi. fizeram isso contra o maior goleiro que eu já vi. Ver Zoffi sentado, perto da trave e sobre aquele papel picado, me dava a sensação de que aquele jogo era no campinho da rua Portugal, perto de casa, tamanho era o clima de domingão no Maracanã.

Quando Telê morreu, em 2006, cheguei a comentar que para mim, ele era maior do que a seleção. Senti mais a morte dele do que a de Sócrates, ontem, admito. A morte do Magrão é uma tragédia porque simboliza o desaparecimento lento  aquele time.

Pra mim, que não sou um aficionado por futebol, a tristeza não é de torcedor, é de menino. E para um menino de oito anos, não importa se a lembrança é triste ou  alegre. O fascínio é o mesmo. Até hoje, com um pouquinho de força, dá pra sentir o cheiro dos foguetes e ouvir aquele batuque da torcida ao fundo da transmissão do  Luciano do Vale.

O problema, quando vejo um desses caras morrer, é lembrar de quando minha vida se resumia aos paparicos da família, à pilha de gibis do lado da tevê, ao meu  cubo mágico e aquele cheiro de pólvora.

A morte do Sócrates e do Telê me lembra as bandeirinhas paralisadas no ar, na 10 de Julho deserta daquele 5 de julho de 1982.

  • Aqui, um video sobre a vitória contra a Nova Zelândia, com o voleio de Zico.
  • Aqui, um resumo do que foi aquela partida de 5 de julho, num video italiano.
  • Aqui, “Voa, Canarinho”, o hino nacional daquele mês de junho.
  • Aqui, “Brazil 1982 – A tribute to the art of football”, belo filme sobre a seleção.

Nós, reclamões

O apagão de ontem em Manaus, supostamente causado por um raio que atingiu a hidrelétrica de Balbina, é desses episódios que ajudam a clarear as idéias sobre a nossa capacidade de piorar. Antes que você torça o nariz para o meu negativismo, talvez culpando o raio pela infelicidade na mira, pense comigo. Além das chuvas de verão, aqueles torós de dois minutos que desligam a cidade na primeira metade do ano, há toda a estação das chuvas, de outubro até junho do ano seguinte, de chuvas torrenciais para queimar postes, desligar celulares, apagar rádios, danificar semáforos e parar a capital amazonense.

O fato é que não importa a força da chuva ou a mira do raio, eles sempre vão atingir o ponto fraco de Manaus. Não é negativismo, é observação histórica. Associados às lacunas de infraestrutura, os apagões de inverno (causado pelas chuvas) e os apagões de verão (causados pela falta de chuva) tornam Manaus um destino questionável para turistas ou empresários. Com cinco vezes menos gente e menos carros do que São Paulo, já temos engarrafamentos proporcionalmente similares aos dos paulistanos.

A impressão é a de que entramos no circuito nacional da calamidade pública. Já temos o mesmo granizo, os mesmos vendavais e os mesmos deslizamentos de terra do sudeste. Os mesmos congestionamentos diários, seja dia ou noite. Já temos seqüestro relâmpago, arrastão, crack, transporte falido e nenhuma perspectiva, de médio ou longo prazos, de resolver problemas básicos como saneamento, comunicações, educação. Já há suspeitas de que resíduos químicos de fábricas ilegais estão na atmosfera, e começam a surgir notícias de que a chuva ácida já é, também, coisa nossa.

O apagão de ontem, que deixou as irmãs Manaus e Iranduba sem energia, não foi uma fatalidade. Fatalidade é que, num cenário de falência estrutural como o atual, ainda haja gente que critique o comodismo dos realistas. O segredo é simples. A graça de reclamar em Manaus é que, além de cômodo, sempre estamos certos.

Publicado no jornal Dez Minutos de hoje.

Foto: Ney Mendes, no site A Crítica online.

Notas de segunda-feira

Comum ou aditivada — A bancada amazonense no Congresso Nacional vai apresentar projeto de emenda ao Plano Plurianual da União para o período 2012-2015, solicitando que seja incluída outra ponte para o Amazonas, esta ligando a rodovia BR-319 e a AM-070, em Manacapuru. A nova ponte terá o mesmo tamanho da Ponte Rio Negro, 3,4 quilômetros, mas já chega ao Congresso ao custo estimado de R$ 1,5 bilhão. Orçada em R$ 500 milhões, a Ponte Rio Negro sofreu aditivos que levaram seu preço a R$ 1,1 bilhão. O novo “projeto” parece ter encurtado essa história.

