Revolta é para profissionais

Inevitável, até para os menos interessados, ficar sabendo das manifestações que ocorrem em São Paulo, dia sim outro também, fechando a Avenida Paulista a partir do vão do MASP. Num dia com os indignados anti-Dilma, no outro com os indignados pró-Dilma, com os jornalistas pró-Dilma no meio. Aí a gente lê textos e assiste a vídeos e fica pensando: o que aconteceu com a indignação brasileira? Estamos mesmo condenados ao peleguismo de um lado e à ignorância do outro? E a resposta é sim, estamos.

Ora, se em vez de gritar “Independência ou Morte!” em 1822, vestido para a guerra e montado num corcel às margens do Ipiranga, Dom Pedro na verdade estava vestido de tropeiro e sentado numa mula, cercado por 20 gatos pingados e com uma baita diarreia, por que você acha que o brasileiro saberia protestar contra alguma coisa em 2014?

Tento explicar. Quando comparamos a história oficial com os relatos fatuais, fica mais fácil entender por que pacifismo não pode ser confundido com preguiça. E o caso brasileiro é de preguiça. No século 17, para que o país se tornasse independente da coroa portuguesa, não se ouviu um tiro, não se viu uma cabeça rolando. Nem um pingo de sangue, nem um estampido de canhão. Era independência para inglês ver, uma cena tão épica quanto falsa, na qual o monarca era cercado por dragões da independência que ainda nem existiam.

Não que seja o caso de fazer apologia da violência, mas convenhamos, quando ninguém percebe que houve uma revolução, é porque revolução não houve. O povo de antanho, bovino como hoje, não participava da vida política nacional, e a escravidão perdurou por mais 60 anos, o latifúndio, os privilégios aristocráticos etc. Dom Pedro nunca deu grito algum, até porque sua diarreia lhe faria passar vergonha.

E como isso pode ajudar a explicar o que se vê hoje? Bom, desde junho do ano passado – inclusive em junho do ano passado –, antes de se vestir de amarelo, as pessoas comuns precisavam saber quantos estariam nas ruas, o que estariam vestindo, contra o que estariam gritando. Brasileiro precisa primeiro saber se o evento vai bombar. O critério do cidadão brasileiro para mudar o país é baseado, portanto, na possibilidade de passar vergonha se não aparecer ninguém mais para mudar o país. Não faltam motivos, nestes dias, para ir às ruas protestar contra os governos. O problema é a patrulha jornalística, que afia suas canetas assim que não-militantes anunciam alguma aglomeração. Marcar protesto no Facebook, sem conhecer o público, sem fazer chamada, sem contar pontos para quem quer ganhar casa, sem os convênios sindicais que rendem 50 a 80 reais por manifestante, é simplesmente suicídio – ou um convite ao constrangimento.

Não por outro motivo já há, nas redações de norte a sul, a tradicional reportagem “Protesto contra corrupção reúne [X] pessoas em [CIDADE]“, desde que X < 400. Caso X > 400, como acabou ocorrendo um junho de 2013, o que era deboche rapidamente vira emoção. E, como emoção, também morre logo depois. Há uma militância velada nas redações – e o problema não é ser militância, mas ser velada – que está sempre a postos para caçar o lado ridículo de qualquer manifestação popular, desde que ela seja espontânea, sem comando e sem cor padronizada. Ou seja, no Brasil, protesto só é protesto se for ensaiado. Ou parece ter limite mínimo de participação: com menos de X pessoas, é mico. A partir dali, é protesto. Se der 5X, é revolução. Se aparecerem 50X, vira “jornada patriótica” na voz de Sandra Annenberg.

Ou por outra: protesto de rua, neste país, é coisa de profissionais como os sindicatos ou os movimentos de sem terra, sem teto e sem ocupação definida. Sem convidar ninguém, sem precisar convencer uma viva alma, essa gente bota 5 a 10 mil orcs nas ruas, dizendo-se trabalhadores, mas todos livres às quatro da tarde de uma quinta para parar as cidades. Quando tanto, apelam à turma do quebra-quebraameaçam parar o país se Sauron não vencer a eleição. E não se ouve um pio da imprensa caçadora de lunáticos sem uniforme.

No Brasil, para reclamar é preciso ter registro no “sindicato dos manifestantes profissionais”, e o que se vê nas avenidas das grandes cidades é ora o PT com seus orcs vermelhos, organizados, uniformizados e portando faixas padronizadas, ora o povo de verdade, sentado numa mula, com dor de barriga, vestindo ceroulas e sem saber dizer o que quer. Assim fica fácil o trabalho do deboche. Sim, é muito Brasil pagar manifestantes com dinheiro público, mas é mais Brasil ainda protestar contra a corrupção pedindo impeachment da presidente legitimamente eleita.

E o deboche, que requer bem menos esforço e trabalho do que enfrentar a vergonha de ir à rua, voltou às redações. O caráter nacional médio é feito desse comodismo sábio e do perfeito timing para evitar eventos esvaziados. Brasileiro só vai se todo mundo for. Só gosta se todo mundo gostar. Só se emociona se todo mundo se emocionar. Se o país entrasse em guerra, os convocados iriam esquecer o capacete, mas levariam o smartphone.

Para mim, isso explica essa cólica comportamental na qual o brasileiro caiu. Diante da escolha entre ser gado de esquerda ou infeliz de direita, o povo normal prefere ficar em casa e acompanhar as manifestações pelo UOL, à espera da próxima matéria, ou sobre os 1.000 envergonhados anti-governo, ou sobre os 10.000 sem vergonha pró-governo.

Dom Pedro estava sentado numa mula, com dor de barriga, cercado por soldados de mentira e à beira de um riacho, gente. Para proclamar a nossa independência. Você acha que o brasileiro ia mudar tanto assim depois de uma cena destas?

O brasileiro não tem medo de morrer na batalha por sua independência. Tem medo só de pagar mico e “viralizar na internet”.

O julgamento do leito número 6

Quando a vida e a morte lhe dão a oportunidade de começar a pensar nelas, todo ateu ou cético prefere rezar de olhos abertos. Se não é na cama de um hospital, pode ser perdido na mata, no meio de um assalto com reféns ou num avião com problemas no trem de pouso. Nessas condições e pelas dificuldades inerentes à incredulidade materialista deste tipo de ser humano, exotismos como Deus, o Diabo, o Céu e o Inferno precisam ser materializados em ferro, plástico, vidro, tecidos, sons e cores. Por isto os olhos abertos. Para este tipo de gente, imaterialismos são traços de quem transforma a preguiça de explicar o mundo em bobagens etéreas, geralmente ligadas a forças superiores. Até que um estampido de descarga de carro ou um rojão fazem deus virar Deus num instante.

Veja meu caso. Para mim, Deus tem um metro e vinte de altura e trinta centímetros de largura. É feito de alumínio e plástico, tem uma aleta central e 24 aletas transversais, dois relés e duas lâmpadas de 40 watts. É revestido em tinta metálica e traz uma película protetora de plástico extremamente difícil de arrancar. Há Deus de sobrepor e Deus de embutir, e a instalação de Deus geralmente é simples, mas depende da habilidade do instalador para lidar com um reator apenas, para duas lâmpadas.

Depois de quatro décadas vendo essa figura pintada nos domos e capelas, sempre majestosa, de barba e batas brancas, descobri Deus assim, embutido no forro de gesso da UTI número 6 de um hospital de emergências em Manaus. Aceso sobre mim, do fio de cabelo à unha do pé, como um scanner fixo ou um portal celeste. É óbvio que há um sentido mais prosaico e científico para aquela luz toda, mas o fato é que, com o prognóstico de que vai morrer, é natural que o paciente procure Deus no que há de mais luminoso por perto, principalmente se for uma luminária daquelas.

Tentei em todas as horas manter o centro da minha testa, entre um olho e o outro, alinhado à Sua aleta central, que percorria de cima abaixo toda a Sua divindade de 1,20m. Com o passar das horas, evitei virar o rosto, olhar diretamente no olho Dele ou ler Seus pensamentos. Durante três dias e duas noites, foi aos pés daquela luminária que chorei e que confessei meus pecados. Eram o que me cercava: Deus acima e ao centro, uma TV de 14 polegadas no canto esquerdo da parede, um porta-desinfetante para mãos no canto direito, logo na entrada, uma cadeira para acompanhante do lado direito e, à direita e atrás da cabeça, o monitor cardíaco.

Cheguei ali e, funcionando a 140 batidas por minuto – quando o normal fica entre 50 e 80 –, logo percebi que aquele aparelho decidiria o meu futuro, mostrando pressão arterial, frequência cardíaca e curva respiratória, pulso, capnografia, saturação de oxigênio, termômetro, equipado com baterias recarregáveis e a capacidade de detectar 13 tipos de arritmias. E o mais impressionante, com um sinal sonoro diferente para cada coisa dessas.

Se você nunca entendeu (ou sequer percebeu) a variedade de sons de uma UTI, passe seis horas seguidas ali, de preferência de visita e sem muito o que ler. Com o tempo, sua mente monta a sequência de bipes que viaja de um leito ao outro. Você já sabe que, depois de dois bipes agudos e um grave no leito 2, é a vez do leito 6, do 5, do 1, do 4 e depois do 3. Então há quase um segundo de silêncio absoluto e a sequência toda recomeça, entremeada pelo som vagaroso da ventilação mecânica do paciente do leito 1. A UTI, então, vira uma sinfonia diante do desconhecido e do tédio, comandada por Ele, o monitor cardíaco. E me permita o “Ele” com maiúsculas também, mas depois do primeiro dia é que percebi: a UTI número 6 virou, entre os dias 3 e 6 de setembro, a minha sala particular de julgamento.

E o monitor cardíaco era o Diabo.

Durante as 50 horas do meu julgamento, Deus apagou algumas vezes. Umas sem que eu notasse, dopado pelos medicamentos que precisavam quase parar meu coração. Nas outras eu pedi que Ele saísse do recinto. Não deve haver juízo teológico para o fato, mas o fato é que, naquela situação específica, Deus fez umas pausas, mas o Diabo nunca saiu do meu lado. “O acusador” não me deixava dormir, com seus bipes e sua tela em LCD, mostrando, bem grande, que o Ancoron na veia não me redimia pelos 140 batimentos. Dormi e acordei, fui ao banheiro e voltei e, sem trégua, aquele número ficava estampado atrás de mim, com O Acusador numa posição que me obrigava a me contorcer para vê-lo. Passei dias e noites literalmente, entre Deus e o Diabo, com pequenos intervalos comerciais para ver a Ana Maria Braga mostrar como é o emprego de coletor de sêmen de boi.

Eu vinha sentindo palpitações e faltas de ar esporádicas havia um mês. Marquei uma consulta e o médico, depois das perguntas de praxe, mediu minha pressão e meus batimentos cardíacos. Dali tirei a mochila dos ombros, desmarquei duas reuniões e lembrei que não tinha me despedido do Marcos mais cedo. Eu estava à beira de um colapso. Duas horas e depois de três ampolas de Adenosina, eu permanecia a 140 batimentos por minuto. O passo seguinte era ser levado, em cadeira de rodas e empurrado como um barril de 100 quilos de nitroglicerina, até a UTI número 6, para ter pêlos raspados, vestir a bata e receber os eletrodos da acusação.

Sim, há todo o ritual do julgamento. E diante da Justiça, nada mais didático, para zerar as diferenças entre ricos e pobres, magros e gordos, jovens e velhos, do que ficar nu, coberto por apenas uma bata de algodão, aberta de cima abaixo – variando se pela frente ou por trás. Uma equipe se ocupa de preparar a cama, os acessos venosos, a raspagem dos pelos, os eletrodos, as máscaras de oxigênio, mangueiras e sensores. O Diabo é ligado, configurado e assume seu posto, à direita e atrás. A TV, desligada. À noite e durante a madrugada, passei a pedir que não desligassem Deus, pois o Diabo não descansava. Foram duas noites acusado por um, velado pelo outro.

Passei 50 horas ali dentro, regendo mentalmente os Diabos particulares de cada um dos leitos daquela UTI, conhecendo médicos e médicos, enfermeiros e enfermeiros. O julgamento de uma UTI é como andar de carro sem dirigir, depois de muito tempo. Você enxerga casas e prédios que nunca enxergou, assim como percebe quem é mais ou menos feliz no trabalho, quem se dedica e quem mata o tempo, quem está pensando nos filhos e quem está pensando nos pais. O enfermeiro que ainda sente a alma humana, mesmo depois de tantos julgamentos sangrentos. O médico que assume ser humano e o outro que mal olha nos teus olhos; o paciente ao lado, acostumado a julgamentos deste tipo, entrando e saindo do tribunal da UTI como um bandido rico, que não teme mais a Justiça, e gente como você, que sai para trabalhar e uma hora depois está diante de Deus e do Diabo.

