Achado não é roubado?

Faça um teste simples. Você meteria a mão no bolso de alguém para lhe roubar a carteira? Imagino que não. E se encontrasse uma carteira perdida, no chão? E se você soubesse quem é o dono da carteira?

Ontem eu questionei por que o futebol ainda não incorporou aquela chatice encontrada em outros esportes mais, digamos, sem graça: a tal busca da justiça. Ou do mérito absoluto, aqui e ali chamado de ‘fair play’. Não porque sou Vasco ou Flamengo – porque não torço para nenhum deles -, mas porque incomoda demais ver tanta confusão, acidental ou cínica, entre a imprevisibilidade fascinante do futebol e a simples injustiça.

Não deve ser à toa que um esporte com regras tão ‘fascinantes’ seja religião no Brasil. Admito, é de beleza, mas também de absurdos que vive o esporte mais querido do mundo. A FIFA encontrou a fórmula mágica para permitir absurdos no seu esporte, sem necessariamente colocar a vida dos atletas em risco. Títulos mundiais, como o de 1986, seriam de outros donos se houvesse justiça.

O caso de ontem não parece ser de favorecimento intencional ao Flamengo. O lance era complexo a ponto de nem os jogadores e nem os torcedores vascaínos terem reclamado ao tomar o gol. Um amigo flamenguista, justificadamente alucinado pela vitória, chegou a me agredir, como se eu quisesse diminuir a conquista do Flamengo. Não. Eu só lembrei que, em outros esportes, além da tensão, da emoção e do imprevisto, há também a justiça. E se ela pode ser buscada com a ajuda da tecnologia, por que optar por ignorá-la? O que dá graça ao futebol? A imprevisibilidade ou a possibilidade da injustiça? Só no futebol o inesperado é tão comum, e não é raro que o mais fraco derrote o mais fraco. Isto torna o futebol tão fascinante.

Mas quem disse que isto tem algo a ver com injustiça? Times mais fortes podem perder, claro, mas porque jogaram mal. Times mais fracos podem ganhar, mas porque se superaram. Mas um erro de arbitragem decidir um campeonato? Alguém, em algum lugar, deve ter inventado títulos e troféus para simbolizarem a superioridade de uns sobre os outros. O que será mais lembrado no futuro? Que o Flamengo era melhor time ou que o Flamengo foi campeão graças a uma injustiça?

Para finalizar, e não era o caso dos flamenguistas fazerem o mesmo porque não sabiam da irregularidade do próprio gol, o caso de Aaron Hunt, atacante do Werder Bremen, da Alemanha, que simulou uma falta, conseguiu que o árbitro o apitasse o pênalti, mas decidiu abortar a malandragem a tempo.

Ninguém podia cobrar que os jogadores do Flamengo percebessem o erro de arbitragem dentro de campo, mas é angustiante que até o goleiro rubro-negro, comentando já depois de saber da injustiça, dissesse que “roubado é mais gostoso”.

Parece que o Flamengo não enfiou a mão no bolso de ninguém. Só encontrou uma carteira caída no chão e a levou para casa. Afinal, não tinha dono. Só depois soube de quem era o objeto. E preferiu ficar com a carteira, assim mesmo.

Eu não sou um alemão certinho que acha feio sacanear com adversários. Me divirto muito, pelo contrário. Mas meu aplauso a atitudes como a de Aaron Hunt não dependem do time que ele defende. Pelo jeito, muitos brasileiros se emocionam com motoristas e porteiros que devolvem carteiras perdidas, mas não fariam o mesmo no lugar deles.

Não houve nada roubado. Mas a injustiça não precisa de autores, só precisa de remédio.

Beijinho no ombro pros inimigo da mídia

(O professor Antonio Kubitschek. Foto: Ana Rayssa/Correio Braziliense)

Recebi um link, em tom de provocação, de um site chamado Socialista Morena, ainda sobre a genialidade de se levar o funk para a aula de filosofia. Tá, fui ler. E o problema é que o texto da tal morena já começa mentindo, adulterando o texto de um blogueiro. A tal morena escreveu:

Um blogueiro da direita raivosa chegou a decretar o fim da escola pública: “morreu, foi para o ralo. Virou lixo”

E o que o blogueiro disse foi: “A escola brasileira acabou, morreu, foi para o ralo. Virou lixo.”

Note aonde o esquerdismo enxertou sua tese para provar seu ponto de vista. Para essas pessoas, quando a gente fala na “escola brasileira”, no fundo a gente está com ódio no coração, porque a gente acha que só a elite (?) deve ter direito a uma educação de qualidade. A tese é a de que os críticos da educação brasileira são contra a escola pública brasileira. Sai da nossa boca o óbvio, que a educação brasileira é uma vergonha, e o que chega às orelhas desse povo é que a gente quer o fim da escola pública. Todo esquerdista chega à mesa do bar com sua tese pronta: quem fala mal está ressentido com a perda de algum privilégio anterior, agora democraticamente oferecido também às classes mais baixas.

Não existe, na nova configuração mundial, coisa ruim. Uma couve-flor ruim deve estar ruim porque nasceu num solo prejudicado pelos agrotóxicos, não teve a chance de ter nascido em berço de ouro, numa fazenda de agricultura orgânica – destinada, porque cara, somente aos mais ricos. Música ruim não é mais música ruim, é a autodeterminação de um gênero frente ao autoritarismo mercadológico e cultural estadunidense. Se a gente diz que a Popozuda não sabe rimar, é porque a gente tem ódio dela. E por quê? Ué, por que ela vem do morro, da classe baixa, porque é mulher, porque é funkeira. A desocupação dos pensadores de esquerda é tamanha que não se respeita mais sequer a origem das coisas. Outro dia a presidenta disse que uma música de Tom Jobim era homenagem aos exilados que voltavam ao Brasil depois da anistia. E a música era de antes do golpe. A popozuda escreveu uma música para provocar as rivais do showbiz do funk carioca, e o que a esquerda leu foi um libelo revolucionário contra o pensamento conservador que tem ódio da escola pública brasileira. Ou seja, para esse tipo de pensamento, não existe mais música ruim. “Desejo a todas as inimigas vida longa” deixa de ser briga de morro e vira hino progressista. A mulher canta “Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba”, e o que chega aos ouvidos desses doentes é “A mídia não mostra isso para a elite, mas a nossa vida é dura, violenta e sacrificada”.

Ora, vão pentear macaco…

O fato é que eu estou pouco me lixando para a Popozuda, do mesmo jeito que ela está pouco se lixando para mim, para o professor de filosofia, para os alunos de filosofia, para as socialistas morenas e para os blogueiros reaças. E é assim que deve ser. Aqui e ali a gente precisa ainda dar bola à mendicância intelectual de uns e outros, que pedem atenção, provocam, cutucam e não saem do lugar. Me contento com o fato de que essa gente mente pra si mesma, pois sabe a verdade das coisas. E a verdade é que, falando por mim, ninguém julgou o professor. Acredito, inclusive, que a intenção era a que ele revelou mesmo. Que a mídia só se interessa por besteira, e não pela exposição de fotos que seus alunos fizeram. Deve ser verdade. O que é mentira, e essa culpa o professor divide com todos esses pensadores da internet progressista, é que a “mídia” tem uma missão, a de empurrar a besteira goela da sociedade abaixo. E não é isso. O fato é que a sociedade quer a besteira, muito mais porque sua escola é péssima do que por uma maldade dos poderosos da imprensa elitista.

O professor diz à “socialista morena” que a “provocação foi feita exatamente para eles, porque, no fundo, eles têm preconceito com a escola pública”, falando nos ‘blogueiros de direita’. Ué, professor Kubitscheck, a ideia era mostrar que a mídia só se interessa por bobagem ou provocar blogueiros de direita que querem a morte da escola pública?

Aí vem o coitadismo clássico. Os ataques teriam como alvo os professores brasileiros, a categoria inteira, porque os críticos odiariam a categoria, a escola pública, os ursinhos carinhosos e as popozudas. Mentira de novo. Se você, enquanto professor, decide que Valeska Popozuda merece ser tema de prova de filosofia, defenda sua ideia. Mais importante: prove que ela tinha uma função naquela disciplina, que havia um porquê para aquilo. Usar meninos e meninas para “provocar exatamente os blogueiros de direita” é muita bandalheira, não?

Se Kubitscheck tivesse colocado Chico Buarque na prova, pedindo que as crianças apenas lembrassem qual o próximo verso de uma música sua, a questão continuaria sem função alguma para o ensino do pensamento filosófico mais básico. Saber a próxima estrofe de “Roda Viva” teria que importância para o ensino da filosofia? Também nenhuma! Veja, o problema nunca foi a popozuda, e sim a mediocridade da pergunta. Você sabe como termina a seguinte estrofe?

Roda mundo, roda-gigante

Rodamoinho, roda pião

O tempo rodou num instante

……………………………………….. (?)

É Chico, é métrica perfeita, é poesia pura, é rima riquíssima.

…E daí? Continua não tendo qualquer função educativa quando o que se pede é para completar o verso. Ora, isso é coisa de gincana de programa ruim de auditório, mais nada.

Há muito besteirol escondido debaixo da polêmica pobre da popozuda e do professor Kubitscheck. A necessidade de odiar a tal “mídia” e os quatro ou cinco gatos pingados que escrevem contra o esquerdismo no Brasil, a  ponto de se levar esse ódio para sala de aula, chega a este nível de indigência. Há também a latente falta de ocupação das socialistas morenas, brancas, pretas e pardas deste país, para quem o mundo socialista – com sua miséria, sua magreza, seus prédios antigos e sua música caribenha –, se pudesse ser vendido num aquário, que pudessem levar para contemplar em casa, seria perfeito. Ali, sobre o balcão de granito, ao lado dos discos da Joan Baez, do Lenine e do Pato Fu.

A “socialista morena” termina com uma cartinha de um aluno, em defesa do professor Kubitscheck – o que acho muito legal, mesmo, como atitude. O menino, bem ensinado sobre as maldades da tal “mídia”, que controla todos os outros seres humanos que estão do lado de fora da aula de filosofia do professor Kubitscheck, diz que dá para julgar moralmente as pessoas pelo que elas dizem sobre as coisas. A teoria de Kohlberg, utilizada neste argumento, é bem mais complexa do que o aluno faz parecer, mas fiquei feliz mesmo, em ver sua vontade de mostrar que sim, o professor ensina filosofia nas aulas de filosofia. Que bom!

É de criança que a gente pensa e age como criança. Quando a gente cresce, passa a agir como adulto, o que não é necessariamente melhor. É apenas da natureza humana. Um dia o menino vai entender que Kohlberg não escreveu sua teoria para ser usada por professores de esquerda para julgar moralmente quem é de direita. Mas tudo bem. Incitar a discussão em sala de aula, provocar questionamentos, botar pensamentos diversos em rota de colisão, ensinar os alunos a enxergar diferentes teses… é disso que alunos de filosofia parecem precisar, e é isso o que o professor Kubitscheck parece entregar a eles.