Tamo junto — Alunos do curso de agronomia da UFAM estão preparando um bas… quer dizer, uma passeata interestadual até a USP, em São Paulo, para prestar solidariedade aos estudantes da universidade paulista, que fizeram viradão na delegacia depois de invadir a reitoria. Segundo denúncias dos insurgentes da USP, a Polícia Militar apertou, puxou e prendeu dezenas de estudantes, e agora não quer soltar. Os Dragões da Agronomia prometem não deixar a chama se apagar na maior universidade da América Latina.

Nem — A prisão do traficante “Nem” promete manter acesa a polêmica sobre a repressão policial a pessoas envolvidas com o narcotráfico. Por enquanto, porém, nem militantes de esquerda nem militantes de direita iniciaram a polêmica da próxima semana. A pergunta será “Se cada um pode fumar o que quiser, por que reprimir quem quer vender o que alguns querem fumar?”.

Não é encarte do CD da Madonna, é cartaz do UFC

Exclusivo — Vazou na internet imagem do próximo ensaio sensual de Anderson Silva e Chael Sonnen para uma revista italiana. Os ensaios em casal ou em dupla têm feito sucesso entre os fãs do MMA, o esporte que mais cresce nas escolas do Brasil, com a crise das duplas sertanejas do país.

Domingueira — O ministro da Defesa municipal, Wilker Barreto, denunciou ontem um plano diabólico de Serafim Corrêa para prejudicar a população de Manaus. Segundo Wilker, na calada da noite o então prefeito desonerou o serviço e reduziu pela metade a tarifa de ônibus aos domingos. Wilker promete ainda provar que em 2007 o ex-prefeito mandou misturar leite com manga na merenda escolar das criancinhas de Manaus.

Cara de pau — Funcionários da Prefeitura andam defendendo na internet a proibição de programas de tevê que exploram a miséria da população, como o do deputado Sabino Castelo Branco. Em 2008, Amazonino se elegeu com os votos de Sabino e dos Irmãos Coragem Carlos e Wallace Souza. Carlos virou vice-prefeito de Amazonino, até cair em desgraça. A cara desse pessoal nem treme.

Falando nele — Depois de dizer que foi drogada e estuprada dentro da chácara de Sabino Castelo Branco, a menina encontrada na propriedade do deputado no mês passado conta que fugia de um moto taxista que tentava estuprá-la. A história faz mais sentido, já que a fama dos mototaxistas não anda boa, e a de deputados é, como se sabe, irrepreensível.

Trânsito — Guardas de trânsito de Diadema (SP) encontraram uma forma engenhosa de comprovar a bebedeira de motoristas que se negam a assoprar o bafômetro. Um telefone celular é oferecido ao suspeito, que tem o direito a uma ligação. Se a ligação for para uma namorada dos tempos de faculdade, o sujeito é algemado na hora, tem o carro apreendido, toma 7 pontos na CNH e é indiciado por babaquice dolosa, quando o motorista, ao beber, assume o risco de ligar para ex-namoradas no meio da noite.

Problemão — A Kraft Foods anunciou nesta quinta-feira o recall de embalagens de 100 gramas e 250 gramas do fermento em pó Royal. Em alguns produtos, informa a nota divulgada pela empresa, uma falha no selo de vedação pode fazer com que, no momento da abertura, uma parte do fermento seja projetada para fora da embalagem. Para evitar o olho grande dos clientes, a empresa oferece a troca de todos os produtos.

Nova espécie — Cientistas albaneses criaram um mosquito aedes aegypti transgênico que mata os próprios filhos. Em entrevista a redes de tevê italianas, Lepso, o mosquito cobaia, diz já ter planos de estudar, ter uma profissão digna e um dia, quem sabe, abrir seu próprio negócio.

Notas de segunda-feira

Manaus for export — A primeira noite de movimento na Ponte Rio Negro registrou um triste recorde. Em pouco menos de três horas, 213 assaltos a mão armada haviam sido registrados em Iranduba. Oito casas foram arrombadas, três sequestros relâmpago foram notificados e nada menos que 961 manauaras já se amontoavam em postos de gasolina para beber Skol, ouvir forró e urinar nos muros da cidade. Nenhum caso foi registrado nas delegacias da capital. A foto é do portal D24AM.