Orei e chorei muito, com o meio da testa alinhado à aleta central da face de Deus. Pedi clemência e quase desisti, virando o corpo e vendo o sorriso do Diabo, a mostrar aquele número, 140. Na noite do dia 5 de setembro, flagelado pelo que pareciam 40 dias e 40 noites no deserto, quando o Diabo já cantava vitória a seis bipes sonoros bem altos e agudos, Jesus Cristo entrou na UTI número 6, empurrado por dois enfermeiros e saudado por dois médicos intensivistas. O desfibrilador, ou cardioversor, é aquilo mesmo que se vê nos filmes e seriados de TV. Duas placas metálicas, meladas em gel e que, posicionadas no seu peito, vão eletrocutar seu coração para que ele volte a bater normalmente.

Resisti o quanto pude, pois queria ver o momento do veredicto, mas duas doses de Dormonid e também Propofol acabaram por me vencer. Não vi túneis de luz nem ouvi harpas ao fundo. Lembro apenas de acordar e ver aquelas pessoas todas se dispersando e se afastando de mim. Vi a luz de Deus, mas não ouvi mais a voz do Diabo, e então pensei: morri.

Tentei falar algo, levantar a mão e chamar alguém, mas não consegui. Tentei me virar para ver a cara dO Acusador, e nada. Meu médico se aproximou, me ajudou a me recompor e disse “deu tudo certo, viu?”. Me ajudou a olhar para o Diabo, e eu batia a 80 vezes por minuto. A voz Dele estava baixa, pausada e derrotada. Vi Jesus Cristo ser levado de volta ao canto da sala, como sempre em silêncio, deitei novamente e vi, sobre mim, novamente Deus. Chorei de gratidão, prometi mundos e fundos.

Passei ainda uma noite ali, com medo do Diabo virar a mesa. Mas ficou tudo bem. Na manhã seguinte, quando o Diabo ainda recolhia seus eletrodos de acusação, devolvi a bata, vesti minha roupa, agradeci aos jurados, me despedi dEle e olhei novamente para Deus. Eu precisava sair, pois outro réu iria ser apresentado para julgamento.

Lembro do prazer de ver novamente a luz do dia. Era a manhã de 6 de setembro. A porta do tribunal ainda estava atrás de mim, que esperava para atravessar a rua, e eu ainda pensava no que tinha acabado de passar. Percebi que, sem poder me despedir de quem me importava, fui acusado, defendido, julgado e absolvido na cama do leito número 6 daquela UTI; que o Diabo não dorme e não cansa, que Jesus sempre vai estar por perto e que Deus, mesmo em silêncio, só é desligado se pedirmos. A TV, percebi depois, era o Mundo, sempre nos distraindo do que é importante — como canta Geraldo Azevedo, como uma lareira no canto da sala, queimando o dia inteiro a raiz que existe em nós. Cheguei ao ponto de enxergar no desinfetante a água benta e na cadeira de acompanhante, o banco de igreja do meu julgamento.

Não era a moral da história, em forma de clichê, de um conto qualquer. Era o que tinha acabado de me ocorrer. E se hoje não consigo mais ver o rosto da Ana Maria Braga da mesma forma, imagine como encaro um monitor cardíaco, mesmo num filme na TV.

Saiba, portanto, como identificar certos ateus humilhados pela vida e pela morte. Procure uma luminária de embutir, com duas lâmpadas e gabinete espelhado, e preste atenção em quem faz o sinal da cruz ao passar por ela.

Lúcia, a gorda, pagou com a língua.

Captura de Tela 2014-11-05 às 17.33.39Acredite, tem gente fazendo graça com o estado de saúde da jornalista, historiadora e cientista política Lúcia Hippólito, que sofre com uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso – e que lhe abreviou a carreira. Eu compreendia, mesmo distante de qualquer interesse maior por política, que a razão de seu afastamento era grave, mas não sabia quanto. No inconsciente coletivo, Lúcia já havia entrado no estágio em que se some e, depois de longo período de sofrimento enclausurado, se morre. E, então, se vira assunto de telejornais, com o depoimento emocionado de amigos artistas no velório.

E então fui buscar informação, e foi a pior coisa que fiz em muito tempo. Eu ignorava o episódio no qual Lúcia foi acusada, em janeiro de 2010, de estar bêbada e ter entrado ao vivo na rádio CBN. Como fazia uma crítica ao Programa Nacional de Direitos Humanos do governo Lula, sua gastroenterite ao vivo virou escândalo no mundo petista. Procure pelo assunto no Google, e vai ver até um site chamado “Amigos do presidente Lula” chamando-a de “bêbada”. Como se não bastasse, encontrei também um link para o blog do jornalista Reinaldo Azevedo, em 2 de setembro de 2010, em que ele também acusava a colega Lúcia de estar bêbada – só com um pouco mais de refinamento, o que é facílimo diante de um petista. Então, por que Lúcia Hippólito, em poucos meses, conseguiu ser acusada de bêbada por gregos e troianos?

A resposta lógica seria “porque ela estava realmente bêbada!”. Mas como sei que, no mundo binário de gregos e troianos, a verdade geralmente não é convidada, fico com a hipótese de que Lúcia fazia seu trabalho bem demais. Ao analisar fatos políticos no Brasil e no mundo, era livre para criticar quem quisesse criticar. Se o PNDH de Lula merecia críticas, ela criticava. Se o dossiê contra a filha de José Serra era “incompetência demais” até para o PT, ela dizia isto – e por isto mereceu o post de Reinaldo, amigo pessoal de Serra. Lúcia, portanto, estava sendo acusada de ser bêbada, de um lado pelos bebedores de pinga, do outro pelos bebedores de vinho chileno.

Fui atrás dessa história hoje, depois de ver um petista amazonense, aqui no Facebook, saudando o reaparecimento da jornalista com um venenoso “Olha quem apareceu… A cientista desaparecida Lúcia Hipólito… continua a mesma; mas engordou”. É até desmotivador ler esse tipo de comentário de alguém de esquerda, gente que, você sabe, não suporta machismo, magrismo, racismo, homofobia nem qualquer outro sentimento ruim que só dá de Minas para baixo. É que, para estas pessoas, o passaporte para o paraíso do coitadismo depende de duas premissas: 1) você precisa ser negro, pobre, mulher, gay ou índio e 2) mais importante, você precisa agir como tal, sendo de esquerda. Uma mulher, sequelada e numa cadeira de rodas tem tudo para ser um ícone da esquerda. Só que criticou Lula. Então vira bêbada e gorda. Lúcia foi trucidada não pela Síndrome de Guillain-Barré, mas pela máquina de moer gente do ódio dos bondosos. Os blogueiros cute-cute não têm nada a dizer sobre estas agressões aos direitos humanos da jornalista?

É incrível como se pode ficar marcado para sempre, depois de se criticar quem não deve ser criticado. No caso da bêbada Lúcia, depois de ter falado do abstêmio Lula. O triste mesmo, dessa história, não é a condição de Lúcia, hoje numa cadeira de rodas, com as mãos e os músculos do rosto atrofiados, com dificuldade para falar e para respirar. O triste mesmo é ver a qualidade questionável da bondade humana, quando ela é ideologizada. Se um petista menor consegue chamar Lúcia de gorda e bêbada, Leandro Fortes, jornalista (portanto também colega de Lúcia) responsável pela revista Carta Capital, consegue escrever isto:

“Não, eu não acredito que ela está pagando agora o preço por todas que tomou. Eu só acho que ela está pagando pela língua”.

Pois é. Eu já vinha falando dia desses sobre a guerra de insanidades nascida na internet depois das eleições. Mas já vinha, também, atentando ao fato de que, do lado da direita, os absurdos saíam das ruas e da internet, aonde, é sabido, há todo tipo de gente. No caso da esquerda, neste caso o PT, os absurdos sempre saem de órgãos ou pessoas ligados à cúpula do partido.

A fala de Leandro Fortes é sinal de um tempo. Mostra que falar de Lula numa rádio do Brasil pode ser mais perigoso do que fazer charge com Maomé num jornal do Paquistão. É a lógica perversa do cinismo à moda petista. Quem usa a língua para falar de Lula acaba numa cadeira de rodas. É um exagero absurdo que se compreende se saído de uma esquina mal afamada da zona do baixo meretrício de alguma cidadezinha do interior. Pois é, saiu do teclado de um petista de alto coturno.

Lúcia, uma das principais analistas políticas brasileiras, está, é claro, condenada a ser, para sempre, apenas objeto de ironias pouco elegantes de petistas amazonenses e do virulento de petistas nacionais. Seu erro enquanto cientista política? Ter falado de política, ué.

Achei uma entrevista recente de Lúcia ao Jô Soares, e é triste ver sua situação, envelhecida uns 10 anos, numa cadeira de rodas, com dificuldade para falar, apesar de todo o humor.

Os links das fontes:

Não existe almoço grátis nem para eles

Não perdi um único amigo de Facebook, antes, durante ou depois das eleições. Ao menos que eu tenha notado, pois já desfizeram amizade comigo e eu não percebi. Os únicos de que tomei conhecimento não fizeram falta. Porque, para ser sincero, não ligo para meu cardápio de “amigos de Facebook”. De modo que não tenho orgulho do “grande feito” de não brigar na internet, pois isso é fácil e apenas o esperado de pessoas com o mínimo de maturidade – e um tanto de falta de paciência.

Isto falando pelo lado do varejo de ideias, coisa pessoal. Falei mais cedo da paranoia e da esperteza de uns e outros em pintar metade do Brasil com as cores da intolerância racial, como se fôssemos a África do Sul da década de 50. Se os livros de história forem escritos pelos militantes que se disfarçam de professores, as crianças brasileiras serão ensinadas que, na virada do século 21, o Brasil era coisa parecida com o Mississipi dos banheiros segregados. Do outro lado, a paranoia da ameaça comunista, da venezuelização do Brasil, do bolivarianismo tomando os poderes. Sinceramente, isto é uma grande besteira. O Brasil é tão grande e forte, apesar de esculhambado, que certas marmotas latino-americanas, como o comunismo messiânico das republiquetas que nos cercam, nunca vão vingar aqui.

Mas, se é para concordarmos que ameaças vermelhas e empresários racistas são mais folclore do que estatística, é bom parar para ver o que os cientistas políticos do Macbook Pro, isentos feito o Bolsonaro com o sinal invertido, já começam a dizer, assim, meio de leve, meio como quem não quer nada, sobre o que “a esquerda” espera do segundo mandato de Dilma.

E lá estão eles, os movimentos sociais, mandando o recado pelos blogueiros políticos da bolsinha vermelha. E o recado é simples: Dilma foi reeleita apenas porque “as esquerdas” lhe deram uma chance mais de botar em execução a agenda delas, aí incluídas as reformas política, tributária, agrária e a implantação da tal lei de mídia, que é o nome cínico inventado para disfarçar a censura pura. A “democratização da mídia” é para a censura o que o “recurso não contabilizado” é para o caixa dois no vocabulário de esquerda.

Traduzido tudo para o português claro, a militância que fez o Diabo para reeleger Dilma agora diz que, para gente ideológica como eles, não basta injetar bilhões em sindicatos e ONGs de fachada. Além do dinheiro, é preciso também fazer certas vontades destes em quem ninguém vota – aí dispostos PSTU, PC do B, PSOL, PCO, centrais sindicais e afins. O problema do PT é aquele de certas duplas sertanejas nas quais só um canta e percebe que, para realmente decolar na carreira, é preciso abandonar o parceiro para fazer carreira solo.

Com seu gogó consagrado nas paradas de sucesso, o PT vem pagando aos irmãos sem talento o suficiente para que estes não lhe abram oposição e para que, ao menor risco de perder uma eleição para a direita, saiam em defesa do PT, sempre de forma mentirosa e terrorista. A mensagem é clara: ninguém gostou do primeiro mandato de Dilma, que teria sido eleita apenas para cumprir uma agenda de partido, e isso ela não fez. Agora cobram que faça.