Agora, se ele teve a ideia geniálica de provocar a “mídia” e “blogueiros de direita” na elaboração de uma prova, sem saber direito se queria provocar um ou outro, o professor precisa defender sua tese. E pode morrer defendendo que há um universo inteiro, escondido nas suas aulas de filosofia, que o mundo inteiro não enxerga porque é elitista ou conservador.

Parece ser sua tese. E é ela que explica porque Antônio Kubitscheck, por mais que seja o ótimo professor que parece ser, é um professor, e não um “grande pensador contemporâneo”. Kubitscheck está para Kohlberg como Popozuda está para Buarque, é preciso respeitar a grandeza diferente das coisas.

Sim, as coisas e as pessoas são diferentes. Não caia na conversa mole, das socialistas morenas que não largam o capitalismo branquinho, de que não há couve-flor, música e ideia ruim. O socialismo não conseguiu planificar nem as necessidades dos povos que ajudou a desgraçar. Não vai conseguir planificar a natureza humana. Porque a natureza humana é mais complexa do que essa conversa de chapeuzinho vermelho e lobo mau.

A Popozuda está dando um beijinho no ombro para nós todos. Lá, em sua guerra pelos holofotes contra as inimigas, ela está muito mais feliz. E o nome disso é “mídia”, queridos. Tentando provar que a mídia vampiriza as pessoas com sua maldade mórbida, vocês só mostraram que a mídia é tudo, inclusive vocês, socialistas morenas.

Vocês só estão ajudando, pensando que estão atrapalhando, o ritual do acasalamento entre a mídia e alguém que quer ficar na mídia.

Que ironia, não?

50 anos depois, nunca diga “mas”

Porão utilizado para tortura durante a Ditadura, no porão de uma casa no Piauí (Fonte: http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2014/03/porao-usado-durante-ditadura-militar-no-pi-ainda-tem-manchas-de-sangue.html)

Sobre o golpe de 1964, há um conselho que posso te dar caso você esteja em dúvida sobre por onde começar a opinar: se você é contra a tortura e o assassinato, simplesmente você é contra a ditadura. Ponto. 

Alguns dos estudiosos que tenho lido, torcendo o nariz para o coitadismo das novas gerações de esquerdistas, tentam balancear a história recente do Brasil lembrando que, ao redor do mundo e até hoje, os regimes mais assassinos foram de esquerda. E nem é preciso recorrer aos livros de história, basta assistir ao que ocorre hoje mesmo, aqui ao lado, na república dos professores Girafales vestidos de palhaços. 

Você pode reagir contra essa globalização vitimista dos aproveitadores e reescritores da história. Os regimes autoritários de esquerda estão vivos até hoje, aonde direitos políticos são cassados de oposicionistas, que acabam depostos e presos sem defesa e sem processo legal. Você pode questionar por que, para essas pessoas, é feio censurar Chico Buarque mas é bonito censurar Yoaní Sanchez. Ou por que tiro de borracha é violência, mas foguete na nuca dos outros é acidente. Você pode questionar sobre por que os brasileiros saúdam os mortos de um golpe de 50 anos atrás, mas ignoram os mortos de uma ditadura vizinha, vivíssima agora em 2014. Você pode criticar quem grita com balas de direita, mas se cala quando as balas são de esquerda. 

Mas a verdade, companheiro e companheira, é que nada disto muda a história. Não diante do que ocorreu no Brasil até meados dos anos 80. Você pode não gostar de ideologias de esquerda, não acreditar em comunismo ou socialismo, não rezar a cartilha dos novos guerrilheiros anti-mundo, mas não pode apagar a história. E a história do Brasil, admita, é a história do assassinato de cidadãos pelo Estado. É a história do Brasil eletrocutando, espancando, enforcando, esquartejando e carbonizando cidadãos brasileiros. Esqueça o que o comunismo fez ao redor do mundo. No Brasil, o crime foi de direita, assim como no Chile, em El Salvador e na Argentina, aonde americanos em Guerra Fria patrocinaram golpes de estado. Acusar as vítimas de terroristas é desonestidade histórica, é direitismo enrustido, disfarçado de neutralidade. 

É preciso simplificar o que é simples, clarear o que tantos queriam complicar. Sob que pretexto fosse, sequestrar, torturar e matar cidadãos brasileiros sempre foi crime. Os crimes de Estado, no Brasil, nunca foram comunistas. Serviram aos valores familiares, religiosos, tradicionais e comportamentais, como são quase todos os regimes totalitários. 

Diante dos 50 anos desde que o Brasil entrou na sua ditadura mais longa e assassina, tirar a importância disto é atestado de canalhice histórica e intelectual. É perdoar torturadores e assassinos por causa de ideologia ou contra-ideologia. É amenizar o que não é ameno. Para que todo o debate ideológico possa prosperar, num mundo utopicamente civilizado e evoluído, será necessário, antes, que todos concordem que assassinato é crime, que tortura é crime, que sequestro e censura são crime. 

Só depois disto tudo pacificado, se poderá entrar em discussões menores como regime, economia, modelo político, reformas etc. Aí será a hora de comparar e afirmar sob que sistemas a sociedade vive melhor, com mais educação, saúde, prosperidade, liberdades e direitos individuais garantidos. 

Mas antes, antes de qualquer coisa, é preciso dizer: Ditadura nunca mais. Assassinato, tortura e sequestro de Estado nunca mais. Seja de direita, de esquerda ou de centro, mas nunca, nunca negue a importância dos crimes de uma ditadura.

Sem isso, todo o resto é em vão.

Sem ódio, sem remorso, sem psicopatia: o Mal puro.

Assisti, há dois dias, um filme sobre Hannah Arendt, a escritora judia que, cobrindo o julgamento do nazista Adolf Eichmann, escreveu uma série de artigos dizendo, friamente, que não se tratava de um monstro demoníaco, mas de um exemplo de como o nazismo inaugurou a banalização do Mal, levando o genocídio a uma escala industrial. Tudo passando pela ‘coisificação’ da vítima. Tirando dos judeus a qualidade de seres humanos, ficava mais fácil fazer funcionar uma máquina de extermínio. Quando se tira de alguém sua essência humana, fica mais fácil matar a espécie inferior que acreditamos ter sobrado. Eichmann alegou que cumpria ordens e havia jurado lealdade ao führer. Respondendo a uma pergunta, da acusação, sobre o que faria se Hitler lhe mandasse executar seu próprio pai, obedeceria – mas só se Hitler provasse que o velho merecia. Bem, reza a história que 6 milhões de seres humanos, tornados não-humanos, foram assassinados pelo Terceiro Reich. Se para Eichmann matar o próprio pai era justificável caso provado o merecimento, fica a pergunta: o que seis milhões de pessoas fizeram para merecer morrer daquela forma? E a resposta é o que tornou Eichmann o porta-voz, naquele julgamento em Jerusalém, do Mal pelo Mal. O Mal banalizado. Eichmann disse não ter remorso. E por quê? Ué, porque ele, pessoalmente, nada tinha contra judeus. E repetiu: só cumpria ordens. Arendt enxergou isto, escreveu seus artigos à luz da filosofia e descobriu o Mal em sua forma mais pura: aquele sem motivo maior aparente. A limpeza étnica podia ser a missão de Hitler, mas não se constrói um exército inteiro formado por facínoras igual a ele. Eichmann disse em seu julgamento: “Arrependimento é para criancinhas”. A figura do pai de família alemão, retratado em “Eichmann em Jerusalém”, livro saído dos textos de Hannah Arendt para a New Yorker, voltou à minha mente ontem, assistindo ao Jornal Nacional e tomando conhecimento da existência de um ser humano chamado Paulo Malhães, coronel reformado do Exército, que admitiu ter torturado, matado e ocultado os cadáveres de oposicionistas da Ditadura Militar nascida em 64. Quantos foram os cadáveres? “Tantos quanto foram necessários” – disse Malhães à Comissão Nacional da Verdade. A coisificação do adversário, tornando-o um alvo mais natural, não é exclusividade do facismo ou do nazismo. Che Guevara, que chegou a defender, na ONU, a execução de seres humanos, os chamava de “vermes”. Malhães dizia que suas vítimas “não eram pessoas normais”. Na cabeça de todo assassino banal há uma guerra que precisa ser vencida, de preferência contra insetos, vermes ou raças inferiores. O assustador, no caso do nazismo, em regimes comunistas até hoje de pé e no caso das ditaduras sul-americanas é a aplicação e o zelo com que assassinos cumprem o dever cívico de matar pessoas. Se há hoje o assassinato do tráfico, do roubo, do assalto, a espécie humana nos brinda, de tempos em tempos, como o pior tipo de assassino que existe: o que considera assassinato um trabalho. Eichmann foi enforcado sem reconhecer os crimes que cometeu, dizendo que seu medo era o de não cumprir sua função. Malhães respondeu a uma pergunta sobre o seu trabalho na Casa da Morte de Petrópolis (RJ), na década de 60: “Como faço com tudo na vida, eu dei o melhor de mim naquela função.” Não há Mal mais genuíno, aterrador e perigoso.

Catarro, Privatização, Lula

Havia um comercial de tevê, com o ator Pedro Cardoso, sobre cuidados para prevenir a tuberculose. Ele falava a palavra “catarro” várias vezes, num apelo para que as pessoas discutissem o assunto, mesmo com nojo. Catarro é sintoma de gripe, mas pode ser também de coisa pior. Há um sem-número de “catarros”, palavras-tabu no cancioneiro ideológico nacional. Palavras feias, mas que existem – ou como diria o poeta, “quais são as palavras que nunca são ditas?”. Uma delas é “privatização”. Um palavrão cunhado nos anos 80 em solo nacional, pelo PT, e com alguma justiça associado a bandalheira governamental. Por décadas e através de várias eleições, a privatização foi, em escala nacional, o que é a pedofilia em nível local. Em qualquer lugar do Brasil, “privatização” é nome feio, assim como, no Amazonas, “se gritar ‘Pega pedófilo!’, não fica um meu irmão!”.

Mas não é o ponto. O ponto é que está fartamente documentado, no caso da ex-12ª maior empresa do mundo (hoje a 120ª), que pode haver bandalheira em processos de privatização, assim como também em empresas que continuam estatais, protegidas deste “catarro” pela Viúva. Assim, protegida dos abutres do capitalismo selvagem pelos guardiões do PT, a empresa perdeu metade de seu valor. Assim, em nome do bem da sociedade, que para esta moçada são apenas os pobres, pretos e índios, só quem enriqueceu foram senhores e senhoras brancos, barrigudos, engravatados – alguns de gravata vermelha – e barbados. Ou seja, os de sempre.