Mau gosto — Dois estudantes de Direito foram presos hoje, em flagrante, tentando roubar uma casa em Goiânia. Os jovens tinham vários alicates e ferramentas, que usavam pra arrombar as casas. Os dois foram presos tentando fugir num carro. A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Goiás já adiantou que vai pedir a autuação dos dois por exercício ilegal da profissão.

Juventude — Um vídeo do projeto O Sonho Brasileiro, indicado pelo meu chapa Deco Salgado, vai na mosca ao falar em jovens isolados e de microrevoluções que não dependem de passeatas, protestos nem logística. Cada um faz algo, sem esperar o mesmo do outro. No fim, são as microrevoluções aquelas que vão ficar. Vale a pena assistir o vídeo.

Vendeu, pagou — Um juiz do Rio de Janeiro multou as Casas Bahia por terem colocado uma funcionária em promoção, no carnê, contra a vontade dela. A empregada era obrigada a usar um broche, dentro da loja, com os dizeres “Quer pagar quanto?”. Nas costas, o uniforme dizia “Olhou, levou”. A empresa ainda alegou que suas empregadas tinham o menor preço do Brasil e as melhores condições de pagamento, mas a Justiça achou que houve dano moral.

Bem-vindos! — Para os céticos que duvidavam do poder da Ponte Rio Negro, a prova de que Manaus realmente já desembarcou do outro do rio. Em Iranduba, o preço da gasolina chegou a R$ 2,85 em apenas sete dias. Pessoas que moram próximas à margem, em Iranduba, também já relatam ter visto carros com o adesivo “DUB” e panfletos de temakerias jogados pelo chão. Um garoto de rua jura ter visto o presidente da SMTU, Marcos Cavalcante, andando a cavalo.

Negão — Depois de alegar que o Bolsa Família, sucesso dos governos petistas, era inspirado em seu cartão Direito à Vida, distribuído nos anos 90, o prefeito Amazonino Mendes precisou reescrever novamente a história do país. Em nota enviada de São Paulo à presidente, o prefeito assegurou que as vaias da inauguração da ponte, que Dilma pensou serem pra ela, eram obra sua: “Elas eram pra esse velho cansado aqui, ó!”. Vaiado três vezes nos últimos meses, duas delas diante de Lula e Dilma, Amazonino já pode pedir música no Fantástico. Foi a terceira visita de Dilma a Manaus, apenas duas menos que Amazonino, que já esteve na cidade cinco vezes nos últimos três anos.

Cara de pau — Líderes estudantis ligados a Amazonino precisaram de 25 horas para achar uma explicação para as vaias ao prefeito, na inauguração da ponte. Disseram que a culpa era da administração atual. Não a municipal, mas a federal. Segundo eles, as vaias eram para Dilma, que no Amazonas teve recorde de votos em 2010.

UFC — Em Cubatão, na grande São Paulo, dois estudantes foram filmados brincando de UFC em sala de aula. As imagens ganharam o noticiário nacional hoje, confirmando que as artes marciais misturadas são mesmo o hit do verão brasileiro. Só não deu pra entender o tom indignado da Rede Globo, que trabalha para popularizar o esporte no país. Um dos garotos usou uma caneta para golpear a cabeça do oponente. Bom, ao menos havia caneta na sala de aula. Anderson Silva, o Spider, já é cotado para contracenar com Didi em sua atração dominical.

Presentão — Sobre a ‘Travessia da Saudade‘, a última viagem das balsas do Rio Negro, programada para esta quinta-feira, meu amigo Daniel Veloso, o “Pluto”, tascou: “Oferecer uma travessia dessas aos saudosos é o mesmo que criar o Dia do Tronco, em homenagem ao fim da escravidão no Brasil”.

Mau tempo — Um dia depois de inaugurada, a ponte Rio Negro ficou ameaçada de fechamento, diante do mau tempo registrado no fim da tarde desta terça-feira. Nas redes sociais, fãs clubes de personalidades políticas logo começaram a chamar São Pedro de “invejoso” e “da turma do quanto pior melhor”.

Apocalipse — Na Câmara Municipal, Mário Frota foi chamado por Leonel Feitoza de “vagabundo”. O fato é a piada em si.

O Steve Jobs de cada um


Era 1989, talvez 1990. Um colega de turma, na Fundação Matias Machline, levou para a escola um Macintosh II. Bege, um teclado grosso. Depois me mostrou, em casa, o que parecia um daqueles controles remotos de garagem, com um grande botão na parte de cima, chamado mouse.