Que se note: nenhum destes satélites artificiais do petismo sequer disfarça suas intenções com, sei lá, uma reivindicação contra o imperialismo ianque ou o cumprimento de leis já existentes contra a corrupção, por exemplo. Não, o que a banda sem talento dessa dupla sertaneja quer é mudar o sistema, subjugando os outros poderes, patrulhando a imprensa e aparelhando partes vitais do Estado. Para que Dilma governe em paz, inclusive para os 80 milhões de brasileiros que não votaram nela, é preciso que ela faça as vontades de gente que não tem voto nem da família inteira – porque toda família precisa de gente séria, afinal.

A agenda está aí, posta à mesa, no dia seguinte à eleição, para que Dilma aproveite a chance que ganhou de fazer o que essa gente sem voto quer. Eu não pretendo fazer absolutamente nada para impedir o que me parece claro. Sou um crente da democracia, para quem ela precisa ser tão pura que aceite até a irresponsabilidade de uns e outros. É esta a democracia que me permite opinar, mesmo contra quem fala, dia e noite, em censura. Quem acredita que há limites para a liberdade, no fundo não defende a liberdade.

Dilma vai ter que decidir: ou faz como no primeiro mandato, pagando o irmão desafinado para ficar calado, ou começa a admitir que o Brasil se rebaixe à mediocridade institucional que o cerca na América Latina.

Felizmente o Brasil não iria deixar isto ocorrer. Não porque seja conservador, mas porque é grande demais para errar tão feio.

O rico que odiava os ricos

É de chocar a imbecilidade de parte do Brasil, atacando as regiões norte e nordeste por causa de uma suposta tragédia com a reeleição de Dilma Rousseff. É triste, porque não parte de um grupo de retardados extremistas, mas de parcelas importantes da sociedade. O caráter do brasileiro médio está exposto, com toda a carga de preconceito, ignorância e arrogância a que os imbecis têm direito. Não há o que tirar nem pôr na realidade dos fatos.

Dito isto, é também incrível que os investidores da divisão, com seu discurso também fóbico, agora finjam estranhar a existência dos monstros que tanto provocaram. Para pessoas normais, a imensa maioria dos 50 milhões de votaram em Aécio e dos 53 milhões que votaram em Dilma, estavam sendo julgadas duas formas de pensar o poder, o Brasil. E não a guerra surda entre ricos e pobres, criada e fermentada em laboratório pelo PT ao longo dos anos, graças à oratória de Lula.

Mais do que mostrar a felicidade de quem venceu a eleição, veja, os grandes portais investem no retrato de quem perdeu. Assim, como se os 80 milhões de brasileiros que não votaram em Dilma fossem completos idiotas, destilando ofensas a desconhecidos e expondo preconceitos de classe. Dilma disse que o Brasil não está dividido. Está, presidenta. Não pelos 600 gatos pingados que o UOL ou o Terra encontraram chorando nos bairros nobres. O país foi dividido pelo discurso do ódio, do medo e da mentira, engendrado cirurgicamente pelos marqueteiros do PT – e todo mundo sabe disto.

Quem espalhou que o outro iria tirar comida da mesa do pobre? Quem chamou o outro de drogado e traficante? Quem chamou o outro de playboy, espancador de mulher, bêbado, corrupto? Quem passou o mês inteiro, desde o assassinato da reputação de Marina Silva – acusada pelo petismo de ser representante dos ricos – acusando Aécio de ser inimigo dos pobres? Quem investiu na mentira de que o país quebrou três vezes, ia quebrar uma quarta, que os bancos públicos iam ser fechados, a Petrobras vendida e o Bolsa Família extinto? Aí esse mesmo pessoal vem depois filmar a reação descabida dos agredidos, como se vivêssemos a tensão social e racial de África dos tempos do apartheid. Sim, o país foi dividido pelo PT. Também por suas políticas de inclusão social, claro, mas principalmente por seu discurso de ódio aos outros, muito antes da reação destes.

Eu não voto no PT, sou amazonense, a favor da união civil homossexual, a favor do aborto em casos extremos, contra a redução da maioridade penal, contra a pena de morte e a legalização das drogas, a favor da separação entre Estado e Igreja, anti-nacionalista. Com essa mistura de posições, aonde me encaixo na tabelinha preconceituosa de quem acha que o outro é sempre uma caricatura? E se a grande mídia, sempre acusada de ser golpista – mesmo quando faz campanha a favor – decidisse mostrar o lado violento do petismo? As meninas do Leblon não me representam, nem as madames de Higienópolis.

Talvez os portais não mostrem o discurso de ódio do lado petista porque ele não vem somente de militantes com menos cérebro, como ocorre com tucanos. No caso do PT, o discurso do ódio parte do palanque, da boca de seus principais representantes. Na última sexta (24), em São Gonçalo, Lula mandou ver sobre Fernando Henrique e sobre “essa gente” que não vota no PT e que, por isto, nunca estará do lado do bem. E ninguém, na imprensa ou em blogs, interpretou este “essa gente” como preconceito de Lula. Lula disse que eu, que não voto nele, não queria que pobre estudasse. E é exatamente o contrário. Eu quero é que o pobre estude, presidente. Exatamente para que todos possam andar de cabeça erguida, como o senhor diz da boca para fora desde os anos 80. Para que todos, um dia, possam ter a dignidade de tomar um Romanée-Conti e de pagar 7 mil reais por uma noite no Copacabana Palace.

País justo não é aquele no qual só rico pode fazer isso. Ricos e pobres, afinal, não são raças, como o senhor prega há décadas para dividir o país. Rico é quem tem dinheiro, muito dinheiro, não importando aonde tenha nascido e quanto tenha estudado.

Neste ponto, portanto, ainda que eu tenha querido estudar e o senhor não, o pobre sou eu, e o rico é o senhor.

E depois da festa?

Para tentar entender o que houve neste segundo turno, com petistas e não petistas (convenhamos, não existem tucanos) quase saindo no braço em nome do bem do Brasil, é preciso entender não o que nos tornamos, mas o que sempre fomos: um país sem identidade. Porque ainda não sabemos, diferentemente de qualquer país evoluído, o que queremos ser. Se americanos quiseram fundar uma nova nação, se europeus quiseram reconstruir um novo continente após as guerras, se o oriente decidiu ensinar ao mundo o que é Deus, o Brasil ainda não decidiu se quer se perdoar pelo passado ou se quer se preparar para o futuro. A briga que se dá nas ruas é entre duas formas de pensar, como tem dito Dilma com um sentido, mas de sentido diferente. Se a presidente quer dividir a nação entre bons e maus, o Brasil tem que saber se é esse tipo de pergunta que ele quer responder.

Não porque haja algo sobre ricos e pobres, brancos e negros. As pesquisas eleitorais, aliás, desmontam a tese de que um partido é o dos pobres (a maioria da população) e outro é dos ricos (a ínfima minoria). O país está cortado à metade, e a divisão do país é de valores, não de cor de pele. E isso não quer dizer que os valores de um lado sejam superiores aos do outro. Afinal, o que é mais belo? Fazer justiça aos negros ou revolucionar a educação primária do país? É estabelecer cotas ou livrar o país da inflação? É distribuir dinheiro aos mais pobres ou lutar para que eles deixem de ser maioria e virem minoria?

Quando falo em valores, talvez a palavra seja prioridades. Por isso, no meu caso, investir em infra-estrutura de saúde é mais importante do que importar médicos. Por isso, no meu caso, investir em infra-estrutura educacional é mais importante do que estabelecer cotas nas universidades. Se a correção das injustiças históricas não afetassem o que espero para o futuro do meu país, eu não veria problema em perdoar os erros da educação fundamental, que assim nunca será melhor. Afinal, para que melhorar se lá na frente entrarão todos na faculdade? O país e seu imenso vazio acadêmico e sua imensa irrelevância científica falam por mim – não temos nenhum Nobel em 514 anos, mas o Lula tem 514 títulos de Doutor Honoris-causa. Não que ele não merecesse. É que, no fim, grandes avanços científicos dignos de um Nobel podem mudar um país, mas o título honoris causa muda apenas uma vida.

Ser bonzinho amacia o coração? Claro! Dá orgulho? Por que não? Ocorre que, descontada a emoção do momento, o que fica é o nada. Sei que, pensando assim, me torno o que chamam de conservador e reacionário. Nestes tempos eleitorais, coisa muito pior. Para este país que temos hoje, o Brasil bonzinho xinga o Brasil malvado. O Brasil malvado xinga o Brasil bonzinho. Ninguém quer perder, ninguém quer abaixar a voz. De um lado, petistas não conseguem entender como alguém pode não votar no PT. Do outro lado, todos conseguem entender quem vota no PT. Socialmente, o país melhorou centenas de vezes, Economicamente, o país está parado. É como se houvesse uma linda festa, com comes e bebes, a bordo de um navio à deriva no meio do oceano.

O que queremos realmente fazer? Corrigir os últimos 500 anos ou nos preparar para os próximos 500? É uma pergunta muito simples. Porque, à exceção da classe média que tem renda de 300 reais, da redução da pobreza e da diversificação do pensamento, coisas realmente ótimas, qual o real avanço estrutural do Brasil? A gente colocou negros na faculdade, mulheres na presidência, bifes na mesa do pobre, Raimundos na fila do avião. Quem, à exceção dos imbecis, pode achar isso ruim? Mas tá, e agora? Vamos seguindo em frente com mais bolsas, mais cotas, mais médicos – e agora mais especialidades -, mais discussões sobre liberdade de imprensa, mais debates sobre aborto, casamento, sexualidade, cor, religião, patriotismo?

Sério? Vamos ficar nesse carrossel medíocre da expiação dos pecados dos antepassados? Lutando para que o Brasil do século 21 fique preso ao horror do Brasil de uma ditadura do século 20? Lutando para que o Brasil do século 21 fique preso ao horror da escravidão do século 17? Lutando para que o Brasil se perdoe com os índios, os ambientalistas, os gays, os negros, os pobres?

Se a resposta for sim, cabe perguntar, então, qual a previsão para que saudemos tantas dívidas com o Brasil do passado.

Eu gostaria de saber quando vamos poder pensar nos tataranetos que teremos, e não nos tataravós que já tivemos. Sim, é o pragmatismo insensível, conservador e reacionário de um malvado não petista. Já superamos a fase do caos econômico com o PSDB, já superamos o mapa da fome com o PT. Não é a hora de, com todos de barriga cheia e dinheiro estável no bolso, pensar no país que queremos ter?

Os comes e bebes da festa no navio à deriva um dia vão acabar.

O PT vai perdendo para si próprio

Bateu o arrependimento. O PSDB era o freguês a ser batido facilmente. Sobrou, ao final de mais um espetáculo de baixaria calculada do PT, o bom e velho coitadismo. A baixeza não funcionou, agora resta o embuste de – vejam só – acusar a Marina de ligar para Aécio no fim do debate. Os dois são aliados, diga-se. O problema é que parecia tão fácil a tarefa de demonizar um tucano que o PT esqueceu que não tinha mais Lula, o seu Pelé, e o PSDB não tinha mais Alckmin, o seu chuchu. A arrogância virou pó, trocadilho infame com que o petismo insistiu em chamar o cara de drogado. Como a goleada vai aumentando sem que saibam como impedir a derrota (ao menos nos embates diretos), os Gatos Guerreiros com a faca nos dentes vão virando Pacatos. A turminha que chama o rapaz de “playboy cheirador” vai vestindo batas angelicais e fazendo pose da madalena impressionada, denunciando o Aécio malvado, machista, grossão. Quando se recorre à baixaria, só pode dar nisso. Quem é mulher com uma biografia como Dilma não pode autorizar que outras mulheres sejam agredidas, vendo filhos e maridos sendo chamados de drogados. Ninguém, amigos, nem Marina, nem Aécio, nem Dilma nem ninguém, diante do Brasil inteiro e disputando o cargo mais alto da república, tem que ser trucidado e humilhado em troca de votos. Amigos petistas, agora não adianta recorrer ao coitadismo. Não vai colar dizer que é o outro o truculento, que foi o outro que fez uma linha de montagem de calúnias na internet. Eu acredito, piamente, na legitimidade da paixão de vocês. Ou, como disse mais cedo, vocês são a melhor torcida entre os partidos brasileiros. A mais leal, apaixonada, aguerrida, determinada. Isso é, sim, muito bonito. E são vocês, com uma história de dedicação tão bonita, que precisam preservar o que construíram. Se há o risco de o Brasil não premiar os avanços sociais incontestáveis do petismo, elegendo outra proposta, não é por ingratidão nem por manipulação da mídia. É porque acontece, simplesmente acontece de o povo querer outra coisa, às vezes. Se o tal Aécio playboy drogado e espancador de mulher é tão ruim, em 2018 vocês vencem fácil e voltam a dar alegrias ao país, uai. Portanto, amigos, não aceitem este papel ridículo de aprovar o que o PT, em seu QG de campanha, decidiu fazer com seus adversários. Nem uma eleição presidencial merece ser vencida com o constrangimento dos vencedores. Soberba não combina com bondade, essa arrogância na atitude não combina com o humanismo do discurso. Por isso eu sei, porque tenho queridos amigos petistas, que são exatamente eles alguns dos que não entraram nessa barca que, até aqui, parece furada. Sinceramente, não me importa quem vai ganhar. Pode ser sim, o PT. Se isso ocorrer, porém, tenho certeza de que ninguém mais vai chorar de emoção, como até eu chorei em 2002 ao ver a diplomação de Lula. A mítica do PT como refúgio da ética, da bondade e do humanismo morreu. Só quem não percebeu foi quem ainda recebe para não perceber.