O ano eleitoral complica tudo, porque dá discurso ao governo, que diz que a coisa não passa de oportunismo eleitoral da oposição. Como se estivesse vigente, no Brasil, lei que impedisse o Brasil de denunciar ladrões em ano de eleição, ou seja, ano sim, ano não. Seu primeiro artigo traria algo como “Ficam proibidas, em anos pares, a descoberta, a veiculação, a denúncia e a cobrança de explicações, por parte de autoridades, acerca do uso de dinheiro público nas esferas federal, estadual e municipal, por tratar-se, automaticamente, de denúncia com fins estritamente partidários e eleitorais.”

Fosse a política nacional mais séria, ninguém mais perderia tempo com esse rodeio burocrático e batido das acusações de que governistas fazem governismo e oposicionistas fazem oposição. Ora, meus caros, governo é para governar, e oposição é para se opor. Se cai no colo da oposição o fato de que o governo dilapidou a maior empresa do país, é obrigação da oposição fazer oposição. Imprensa, além disto, existe para cobrar e investigar, e não para festejar e elogiar – o nome disso é assessoria política.

Há um pecado, ao menos aos olhos de quem pouco se importa com governo e oposição, no caso da Petrobras: só se fala em Dilma Rousseff. Em 2006, ano da compra da refinaria do Texas, a presidente era ministra da área. Era também membro (“membra”?) do conselho administrativo da empresa. Era a todo-poderosa da infraestrutura nacional. Dilma é presidente, é candidata e é favorita.

Mas quem era o presidente? Era ela? Quem era o presidente da empresa? Era indicado por ela?

Todos sabemos que não. E aqui o “catarro” da privatização se encontra com outro “catarro” do dicionário de substantivos proibidos no Brasil, o ex-presidente Lula, aquele em quem nada gruda, o onipresente que não está em lugar algum, o onisciente que não sabe de nada. Lula, com todo o sucesso que lhe cabe pelo carisma, ajudou o país a demonizar as privatizações, como se todos os petistas-touchscreen de hoje pudessem latir contra privatizações a partir de telefones estatais da Telebrás dos anos 70 e 80, e não dos smartphones privados de hoje.

Pedro Cardoso intercalava suas falas naquele comercial com a palavra “catarro”. Se nossos políticos estivessem menos ocupados com a eleição, estaríamos falando de Lula, e não só de Dilma. A fala do comercial dizia “A palavra é feia mesmo, catarro, mas é importante falar: catarro”. Neste modelo, as notícias sairiam assim: “O ex-presidente é popular mesmo, mas é preciso dizer o nome dele: Lula. É importante repetir: Lula”.

É muito importante que palavras indesejáveis sejam ditas, mesmo que alguns sintam nojo. Falar em catarro é importante para nomear o sintoma de tuberculose, doença que mata 2 milhões de pessoas por ano no mundo.

Quando 10 anos de governo popular deixam em frangalhos a maior empresa do país, é hora de fazer duas perguntas nojentas:

1) Por que ninguém está falando no presidente da época? e

2) Quais seriam as chances de a Petrobras estar fazendo acordos e compras bilionários e lesivos à ela própria, apenas para beneficiar corruptos e ditadores amigos, se ela fosse uma empresa privada?

Mas responda sem gaguejar.

Ninguém mais ama as novelas do Chateco

Cena de educação racial de “Em Família”. Útil e agradável: para mostrar o corpão da Marquezine, vale até um diálogo do tipo “racismo é crime, babaca!”

Impressionante. Estou assistindo a novela das nove hoje – novamente por acaso. Já teve cena educativa sobre o racismo, cena educativa sobre maridos insensíveis que fazem as mulheres virarem gays (pelo menos essa é a sugestão do roteiro), cena educativa sobre como se divorciar sem precisar de juiz etc. A gente vai assistindo e acha tudo muito engessado, pouco natural. É como se determinadas cenas precisassem ser filmadas, mesmo completamente alheias ao enredo.

Não sou racista nem homofóbico, claro. Tampouco acho que divórcio é pecado. Acho que histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo precisam ser contadas, inclusive, com beijo e tudo. Eu só gostaria que os autores fizessem isso melhor. O problema é que, como há uma pauta de “questões que precisam ser debatidas pela sociedade”, agora até o lazer cinquentenário da dona de casa brasileira precisa virar reunião de ONG humanista. O resultado é mais previsível do que casamento no último capítulo: a coisa toda fica chata, muito chata.

O pior é que não parece ser algo do autor. Não é o estilo Manoel Carlos ou de, como é?, Walcyr Carrasco. É como se a novela brasileira tivesse se tornado um esporte olímpico, algo como uma patinação artística, onde há movimentos obrigatórios e, por isso, eliminatórios. Imagino uma bancada de jurados, com canetinha e prancheta em punho, avaliando o desfile das novelas de hoje em dia. E o comentarista falando:

– É, Júlio, o autor tem muita qualidade e veio para disputar as primeiras posições.

– Verdade, Osmar. A gente pode ver no replay a perfeição do movimento, coisa muito importante para os jurados, né?

– Sim, Júlio. Olha lá o beijo gay, por exemplo: perfeito, sem abrir o lábio, os ombros escondendo o maxilar. Ele também foi muito bem no diálogo sobre aborto, na cena do bar alertando para os males do alcoolismo…

– Ele teve uma leve falha de execução na cena do casal no restaurante, né? O rapaz pagou a conta sozinho e abriu a porta para ela. Depois os dois deixaram de usar cinto de segurança.

– É verdade, Júlio, e isso deve tirar alguns décimos da nota final. Mas o autor foi muito bem no geral. Mostrou segurança, carisma e diálogos corretos, abordando questões importantes como as orcas do Sea World e a questão da Palestina…

– Bom, Osmar. Está entrando na pista agora o favorito para esta prova! Tetracampeão no horário das nove, o atleta foi o pioneiro no duplo beijo gay carpado e é especialista em cenas que abordam a questão racial. Ele também costuma surpreender sobre o uso das células tronco, com diálogos afiados e ágeis. A vida vai ficar difícil para os jurados, Osmar!

– Ééé… Eu não queria estar no lugar deles também, Júlio! Mas a gente já sabia que, no horário das nove só viria a nata dos autores, e que a competição seria acirrada…

– Bom, vamos lá, vai começar a apresentação do tetracampeão!

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Aí vem a Bruna Marquezine, olhando uma foto dela própria e dizendo, para o espectador acreditar, que se acha muito parecida com a mãe quando mais nova.

A preocupação com os temas sociais é tanta que os autores brasileiros estão esquecendo té de notar que as avós poderiam ser filhas de suas netas, as mães poderiam ser irmãs de suas filhas e as filhas já foram a própria mãe no passado.

E é incrível, tem gente que não entende por que a novela brasileira vai tão mal no Ibope.

Joacy tem o direito de exercer a medicina suspenso pela Justiça

No dia 19 de setembro de 2008, publiquei aqui um texto do jornal O Repórter, sobre a morte da pequena Bruna Brasil, decorrente de uma cirurgia para a retirada das amídalas. Pois bem, na última sexta (14) foi publicado o acórdão que suspendeu o direito de exercer a medicina do médico Joacy da Silva Azevedo, já àquela altura suspeito pelas mortes do cantor Casagrande, de Mitchell Henriques Mário Viana, a deformação de Anselmo Matos da Silva e morte da própria Bruna, de cinco anos.

Leia aqui a decisão que cassou o direito de Joacy de continuar “trabalhando”. Eu escrevi naquele fim de semana de 2008:

Não se trata de condenação prévia, mas começa a soar tragicamente questionável que o inverso, a absolvição prévia, continue a ceifar vidas, enquanto não se decide se um médico tem condições de operar ou não. Enquanto transcorrem os cinco anos previstos em lei para o final dos processos por imperícia ou negligência, médicos processados, inocentes ou culpados, continuam operando, clinicando, prescrevendo medicamentos. É justo que mais vidas continuem sobre o fio da navalha, enquanto se decide se o dono da navalha é ou não indicado para manuseá-la? Não seria mais indicado, até que o julgamento acabasse, que o médico ficasse afastado dos consultórios e salas de cirurgia? O que vale mais, o direito do médico de trabalhar enquanto não é condenado em última instância ou o direito das pessoas de viver enquanto o médico não é absolvido?

Pude ler a decisão da juíza Patrícia Macedo de Campos hoje, e vi que Joacy está impedido de continuar “operando” porque isso vai facilitar o seguimento do processo em que é réu por homicídio, e depois para que, como dito acima, a sociedade fique livre desse tipo de profissional, pelo menos enquanto ninguém sabe se ele presta ou não. O texto dO Repórter, escrito por mim em 2008, previa, com informações do próprio CRM-AM, que o caso só seria concluído em 5 anos. Se Joacy for julgado este ano, terão passado seis anos desde a morte de Bruna. Ainda não está confirmado, mas parece que Joacy vai ser julgado pelos crimes no Tribunal do Júri. por solicitação da acusação. Fica o registro de que a justiça ainda não foi feita. Mas ao menos outras pessoas estão livres do perigo enquanto não se decide se o médico matou ou não. Na dúvida, que ao menos se mantenha o suspeito longe dos bisturis. A minha homenagem a Bruna Brasil, e aos seus pais, Paulo César e Daniela.

Um happy hour merecido

Trabalhei muito, o dia inteiro, porque não me chamo Sininho nem quero proteger os mais pobres com meus dois RGs. Por isso, perdi o prazer de saber, ao vivo, que os black blocs, assim como ocorreu com a Midia Ninja, começavam a ser literalmente desmascarados. Enfim, surgiu “o rastro do dinheiro”, lição básica do jornalismo investigativo que boa parte dos jornalistas de hoje, ativistas do besteirol, decidiram ignorar.

E o PSOL, por enquanto, já aparece na lista dos financiadores. Por que tenho insistido na chatice de falar da desmoralização dessa gente? É simples: quem passa 24 horas por dia quieto, apenas suportando a hegemonia de um pensamento, fica feliz de vê-lo derrubado pela força da natureza. Compreendo que estes dias andam difíceis para o discurso da revolução. Já mataram gente, o modus começou a aparecer, a Sininho brotou feito um Pablo Capilé, só para derrubar a miragem…

Agora, suprema ironia, a Venezuela mergulha no caos social, mais previsto do que esquerdista dizendo que black bloc é coisa da direita. Já há estudantes tomando tiros na cabeça no paraíso esquerdista de Chavez, para o qual nenhum médico cubano foge. Cadê os indignados com a violência das polícias? E os defensores da liberdade de expressão? O que acham de o único canal livre a transmitir os protestos venezuelanos, na internet, ter sido tirado do ar?