Final dos anos 80, início dos 90. Usávamos o MSX HotBit nas aulas da FMM. Microsoft DOS, linguagem Basic. Para nós, o ‘Mac’ era um Aston Martin, uma Masserati, coisa de outro mundo. E era de outro mundo. Caríssimo, com comandos completamente diferentes, filosofia totalmente diversa. Usava disquetes de 3 1/2 polegadas, quando ainda estávamos nos de 5 1/4. Tinha ícones, nós tínhamos os comandos CD, MD, RD, CLS…

Hoje, escrevo isto usando um MacBook Pro. É o meu computador pessoal. Usei antes um PowerBook G4 Aluminum. Às vezes preciso usar um PC com Windows, e depois do Mac nada me afasta da sensação de que deixei meu Aston Martin em casa, e precisei por um momento andar numa mistura ônibus, riquixá e carro de boi, tudo misturado, improvisado e obsoleto.

Pessoalmente, pra mim esse é o legado de Jobs. A obsolescência dos outros. Quando falam do gênio, do visionário que foi, a maioria das pessoas mal se dá conta da complexidade do gênio. O maior desafio da Apple, agora, não é manter a qualidade dos produtos já lançados. A grande ausência não será técnica, mas filosófica. Sim, os produtos da marca são estonteantes, modernos, elegantes, peças de arte fabricadas em série.

Mas não tenho dúvidas da perda de valor que terão com a morte de Steve. Aqui o culto acaba, e com essa quebra se vai boa parte do sabor da maçã. Tim Cook vai apresentar o iPhone 5, o 6 e o 7? Provavelmente sim. o iPad7, daqui a alguns anos, vai apresentar conteúdo de mídia em holografias? Provavelmente.

Mas a magia acabou. Porque a Apple, a marca mais valiosa do mundo entre aquelas de capital aberto nas bolsas, ainda assim é menor do que Jobs. Sem ele, não precisaríamos tanto de seus produtos. Apesar de não consumir o iPhone (o termo é consumir mesmo, e não apenas usar), de nunca ter usado um iPod e ainda não ter o iPad, sei do valor que esse novo kit do homem moderno tem.

Não há design, usabilidade nem inteligência eletrônica, vendida em massa, que supere as máquinas da Apple. O poder de Jobs foi o de ir além disso. No ponto onde qualquer fabricante de tecnologia pararia — o sucesso de vendas –, ele passou do ponto. Não era suficiente cultuar os aparelhos, porque todos viam, naquele homem, a possibilidade de que algo além daquilo logo viria.

Isso morre com ele. Espero que os marqueteiros da marca não tentem seguir com seu modo de vender a marca. Só ele, com aquela camiseta preta, aquele jeans e aqueles óculos de aros redondos sabia fazer aquilo. Não pelo estilo que se acabava em si. Quando Jobs dizia “Mas tem mais uma coisinha que quero mostrar…”, não recebíamos aquilo como uma lorota de vendedor, do tipo que mal conhece as funcionalidades do toca-discos automotivo que vende. Quando ele falava assim, o mundo tremia. Simplesmente porque era pra tremer mesmo.

Foi nessas frases, num cenário escuro e com uma enorme maçã por trás, que Jobs decretou o fim da era dos ‘dumbphones’, os celulares que traziam por trás uma equipe imensa de engenheiros dedicada a desenhar teclados com 800 teclas, ergonomicamente testadas para facilitar a escrita. Ou quando decretou o fim de uma era que apenas começava, a dos netbooks. Não se espera na fila do novo iPhone ou do iPad porque há um aparelho obsoleto em casa. A sensação de aguardar as novidades da Apple não era a de aposentar um PC pra comprar outro com um chip melhor ou com um HD mais possante, mas com as mesmas funcionalidades. A espera é justificada porque dali vai sair, sim, algo novo.

Falo como um feliz usuário de um Samsung Galaxy S: o segredo não está no tamanho da tela nem na capacidade da câmera. Está na inovação por trás do aparelho, como forma de materializar o que muitos de nós imaginávamos, mas sem criar. Bem, Jobs criou.

Já falaram demais da Pixar, dos longas de animação. Todos sabemos sobre Toy Story, sobre o temperamento ruim, sobre os problemas família etc. O que eu faço aqui, como todos fazemos diante de pessoas ou fatos que deixam sua marca no mundo, é tentar lembrar o tipo de relação que tive com aquilo. Como a maioria de nós lembra onde estava e o que estava fazendo na manhã de 11 de Setembro, daqui a alguns anos vamos conversar sobre o que estávamos fazendo na tarde de 5 de outubro de 2011.