As Marisas querem atenção. Não ligue.

Vários anos atrás, quando não havia sequer Orkut, havia um canal de salas de bate-papo no UOL, dividido por temas de interesse como regiões, cidades, religião, política, música etc. Passei alguns meses nas salas dedicadas à cidade de São Paulo, “batendo papo” com uma mulher que se escondia sob o apelido “Marisa Marisei”. Dizia homenagear Galileu Galilei. Marisa Marisei era racista e xenófoba, queria que São Paulo parasse de receber nordestinos na estação rodoviária. Defendia a construção de kibutzim nas regiões de seca. Defendia a “devolução” dos nordestinos à sua região e a devolução de São Paulo aos paulistanos. Para tal, todo um rosário de imbecilidades comparativas, como a cultura italiana superior à africana, o apego do paulistano pelo trabalho, no lugar da desídia do resto do Brasil… Dona Marisa Marisei deve lembrar de mim até hoje. Eu me assinava, mas não dizia de onde era. E, ridicularizando aquele jeito paulistano dela, fui acusado de ser baiano, cearense, paraíba, piauiense etc. Destroçei cada um dos argumentos da Marisa, por meses a fio, e até hoje ela não deve saber o que a atingia – ou de onde vinha o que a atingia.

Sempre tive nojo desse traço de personalidade do paulistano, muito mais comum do que se imagina. Quem não recebeu, em Manaus, paulistas que mal escondiam o dissabor de estar por alguns dias acima de MG? Eu conheci algumas dezenas de Marisas, e por aquilo passei a medir o resto dos paulistanos. Ri como poucos quando vi Juca Chaves, num show aqui em Manaus, lembrar a frase de Nelson Rodrigues: “Nada mais solitário do que a companhia de um paulista”.

Envelheci, o Orkut já nasceu e já morreu, dona Marisa já deve ter voltado para sua Florença espiritual, e hoje aprendi – talvez como ela também – que não há nada mais irresistível, porém errado, do que generalizar. Sou um usuário contumaz da tática retórica, mas para fins medicinais, talvez calculando as doses de discordância que quero criar em quem conversa comigo. Especificar, em vez de generalizar, dá sono. É chato, é prolixo.

Mas é necessário. Hoje, talvez Marisa Marisei esteja estudando a possibilidade de pegar um pau-de-arara rumo ao nordeste, fugindo da seca. Talvez eu hoje precise viajar mais a São Paulo, para encontrar os paulistanos que eu gostaria de conhecer. A maioria dos que conheci vieram aqui e me causaram péssima impressão – e de mim eu sei que tiveram boa impressão.

Escrevi ontem sobre um colunista viciado em Marisas Mariseis. E entendi, hoje, que há gente do lado que eu estive, lá há 20 anos atrás. Gente que não nasceu no nordeste nem no norte, mas que gostou da ideia de o país ser mais diversificado.

Sim, as Marisas continuam vivas, são muitas e são igualmente idiotas, racistas e xenófobas. Mas, se há duas décadas eu me ocupava tanto com as almas sebosas de uma sociedade feita de tantos tipos melhores de gente, hoje eu me concentro em quem vale a pena. Só convivo com os paulistas de que gosto, porque sei que eles não são defensores de negros nem protetores de nordestinos. Nem são defensores de preconceitos mal e porcamente disfarçados.

Hoje compreendo que, entre os coitados e os abastados, entre os oprimidos e os opressores, entre os bonitos e os feios e entre os inteligentes e os burros, há uma enorme massa de gente normal, que não está nem aí para quem é coitado, oprimido, feio e burro. O que vale, para quem vai envelhecendo, é não fazer parte de torcidas organizadas, nem de um lado nem do outro.

Com o tempo a gente percebe que só nós ligamos para nossas opiniões. E somos apenas nós que vamos dormir bem ou não com elas.

O Nicolas Sparks das maldades da classe média

O Leonardo Sakamoto está virando, para a pieguice politicamente correta da internet, o que é o João Kleber para o mau gosto na tevê. Enquanto o culpado pelo “Teste de Fidelidade” consegue descer mais fundo e já tem até prisão de falsos amantes em vídeo, o blogueiro já encontra crianças fascistas em São Paulo. Não que a maldade humana conheça limites, longe de mim, um realista, dizer isso. O problema do Sakamoto é que o cara consegue, numa cena só, descrever diálogos, situações e imagens que misturam donas de casa nazistas, jornaleiros truculentos, clientes de farmácia racistas, crianças perseguidas politicamente (!), patroas dos Jardins que escravizam empregadas, chefes que assediam mulheres da firma enquanto combinam uma partida de squash com os colegas do Clube do Macho…

O Sakamoto vai andando pela rua e esbarrando no ponto de ônibus com quem odeia haitianos; Pede um café e vê alguém falar em matar nordestinos; pedala sua bicicleta e quase é atropelado por um carro importado com o adesivo do Aécio, provavelmente pilotado pelo Luciano Huck ou algum outro almofadinha famoso – o importante é ser almofadinha. Aí vai para casa, chama o porteiro pelo nome – porque isso é “bacana” -, abre seu Macbook Pro e, depois de desviar de posts odientos contra japoneses e piadas racistas sobre homens machistas maltratando crianças petistas… ele conta tudo para a gente.

Aí entra um piano triste ao fundo… Sakamoto aparece em câmera lenta, com o rosto iluminado pela tela Retina do Mac, fazendo cara de espanto e tristeza enquanto uma mulher, jovem, negra e pobre lhe conta como quis dar de presente, para a filha neste Dia das Crianças, uma boneca que fosse negra, com roupinhas com motivos afro, mas sem sucesso. A música triste vai aumentando com os detalhes: Sakamoto fala da cara feia dos vendedores racistas, dizendo “mas você tem dinheiro para isto, querida?”.

O cara é uma máquina de encontrar espíritos de porco, um para-raios da maldade humana. Aonde houver um canalha chutando um cachorrinho, lá estará Sakamoto para registrar tudo e contar ao Brasil. Se o protagonista de uma novela das nove ralha com a empregada morena, lá está Sakamoto, atento. Se a NET não atendeu a tempo o chamado de um cliente da periferia, lá está o Sakamoto, vigilante. Vaiaram político, cuspiram no chão, fumaram cigarro industrial, fizeram o sinal da cruz, lá está o Sakamoto para chamar todos de coxinhas.

Se o universo particular do Sakamoto fosse o do cinema, o mocinho de seu filme iria abrir o guarda-roupa e encontrar o Hannibal. Ia dormir e ser perseguido pelo Freddy Krueger; O filho dele iria assistir o Rei Leão e o herói seria o Scar. Tudo em sequência! Apareceria o Norman Bates para porteiro do prédio, o Jason Voorhees para vendedor de frutas e o Sauron para prefeito de São Paulo.

A sequência de infortúnios de Sakamoto é enorme. Imagino o sofrimento de uma vida tão cercada do que há de pior na raça humana. Ou, como ficou claro também no calçadão do Leblon de Gregório Duvivier na última segunda, o inferno dessas criaturas superiores é ter que conviver com humanos.

O dom de Sakamoto e Duvivier, assim, é a infelicidade de ter que ir ao cinema, à quitanda e ao parque e ter de esbarrar com quem não é petista – e portanto, não é do bem. O mundo ideal das criaturas que carregam o fardo deste dom, o dom de quem é bondoso e só encontra gente maldosa, seria um país inteiramente novo, isolado e mantido a salvo dos infiéis lá fora.

Agora mesmo, Sakamoto encontrou uma mulher cuja filha tem medo de dizer, na escola, que a mãe vai votar na Dilma. É que todos os pais e mães da escola vão votar no Aécio, “e ai de quem defender o contrário”. Sakamoto conta, com aquela musiquinha de piano ao fundo: “Seus filhos estudam em um renomado colégio da classe média alta paulistana. Não são os únicos casos, pelo contrário: recebi queixas de pais e mães com filhos e filhas em outras tradicionais escolas da cidade vivendo situação semelhante.

Não sei do que dá mais medo. Das crianças das escolas de classe média de São Paulo ou de andar pelas ruas ao lado deste rapaz.

Um Bethoven do novo humor escreve seu “tchu-tchá-tchá”

Gregório Duvivier deu hoje uma chance à mediocridade. Eu leio os blogs do “Eixo Lula-Dilma” e entendo o nível que vai ali, mas respeito demais a cabeça de um humorista (ele que perdoe se o chamo assim, mesmo diante de tantos livros com aquela cara de “olhe quantos livros eu já li”) que faz tanta coisa bacana. Hoje, não. Hoje Gregório veio à FOLHA dizer que o Rio de Janeiro está entregue ao Aecismo. E como ele percebeu este fenômeno? Nos adesivos dos grandes jipes de luxo. Em jovens que agridem pedestres de madrugada, em gente que quer viajar pros EUA, em gente que brinda a “redução da maioridade penal”, em gente “reacionária”, “ruralista”, “fundamentalista” e “corrupta”. Para Duvivier, este é o perfil de quem vota em Aécio Neves. Aí eu lembrei: o que é mais feio? Chamar o eleitor do outro de “desinformado” ou de “reacionário”, “fundamentalista”, “corrupto”, “ruralista”, “violento”, “fútil”?

Gregório diz que não vê bicicletas com adesivos do Aécio.

O que você, Gregório Duvivier, faria ao encontrar uma bicicleta com o adesivo do Aécio? Ou ao avistar um eleitor tucano a bordo de um Fiesta 2011 financiado em 60 meses? Foi um eleitor tucano ou um dirigente petista que andava com um jipão de luxo, uma Land Rover, presenteada por uma empresa com negócios na Petrobras, em 2005? O que você faz com o anticlichê do fato de um petista como o Pizzolato, viver numa cobertura ali em Copacabana, ao lado da sua masmorra pessoal, o macabro Leblon? Leblon, aliás, este triste bairro carioca que, a julgar pelas suas crônicas, é a imagem cinza da desolação rancorosa de uma elite sem escrúpulos. Eu leio você e fico com pena da sua prisão carioca, o Leblon.

Para você, “despreconceituoso” Duvivier, foi preciso ser muito preconceituoso para declarar seu voto no PT. Porque para alguém assumir-se petista não basta dizer coisas como “Lembro da compra de votos pra reeleição”, “Engavetador-Geral da União” ou “Quando FHC era presidente, a Petrobras protagonizou diversos desastres econômicos e ambientais” – porque foi tudo verdade. Não. Para um artista graúdo, destes cujas declarações de voto viram troféus em época a de eleição, era preciso ser bem petista.

Para você, Duvivier, quem não é petista anda de carrão importado. Quem não é petista curte violência. Quem não é petista não defende causas humanitárias nem direitos civis. Quem não é petista é o rico, o esnobe, o fútil, o insensível. Ou invertendo: se você tem carrão importado, agride estranhos na rua, sonha ir a Nova Iorque, é rico, esnobe ou fútil, você não pode ser petista.

Há no Facebook o que eu chamo de “turma do z”, aqueles jovens descolados e engajados do petismo chique. Na maior parte das vezes funcionários comissionados dos gabinetes de Brasília ou ativistas de movimentos gays e negros. Pessoas que, apenas por estas condições, precisam trazer para a conversa uma condição social supostamente inferior. É aquela turma coitadinha que ouve um “não” do gerente do banco e vai para a internet denunciar racismo do capital internacional contra as minorias, sejam gays, negros ou pobres. A “turma do z” não pode ouvir as palavras mágicas “cota”, “mérito”, “inflação”, “corrupção”, “agricultura”, e responde com “zzzz…”, como se o deboche fosse argumento suficiente.