Sim, eu pareço estar muito afetado com o tema. É porque estou. E é pouco, para o tanto que suporto de propaganda unilateral de neguinho que precisa repetir quanto é, humanitária e espiritualmente, melhor do que eu. Eu gostaria de citá-los, amigos da esquerda silenciosa destes dias, mas não vou perder a elegância. Enquanto vocês acusam os outros de truculência em vez de argumentos, estou argumentando e pedindo rebates. E não há nada. No máximo, rendem uma indireta aqui e outra ali, vazia como um slogan anti-capitalista.

O que essa gente constrangida ignora, me parece, é que seu silêncio momentâneo diz muito mais do que sua verborragia diuturna. Meu maior prazer, nestes dias de derrocada do embuste revolucionário, é ver os defensores da Venezuela falando de frivolidades, como se o caos daquele país de repente tivesse virado assunto secundário.

Eu trabalhei muito, o dia inteiro, para chegar em casa e saber que a indignação é remunerada, a revolução custa 150 reais a diária e que, quando tudo dá errado, o primeiro refúgio do idiota é o falso sarcasmo.

De quem sentir e de quem não sentir pena

Confesso que senti pena do rapaz que matou o cinegrafista. 22 anos, aquela cara de “fiz uma merda federal”, a expressão de “mãe, me desculpa!”, a cara de pavor de todos os que tiveram 20, 22 anos um dia, e fizeram uma merda federal. Com essa idade acho que experimentei maconha, bati o carro da mãe da namorada, sem habilitação, e dei meu salário para pagar o prejuízo antes que ela chegasse de viagem. Tomei o uísque do bar de outra sogra, troquei por chá mate e ela nunca percebeu. Ali por essa idade eu saí da cidade, de carro, de madrugada, no meio do breu da BR-174. Só pra escutar Pink Floyd com os faróis desligados, com o rosto no para-brisa, olhando pro céu. Nessa idade a gente engravida a namorada, vende os discos do irmão, larga a faculdade, sai com mulher casada. Nessa idade, é tanta merda que a gente faz que confesso, senti pena do rapaz que acendeu aquele foguete. Porque nessa idade a gente faz merda mesmo. Alguns de nós, aos 22 anos, bebiam e corriam de carro, mataram inocentes em pegas. Uns deram golpes na empresa do pai, outros caíram na armadilha da cocaína. Teve quem colou em concurso, teve quem foi preso por atentado ao pudor.

Hoje ainda há tudo isso, porque hoje ainda há jovens de 22 anos fazendo merdas federais. A diferença é que hoje, aparentemente sem que ninguém tenha dito para estes garotos a verdade, foi-se consolidando a ideia de que há uma guerra em curso. Alguém, em algum lugar, botou, na cabeça oca que todo garoto de 22 anos tem, que o mundo está aí para ser destruído. As empresas são antros de pecado, as marcas são símbolo de maldade e a polícia, o inimigo a ser deposto. Sem que nenhuma declaração de guerra fosse feita, a modinha do verão virou se tornar guerrilheiro urbano, como se estivéssemos na Síria ou no Iraque. Eu vejo aqueles rebeldes atirando sobre os muros contra Bashar Al-Assad, e não consigo entender como os meninos de 22 anos do Brasil, sob o regime democrático e com melhoras em todos os índices sociais, conseguem acreditar naqueles que os convencem de que estamos em guerra.

Ninguém sabe contra quem é a guerra. Só se quer brincar de guerra, e se não há ditadores e torturadores ameaçando a juventude, a saída parece ter sido ir puxar briga, provocar as instituições, dar um tapa no estado, de preferência com a vara curta, pra poder tomar borrachada e correr para a internet pra postar o vídeo. A população, o povo mesmo, precisou sair das ruas para que os meninos de 22 anos — alguns deles nascidos na década de 60 — possam ter seu próprio 1964. A meninada quer poder contar aos filhos, na década de 2030 e 2040, que também lutou contra a repressão militar. Será tudo mentira, porque era a revolução mimada dos coxinhas que queriam tocar fogo na cidade, mas não queriam sentir cheiro de gás. Para os meninos que fazem as merdas de hoje, tudo precisa ser seguro, como se a vida fosse um video-game de ação no qual você regula a dificuldade, de modo que não morre, não se machuca, sempre vence.

A meninada quer guerra, mas quer ser café-com-leite. Quer quebrar bancos e estações de metrô, e quer da polícia apenas a escolta para fazer isso. A impressão é a de que, definido o perímetro do quebra-quebra, a obrigação da polícia é cuidar para que tudo seja quebrado com segurança, sem ferir os meninos. Para estes meninos de 22 anos de hoje, polícia é para dar segurança aos vândalos. Quebrar tudo agora é manifestação, atirar foguetes contra policiais agora é desafiar o “poder”.

Eu vi, nos primeiros dias de junho de 2013, muita gente radiante na internet. Os meninos que fazem merda aos 22 anos providenciavam suas máscaras de gás, botas reforçadas. Era um troço tão imbecil que parecia uma micareta fora de época, com os foliões de uma ditadura de mentira comprando seus EPIs para ir para uma “rebelde-folia”. Era o sonho daqueles meninos de 22 anos, doutrinados por velhos de 22 anos nas faculdades de ciências humanas, vendo em 2013 seu próprio ano de chumbo.

Sim, a minha geração foi mais sem graça, “movimentosocialmente” falando. A gente tava pouco se lixando para Chernobyl, para a seca do nordeste, para a homofobia no Amazonas, para os índios do Mato Grosso, para os Sem-Terra de São Paulo. A gente queria namorar, terminar a faculdade, viajar, ouvir rock ‘n’ roll, beber até tarde, dormir até tarde, estudar, ter um emprego, comprar o primeiro carro. Eram tempos sombrios mesmo, tudo o que a gente queria era se dar bem, como se vê. Éramos perversos, não ligávamos para as injustiças sociais, para os cachorrinhos dos laboratórios, para os golfinhos de Fernando de Noronha, para as tartarugas marinhas, para os quilombolas, para os pobres, para os ruivos, para os pernetas, para os safenados e para os epilépticos.

Mas a gente não matou ninguém. Não assim, desse jeito, num movimento tão telegrafado durante meses, tão anunciado. A gente fez muita merda quando tinha 22 anos, mas não brincou de guerrilha urbana com foguetes de verdade, atirados na direção de seres humanos. Hoje os porres com vinho ruim se tornaram estilingues com bolas de gude. Naquela época, os idiotas de 22 anos atiravam ovo podre na casa do vizinho. Hoje os idiotas de 22 anos tocam fogo em Fuscas com famílias inteiras dentro.

Eu fiquei com pena do rapaz que acendeu aquele foguete. Porque ele é apenas o bode expiatório de uma mentalidade totalmente equivocada, disseminada por todos os setores da sociedade, de que é preciso quebrar a ordem e romper com as instituições em nome de causas supostamente nobres.

Na contabilidade da ideologia do video-game, vale até relativizar a morte, como se o escravagismo da colônia justificasse a morte de um branco, ou como se os assassinatos da ditadura justificassem a morte de policiais. Tudo vai ficando tão perigoso e tão natural ao mesmo tempo… As manifestações já vinham naquele marasmo… acho que os vândalos já estavam bocejando entre um caixa eletrônico destruído e outro.

Até que alguém morreu. Não porque um menino de 22 anos fez uma merda federal. Mas porque há todo um clima de incitação a isso. A polícia proibida de intervir, a imprensa proibida de cobrir, os cidadãos impedidos de ir e vir… e agora um morto.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos. Porque na minha época a gente fazia muita merda, mas não apontava foguetes para ninguém. Ele não sabe o que fez, foi levado a isso por uma fantasia ideológica. Descobriu, pelo noticiário, que guerra de mentira também mata inocentes.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos. refém da noção torpe do coletivismo, que transforma seres humanos em entidades boas ou más. Como se a política fosse um monstro, a polícia fosse um ET e as autoridades fossem dragões com sete chifres, e não a junção de pais e mães de família.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos, porque meninos e meninas de 22 anos — muitos deles nascidos n década de 60 — foram mais espertos e não foram para a linha de frente, ficaram apenas os incitando e os aparelhando para a idiotice da guerra contra o nada.

Fábio Raposo e Caio de Sousa não são bandidos.

E isso não é bom. É péssimo.

Porque quando um menino bom faz o que eles fizeram, por causa de uma farra “movimentosocialista”, isto significa que algo vai muito errado com o que definimos como democracia. Oficialmente, o tédio juvenil agora mata em praça pública. Sem querer, mas mata.

Estou com pena deles porque são agora a expressão de pavor, cuspida e escarrada, de quem descobriu que do outro lado não há inimigos, e sim seres humanos.

Há um tipo humano, nessa equação mórbida, do qual não sinto pena. É daqueles que buscam justificar o injustificável. Pior, alguns deles conseguem dividir seres humanos, em plena democracia, entre inocentes e policiais.

Fascismo, senhores, é isto. É quando, sob certas condições e em certas circunstâncias, admitimos que seres humanos podem ser tratados como uma espécie inferior à humana.

Cadê os 15 mil profissionais sem profissão que fecham nossas ruas de tempos em tempos?

Certas realidades batem de frente com a legalidade, e isso nunca será novidade para ninguém. Uns e outros podem fingir naturalidade com o fato de que há milhares de pessoas, todos os dias, escapando da morte por sorte em cima de um mototáxi, mas todos sabem que é assim que as coisas são. Sempre fui contrário à regulamentação desta atividade, mesmo depois que o Governo Federal editou a Lei 12.009, em 2009, legalizando a barbaridade. O fato é que, dez anos depois de muita interdição de rua, de muita confusão na Câmara Municipal de Manaus, de muita barbeiragem, de muitos acidentes e de muitas mortes causadas por essa gente, finalmente chegou a hora de escolher quem vai ser legalizado. E havia 3.000 vagas para isso. Um absurdo, porque 3 mototaxistas já são um atentando ao bom senso.

Pois bem. Apenas 1.898 desses profissionais sem profissão se inscreveram para participar da concorrência pública. O motivo? Segundo a própria associação de classe, a maioria dos mototaxistas que estão transportando homens, mulheres e crianças neste exato momento, em Manaus, não atende aos requisitos ditados pela lei federal. Ou seja, não cumprem uma ou mais das exigências abaixo:

Art. 2o  Para o exercício das atividades previstas no art. 1o, é necessário:

I – ter completado 21 (vinte e um) anos;

II – possuir habilitação, por pelo menos 2 (dois) anos, na categoria;

III – ser aprovado em curso especializado, nos termos da regulamentação do Contran;

IV – estar vestido com colete de segurança dotado de dispositivos retrorrefletivos, nos termos da regulamentação do Contran.

Parágrafo único.  Do profissional de serviço comunitário de rua serão exigidos ainda os seguintes documentos:

I – carteira de identidade;

II – título de eleitor;

III – cédula de identificação do contribuinte – CIC;

IV – atestado de residência;

V – certidões negativas das varas criminais;

VI – identificação da motocicleta utilizada em serviço.