Eu passei o dia inteiro na rua, consertando meu carro, no aniversário de um amigo. Cheguei em casa às 23h, abri meu Mac e li que Steve Jobs estava morto.

Steve Wozniack, co-fundador da Apple, disse que a sensação era parecida com aquela da morte de John Lennon.

Tive pouco contato com a Apple ao longo da vida. Me resumi à paixão pela filosofia e pelo carisma de seu mentor, mostrados nos comerciais, nas curvas e na falta de botões de seus gadgets, na imagem da empresa. Deve ser isso o que separa gente muito inteligente, como Zuckerberg ou Gates, de gente genial, como Jobs: o reconhecimento, enfim, de que tecnologia pode virar arte.

Não é à toa que Steve Jobs deixa, além da empresa mais valiosa do mundo, uma legião de fãs, quase fiéis religiosos de sua seita. A seita da inovação. O desafio da Apple, agora, é mais golpe de sorte do que teste de capacidade técnica. É hora de pensar além do iPhone e do iPad.

Se Jobs ficasse por aqui algum tempo mais, deixaria pra trás as melhorias de performance do que já existe. Steve Jobs estaria pensando, mais uma vez, naquilo que muitos de nós pensou, mas não sabia que dava pra fazer.

Essa é a inovação de Jobs. Ter tratado como arte, desde o início, o que virou apenas comércio de hardware. Os desejos humanos estão além das especificações técnicas de produtos que logo serão superados. O ser humano, e a Apple ajudou a provar isso, quer se apaixonar.

Eis o legado que vejo maior em Jobs. Se antes trocávamos de computador como quem troca de tevê, sem emoção alguma (porque a programação é a mesma), hoje temos orgulho dos computadores que temos.

Orgulho que eu vi em 1989, no rosto do Roger. Orgulho que sinto hoje, do teclado do meu Mac.

Novo endereço

O MALFAZEJO ESTÁ NESTE LINK.

Só pode ser montagem!

Os fiscais da Prefeitura, amaciando o camelô Araim Corrêa

Como estive obrando e caminhando por praias cearenses até a última quinta, fiquei privado da leitura dos jornais de Manaus. Só ontem, consultando o Diário Oficial do Estado, encontrei, na edição de quinta (caderno “Dia a Dia”), a matéria sobre a manchetona de capa, “Pancadaria”. É que fiscais da Prefeitura visitaram o centro da cidade, onde foram convencer os vendedores ambulantes (no tempo de Arthur Neto chamados de “camelôs”) a sair das imediações do Mercado Adolpho Lisboa. Só que Araim Corrêa, apoiado por cerca de 20 colegas de profissão, se recusou a sair.

Na capa do Em Tempo de Eleição, a imagem da surra em Araim

A equipe do Amazonas Em Tempo de Eleição registrou o exato momento em que três fiscais usam, cada um, um argumento: um puxa Araim pela camisa, outro lhe aplica uma chibatada com o que parece ser uma vara improvisada, e o terceiro lhe aplica um chutão por baixo. Confesso que não acreditei na imagem, pois foi o prefeito Amazonino Amaciando Mendes quem lançou, com enorme sucesso de público, o apelido de “espancador de camelôs” sobre Arthur Neto, quando o tucano foi prefeito da cidade.

Em novembro passado Amazonino, auxiliado pelo agora presidente do PTB amazonense, Sabino Castelo Branco, também carimbou em Serafim Corrêa a mesma pecha, de inimigo dos mais humildes.

O que explica a imagem acima, então?

Empresa da licitação de R$ 4,3 milhões em Coari é do irmão de Ronaldo Tiradentes

No último dia 22 de julho, o jornalista Raimundo Holanda publicou em seu blog o que chamou de “mais um escândalo” em Coari, a história do aluguel, pela Prefeitura, de trios elétricos pelo período de cinco meses. A empresa era a AMZ Produções, e o aluguel custaria aos coarienses nada menos do que R$ 4,3 milhões. A história não passaria de apenas mais um absurdo vindo da terra do gás natural, desprezado como a maioria dos outros, se não tivesse, em si própria, a explicação para muito do que os manauaras, e não os coarienses, precisam aturar e com o que precisam conviver. Longe dos olhos, longe do coração. Parece ser a filosofia seguida pela quadrilha de Adail, que controlava a imprensa de Coari com mão de ferro e a de Manaus a pão-de-ló.