Eu leio você, Duvivier, de cujos textos sou fã (mesmo aqueles dos quais não gosto), falando que está sofrendo no Leblon, que está vendo SUVs blindadas aecistas, que está angustiado com os tucanos que querem voar para Nova Iorque, e minha reação é o mesmo “zzzz…” da “turma do z” contrário. De modo que, reduzindo tudo um pouco, o “por que você não mora em Cuba?” é o mesmo que um “lembro de como o Brasil era antes da era Lula-Dilma.”. O “Bolsa Família sustentando vagabundo” é o mesmo que “FHC chamando aposentados de “vagabundos”. É um inferno de simplismos que a gente até aceita num bocó da favela, mas não num petista enclausurado pelos muros opressores do Leblon.

Pelos menos dois dos últimos textos de Duvivier são mais sofridos do que letras do Nirvana. E o sofrimento do rapaz é viver no Rio de Janeiro. No Leblon. Caminhando para casa, cercado por SUVs ameaçadoras, fazendo a mesma piadinha sobre Aécio e cocaína que os bocós do morro – sendo que os bocós do morro não precisaram estudar tanto para serem bocós. Então por que Duvivier sofre? Por que Duvivier não se muda do Leblon? Se Duvivier está em “terra estrangeira” e se sente obrigado a votar em Aécio, por que não larga tudo isto e foge para Caracas? Ou para fugir do “zzz…” automático da “turma do z”, por que não se muda para Buenos Aires, La Paz, Quito, Montevidéu?

Duvivier, uma espécie de princesa encantada, presa no castelo sombrio do Leblon, termina seu festival preguiçoso de caricaturas: “Por essas e outras, poderia votar nulo – mas a militância de jipe e os comentaristas de portal não me dão essa opção. Se quem defende causas humanitárias e direitos civis é tachado de petista, não me resta outra opção senão aceitar essa pecha”. É um argumento torto. Ou medíocre, para ser mais exato. Porque se alguém é obrigado a votar no PT porque é humanista e foi tachado de petista, então Duvivier podia pensar assim: “Eu sou contra a falta de comida nos supermercados da época da inflação a 80% ao mês. Me tacharam de tucano por isto, então estou obrigado a votar no PSDB”.

Gregório, a gente sabe que você é petista. O que eu não entendo é por que você diz que isso é ser “tachado” de algo. É ruim ser chamado de petista? Ué, então pare de fazer petice.

Gregório, o problema não é defender causas humanitárias e direitos civis. Eu não sou petista e defendo causas humanitárias e direitos civis – inclusive na Síria e no Iraque, se você me entende. Não mato cachorro na rua, não tomo lugar de velhinha no ônibus. Eu não sou petista, e nem por isto queimo índio em ponto de ônibus. Eu não sou petista e não cheiro cocaína, não ando em bandos de madrugada, não agrido pedestres estranhos, não quero ir para Nova Iorque e não dirijo carro blindado.

Sou, para ser mais exato, o cara do Fiesta 2011, financiado em 60 meses. Também ando de sandália de borracha, também compro pão na padaria, também deixo a barba por fazer, também sou apaixonado pela Clarice Falcão. A não ser que a cor da minha pele tenha “peso 3” sendo branco como você, também sou contra o racismo, a violência, a homofobia e o preconceito de classe. Veja só: não sou petista, mas calhei de ser boa gente como você. Me dou bem com gente mais rica e mais pobre do que eu, mais feia e mais bonita, mais conservadora e mais moderna. Sou, enfim, o que você acharia a sua cara, não fosse eu um “não petista”. Então, apenas por este pequeno desvio de caráter – preconceito que você finge muito mal não ter –, eu sou um Aecista.

Quando lembro o magistral vídeo “Ciclo da vida” no canal Porta dos Fundos, que imagino ser de sua autoria, não consigo acreditar que aquele humor ali tenha se tornado este barril de clichês bocós, Gregório. Aquele vídeo é prova de como denunciar a hipocrisia, a corrupção, a religião e a violência policial, numa peça de três minutos, pode ser genial. E eu acho genial, apesar de ser “não petista”, Duvivier, exatamente porque concordo com todo o argumento do roteiro. Essa queda na qualidade do seu trabalho só pode ser pressa por causa da proximidade da eleição, por que quem fez “Ciclo da Vida” vir escrever “O mensalão tucano, a compra da reeleição, o aeroporto, o helicóptero, tudo virou pó”? O Duvivier da esquerda vai virar o mesmo que o direitista Gentili, entrando para o seleto grupo dos humoristas de quem ninguém ri?

E então? Sendo não petista, defendendo causas humanitárias e direitos civis, não tendo Pajero blindada e não andando com tacos de beisebol nas ruas do Leblon, em que categoria de ser humano eu me enquadro para você?

Quando, num jogo de eliminação tão infantil, um genial Duvivier precisa se dizer tão moralmente superior para se declarar petista e ridicularizar quem não é, fica fácil entender por que ele se sente, no Leblon, como eu me sentiria em Havana. Com a diferença de que cubanos não podem fugir do país, mas eu poderia ir morar lá se eu quisesse.

Funciona mais ou menos como o Rio de Janeiro. Quem mora no morro não pode ir morar no Leblon. Mas quem mora no Leblon poderia se mudar para o morro. Se quisesse.

O problema é que essa gente não quer.

 

Abaixo, a transcrição do texto “Terra estrangeira”, de Gregório Duvivier na Folha de hoje:

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Sim, vocês são políticos

Sabendo, por aqui, que o país inteiro pode estar em greve durante a Copa do Mundo. Rodoviários, professores das redes municipal e estadual, policiais civis e militares e vigilantes. E que, confirmado ou não pelo COI, há o rumor de que o comitê olímpico estaria pensando num plano B para o caso de o Brasil não entregar o Rio de Janeiro para a Olimpíada de 2016. Governistas assalariados, de coração ou não, protestam contra os protestos. Dizem, do alto da sabedoria que dá aos governistas dois palmos de chão acima das cabeças dos mortais, que tudo, absolutamente tudo o que pode não dar certo é complô dos adversários.

O que é tão difícil de entender, para os governistas do governismo atual, no fato de que o povo não gosta dos políticos? Amigos petistas, vocês são o governo atual! Se vocês achavam que políticos eram os outros, e que vocês seriam vistos como querubins revolucionários que iriam salvar o país, eu sinto muito! Vocês são políticos, e o país já viu que são políticos strictu sensu, neste caso, no pior sentido da expressão.

Se vocês chegaram ao poder usando caixa dois, como todo político faz, por que querem ser tratados diferentes? Se vocês compram votos no Congresso com a liberação de emendas parlamentares, como todos os outros, por que querem ser tratados diferente? Se vocês negociam cargos com caciques e partidos notórios pela corrupção, como todos os outros, por que querem ser tratados diferente? Se vocês loteiam estatais para drenar o dinheiro delas aos partidos aliados, se vocês usam doleiros para esquentar o dinheiro da próxima campanha, se vocês pagam marqueteiros em contas no exterior, por que querem ser tratados diferente?

Vocês realmente imaginavam que falar contra o racismo os faria serem tratados diferente? Que defender os direitos dos índios os faria tão diferentes? Que defender o aborto e o casamento gay os faria tão superiores ao parágrafo anterior? Meus amigos, que diferença há entre um ladrão de óculos e um ladrão de barba? Entre um corrupto enófilo e um corrupto cachaceiro? Entre um pilantra elitista e um pilantra moderninho? Entre um conservador desonesto e um revolucionário desonesto?

Governos existem há séculos para serem criticados, pelo povo e pela oposição, e defendidos pelos que eles sustentam. Quando um governo deixa de ser criticado, ou está comprando a todos ou não tem mais legitimidade democrática, como aqueles que punem seus críticos. É preciso muita ingenuidade para acreditar que seu político predileto não pode ser criticado, supostamente porque ele tem origem diferente, fala diferente, pensa diferente, veste diferente e faz tudo igual.

A engrenagem política, aquela que move governos e campanhas, não respeita ideais, e o atual governo só virou atual governo quando decidiu aderir a ela, de modo que é de dar dó ver meninos e meninas acreditar que o PT entrou no governo para mudar alguma coisa.

Não, o PT mudou para poder virar governo. Se não, ainda estaria sobre Kombis na Consolação, pregando contra o FMI, pela Reforma Agrária e pelos direitos dos trabalhadores.

Hoje o maior medo do PT, quem diria, é greve.

Achado não é roubado?

Faça um teste simples. Você meteria a mão no bolso de alguém para lhe roubar a carteira? Imagino que não. E se encontrasse uma carteira perdida, no chão? E se você soubesse quem é o dono da carteira?

Ontem eu questionei por que o futebol ainda não incorporou aquela chatice encontrada em outros esportes mais, digamos, sem graça: a tal busca da justiça. Ou do mérito absoluto, aqui e ali chamado de ‘fair play’. Não porque sou Vasco ou Flamengo – porque não torço para nenhum deles -, mas porque incomoda demais ver tanta confusão, acidental ou cínica, entre a imprevisibilidade fascinante do futebol e a simples injustiça.

Não deve ser à toa que um esporte com regras tão ‘fascinantes’ seja religião no Brasil. Admito, é de beleza, mas também de absurdos que vive o esporte mais querido do mundo. A FIFA encontrou a fórmula mágica para permitir absurdos no seu esporte, sem necessariamente colocar a vida dos atletas em risco. Títulos mundiais, como o de 1986, seriam de outros donos se houvesse justiça.

O caso de ontem não parece ser de favorecimento intencional ao Flamengo. O lance era complexo a ponto de nem os jogadores e nem os torcedores vascaínos terem reclamado ao tomar o gol. Um amigo flamenguista, justificadamente alucinado pela vitória, chegou a me agredir, como se eu quisesse diminuir a conquista do Flamengo. Não. Eu só lembrei que, em outros esportes, além da tensão, da emoção e do imprevisto, há também a justiça. E se ela pode ser buscada com a ajuda da tecnologia, por que optar por ignorá-la? O que dá graça ao futebol? A imprevisibilidade ou a possibilidade da injustiça? Só no futebol o inesperado é tão comum, e não é raro que o mais fraco derrote o mais fraco. Isto torna o futebol tão fascinante.

Mas quem disse que isto tem algo a ver com injustiça? Times mais fortes podem perder, claro, mas porque jogaram mal. Times mais fracos podem ganhar, mas porque se superaram. Mas um erro de arbitragem decidir um campeonato? Alguém, em algum lugar, deve ter inventado títulos e troféus para simbolizarem a superioridade de uns sobre os outros. O que será mais lembrado no futuro? Que o Flamengo era melhor time ou que o Flamengo foi campeão graças a uma injustiça?

Para finalizar, e não era o caso dos flamenguistas fazerem o mesmo porque não sabiam da irregularidade do próprio gol, o caso de Aaron Hunt, atacante do Werder Bremen, da Alemanha, que simulou uma falta, conseguiu que o árbitro o apitasse o pênalti, mas decidiu abortar a malandragem a tempo.

Ninguém podia cobrar que os jogadores do Flamengo percebessem o erro de arbitragem dentro de campo, mas é angustiante que até o goleiro rubro-negro, comentando já depois de saber da injustiça, dissesse que “roubado é mais gostoso”.

Parece que o Flamengo não enfiou a mão no bolso de ninguém. Só encontrou uma carteira caída no chão e a levou para casa. Afinal, não tinha dono. Só depois soube de quem era o objeto. E preferiu ficar com a carteira, assim mesmo.

Eu não sou um alemão certinho que acha feio sacanear com adversários. Me divirto muito, pelo contrário. Mas meu aplauso a atitudes como a de Aaron Hunt não dependem do time que ele defende. Pelo jeito, muitos brasileiros se emocionam com motoristas e porteiros que devolvem carteiras perdidas, mas não fariam o mesmo no lugar deles.

Não houve nada roubado. Mas a injustiça não precisa de autores, só precisa de remédio.

Beijinho no ombro pros inimigo da mídia

(O professor Antonio Kubitschek. Foto: Ana Rayssa/Correio Braziliense)

Recebi um link, em tom de provocação, de um site chamado Socialista Morena, ainda sobre a genialidade de se levar o funk para a aula de filosofia. Tá, fui ler. E o problema é que o texto da tal morena já começa mentindo, adulterando o texto de um blogueiro. A tal morena escreveu:

Um blogueiro da direita raivosa chegou a decretar o fim da escola pública: “morreu, foi para o ralo. Virou lixo”

E o que o blogueiro disse foi: “A escola brasileira acabou, morreu, foi para o ralo. Virou lixo.”