Aí eu pergunto:

É novidade?

Não, não é novidade. Assim como também não será novidade se a categoria, contrariada com as exigências legais, decida pressionar o poder público para afrouxar as exigências legais. Ocorre que as exigências são da lei federal.

Resultado mais do que previsto: pouco mais de 2 mil mototaxistas vão ser legalizados na cidade, a imensa maioria vai continuar fazendo exatamente a mesma coisa, praticando a atividade ilegal, ninguém vai ser punido nem impedido disso, e a população vai continuar utilizando os serviços dessa gente sem qualquer preocupação.

Claro, porque o sistema de transporte público de Manaus continua sendo péssimo.

 

No portal A Crítica:

Após dez anos discutindo a regulamentação da profissão, faltam mototaxistas pras vagas

A SMTU afirma que a baixa procura é justificada pela falta de preparação dos profissionais para atender as exigências do edital proposto

Manaus (AM), 12 de Fevereiro de 2014

JÉSSICA VASCONCELOS

Depois de dez anos discutindo a legalização da profissão de mototaxista e de conseguir, em 2013, a aprovação do edital de licitação para a escolha de 3.303 permissionários, a Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) registrou apenas 1.898 inscrições de propostas recebidas para a concorrência pública do serviço de mototáxi em Manaus

A baixa procura é justificada pela falta de preparação dos profissionais para atender as exigências do edital proposto pela SMTU, segundo análise do  presidente da Central Única dos Mototaxistas do Amazonas, Paulo Vitorino Falcão.

De acordo com Falcão, os profissionais cadastrados na Central Única foram capacitados e acompanhados pela direção da cooperativa para que as inscrições fossem aceitas, mas os mototaxistas que decidiram entregar a documentação de forma individual podem ter cometido algum erro e, por isso, foram eliminados na primeira fase da concorrência.

Segundo estimativa do representante da categoria, 8 mil mototaxistas circulam atualmente por todas as zonas de Manaus e, portanto, o edital não alcançou metade dos profissionais que atuam na cidade.

Entre as exigências do edital, estavam os pré-requisitos estabelecidos na legislação federal e municipal, como ter 21 anos completos, possuir habilitação para dirigir motocicletas há, pelo menos, dois anos, ser aprovado em curso especializado, nos termos da regulamentação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), entre outras.

Para o presidente da SMTU, Pedro Carvalho, a documentação exigida pela lei federal 12.009/2009 pode ter sido um fator que contribuiu para a baixa procura dos mototaxistas.Segundo a assessoria de comunicação da SMTU, a falta de preparação dos profissionais pode não ter sido o principal fator, pois até um número de CPF errado, por exemplo, pode anular a participação do candidato.

“Depois que um processo for anulado, o candidato não poderá recorrer para participar do mesmo edital, mesmo que o problema tenha sido somente um número errado”, explicou a assessoria do órgão.

Em janeiro deste ano, o titular da SMTU alertou para a possibilidade das vagas não serem completamente preenchidas. O motivo é que nem todos os motatoxistas que atuam na cidade atendem aos critérios exigidos pela legislação federal e municipal.

Avaliação

Desde segunda-feira, membros da comissão de licitação da SMTU iniciaram a avaliação dos documentos que deve ter essa fase concluída até a próxima semana, segundo informou o presidente da comissão, Fabricio Oliveira.

“Até a próxima semana talvez seja possível concluir o julgamento dos documentos de habilitação e publicar a lista dos que estarão habilitados para a fase de classificação”, afirmou Oliveira.

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A falsa polêmica do “Rolezinho”

Continua a ideologização do “rolezinho” paulistano, a última moda entre jovens da periferia da cidade, que combinam aglomerações, bailes funk e correria – só pela diversão – em shopping-centers de São Paulo. Tenho lido pouca coisa ultimamente, mas no que abro em sites e redes sociais, prolifera, mais uma vez, de novo, para não variar, novamente a mesma lenga-lenga do racismo e do preconceito social da classe média brasileira – que é, como todos sabem, a culpada por todos os males deste oásis de felicidade planetária chamado Brasil.

Até vi amigos dando razão aos mistificadores profissionais da internet, produzindo prova contra si de que sim, nós somos um país muito preconceituoso. No caso do que li por aí, a face pior do preconceito é a defesa dele como uma verdade universal, encoberto por boas razões. Para os portadores deste preconceito, a repressão aos “rolezinhos” é necessária não por que perturba a ordem nem por que traz perigo aos outros – o que é verdade –, mas porque ninguém gosta de grupos grandes, de gente “mal encarada”, vindo em sua direção.

Pra quê! Esse é o tipo do discurso que dá fôlego ao besteirol dos “pobristas” e “racialistas” da internet, essa gente que passa o dia ligada no radinho, na tevê e na internet, como ufólogos apontando antenas de rádio para o céu à procura de ETs, à espera de demonstrações de preconceito alheias. E o Brasil está infestado tanto de uns quanto dos outros: preconceituosos e mistificadores.

Para além do trololó de sempre, o fato é que, sejam os milhares de jovens pretos ou brancos, ricos ou pobres, bem ou mal encarados, a reunião de milhares de jovens em um local público e fechado, comumente frequentado por crianças pequenas, é uma irresponsabilidade. Vi um pedaço de um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=4nnztJMYtP4) de Vitória (ES), com a polícia local detendo dezenas de jovens que faziam um suposto “arrastão”, que seria uma versão “mal encarada” do “rolezinho”. Ali, frequentadores do shopping aplaudiam a detenção. É essa a reação que tanto ódio despertou em jovens de esquerda. Porque ali, gravada em vídeo, estaria a prova de que a classe média brasileira, representada por compradores lobotomizados pelo dinheiro e inebriados pela doença do Natal, tem uma espécie de código de conduta reacionário, uma cartilha conservadora. Para os progressistas, enfim, todo cidadão normal é um reacionário enrustido.

Como sempre, besteira pura. Há alguns meses, no mal afamado Manauara Shopping, um boato de desabamento gerou pânico e correria no shopping. Há um vídeo mostrando mulheres e crianças correndo, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Q0GVp2CkOOs. Num outro dia, durante a noite, eu estava no mesmo shopping, com mulher e filho, quando centenas de pessoas começaram a passar correndo diante da loja. O pânico foi geral. Corremos para a porta de serviço nos fundos de uma sapataria. Dezenas de outros clientes do shopping fizeram o mesmo. Falou-se em tiroteio e assalto. Falou-se até em bomba – o que mais tarde foi explicado se tratar de um extintor que estourara a válvula num restaurante. Achei também este vídeo daquela noite: http://www.youtube.com/watch?v=bCFhkaJJM6U. Lembro de sair às pressas em direção ao carro, o congestionamento na saída do shopping, filas enormes de carros. Na calçada da Rua Recife, vi uma senhora desmaiada sendo abanada por outras pessoas. Havia crianças na calçada, crianças chorando, mães desesperadas, muita gente ligando para casa.

O Manauara nem desabou e nem houve tiroteio ali. Já houve tragédias em campos de futebol, na peregrinação a Meca, em shoppings e em festas de carnaval. Você pode exercitar seu preconceito de classe à vontade; você pode exercitar seu esquerdismo juvenil à vontade. Mas nada vai mudar o fato de que, em tragédias causadas pela aglomeração de pessoas, a causa da tragédia foi a aglomeração de pessoas, e só.

Bastam algumas centenas de seres humanos, pouca sinalização, pouca informação e um estopim, como o estouro de um extintor, para que um centro de compras vire um inferno. Ou preciso lembrar que a tragédia da boate Kiss foi causada pelo pânico, pela falta de sinalização e de portas de emergência? O meu ponto é: não importa se você combinou com seis mil amigos de ir ao shopping só para cobrar “inclusão social” em ambientes de classe média ou alta. Não importa se você amontoou centenas de pessoas num posto de gasolina para ouvir funk ou Chopin. Não importa se o “rolezinho” era apenas uma reivindicação por lazer e diversão para pobres excluídos pela ganância do capital.

O que importa é que, num lugar fechado e ocupado por milhares de pessoas, basta um extintor estourado para que uma tragédia aconteça. Ou quem garante que, numa dessas divertidas correrias de jovens pelos corredores de um shopping, alguém não pule o parapeito de um piso para o outro e morra, apenas por causa do pânico?

Meu medo não tem cor nem classe social. É instintivo. Quando estou num shopping, num cinema ou num restaurante, se de repente uma correria começar e eu não souber por quê, eu vou correr e tentar proteger minha família. Sim, talvez falte a algumas pessoas a admissão de seus próprios desvios de julgamento e preconceitos. Mas também falta a uma boa meninada aí uma dose de filho.

Sim, filho. Porque é fácil ser revolucionário quando não se tem um pinto para dar água.

Filhos inauguram muita coisa na vida de um pai e de uma mãe. A mais importante é o mais cristalino, legítimo e irrecorrível medo.

O medo, especialmente aquele do desconhecido, mais do que racismos, balas, explosões, preconceitos e cassetetes, já fez muito mais vítimas fatais do que qualquer coisa no mundo.

Grite “Fogo!” num cinema lotado e veja o que acontece. Sim, é esse o tamanho da fragilidade da segurança coletiva em ambientes públicos.

Repito: antes de esquerdizar um dos sentimentos mais primitivos do ser humano, o medo, faça filhos.

Você vai entender o que estou dizendo.

Qual o problema?

wilsonprataPor Wilson Prata*

Um problema é algo que pede uma solução. Seja um problema filosófico, matemático ou de comunicação, entende-se que se trata de uma limitação momentânea e que, de alguma maneira, pode ser superada. Após a identificação do problema, ou mesmo durante esse processo, um ponto que tangencia esse processo é o critério a ser utilizado para avaliação da relevância do problema e da eficiência da solução proposta. O critério é o que vai determinar o sucesso ou o fracasso de uma solução, é o que vai dar por resolvido determinado problema ou o que vai dividi-lo em vários outros problemas frente a impossibilidade de se lidar com um questionamento muito complexo. Sendo ainda, o que vai determinar quais são os problemas legítimos e os ilegítimos.

Douglas Adams, quando escreveu o Guia do Mochileiro das Galáxias, coloca essa lógica de outra maneira. Dentro da estrutura problema/critério/solução ele afirma que a solução é “42”, essa é a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida o universo e tudo mais. O critério é a descoberta do sentido disso que esta ai, isto é, da vida, do universo e de tudo mais. Sendo dada essas duas variáveis, faltaria apenas identificar o problema, qual a pergunta que formulada corretamente coloca essa equação em equilíbrio. Engana-se quem acha que mudando a ordem dos fatores, consegue-se mais facilmente resolver essa equação. Um dos personagens do romance até tenta mas não consegue, a formulação dele fica algo mais ou menos assim: “por que as pessoas não podem viver em paz e amar uma as outras?… 42… droga, não é isso”.