No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008O aluguel de R$ 4,3 milhões, no Diário Oficial de Coari

A AMZ pertence a Robson Tiradentes, irmão de Ronaldo, o radialista que tomou para si uma cruzada ética contra políticos e empresários que enriqueceram rápida e inexplicadamente em terras amazonenses. Robson é intimamente ligado à moçada de Adail em Coari, amigo declarado do prefeito cassado Rodrigo Alves, um “laranja” eleitoral de Adail Pinheiro. Sua empresa, a AMZ Produções, já levara, no final de fevereiro, R$ 945 mil da Prefeitura de Rodrigo, também pelo aluguel de trios elétricos. A AMZ já fez negócios com a Prefeitura de Manaus. Em outubro do ano passado, venceu licitação para o aluguel de três trios elétricos, utilizados no Boi Manaus 2008. Pelo Diário Oficial, era possível saber que Robson cobrou da Prefeitura de Manaus R$ 25.500,00 pela diária dos trios. A Prefeitura contratou 9 (nove) diárias, num total de R$ 229.500,00. É um cálculo simples o que mostra que, ao custo de R$ 8.500,00 por um trio elétrico, a Prefeitura de Coari precisaria fazer um CoariFolia todos os dias até janeiro de 2010, pra poder pagar os R$ 4,3 milhões à família Tiradentes.

No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008

A relação da família com o grupo de Adail Pinheiro em Coari não é segredo, ainda que seja uma espécie de tabu em Manaus — todo mundo sabe, mas ninguém comenta. Não à toa Rodrigo tem à sua disposição, sempre que deseja, os microfones da CBN de Manaus para se defender das acusações de fraude em eleições e de participação no esquema de corrupção de Coari. Não à toa o dono da rádio CBN em Manaus, Ronaldo, tem feito apelos públicos à Justiça, nos microfones de sua rádio, para que o dinheiro da Prefeitura de Coari seja desbloqueado. Ronaldo pode dizer que serviços de saúde e material escolar estão faltando no município, e que servidores estão com salários atrasados. Só não pode se ofender com as suspeitas de que seu interesse verdadeiro é o recebimento do dinheiro pelos negócios que a família mantém com a Prefeitura. A família Tiradentes, além da rádio e dos trios elétricos, tem negócios no ramo do motociclismo e participação informal no jornal Amazonas Em Tempo. Rogger e Júnior Tiradentes, competidores de motocross, disputam campeonatos Brasil afora, e carregam nos uniformes a marca de Coari, “Visite Coari, a terra do petróleo e do gás natural”. Não há nenhuma informação sigilosa, é tudo público. Um exemplo simples: pesquisando AMZ Produções” no site de buscas Google, um dos resultados é um vídeo do Youtube, intitulado “Carretinha de som by Amz Produções“, em que um grupo de jovens se diverte à noite, filmando um carro de som da empresa AMZ, e que traz na porta a marca da CBN de Manaus, a rádio de Ronaldo e Robson Tiradentes.

Carro de som da AMZ, a empresa dos trios de R$ 4,3 milhõesCarro de som da AMZ, a empresa dos trios de R$ 4,3 milhões

Perguntei por email, por duas vezes, se Ronaldo conhecia a empresa AMZ Produções e o que ele poderia falar sobre o caso dos R$ 4,3 milhões do aluguel dos trios para Rodrigo, mas não tive resposta. A expectativa é agora sobre uma possível decisão judicial, por parte do TRE, liberando o cofre da Prefeitura de Coari para fazer seus pagamentos. Afinal, Ronaldo, na sua CBN, está apelando por isso.

Claro, em nome do povo de Coari.

Quem aluga os trios elétricos milionários para Coari?

No último dia 22 de julho, o jornalista Raimundo Holanda publicou em seu blog o que chamou de “mais um escândalo” em Coari, a história do aluguel, pela Prefeitura, de trios elétricos pelo período de cinco meses. A empresa era a AMZ Produções, e o aluguel custaria aos coarienses nada menos do que R$ 4,3 milhões. A história não passaria de apenas mais um absurdo vindo da terra do gás natural, desprezado como a maioria dos outros, se não tivesse, em si própria, a explicação para muito do que os manauaras, e não os coarienses, precisam aturar e com o que precisam conviver. Longe dos olhos, longe do coração. Parece ser a filosofia seguida pela quadrilha de Adail, que controlava a imprensa de Coari com mão de ferro e a de Manaus a pão-de-ló.