Note aonde o esquerdismo enxertou sua tese para provar seu ponto de vista. Para essas pessoas, quando a gente fala na “escola brasileira”, no fundo a gente está com ódio no coração, porque a gente acha que só a elite (?) deve ter direito a uma educação de qualidade. A tese é a de que os críticos da educação brasileira são contra a escola pública brasileira. Sai da nossa boca o óbvio, que a educação brasileira é uma vergonha, e o que chega às orelhas desse povo é que a gente quer o fim da escola pública. Todo esquerdista chega à mesa do bar com sua tese pronta: quem fala mal está ressentido com a perda de algum privilégio anterior, agora democraticamente oferecido também às classes mais baixas.

Não existe, na nova configuração mundial, coisa ruim. Uma couve-flor ruim deve estar ruim porque nasceu num solo prejudicado pelos agrotóxicos, não teve a chance de ter nascido em berço de ouro, numa fazenda de agricultura orgânica – destinada, porque cara, somente aos mais ricos. Música ruim não é mais música ruim, é a autodeterminação de um gênero frente ao autoritarismo mercadológico e cultural estadunidense. Se a gente diz que a Popozuda não sabe rimar, é porque a gente tem ódio dela. E por quê? Ué, por que ela vem do morro, da classe baixa, porque é mulher, porque é funkeira. A desocupação dos pensadores de esquerda é tamanha que não se respeita mais sequer a origem das coisas. Outro dia a presidenta disse que uma música de Tom Jobim era homenagem aos exilados que voltavam ao Brasil depois da anistia. E a música era de antes do golpe. A popozuda escreveu uma música para provocar as rivais do showbiz do funk carioca, e o que a esquerda leu foi um libelo revolucionário contra o pensamento conservador que tem ódio da escola pública brasileira. Ou seja, para esse tipo de pensamento, não existe mais música ruim. “Desejo a todas as inimigas vida longa” deixa de ser briga de morro e vira hino progressista. A mulher canta “Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba”, e o que chega aos ouvidos desses doentes é “A mídia não mostra isso para a elite, mas a nossa vida é dura, violenta e sacrificada”.

Ora, vão pentear macaco…

O fato é que eu estou pouco me lixando para a Popozuda, do mesmo jeito que ela está pouco se lixando para mim, para o professor de filosofia, para os alunos de filosofia, para as socialistas morenas e para os blogueiros reaças. E é assim que deve ser. Aqui e ali a gente precisa ainda dar bola à mendicância intelectual de uns e outros, que pedem atenção, provocam, cutucam e não saem do lugar. Me contento com o fato de que essa gente mente pra si mesma, pois sabe a verdade das coisas. E a verdade é que, falando por mim, ninguém julgou o professor. Acredito, inclusive, que a intenção era a que ele revelou mesmo. Que a mídia só se interessa por besteira, e não pela exposição de fotos que seus alunos fizeram. Deve ser verdade. O que é mentira, e essa culpa o professor divide com todos esses pensadores da internet progressista, é que a “mídia” tem uma missão, a de empurrar a besteira goela da sociedade abaixo. E não é isso. O fato é que a sociedade quer a besteira, muito mais porque sua escola é péssima do que por uma maldade dos poderosos da imprensa elitista.

O professor diz à “socialista morena” que a “provocação foi feita exatamente para eles, porque, no fundo, eles têm preconceito com a escola pública”, falando nos ‘blogueiros de direita’. Ué, professor Kubitscheck, a ideia era mostrar que a mídia só se interessa por bobagem ou provocar blogueiros de direita que querem a morte da escola pública?

Aí vem o coitadismo clássico. Os ataques teriam como alvo os professores brasileiros, a categoria inteira, porque os críticos odiariam a categoria, a escola pública, os ursinhos carinhosos e as popozudas. Mentira de novo. Se você, enquanto professor, decide que Valeska Popozuda merece ser tema de prova de filosofia, defenda sua ideia. Mais importante: prove que ela tinha uma função naquela disciplina, que havia um porquê para aquilo. Usar meninos e meninas para “provocar exatamente os blogueiros de direita” é muita bandalheira, não?

Se Kubitscheck tivesse colocado Chico Buarque na prova, pedindo que as crianças apenas lembrassem qual o próximo verso de uma música sua, a questão continuaria sem função alguma para o ensino do pensamento filosófico mais básico. Saber a próxima estrofe de “Roda Viva” teria que importância para o ensino da filosofia? Também nenhuma! Veja, o problema nunca foi a popozuda, e sim a mediocridade da pergunta. Você sabe como termina a seguinte estrofe?

Roda mundo, roda-gigante

Rodamoinho, roda pião

O tempo rodou num instante

……………………………………….. (?)

É Chico, é métrica perfeita, é poesia pura, é rima riquíssima.

…E daí? Continua não tendo qualquer função educativa quando o que se pede é para completar o verso. Ora, isso é coisa de gincana de programa ruim de auditório, mais nada.

Há muito besteirol escondido debaixo da polêmica pobre da popozuda e do professor Kubitscheck. A necessidade de odiar a tal “mídia” e os quatro ou cinco gatos pingados que escrevem contra o esquerdismo no Brasil, a  ponto de se levar esse ódio para sala de aula, chega a este nível de indigência. Há também a latente falta de ocupação das socialistas morenas, brancas, pretas e pardas deste país, para quem o mundo socialista – com sua miséria, sua magreza, seus prédios antigos e sua música caribenha –, se pudesse ser vendido num aquário, que pudessem levar para contemplar em casa, seria perfeito. Ali, sobre o balcão de granito, ao lado dos discos da Joan Baez, do Lenine e do Pato Fu.

A “socialista morena” termina com uma cartinha de um aluno, em defesa do professor Kubitscheck – o que acho muito legal, mesmo, como atitude. O menino, bem ensinado sobre as maldades da tal “mídia”, que controla todos os outros seres humanos que estão do lado de fora da aula de filosofia do professor Kubitscheck, diz que dá para julgar moralmente as pessoas pelo que elas dizem sobre as coisas. A teoria de Kohlberg, utilizada neste argumento, é bem mais complexa do que o aluno faz parecer, mas fiquei feliz mesmo, em ver sua vontade de mostrar que sim, o professor ensina filosofia nas aulas de filosofia. Que bom!

É de criança que a gente pensa e age como criança. Quando a gente cresce, passa a agir como adulto, o que não é necessariamente melhor. É apenas da natureza humana. Um dia o menino vai entender que Kohlberg não escreveu sua teoria para ser usada por professores de esquerda para julgar moralmente quem é de direita. Mas tudo bem. Incitar a discussão em sala de aula, provocar questionamentos, botar pensamentos diversos em rota de colisão, ensinar os alunos a enxergar diferentes teses… é disso que alunos de filosofia parecem precisar, e é isso o que o professor Kubitscheck parece entregar a eles.

Agora, se ele teve a ideia geniálica de provocar a “mídia” e “blogueiros de direita” na elaboração de uma prova, sem saber direito se queria provocar um ou outro, o professor precisa defender sua tese. E pode morrer defendendo que há um universo inteiro, escondido nas suas aulas de filosofia, que o mundo inteiro não enxerga porque é elitista ou conservador.

Parece ser sua tese. E é ela que explica porque Antônio Kubitscheck, por mais que seja o ótimo professor que parece ser, é um professor, e não um “grande pensador contemporâneo”. Kubitscheck está para Kohlberg como Popozuda está para Buarque, é preciso respeitar a grandeza diferente das coisas.

Sim, as coisas e as pessoas são diferentes. Não caia na conversa mole, das socialistas morenas que não largam o capitalismo branquinho, de que não há couve-flor, música e ideia ruim. O socialismo não conseguiu planificar nem as necessidades dos povos que ajudou a desgraçar. Não vai conseguir planificar a natureza humana. Porque a natureza humana é mais complexa do que essa conversa de chapeuzinho vermelho e lobo mau.

A Popozuda está dando um beijinho no ombro para nós todos. Lá, em sua guerra pelos holofotes contra as inimigas, ela está muito mais feliz. E o nome disso é “mídia”, queridos. Tentando provar que a mídia vampiriza as pessoas com sua maldade mórbida, vocês só mostraram que a mídia é tudo, inclusive vocês, socialistas morenas.

Vocês só estão ajudando, pensando que estão atrapalhando, o ritual do acasalamento entre a mídia e alguém que quer ficar na mídia.

Que ironia, não?

50 anos depois, nunca diga “mas”

Porão utilizado para tortura durante a Ditadura, no porão de uma casa no Piauí (Fonte: http://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2014/03/porao-usado-durante-ditadura-militar-no-pi-ainda-tem-manchas-de-sangue.html)

Sobre o golpe de 1964, há um conselho que posso te dar caso você esteja em dúvida sobre por onde começar a opinar: se você é contra a tortura e o assassinato, simplesmente você é contra a ditadura. Ponto. 

Alguns dos estudiosos que tenho lido, torcendo o nariz para o coitadismo das novas gerações de esquerdistas, tentam balancear a história recente do Brasil lembrando que, ao redor do mundo e até hoje, os regimes mais assassinos foram de esquerda. E nem é preciso recorrer aos livros de história, basta assistir ao que ocorre hoje mesmo, aqui ao lado, na república dos professores Girafales vestidos de palhaços. 

Você pode reagir contra essa globalização vitimista dos aproveitadores e reescritores da história. Os regimes autoritários de esquerda estão vivos até hoje, aonde direitos políticos são cassados de oposicionistas, que acabam depostos e presos sem defesa e sem processo legal. Você pode questionar por que, para essas pessoas, é feio censurar Chico Buarque mas é bonito censurar Yoaní Sanchez. Ou por que tiro de borracha é violência, mas foguete na nuca dos outros é acidente. Você pode questionar sobre por que os brasileiros saúdam os mortos de um golpe de 50 anos atrás, mas ignoram os mortos de uma ditadura vizinha, vivíssima agora em 2014. Você pode criticar quem grita com balas de direita, mas se cala quando as balas são de esquerda. 

Mas a verdade, companheiro e companheira, é que nada disto muda a história. Não diante do que ocorreu no Brasil até meados dos anos 80. Você pode não gostar de ideologias de esquerda, não acreditar em comunismo ou socialismo, não rezar a cartilha dos novos guerrilheiros anti-mundo, mas não pode apagar a história. E a história do Brasil, admita, é a história do assassinato de cidadãos pelo Estado. É a história do Brasil eletrocutando, espancando, enforcando, esquartejando e carbonizando cidadãos brasileiros. Esqueça o que o comunismo fez ao redor do mundo. No Brasil, o crime foi de direita, assim como no Chile, em El Salvador e na Argentina, aonde americanos em Guerra Fria patrocinaram golpes de estado. Acusar as vítimas de terroristas é desonestidade histórica, é direitismo enrustido, disfarçado de neutralidade. 

É preciso simplificar o que é simples, clarear o que tantos queriam complicar. Sob que pretexto fosse, sequestrar, torturar e matar cidadãos brasileiros sempre foi crime. Os crimes de Estado, no Brasil, nunca foram comunistas. Serviram aos valores familiares, religiosos, tradicionais e comportamentais, como são quase todos os regimes totalitários. 

Diante dos 50 anos desde que o Brasil entrou na sua ditadura mais longa e assassina, tirar a importância disto é atestado de canalhice histórica e intelectual. É perdoar torturadores e assassinos por causa de ideologia ou contra-ideologia. É amenizar o que não é ameno. Para que todo o debate ideológico possa prosperar, num mundo utopicamente civilizado e evoluído, será necessário, antes, que todos concordem que assassinato é crime, que tortura é crime, que sequestro e censura são crime. 

Só depois disto tudo pacificado, se poderá entrar em discussões menores como regime, economia, modelo político, reformas etc. Aí será a hora de comparar e afirmar sob que sistemas a sociedade vive melhor, com mais educação, saúde, prosperidade, liberdades e direitos individuais garantidos. 

Mas antes, antes de qualquer coisa, é preciso dizer: Ditadura nunca mais. Assassinato, tortura e sequestro de Estado nunca mais. Seja de direita, de esquerda ou de centro, mas nunca, nunca negue a importância dos crimes de uma ditadura.