Um amigo meu contava um “causo” sobre Sir Paul McCartney, eu não consegui descobrir se o relato é verdadeiro ou falso, mas a história é tão pertinente a esse tema que vale a pena ser contada. Certa vez, quando estava em uma viagem de ácido, Sir Paul teve uma relação direta entre Deus e, sendo ele mesmo um semi-deus, parece ter resolvido o problema na sua perspectiva original (o problema é “qual o sentido da vida”, o critério é viver em paz, faltando apenas a solução). Como sabia que estava chapado, pediu uma folha de caderno para anotar a resposta, e anotou. No dia seguinte foi olhar o que tinha escrito e na folha constava apenas “o sentido da vida são sete”.

Bom, saber que a resposta para a pergunta fundamental é 42 não resolve a maioria dos nossos problemas (aquecimento global, ressaca de ano novo, conta do cartão de crédito, etc.) e como Sir Paul não fez o dever de casa, estamos apenas nós e nós mesmos a mercê dos problemas que nos assolam. Com isso, temos que juntos determinar quais são os problemas mais relevantes e quais critérios que importam, porque não apenas os problemas são muitos como os critérios também: necessidade, prazer, felicidade, equilíbrio, potencialidade das virtudes, etc. Mesmos questões aparentemente periféricas, como o que comer, são questões que demonstram nossas escolhas e nossos valores. Podemos, por exemplo, tentar gastar todos os nossos esforços para descobrir qual o sentido da existência, mas, enquanto isso, é bom também se preocupar com o almoço de amanhã, já que pensar de barriga vazia é um tanto complicado. Começa-se a questionar o que devemos comer, e além disso qual o critério para comer, se vale a lei do menor esforço, e ai comemos o que está disponível ou se vale a pena sofisticar um pouco para dar uma variada no cardápio, ainda mais se a dieta for a base de chuchu, no café, no almoço e no jantar. Em pouco tempo surge o primeiro vegetariano, o primeiro ataque cardíaco por excesso de gordura, a primeira espécie extinta, justificativas contra e a favor de determinado critério, etc.

Questões como essas servem também para mostrar como é complicado escolher um critério que seja universal, isto é, válido para todos, ou ao menos para a maior parte das situações. Existe toda uma linha de pensamento para justificar que a lógica do universo não é “o critério” e que nem o pensamento religioso, apenas, pode dar também dar conta disso, mas tomaria muito tempo explicar toda essa lógica. Por isso, basta deixar claro que parto da perspectiva de que todos os problemas são problemas sociais, mesmo os problemas matemáticos e problemas de engenharia. Sendo assim, o melhor critério são as necessidades que em sociedade identificamos como mais importantes ou aquilo que em conjunto, determinamos como mais pertinente.

Por exemplo, se todos os problemas de engenharia ou de matemática fossem resolvidos no “olhometro”, não teríamos necessidade nem de engenharia nem de matemática, mas como prédios construídos no “olhometro” muitas vezes caem e quando eles caem pessoas morrem e essas morte não são bem aceitas pelos amigos e familiares dessas pessoas, é importante que um calculo estrutural seja feito. Surge assim uma história da matemática, escolas de matemática, especializações, meios de divulgação das inovações, conselhos determinando direitos e deveres dos matemáticos, etc. O mesmo para engenharia, medicina, direito e tantas outras práticas. Nessa mesma lógica dá para entender a desfuncionalização de certas profissões, ou dito de outra maneira, porque para construir casas de até dois andares as pessoas raramente contratam arquitetos e às vezes confiam a construção da casa a um mestre de obra. A justificativa é simples, um mestre de obra resolve o problema e as pessoas não acham nem feio nem problemático morar em uma casa que é uma caixa branca.

Toda essa explicação foi para justificar a sustentação dessa lógica frente a uma questão desse tipo: se a população do Amazonas é uma das mais satisfeitas com a administração local, porque diabos eu deveria perder meu tempo discutindo os problemas locais?

A primeira vista, o entendimento que defendo, de que um problema só é um problema quando entendido socialmente como tal, impede-me de problematizar algo que não incomoda a grande maioria, bem na linha de pensamento que defende que os incomodados é que se retirem, ou no caso, se calem. Do jeito que a coisa anda, em breve não precisaremos de críticos no Amazonas, essa atividade encontra-se em processo de desfuncionalização, em muitos casos  esse processo segue com uma boa vontade bovina que chega a ser comovedora, um exercício de parcimônia singular, onde o perdão e a clemência podem ser percebidos como valores basais da nossa sociedade, em alguns casos, mesmo erros de alguns milhões são relativizados e esquecidos quase que prontamente. Nesse sentido, nossos jornais foram visionários em estabelecer tais práticas e eliminar a maior parte das iniciativas que pudessem afetar o equilíbrio social e a felicidade geral dos amazonenses.

Ainda que esse seja a postura dominante e que a lógica diga para calar – não apenas a lógica da argumentação, mas a lógica do dia-a-dia, essa que atropela quem vai contra ela – de onde observo, infelizmente, não dá para calar. A superação de problemas ocorre quando estes são resolvidos e não quando são ignorados. O “teorema de Fermat”, é um problema matemático que levou trezentos anos para ser resolvido, isso não quer dizer que durante esse tempo o problema não existisse. Provavelmente você desconhece o teorema de Fermat, eu mesmo o conheço como uma narrativa, quanto a problemática do problema, não faço ideia do que trata nem de sua relevância, mas para todo um campo do conhecimento isso foi uma pedra no sapato, um esqueleto no armário. Enquanto não foi resolvido, continuou como um problema pertinente, a simples impossibilidade de resolução do problema não caracterizava sua superação ou permitia seu abandono visto que outras questões se relacionavam com o teorema. Trazendo para algo mais próximo do dia-dia, podemos colocar a cura do câncer, a fome e a pobreza como problemas não superados. No caso do nosso querido Amazonas, a alegria geral não corresponde a uma superação dos problemas, nem é possível comparar os problemas do estado no mesmo grau de importância do teorema de Fermat, visto que eu e você vivemos até agora sem perder o sono por causa dele; mas, no caso dos problemas locais, esses – literalmente – transbordam em uma cidade que, dentre outras coisas, não tem uma infra-estrutura de esgoto.

Além disso, nós temos uma das piores notas nacionais no ranking de educação. Um dos piores índices de desenvolvimento humano, um dos custos de vida mais altos do país, problemas crônicos de urbanismo, segurança e saúde. Mesmo que estivesse tudo muito bem ainda valeria a pena reclamar, basta lembrar que a unanimidade é burra. No entanto, o problema de não ter problema é um problema distante da nossa lista de problemas. Dessa maneira, nesse espaço que me foi cedido, não pretendo reclamar da vida e ficar genericamente falando mal do nosso estado. O que quero apresentar são problemas factíveis, que são problemas que afetam todos nós e não apenas um subgrupo de uma sub-cultura de uma subregião. Problemas que nos afetam todos os dias e a toda hora, de modo concreto. Não adianta problematizações abstratas do tipo “o amazonense é preguiçoso por natureza” ou lemas como abaixo a corrupção, mais educação, mais segurança, etc. Esse tipo de frase de efeito não ajuda em nada, ninguém vai pedir por mais corrupção, menos educação, menos segurança, etc. o problema é de ordem qualitativa e não quantitativa (ok, alguns neoliberalistas pediriam por menos saúde ou menos educação somente para vender mais planos de saúde ou para inflacionar a mensalidade dos colégios, mas estamos falando de gente).

O próximo ano é ano de copa, mas também ano de eleições. Ao tentar colocar os problemas de modo claro, apontando as causas e as conseqüências pretendo ajudar a mim e aos outros a tomarem uma postura política. Não estou pedindo para concordarem com o que coloco aqui, mas defendo que é preciso que falemos do mesmo termos e que cada um tenha uma opinião crítica. Um dos problemas de hoje em dia é justamente a dificuldade de se identificar o que é importante, pois tudo é válido, mas com isso, se tudo é tudo, nada é nada.

Por entender os problemas como questões sócias, não coloco que as coisas se encontram erradas ou equivocadas simplesmente porque temos políticos corruptos e/ou incompetentes. As elites – políticas, religiosas, intelectuais e econômicas -  possuem uma responsabilidade muito maior na configuração atual da nossa sociedade, seja por ação ou por omissão. Mas, primeiramente, é preciso apontar que tratar os diferentes como iguais é tão injusto quanto tratar os iguais como diferentes, condenar massivamente e indistintamente as elites é cair nesse erro, visto que Paul Valéry é um intelectual pequeno burguês mas nem todos os intelectuais pequeno burgueses são Paul Valéry. Quando Deus destruiu Sodoma e Gomorra, ele mesmo lembrou que se houvesse um único homem de bem, as cidades seriam poupadas, mas como não somos oniscientes, onipotentes e onipresentes, temos que julgar caso por caso, agente por agente.

O outro ponto é identificar qual o papel do cidadão, dos políticos e do estado na construção da nossa realidade. Diminuir a autonomia desses grupos é cair em um paternalismo, esperar por um salvador ou assumir um mito urbano do bom selvagem, de uma classe pura e inocente que é enganada por aqueles que detém o poder. Os dominados possuem sim uma parcela de responsabilidade em sua situação, ainda que menor. Do mesmo modo, possuem uma autonomia relativa para lutar pela diminuição das desigualdades, o que vai passar, invariavelmente, por escolhas políticas conscientes e por grupos sociais minimamente organizados (grupos de amigos, associações de bairros, grupos de oração, etc.).

O que não se deve é aceitar que as coisas são como são e como somente poderiam ser, os problemas que enfrentamos são resultados das nossas escolhas. Em frente às dificuldades do dia-a-dia, podemos agir ou não agir, resolver o problema ou ignorá-lo, porém não agir e ignorar vai apenas postergar e agravar a situação, pois conforme foi colocado no inicio do post um problema é algo que pede uma solução.


Wilson Prata cresceu em uma pacata colina na Zona Leste de Manaus, é formado em desenho industrial pela UFAM, trabalhou como designer na EDUA e na Valer onde conheceu e aprendeu a gostar de literatura amazonense, do teatro local, da história da cidade e começou a entender um pouco melhor os problemas da região. Atualmente cursa doutorado em design na PUC-Rio e ficou abismado de descobrir que os ônibus não pregam no Rio, eles “dão ruim”.