No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008

O aluguel de R$ 4,3 milhões, no Diário Oficial de Coari

A AMZ pertence a Robson Tiradentes, irmão de Ronaldo, o radialista que tomou para si uma cruzada ética contra políticos e empresários que enriqueceram rápida e inexplicadamente em terras amazonenses. Robson é intimamente ligado à moçada de Adail em Coari, amigo declarado do prefeito cassado Rodrigo Alves, um “laranja” eleitoral de Adail Pinheiro. Sua empresa, a AMZ Produções, já levara, no final de fevereiro, R$ 945 mil da Prefeitura de Rodrigo, também pelo aluguel de trios elétricos. A AMZ já fez negócios com a Prefeitura de Manaus. Em outubro do ano passado, venceu licitação para o aluguel de três trios elétricos, utilizados no Boi Manaus 2008. Pelo Diário Oficial, era possível saber que Robson cobrou da Prefeitura de Manaus R$ 25.500,00 pela diária dos trios. A Prefeitura contratou 9 (nove) diárias, num total de R$ 229.500,00. É um cálculo simples o que mostra que, ao custo de R$ 8.500,00 por um trio elétrico, a Prefeitura de Coari precisaria fazer um CoariFolia todos os dias até janeiro de 2010, pra poder pagar os R$ 4,3 milhões à família Tiradentes.

No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008

No Diário Oficial de 16 de outubro de 2008

A relação da família com o grupo de Adail Pinheiro em Coari não é segredo, ainda que seja uma espécie de tabu em Manaus — todo mundo sabe, mas ninguém comenta. Não à toa Rodrigo tem à sua disposição, sempre que deseja, os microfones da CBN de Manaus para se defender das acusações de fraude em eleições e de participação no esquema de corrupção de Coari. Não à toa o dono da rádio CBN em Manaus, Ronaldo, tem feito apelos públicos à Justiça, nos microfones de sua rádio, para que o dinheiro da Prefeitura de Coari seja desbloqueado. Ronaldo pode dizer que serviços de saúde e material escolar estão faltando no município, e que servidores estão com salários atrasados. Só não pode se ofender com as suspeitas de que seu interesse verdadeiro é o recebimento do dinheiro pelos negócios que a família mantém com a Prefeitura. A família Tiradentes, além da rádio e dos trios elétricos, tem negócios no ramo do motociclismo e participação informal no jornal Amazonas Em Tempo. Rogger e Júnior Tiradentes, competidores de motocross, disputam campeonatos Brasil afora, e carregam nos uniformes a marca de Coari, “Visite Coari, a terra do petróleo e do gás natural”. Não há nenhuma informação sigilosa, é tudo público. Um exemplo simples: pesquisando “AMZ Produções” no site de buscas Google, um dos resultados é um vídeo do Youtube, intitulado “Carretinha de som by Amz Produções“, em que um grupo de jovens se diverte à noite, filmando um carro de som da empresa AMZ, e que traz na porta a marca da CBN de Manaus, a rádio de Ronaldo e Robson Tiradentes.

Carro de som da AMZ, a empresa dos trios de R$ 4,3 milhões

Carro de som da AMZ, a empresa dos trios de R$ 4,3 milhões

Perguntei por email, por duas vezes, se Ronaldo conhecia a empresa AMZ Produções e o que ele poderia falar sobre o caso dos R$ 4,3 milhões do aluguel dos trios para Rodrigo, mas não tive resposta. A expectativa é agora sobre uma possível decisão judicial, por parte do TRE, liberando o cofre da Prefeitura de Coari para fazer seus pagamentos. Afinal, Ronaldo, na sua CBN, está apelando por isso.

Claro, em nome do povo de Coari.

Por que me fascinei por “Up”

Publicado originalmente em 22 de junho, nO Malfazejo.

Colby Curtin, de 10 anos, estava viva por um único motivo — um filme.

Desde o momento em que viu o trailer do filme de animação Up, da Disney-Pixar, Colby ficou desesperada para assistí-lo. Colby foi diagnosticada com câncer vascular há três anos, segundo sua mãe, Lisa Curtin, e no início de junho ficou claro que ela morreria logo. Colby estava tão doente que não conseguia sequer ser levada para o cinema para ver o filme.