Sem isso, todo o resto é em vão.

Sem ódio, sem remorso, sem psicopatia: o Mal puro.

Assisti, há dois dias, um filme sobre Hannah Arendt, a escritora judia que, cobrindo o julgamento do nazista Adolf Eichmann, escreveu uma série de artigos dizendo, friamente, que não se tratava de um monstro demoníaco, mas de um exemplo de como o nazismo inaugurou a banalização do Mal, levando o genocídio a uma escala industrial. Tudo passando pela ‘coisificação’ da vítima. Tirando dos judeus a qualidade de seres humanos, ficava mais fácil fazer funcionar uma máquina de extermínio. Quando se tira de alguém sua essência humana, fica mais fácil matar a espécie inferior que acreditamos ter sobrado. Eichmann alegou que cumpria ordens e havia jurado lealdade ao führer. Respondendo a uma pergunta, da acusação, sobre o que faria se Hitler lhe mandasse executar seu próprio pai, obedeceria – mas só se Hitler provasse que o velho merecia. Bem, reza a história que 6 milhões de seres humanos, tornados não-humanos, foram assassinados pelo Terceiro Reich. Se para Eichmann matar o próprio pai era justificável caso provado o merecimento, fica a pergunta: o que seis milhões de pessoas fizeram para merecer morrer daquela forma? E a resposta é o que tornou Eichmann o porta-voz, naquele julgamento em Jerusalém, do Mal pelo Mal. O Mal banalizado. Eichmann disse não ter remorso. E por quê? Ué, porque ele, pessoalmente, nada tinha contra judeus. E repetiu: só cumpria ordens. Arendt enxergou isto, escreveu seus artigos à luz da filosofia e descobriu o Mal em sua forma mais pura: aquele sem motivo maior aparente. A limpeza étnica podia ser a missão de Hitler, mas não se constrói um exército inteiro formado por facínoras igual a ele. Eichmann disse em seu julgamento: “Arrependimento é para criancinhas”. A figura do pai de família alemão, retratado em “Eichmann em Jerusalém”, livro saído dos textos de Hannah Arendt para a New Yorker, voltou à minha mente ontem, assistindo ao Jornal Nacional e tomando conhecimento da existência de um ser humano chamado Paulo Malhães, coronel reformado do Exército, que admitiu ter torturado, matado e ocultado os cadáveres de oposicionistas da Ditadura Militar nascida em 64. Quantos foram os cadáveres? “Tantos quanto foram necessários” – disse Malhães à Comissão Nacional da Verdade. A coisificação do adversário, tornando-o um alvo mais natural, não é exclusividade do facismo ou do nazismo. Che Guevara, que chegou a defender, na ONU, a execução de seres humanos, os chamava de “vermes”. Malhães dizia que suas vítimas “não eram pessoas normais”. Na cabeça de todo assassino banal há uma guerra que precisa ser vencida, de preferência contra insetos, vermes ou raças inferiores. O assustador, no caso do nazismo, em regimes comunistas até hoje de pé e no caso das ditaduras sul-americanas é a aplicação e o zelo com que assassinos cumprem o dever cívico de matar pessoas. Se há hoje o assassinato do tráfico, do roubo, do assalto, a espécie humana nos brinda, de tempos em tempos, como o pior tipo de assassino que existe: o que considera assassinato um trabalho. Eichmann foi enforcado sem reconhecer os crimes que cometeu, dizendo que seu medo era o de não cumprir sua função. Malhães respondeu a uma pergunta sobre o seu trabalho na Casa da Morte de Petrópolis (RJ), na década de 60: “Como faço com tudo na vida, eu dei o melhor de mim naquela função.” Não há Mal mais genuíno, aterrador e perigoso.

Catarro, Privatização, Lula

Havia um comercial de tevê, com o ator Pedro Cardoso, sobre cuidados para prevenir a tuberculose. Ele falava a palavra “catarro” várias vezes, num apelo para que as pessoas discutissem o assunto, mesmo com nojo. Catarro é sintoma de gripe, mas pode ser também de coisa pior. Há um sem-número de “catarros”, palavras-tabu no cancioneiro ideológico nacional. Palavras feias, mas que existem – ou como diria o poeta, “quais são as palavras que nunca são ditas?”. Uma delas é “privatização”. Um palavrão cunhado nos anos 80 em solo nacional, pelo PT, e com alguma justiça associado a bandalheira governamental. Por décadas e através de várias eleições, a privatização foi, em escala nacional, o que é a pedofilia em nível local. Em qualquer lugar do Brasil, “privatização” é nome feio, assim como, no Amazonas, “se gritar ‘Pega pedófilo!’, não fica um meu irmão!”.

Mas não é o ponto. O ponto é que está fartamente documentado, no caso da ex-12ª maior empresa do mundo (hoje a 120ª), que pode haver bandalheira em processos de privatização, assim como também em empresas que continuam estatais, protegidas deste “catarro” pela Viúva. Assim, protegida dos abutres do capitalismo selvagem pelos guardiões do PT, a empresa perdeu metade de seu valor. Assim, em nome do bem da sociedade, que para esta moçada são apenas os pobres, pretos e índios, só quem enriqueceu foram senhores e senhoras brancos, barrigudos, engravatados – alguns de gravata vermelha – e barbados. Ou seja, os de sempre.

O ano eleitoral complica tudo, porque dá discurso ao governo, que diz que a coisa não passa de oportunismo eleitoral da oposição. Como se estivesse vigente, no Brasil, lei que impedisse o Brasil de denunciar ladrões em ano de eleição, ou seja, ano sim, ano não. Seu primeiro artigo traria algo como “Ficam proibidas, em anos pares, a descoberta, a veiculação, a denúncia e a cobrança de explicações, por parte de autoridades, acerca do uso de dinheiro público nas esferas federal, estadual e municipal, por tratar-se, automaticamente, de denúncia com fins estritamente partidários e eleitorais.”

Fosse a política nacional mais séria, ninguém mais perderia tempo com esse rodeio burocrático e batido das acusações de que governistas fazem governismo e oposicionistas fazem oposição. Ora, meus caros, governo é para governar, e oposição é para se opor. Se cai no colo da oposição o fato de que o governo dilapidou a maior empresa do país, é obrigação da oposição fazer oposição. Imprensa, além disto, existe para cobrar e investigar, e não para festejar e elogiar – o nome disso é assessoria política.

Há um pecado, ao menos aos olhos de quem pouco se importa com governo e oposição, no caso da Petrobras: só se fala em Dilma Rousseff. Em 2006, ano da compra da refinaria do Texas, a presidente era ministra da área. Era também membro (“membra”?) do conselho administrativo da empresa. Era a todo-poderosa da infraestrutura nacional. Dilma é presidente, é candidata e é favorita.

Mas quem era o presidente? Era ela? Quem era o presidente da empresa? Era indicado por ela?

Todos sabemos que não. E aqui o “catarro” da privatização se encontra com outro “catarro” do dicionário de substantivos proibidos no Brasil, o ex-presidente Lula, aquele em quem nada gruda, o onipresente que não está em lugar algum, o onisciente que não sabe de nada. Lula, com todo o sucesso que lhe cabe pelo carisma, ajudou o país a demonizar as privatizações, como se todos os petistas-touchscreen de hoje pudessem latir contra privatizações a partir de telefones estatais da Telebrás dos anos 70 e 80, e não dos smartphones privados de hoje.

Pedro Cardoso intercalava suas falas naquele comercial com a palavra “catarro”. Se nossos políticos estivessem menos ocupados com a eleição, estaríamos falando de Lula, e não só de Dilma. A fala do comercial dizia “A palavra é feia mesmo, catarro, mas é importante falar: catarro”. Neste modelo, as notícias sairiam assim: “O ex-presidente é popular mesmo, mas é preciso dizer o nome dele: Lula. É importante repetir: Lula”.

É muito importante que palavras indesejáveis sejam ditas, mesmo que alguns sintam nojo. Falar em catarro é importante para nomear o sintoma de tuberculose, doença que mata 2 milhões de pessoas por ano no mundo.

Quando 10 anos de governo popular deixam em frangalhos a maior empresa do país, é hora de fazer duas perguntas nojentas:

1) Por que ninguém está falando no presidente da época? e

2) Quais seriam as chances de a Petrobras estar fazendo acordos e compras bilionários e lesivos à ela própria, apenas para beneficiar corruptos e ditadores amigos, se ela fosse uma empresa privada?

Mas responda sem gaguejar.

Ninguém mais ama as novelas do Chateco

Cena de educação racial de “Em Família”. Útil e agradável: para mostrar o corpão da Marquezine, vale até um diálogo do tipo “racismo é crime, babaca!”

Impressionante. Estou assistindo a novela das nove hoje – novamente por acaso. Já teve cena educativa sobre o racismo, cena educativa sobre maridos insensíveis que fazem as mulheres virarem gays (pelo menos essa é a sugestão do roteiro), cena educativa sobre como se divorciar sem precisar de juiz etc. A gente vai assistindo e acha tudo muito engessado, pouco natural. É como se determinadas cenas precisassem ser filmadas, mesmo completamente alheias ao enredo.

Não sou racista nem homofóbico, claro. Tampouco acho que divórcio é pecado. Acho que histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo precisam ser contadas, inclusive, com beijo e tudo. Eu só gostaria que os autores fizessem isso melhor. O problema é que, como há uma pauta de “questões que precisam ser debatidas pela sociedade”, agora até o lazer cinquentenário da dona de casa brasileira precisa virar reunião de ONG humanista. O resultado é mais previsível do que casamento no último capítulo: a coisa toda fica chata, muito chata.

O pior é que não parece ser algo do autor. Não é o estilo Manoel Carlos ou de, como é?, Walcyr Carrasco. É como se a novela brasileira tivesse se tornado um esporte olímpico, algo como uma patinação artística, onde há movimentos obrigatórios e, por isso, eliminatórios. Imagino uma bancada de jurados, com canetinha e prancheta em punho, avaliando o desfile das novelas de hoje em dia. E o comentarista falando:

– É, Júlio, o autor tem muita qualidade e veio para disputar as primeiras posições.

– Verdade, Osmar. A gente pode ver no replay a perfeição do movimento, coisa muito importante para os jurados, né?

– Sim, Júlio. Olha lá o beijo gay, por exemplo: perfeito, sem abrir o lábio, os ombros escondendo o maxilar. Ele também foi muito bem no diálogo sobre aborto, na cena do bar alertando para os males do alcoolismo…

– Ele teve uma leve falha de execução na cena do casal no restaurante, né? O rapaz pagou a conta sozinho e abriu a porta para ela. Depois os dois deixaram de usar cinto de segurança.

– É verdade, Júlio, e isso deve tirar alguns décimos da nota final. Mas o autor foi muito bem no geral. Mostrou segurança, carisma e diálogos corretos, abordando questões importantes como as orcas do Sea World e a questão da Palestina…

– Bom, Osmar. Está entrando na pista agora o favorito para esta prova! Tetracampeão no horário das nove, o atleta foi o pioneiro no duplo beijo gay carpado e é especialista em cenas que abordam a questão racial. Ele também costuma surpreender sobre o uso das células tronco, com diálogos afiados e ágeis. A vida vai ficar difícil para os jurados, Osmar!

– Ééé… Eu não queria estar no lugar deles também, Júlio! Mas a gente já sabia que, no horário das nove só viria a nata dos autores, e que a competição seria acirrada…

– Bom, vamos lá, vai começar a apresentação do tetracampeão!

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Aí vem a Bruna Marquezine, olhando uma foto dela própria e dizendo, para o espectador acreditar, que se acha muito parecida com a mãe quando mais nova.

A preocupação com os temas sociais é tanta que os autores brasileiros estão esquecendo té de notar que as avós poderiam ser filhas de suas netas, as mães poderiam ser irmãs de suas filhas e as filhas já foram a própria mãe no passado.

E é incrível, tem gente que não entende por que a novela brasileira vai tão mal no Ibope.

Joacy tem o direito de exercer a medicina suspenso pela Justiça

No dia 19 de setembro de 2008, publiquei aqui um texto do jornal O Repórter, sobre a morte da pequena Bruna Brasil, decorrente de uma cirurgia para a retirada das amídalas. Pois bem, na última sexta (14) foi publicado o acórdão que suspendeu o direito de exercer a medicina do médico Joacy da Silva Azevedo, já àquela altura suspeito pelas mortes do cantor Casagrande, de Mitchell Henriques Mário Viana, a deformação de Anselmo Matos da Silva e morte da própria Bruna, de cinco anos.