Para começo de conversa

Você não dobrou de salário. Não emagreceu. Não começou a estudar arquitetura. O ano acabou e você não comprou uma moto nem virou doador de sangue. 2013 foi embora e você não compôs uma música nem abriu seu bar. Não fez voluntariado nem conseguiu aquela promoção. Não trocou o carro, não pintou a casa, não leu os livros que começou e nem bebeu mais água. Não aprendeu a dançar, não viajou para o exterior e nem comeu mais peixe do que carne. Em 2013, e lá se vai 2013, você não visitou sua avó nem sua tia, não plantou cebolinha no quintal, não leu para o seu filho. Também não largou as mágoas no passado nem perdoou quem te magoou. E você, que magoou, mentiu e difamou, não dormiu mal com isso. Não decidiu procurar seus amigos, lhes dizer que sente muito. O ano acabou, e você não mudou seus hábitos, seus medos nem seu país. Não fez um filho, não publicou seu livro, não fez uma só oração de verdade.

E então tudo começou novamente, porque a ordem natural das coisas é a renovação automática e compulsória. Você não conseguiu o que queria, e então tudo recomeçou. Para soar como uma chance a mais. O Ano Novo é um calendário de papel limpinho, sem rabiscos, sem xis, sem círculos. É uma rua para dar uma corrida, é um livro de arquitetura para abrir. É com a angústia dos anos gastos que novos gametas do destino se preparam, dentro da sua vida, para gerar, enfim, uma nova vida. Há mais de 360 dias para doar sangue, para passear de moto, abrir seu bar e escrever um samba. Todo o fracasso é menos importante, porque um novo ano é uma história infantil para ler, um passaporte para carimbar, um copo gelado de água para beber. Há dias e mais dias para dar um abraço, sem maiores explicações e sem aviso, no amigo que você magoou e na avó que você não sabe quanto tempo ainda terá por perto. 2014 chega e você tem todo um ano, limpo, zero quilômetro, para ensinar aos filhos como mudar hábitos, como mudar medos e, quem sabe, como mudar o país. Janis Joplin vai continuar gravada, cantando Summertime, para que você faça mais um filho. Seus olhos e sua alma vão continuar esperando um clique para uma oração.

Para começo de conversa, o ano velho acabou. Os fogos, a água do mar e a bebida vão limpar as gavetas, a bolsa, a agenda e o calendário. Aproveite o sal, as luzes e as bolhas do vinho para limpar tudo.

Para começo de conversa, tudo recomeça. Você pode se reencontrar consigo daqui a um ano, combinar que em 2015 tudo será melhor. Ou você pode começar em 2014.

Eu quero muito que você seja feliz já em 2014.

Porque, para começo de conversa, é o que eu quero para mim também.

Dos que tanto amam odiar a imprensa

Por Eugênio Bucci, no Estadão do último dia 31:

Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um “partido de oposição” e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um “partido de oposição”, parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever – e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar.

Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão “partido de oposição” virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo.

Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele.

Discurso autoritário

No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça.

Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber.

As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a “herança maldita” de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: “Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!”.

Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional.

A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias.

Ponto de bala

Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública?

Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar – e fazer acreditar – que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014.

Mesmo assim, feliz ano-novo.

Rachel

Quem é a moça?

Um sonho de cidade

Na via de acesso, sinalizada com cones e orientadores treinados, há placas dizendo “Não pare” e “Siga em frente”. A fila de carros é longa, mas não para. Separados por telas de segurança, pedestres e carros não se misturam. Ao fundo, dezenas de voluntários orientam os motoristas, que estacionam rapidamente. Fora dos carros, mais voluntários orientam o uso das passarelas. Tudo é sinalizado, das portas de acesso às fileiras de enormes bancos de madeira. Idosos têm preferência, famílias são acomodadas pela quantidade de pessoas.

Todos os personagens do espetáculo saúdam o público ainda na chegada, com sorrisos e um caloroso “boa noite”. Antes do espetáculo, orientações sobre o uso dos banheiros, dos telefones celulares, dos flashes, áreas de segurança e crianças pequenas. Há áreas de alimentação e não há uma esquina só sem extintores e sem um monitor atencioso para orientar os perdidos e atrasados. Quatro mil pessoas chegam, caminham, se acomodam, atendem às orientações e depois, ao fim do espetáculo, ovacionam os artistas à saída.

Não há rostos brancos nem cabelos loiros em quantidade. Não é ópera numa sala alemã de concertos. Não há inglês nem francês sendo falado. Não há neve, casacos de pele nem carros de luxo estacionados em áreas VIP. O que há é somente a prova inconteste de que o respeito ao público produz milagres, seja num aeroporto de Berlin, num jogo de tênis em Sidnei ou num espetáculo privado – e gratuito! – de Natal em Manaus.

Não sei desde que ano a Nova Igreja Batista promove espetáculos de Natal abertos ao público. Mas sei, como todos os milhares de pessoas que vão assistir ao “Sonho de Natal”, que há na turnê de fim de ano da entidade uma série de ensinamentos a Manaus, aos seus cidadãos e, principalmente, ao seu poder público.

O espetáculo é ótimo, divertido, edificante, inspirador. Tem joias artísticas como o caminho de José e Maria em direção a Belém, antes de Jesus nascer. Tem efeitos de luz e cor, tem ótimos cantores e é muito bem ensaiado. Ao final, a sensação é de conforto e de que o programa valeu a pena. Em se tratando de grandes eventos em Manaus, essa é uma proeza que não pode ser desprezada. Onde quase nada funciona, dá gosto ver algo daquele tamanho funcionando.

Mas é o que cerca o espetáculo que me faz vibrar. À primeira vista, imagina-se que só uma empresa de eventos pode fazer algo tão organizado. Ou que profissionais especializados e bem pagos são a única opção. Bem, não há força motriz maior do que a paixão pelo que se faz, e quando você sabe que o que faz é grandioso, a motivação só aumenta. Hoje o espetáculo de Natal da NIB é, comparado a grandes e caríssimos espetáculos culturais de Manaus, é uma aula do que gestão, organização, método, ensaio e foco fazem.

Como organizar grandes volumes de carros? Como orientar grandes multidões? Como eles conseguem aquilo sem engarrafar o trânsito? Como não há tumulto nem confusão?

O poder público, especialmente nestes tempos de grandes festas populares de fim de ano e de carnaval, precisa tomar lições sobre regras, mão de obra, treinamento, bom atendimento, atenção e respeito ao grande público. O espetáculo da Nova Igreja Batista é gratuito, e quem já foi ver até pagaria para rever. E mesmo assim continua gratuito.

Espetáculos públicos, normalmente bancados com dinheiro público, sempre ficaram muito aquém do nível de respeito ao público apresentado pelos 2 mil voluntários da NIB.

Está provado, todos os dias às 20h e nos finais de semana três vezes por dia, que o respeito ao contribuinte não é um acidente nem um milagre como os de Jesus.

O respeito ao contribuinte é resultado simplesmente do respeito ao contribuinte.

Nós sabemos como fazer do jeito certo. Falta agora querer.

Maconheiro liberal

Por CARLOS ALBERTO SARDENBERG, em O Globo:

Um conservador de verdade deve ser a favor ou contra a legalização da maconha? Depende, isso pelo menos nos Estados Unidos — onde, aliás, em janeiro agora, entra em vigor a legalização do plantio, processamento e venda nos estados de Colorado e Washington.

O conservador social foi contra. O argumento é ético e religioso. O uso da droga é considerado um desvio moral e um pecado, assim como, por exemplo, a homossexualidade ou a prática do aborto. Aqui se encontrou a ala mais direitista do Partido Republicano.

Já o conservador fiscal foi a favor. Para este lado, a liberdade individual é o valor dominante. Radicalizando, se a pessoa quiser fumar um baseado, ninguém tem nada com isso, desde que não prejudique a liberdade, os direitos dos outros e a vida em sociedade. E que também faça o que quiser de seu corpo, nas mesmas condições

Deste lado do mundo e também na Europa, esse é o legítimo ponto de vista liberal. Sempre que se apresenta a escolha entre uma obrigação coletiva e a liberdade individual, prevalece esta última. Por exemplo: o voto não pode ser uma obrigação social ou política, mas um direito que a pessoa exerce ou não conforme sua vontade.

Mas por que nos EUA, em meio ao debate sobre a legalização da maconha, se recorreu a essa designação de “conservador fiscal”? Por causa dos impostos.

O conservador fiscal pensa assim: o governo está perdendo a guerra contra as drogas, embora gaste um caminhão de dinheiro nisso, tanto nas operações policiais quanto nos cuidados com as doenças (físicas, psíquicas e sociais) resultantes do uso dos entorpecentes.

Logo, convém legalizar a coisa e cobrar impostos pesados em toda essa operação.

De fato, no estado de Washington, por exemplo, o governo local está dividindo o setor econômico da marijuana em três fases: produção (plantio), processamento e venda no varejo. Planeja cobrar 25% de imposto (valor agregado, tipo ICMS) na passagem de cada fase. Prefeituras também poderão cobrar taxas adicionais na produção e no varejo.

Tudo considerado, o Departamento de Controle do Álcool do governo de Washington estima que o preço do grama de maconha pura vai chegar ao consumidor final por 12 dólares, fora as eventuais taxas municipais.

Já no Uruguai, que também legalizará a maconha no ano que vem, o governo estima que o preço deve ser de um dólar por grama, da “melhor qualidade”, como assegurou o ministro da Saúde.

Preço é crucial, pois se for muito caro abre espaço de novo para o tráfico ilegal.

E assim, para se ver como o assunto é complicado, a legalização da maconha, em toda parte, juntou conservadores fiscais, conservadores liberais, liberais puros, mais o pessoal da esquerda liberal e os — como dizer? — remanescentes de Woodstock?

Cada um tem seu motivo: a liberdade individual; tirar um peso do Estado; acabar com a violência e a corrupção da guerra ao tráfico; livrar os não usuários da droga, a grande maioria, claro, dos custos provocados pelos usuários; e, afinal, tirar um barato.

Já o processo de legalização divide as opiniões de novo. No Uruguai, por exemplo, onde a legalização é uma iniciativa da esquerda, o governo quer fazer um tipo de política pública. Tudo tem que ser controlado pelo Estado, desde o plantio até a venda. Até o usuário, para ter o direito de comprar seu bagulho, precisa se registrar no departamento competente. É o barato estatizado e baratinho.

Já nos EUA, a tendência é inversa. O barato será caro. Imposto neles! O negócio será regulado e fiscalizado pelo Estado, como se faz com álcool e tabaco, mas toda produção, distribuição e consumo serão privados. A empresa precisará de licença para atuar no ramo. O governo poderá limitar o número de licenças, mas não negá-la a uma empresa legalmente constituída. Se houver mais pedidos de licença do que o definido em lei? Sorteio.

Tudo considerado, são experiências em andamento. A rigor, ninguém sabe exatamente como a coisa vai funcionar. O Washington State Liquor Control Board traz na sua página (lcb.wa.gov) um FAQ sobre o processo de legalização.