Depois que um amigo da família fez diversas ligações para a Pixar para garantir que o último desejo de Colby fosse realizado, o estúdio decidiu ajudar.

A companhia enviou um funcionário com o DVD de Up, que está em exibição apenas nos cinemas, para uma exibição privada do longa, no dia 10 de junho. A animação começa com cenas mostrando a evolução da relação entre um casal. Depois de perder a esposa já na velhice, o agora rabugento homem lidá com a perda prendendo milhares de balões à sua casa, voando no céu e vivendo a aventura com um garoto.

Colby morreu sete horas depois de assistir o filme.

Com o velório planejado para a sexta-feira seguinte, Lisa Curtin comentou sobre como estava agradecida à Pixar — e ao filme Up — por terem sido parte do último dia de vida de sua única filha.

“Quando eu assisti o filme, eu não fazia idéia do tema do filme”, disse Lisa, de 46 anos. “Eu só pensava na palavra ‘Up’ e em todos aqueles balões, e eu juro, para mim aquilo significou que Colby estava indo para cima. Pro céu.”

A Pixar preferiu não comentar a história nem revelar o nome dos funcionários envolvidos na operação.

O trailer

Colby foi diagnosticada com câncer vascular em 23 de dezembro de 2005, depois que os médicos encontraram um tumor em seu fígado. Nos últimos dias, seu abdome estava com 94 polegadas, engolido por fluidos que não deixavam que a digestão fosse realizada corretamente. Carole Lynch, outra amiga da família, disse que Colby pesava apenas 20kg na fase terminal da doença.

Colby estudava na Escola Primária de Newport, e era conhecida por fazer os outros rirem, disse Terrell Orum, também amigo dos Curtin. Colby gostava de dançar, cantar, nadar e parecia mais madura do que outras crianças da mesma idade, disse Orum.

Em 28 de abril, Colby foi assistir “Monsters Vs. Aliens”, um filme em 3-D da DreamWorks, mas ficou impressionada mesmo com o trailer de Up.

“Depois daquilo, ela vivia dizendo ‘eu preciso ver aquele filme, parece tão legal’”, disse Carole Lynch. Colby adorava filmes, disse Lisa, sua mãe, e gostava mais dos filmes da Pixar porque era amava bichos.

Dois dias depois, o estado de Colby começou a piorar. Em 4 de junho Lisa pediu que uma enfermeira levasse uma cadeira de rodas para que sua filha pudesse ir ao cinema ver Up. O fim de semana passou, e a cadeira não veio.

Em 9 de junho, Colby não podia mais sequer ser levada ao cinema, e a família achou que ela fosse morrer sem conseguir ver o filme. Foi quando Orum, desesperado para que Colby realizasse seu último desejo, começou a ligar para o estúdio, para saber se alguém podia ajudar.

Diretores da Pixar, depois de ouvir a história, concordaram em mandar alguém para a casa da menina no dia seguinte. Depois de avisada, Lisa perguntou à filha: “Você acha que consegue aguentar?”. “Eu estou pronta (pra morrer), mas eu vou esperar o filme”, respondeu Colby.

O filme

Ao meio-dia e meio, o funcionário da Pixar chegou à casa dos Curtin com o DVD, uma sacola com animais de pelúcia dos personagens e um pôster do filme. Ele explicou alguns detalhes do filme e todos se arrumaram para assistir Up.

Colby não conseguia ver a tela por causa das dores, e manteve os olhos fechados. Sua mãe contou o filme enquanto assistia, cena por cena. Perguntada se tinha gostdo do filme depois do final, Colby conseguia apenas acenar com a cabeça que sim.

“Ele não podia ter sido mais legal”, disse Carole Lynch, que assistiu ao filme com a família, sobre o funcionário. “Ele simplesmente não conseguia parar de chorar”, ela disse. Depois do filme, o pai de Colby, Michael Curtin, divorciado de Lisa, chegou.

Colby morreu ao lado dos pais, às 9h20 da noite.

Entre as lembranças deixadas pelo empregado da Pixar, havia um “livro de aventuras” — um livro de anotações que a esposa do personagem principal do filme usava para narrar suas jornadas.

“Eu vou precisar preencher aquelas aventuras para ela”, disse Lisa Curtin.

Do site americano Findagrave.com, especializado em serviços póstumos, onde se pode deixar depoimentos, dedicar flores e publicar fotos sobre pessoas queridas que morreram.

O Gizmodo também registrou a história.

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