Leia aqui a decisão que cassou o direito de Joacy de continuar “trabalhando”. Eu escrevi naquele fim de semana de 2008:

Não se trata de condenação prévia, mas começa a soar tragicamente questionável que o inverso, a absolvição prévia, continue a ceifar vidas, enquanto não se decide se um médico tem condições de operar ou não. Enquanto transcorrem os cinco anos previstos em lei para o final dos processos por imperícia ou negligência, médicos processados, inocentes ou culpados, continuam operando, clinicando, prescrevendo medicamentos. É justo que mais vidas continuem sobre o fio da navalha, enquanto se decide se o dono da navalha é ou não indicado para manuseá-la? Não seria mais indicado, até que o julgamento acabasse, que o médico ficasse afastado dos consultórios e salas de cirurgia? O que vale mais, o direito do médico de trabalhar enquanto não é condenado em última instância ou o direito das pessoas de viver enquanto o médico não é absolvido?

Pude ler a decisão da juíza Patrícia Macedo de Campos hoje, e vi que Joacy está impedido de continuar “operando” porque isso vai facilitar o seguimento do processo em que é réu por homicídio, e depois para que, como dito acima, a sociedade fique livre desse tipo de profissional, pelo menos enquanto ninguém sabe se ele presta ou não. O texto dO Repórter, escrito por mim em 2008, previa, com informações do próprio CRM-AM, que o caso só seria concluído em 5 anos. Se Joacy for julgado este ano, terão passado seis anos desde a morte de Bruna. Ainda não está confirmado, mas parece que Joacy vai ser julgado pelos crimes no Tribunal do Júri. por solicitação da acusação. Fica o registro de que a justiça ainda não foi feita. Mas ao menos outras pessoas estão livres do perigo enquanto não se decide se o médico matou ou não. Na dúvida, que ao menos se mantenha o suspeito longe dos bisturis. A minha homenagem a Bruna Brasil, e aos seus pais, Paulo César e Daniela.

Um happy hour merecido

Trabalhei muito, o dia inteiro, porque não me chamo Sininho nem quero proteger os mais pobres com meus dois RGs. Por isso, perdi o prazer de saber, ao vivo, que os black blocs, assim como ocorreu com a Midia Ninja, começavam a ser literalmente desmascarados. Enfim, surgiu “o rastro do dinheiro”, lição básica do jornalismo investigativo que boa parte dos jornalistas de hoje, ativistas do besteirol, decidiram ignorar.

E o PSOL, por enquanto, já aparece na lista dos financiadores. Por que tenho insistido na chatice de falar da desmoralização dessa gente? É simples: quem passa 24 horas por dia quieto, apenas suportando a hegemonia de um pensamento, fica feliz de vê-lo derrubado pela força da natureza. Compreendo que estes dias andam difíceis para o discurso da revolução. Já mataram gente, o modus começou a aparecer, a Sininho brotou feito um Pablo Capilé, só para derrubar a miragem…

Agora, suprema ironia, a Venezuela mergulha no caos social, mais previsto do que esquerdista dizendo que black bloc é coisa da direita. Já há estudantes tomando tiros na cabeça no paraíso esquerdista de Chavez, para o qual nenhum médico cubano foge. Cadê os indignados com a violência das polícias? E os defensores da liberdade de expressão? O que acham de o único canal livre a transmitir os protestos venezuelanos, na internet, ter sido tirado do ar?

Sim, eu pareço estar muito afetado com o tema. É porque estou. E é pouco, para o tanto que suporto de propaganda unilateral de neguinho que precisa repetir quanto é, humanitária e espiritualmente, melhor do que eu. Eu gostaria de citá-los, amigos da esquerda silenciosa destes dias, mas não vou perder a elegância. Enquanto vocês acusam os outros de truculência em vez de argumentos, estou argumentando e pedindo rebates. E não há nada. No máximo, rendem uma indireta aqui e outra ali, vazia como um slogan anti-capitalista.

O que essa gente constrangida ignora, me parece, é que seu silêncio momentâneo diz muito mais do que sua verborragia diuturna. Meu maior prazer, nestes dias de derrocada do embuste revolucionário, é ver os defensores da Venezuela falando de frivolidades, como se o caos daquele país de repente tivesse virado assunto secundário.

Eu trabalhei muito, o dia inteiro, para chegar em casa e saber que a indignação é remunerada, a revolução custa 150 reais a diária e que, quando tudo dá errado, o primeiro refúgio do idiota é o falso sarcasmo.

De quem sentir e de quem não sentir pena

Confesso que senti pena do rapaz que matou o cinegrafista. 22 anos, aquela cara de “fiz uma merda federal”, a expressão de “mãe, me desculpa!”, a cara de pavor de todos os que tiveram 20, 22 anos um dia, e fizeram uma merda federal. Com essa idade acho que experimentei maconha, bati o carro da mãe da namorada, sem habilitação, e dei meu salário para pagar o prejuízo antes que ela chegasse de viagem. Tomei o uísque do bar de outra sogra, troquei por chá mate e ela nunca percebeu. Ali por essa idade eu saí da cidade, de carro, de madrugada, no meio do breu da BR-174. Só pra escutar Pink Floyd com os faróis desligados, com o rosto no para-brisa, olhando pro céu. Nessa idade a gente engravida a namorada, vende os discos do irmão, larga a faculdade, sai com mulher casada. Nessa idade, é tanta merda que a gente faz que confesso, senti pena do rapaz que acendeu aquele foguete. Porque nessa idade a gente faz merda mesmo. Alguns de nós, aos 22 anos, bebiam e corriam de carro, mataram inocentes em pegas. Uns deram golpes na empresa do pai, outros caíram na armadilha da cocaína. Teve quem colou em concurso, teve quem foi preso por atentado ao pudor.

Hoje ainda há tudo isso, porque hoje ainda há jovens de 22 anos fazendo merdas federais. A diferença é que hoje, aparentemente sem que ninguém tenha dito para estes garotos a verdade, foi-se consolidando a ideia de que há uma guerra em curso. Alguém, em algum lugar, botou, na cabeça oca que todo garoto de 22 anos tem, que o mundo está aí para ser destruído. As empresas são antros de pecado, as marcas são símbolo de maldade e a polícia, o inimigo a ser deposto. Sem que nenhuma declaração de guerra fosse feita, a modinha do verão virou se tornar guerrilheiro urbano, como se estivéssemos na Síria ou no Iraque. Eu vejo aqueles rebeldes atirando sobre os muros contra Bashar Al-Assad, e não consigo entender como os meninos de 22 anos do Brasil, sob o regime democrático e com melhoras em todos os índices sociais, conseguem acreditar naqueles que os convencem de que estamos em guerra.

Ninguém sabe contra quem é a guerra. Só se quer brincar de guerra, e se não há ditadores e torturadores ameaçando a juventude, a saída parece ter sido ir puxar briga, provocar as instituições, dar um tapa no estado, de preferência com a vara curta, pra poder tomar borrachada e correr para a internet pra postar o vídeo. A população, o povo mesmo, precisou sair das ruas para que os meninos de 22 anos — alguns deles nascidos na década de 60 — possam ter seu próprio 1964. A meninada quer poder contar aos filhos, na década de 2030 e 2040, que também lutou contra a repressão militar. Será tudo mentira, porque era a revolução mimada dos coxinhas que queriam tocar fogo na cidade, mas não queriam sentir cheiro de gás. Para os meninos que fazem as merdas de hoje, tudo precisa ser seguro, como se a vida fosse um video-game de ação no qual você regula a dificuldade, de modo que não morre, não se machuca, sempre vence.

A meninada quer guerra, mas quer ser café-com-leite. Quer quebrar bancos e estações de metrô, e quer da polícia apenas a escolta para fazer isso. A impressão é a de que, definido o perímetro do quebra-quebra, a obrigação da polícia é cuidar para que tudo seja quebrado com segurança, sem ferir os meninos. Para estes meninos de 22 anos de hoje, polícia é para dar segurança aos vândalos. Quebrar tudo agora é manifestação, atirar foguetes contra policiais agora é desafiar o “poder”.

Eu vi, nos primeiros dias de junho de 2013, muita gente radiante na internet. Os meninos que fazem merda aos 22 anos providenciavam suas máscaras de gás, botas reforçadas. Era um troço tão imbecil que parecia uma micareta fora de época, com os foliões de uma ditadura de mentira comprando seus EPIs para ir para uma “rebelde-folia”. Era o sonho daqueles meninos de 22 anos, doutrinados por velhos de 22 anos nas faculdades de ciências humanas, vendo em 2013 seu próprio ano de chumbo.

Sim, a minha geração foi mais sem graça, “movimentosocialmente” falando. A gente tava pouco se lixando para Chernobyl, para a seca do nordeste, para a homofobia no Amazonas, para os índios do Mato Grosso, para os Sem-Terra de São Paulo. A gente queria namorar, terminar a faculdade, viajar, ouvir rock ‘n’ roll, beber até tarde, dormir até tarde, estudar, ter um emprego, comprar o primeiro carro. Eram tempos sombrios mesmo, tudo o que a gente queria era se dar bem, como se vê. Éramos perversos, não ligávamos para as injustiças sociais, para os cachorrinhos dos laboratórios, para os golfinhos de Fernando de Noronha, para as tartarugas marinhas, para os quilombolas, para os pobres, para os ruivos, para os pernetas, para os safenados e para os epilépticos.

Mas a gente não matou ninguém. Não assim, desse jeito, num movimento tão telegrafado durante meses, tão anunciado. A gente fez muita merda quando tinha 22 anos, mas não brincou de guerrilha urbana com foguetes de verdade, atirados na direção de seres humanos. Hoje os porres com vinho ruim se tornaram estilingues com bolas de gude. Naquela época, os idiotas de 22 anos atiravam ovo podre na casa do vizinho. Hoje os idiotas de 22 anos tocam fogo em Fuscas com famílias inteiras dentro.

Eu fiquei com pena do rapaz que acendeu aquele foguete. Porque ele é apenas o bode expiatório de uma mentalidade totalmente equivocada, disseminada por todos os setores da sociedade, de que é preciso quebrar a ordem e romper com as instituições em nome de causas supostamente nobres.

Na contabilidade da ideologia do video-game, vale até relativizar a morte, como se o escravagismo da colônia justificasse a morte de um branco, ou como se os assassinatos da ditadura justificassem a morte de policiais. Tudo vai ficando tão perigoso e tão natural ao mesmo tempo… As manifestações já vinham naquele marasmo… acho que os vândalos já estavam bocejando entre um caixa eletrônico destruído e outro.

Até que alguém morreu. Não porque um menino de 22 anos fez uma merda federal. Mas porque há todo um clima de incitação a isso. A polícia proibida de intervir, a imprensa proibida de cobrir, os cidadãos impedidos de ir e vir… e agora um morto.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos. Porque na minha época a gente fazia muita merda, mas não apontava foguetes para ninguém. Ele não sabe o que fez, foi levado a isso por uma fantasia ideológica. Descobriu, pelo noticiário, que guerra de mentira também mata inocentes.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos. refém da noção torpe do coletivismo, que transforma seres humanos em entidades boas ou más. Como se a política fosse um monstro, a polícia fosse um ET e as autoridades fossem dragões com sete chifres, e não a junção de pais e mães de família.

Eu estou com pena daquele menino de 22 anos, porque meninos e meninas de 22 anos — muitos deles nascidos n década de 60 — foram mais espertos e não foram para a linha de frente, ficaram apenas os incitando e os aparelhando para a idiotice da guerra contra o nada.

Fábio Raposo e Caio de Sousa não são bandidos.

E isso não é bom. É péssimo.

Porque quando um menino bom faz o que eles fizeram, por causa de uma farra “movimentosocialista”, isto significa que algo vai muito errado com o que definimos como democracia. Oficialmente, o tédio juvenil agora mata em praça pública. Sem querer, mas mata.

Estou com pena deles porque são agora a expressão de pavor, cuspida e escarrada, de quem descobriu que do outro lado não há inimigos, e sim seres humanos.

Há um tipo humano, nessa equação mórbida, do qual não sinto pena. É daqueles que buscam justificar o injustificável. Pior, alguns deles conseguem dividir seres humanos, em plena democracia, entre inocentes e policiais.

Fascismo, senhores, é isto. É quando, sob certas condições e em certas circunstâncias, admitimos que seres humanos podem ser tratados como uma espécie inferior à humana.

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