Lá se diz, por exemplo, que a receita estimada com o imposto de marijuana varia de “zero a US$ 2 bilhões em cinco anos”. Por que tanta disparidade? Porque não se sabe o tamanho real do mercado, nem qual a reação do governo federal, pois a legalização é apenas uma lei estadual.

Isso mesmo, o cidadão do Colorado e de Washington pode ser autorizado a produzir, vender, comprar e fumar um baseado pela lei estadual e preso por isso mesmo pela federal.

Mais confusão à vista. De todo modo, o governo de Washington informa que está contratando 35 funcionários para trabalhar no sistema de licenciamento e fiscalização da marijuana. E avisa: o Departamento é “local de trabalho livre de drogas”. Os candidatos serão testados para qualquer droga, incluindo marijuana.

Prendam o intérprete esquizofrênico!

Publicado originalmente no site Amazonas Atual:

Foto: Getty Images

Lendo um artigo de Slavoj Žižek sobre os funerais de Nelson Mandela e o intérprete esquizofrênico das autoridades presentes, publicado ontem pelo jornal The Guardian, percebi quanto do nonsense que cerca o mundo se aplica à terra em que nasci e cresci, o Amazonas. Vou chegar lá.

Žižek, ícone intelectual da esquerda planetária, disse que a falta de significado nos gestos sem nexo de Thamsanqa Jantjie eram um protesto contra a cerimônia como um todo, falsa e hipócrita. O intelectual defende que os intérpretes de sinais, todos eles, servem apenas à nossa – nós enquanto não-deficientes – vontade de nos sentir bem fazendo o bem, por menor que seja, a eles, os portadores de deficiência. Sim, o pensamento de esquerda consegue separar clara e gema até no caso de um intérprete falso, acusado de sequestro, estupro, falsidade e homicídio, transformando tudo em mais um embate entre “nós”, os socialistas do bem, e “eles”, os exploradores de intérpretes falsos do mal. Se o acusado for negro, então, a moçada se ouriça ainda mais. É necessário, está claro, um bom tanto de boa vontade para digerir a obsessão de alguns em “marximizar” até a margarina do café da manhã. Leseira não dá descanso.

Mas não era esse o ponto. Também ontem, quando li o artigo de Žižek, soube do lançamento do Atlas do Acesso à Justiça, do Governo Federal, mostrando a situação da tal “prestação jurisdicional”. E ali estava apenas a mais recente constatação de que, ou o amazonense é um povo esquizofrênico, ou os intérpretes de seus sentimentos são falsários.

Senão vejamos. Temos a terceira pior prestação jurisdicional do país. O que significa que, enquanto nossos desembargadores tentam aprovar mais vagas dentro do palácio da capital, as comarcas e as varas de justiça estão abandonadas no interior. Significa que não há advogados, promotores, defensores públicos nem juízes suficientes para atender às necessidades da população. O TJAM é um dos mais lenientes do Brasil, reconhecido nacionalmente por suas pataquadas e pelos cascudos que toma do CNJ em rede nacional.

Seus desembargadores são acusados de desídia (preguiça), são citados em operações federais contra corrupção, são corporativistas e alheios ao clamor popular e às vezes até à lógica. Tome-se o exemplo da cobrança do serviço de tratamento de esgoto em Manaus. Hoje, 17 de dezembro, nossos desembargadores decidiram manter a cobrança ilegal sobre bairros que não dispõem do serviço. A justificativa? Alegam nossos desembargadores que a interrupção da cobrança traria prejuízos à empresa, afetando, inclusive, as obras de implantação do serviço de esgoto!

Sim, você entendeu. O TJAM, conhecido pela desídia e pelos escândalos entendeu que é com a cobrança por um serviço que não é prestado que a empresa vai poder, um dia, prestar esse serviço. O contribuinte de Manaus, portanto, está pagando pelo que não tem para pagar as contas de uma empresa privada. Não é exercício de bruxaria imaginar que, denunciado novamente ao CNJ, o TJAM seja obrigado a tomar vergonha na cara em breve. Apenas para continuar no mesmo dia de hoje, o TJAM, que presta o terceiro pior serviço de justiça do país, decidiu adiar novamente, pela terceira vez, o julgamento do pedido de abertura de processo contra o deputado Nicolau, acusado de corrupção pelo MPE.

Manaus tem mesmo o sexto melhor PIB do país, segundo dados divulgados hoje pelo IBGE. Nosso governo estadual é o mais bem avaliado do Brasil, segundo pesquisa CNI-Ibope. Seria esquizofrênico demais esperar que, rica e satisfeita segundo números oficiais, Manaus deveria ter índices melhores em saúde, educação, acesso à justiça e saneamento básico?

Não é opinião, é dado. E eu mostro os links. Por que Manaus está entre as piores capitais em saneamento básico do país? Por que o Amazonas tem um dos piores índices de educação do Brasil? Por que um quinto dos municípios do Amazonas estão entre os piores IDHs do Brasil, que tem mais de 5.500 cidades? Por quea saúde do Amazonas é a sexta pior saúde do país?

São notícias e dados oficiais, a maioria divulgados por órgãos de governo, que nos apontam para a suprema falsidade denunciada por Slavoj Žižek em seu artigo zabelê-poioná em defesa dos intérpretes falsos do mundo. Enquanto nossas autoridades falam aos microfones, enquanto todos os canais e tevê e rádio reverberam o estado celestial em que vivemos; enquanto blogs e portais comemoram a grama verde, o céu azul e o ventinho do cair da tarde, os intérpretes de nossa realidade continuam lá, em silêncio, apenas mostrando dados que, comparados ao som que ouvimos, não fazem o menor sentido.

Poderíamos imaginar que, com índices educacionais tão medíocres, estamos precisando de professores de matemática no Amazonas.

Os índices de felicidade geral, porém, mostram o contrário. O que precisamos é prender o intérprete com a maior urgência possível.

O corredor da morte nos hospitais

Faltam roupas, remédios, leitos. Faltam médicos, anestesistas, enfermeiros.

RUTH DE AQUINO

“Aqui, olha, deixam a gente na musiquinha”, disse a recepcionista do Hospital Barra d’Or, no Rio de Janeiro, apontando para o telefone em viva voz. Ela tentava, sem sucesso, autorização do Bradesco Saúde para Hélio Araújo ser atendido na emergência. Hélio tem 91 anos e é meu pai. Sofreu uma queda em casa, e um armário caiu por cima dele.  Esperava na cadeira de rodas, a mão enfaixada, pingando sangue no lobby do hospital. Não sabíamos se havia fratura da mão ou um dano no crânio. Meus pais pagam R$ 2.440 por mês ao plano de saúde. A mesma seguradora desde 1978.

“Não autorizaram emergência, só internação. Também não autorizaram tomografia cerebral. Estou tentando o raio-X”, disse a recepcionista. “Então pago tudo particular, depois abro um processo”, disse eu. Só assim ele foi atendido, “no particular”, após horas de incerteza. Ficamos no hospital das 20 horas às 4 horas da manhã. Na saída, surpresa: não foi preciso pagar nada. Mas a recepcionista teve de insistir horas, houve discussão e estresse. É o caso de um paciente de elite, que enfrenta os maus-tratos comuns dos planos.

O buraco é bem mais embaixo na saúde pública do Brasil. Sinto náuseas ao ver multidões de pacientes, de crianças a idosos, dormindo em filas diante dos hospitais, com senhas só para “agendar a consulta”, e não para atendimento. As senhas acabam. As pessoas choram. Estão vulneráveis, doentes, frágeis, sentem-se humilhadas, escorraçadas. Gosto de cachorros, mas acho que a sociedade tem se escandalizado mais com o tratamento dispensado a cães do que a seres humanos.

O estado deprimente e indigno de nossa Saúde é o maior atestado de que a ideologia política de um governo não garante o respeito aos direitos básicos escritos na Constituição brasileira. Temos uma década de governo “de esquerda” – já que o PT se considera um partido do povo. O que existe diante dos hospitais é a fila da vergonha. Nossas emergências e nossos postos de saúde estão em colapso.

No Rio, há 12.500 pacientes à espera de cirurgia em hospitais federais. Alguns esperam há sete anos. Os dados são da semana passada, levantados pela Defensoria Pública da União. Os defensores decidiram processar o Ministério da Saúde. Querem um cronograma oficial de cirurgias no prazo máximo de dois meses. Exigem que o ministério pague uma indenização coletiva aos pacientes, de R$ 1,2 bilhão.

Os doentes morrem na fila da cirurgia. Cirurgias vasculares, cardíacas, neurológicas, ortopédicas, urológicas, oftalmológicas e torácicas. Os médicos se descabelam por falta de tudo. Sem parafusos e placas, idosos não podem ser operados num dos maiores hospitais do Rio. Uns pedem material emprestado a outros. De nada adianta. A precariedade é o artigo mais em alta nos hospitais federais, estaduais e municipais. O jogo de empurra entre as esferas de governo é conhecido. União, Estados e municípios se mostram incompetentes e venais na oferta de serviço de Saúde. Levam pacientes à histeria, pelo sentimento continuado de impotência.

O programa Globo repórter da última sexta-feira 13, chamado “Emergência médica”, equivale a um filme de terror. Só que é tudo verdade. Durante 40 dias, primeiro com câmeras escondidas, depois oficialmente, uma equipe de repórteres e cinegrafistas voltou aos mesmos hospitais e postos de saúde da família denunciados há quase três anos pela TV Globo, para ver o que mudara. Nada. Em Belém ou no entorno de Brasília, não importa, a calamidade na Saúde rima com crueldade.

Pacientes dividem a mesma maca, quando não estão no chão. Um médico de macacão atende pacientes coletivamente, como se estivéssemos em guerra. Em março de 2011, em Belém, uma menina, Ruth, morreu na frente da câmera dos jornalistas. Tinha vindo de uma ilha, com uma leishmaniose que virou pneumonia. Não resistiu à falta de estrutura dos hospitais. Médicos diziam que nada poderiam fazer, não havia material nem esperança. Os jornalistas voltaram agora à casa da família de Ruth. Os parentes nunca receberam indenização. Ninguém é culpado jamais.

Faltam roupas para operar no centro cirúrgico. Faltam leitos. Faltam médicos, anestesistas, enfermeiros. Falta salário. Faltam remédios. Falta vergonha.

Minha empregada, Lindinalva Souza, estimulada pelas campanhas do governo de prevenção de câncer nos seios, foi à Clínica da Família em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, pedir uma mamografia. Faz quatro meses. “Quando tiver uma vaga, a gente te chama”, disse a agente de saúde. “Por enquanto, só estamos atendendo diabéticos, hipertensos e grávidas.” Que resposta é essa?

E, assim, brasileiros e brasileiras anônimos somem para sempre no corredor da morte, ignorados pelos governos, que gastam nossos impostos com sei lá o quê.

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