
Era 1989, talvez 1990. Um colega de turma, na Fundação Matias Machline, levou para a escola um Macintosh II. Bege, um teclado grosso. Depois me mostrou, em casa, o que parecia um daqueles controles remotos de garagem, com um grande botão na parte de cima, chamado mouse.
Final dos anos 80, início dos 90. Usávamos o MSX HotBit nas aulas da FMM. Microsoft DOS, linguagem Basic. Para nós, o ‘Mac’ era um Aston Martin, uma Masserati, coisa de outro mundo. E era de outro mundo. Caríssimo, com comandos completamente diferentes, filosofia totalmente diversa. Usava disquetes de 3 1/2 polegadas, quando ainda estávamos nos de 5 1/4. Tinha ícones, nós tínhamos os comandos CD, MD, RD, CLS…
Hoje, escrevo isto usando um MacBook Pro. É o meu computador pessoal. Usei antes um PowerBook G4 Aluminum. Às vezes preciso usar um PC com Windows, e depois do Mac nada me afasta da sensação de que deixei meu Aston Martin em casa, e precisei por um momento andar numa mistura ônibus, riquixá e carro de boi, tudo misturado, improvisado e obsoleto.
Pessoalmente, pra mim esse é o legado de Jobs. A obsolescência dos outros. Quando falam do gênio, do visionário que foi, a maioria das pessoas mal se dá conta da complexidade do gênio. O maior desafio da Apple, agora, não é manter a qualidade dos produtos já lançados. A grande ausência não será técnica, mas filosófica. Sim, os produtos da marca são estonteantes, modernos, elegantes, peças de arte fabricadas em série.
Mas não tenho dúvidas da perda de valor que terão com a morte de Steve. Aqui o culto acaba, e com essa quebra se vai boa parte do sabor da maçã. Tim Cook vai apresentar o iPhone 5, o 6 e o 7? Provavelmente sim. o iPad7, daqui a alguns anos, vai apresentar conteúdo de mídia em holografias? Provavelmente.
Mas a magia acabou. Porque a Apple, a marca mais valiosa do mundo entre aquelas de capital aberto nas bolsas, ainda assim é menor do que Jobs. Sem ele, não precisaríamos tanto de seus produtos. Apesar de não consumir o iPhone (o termo é consumir mesmo, e não apenas usar), de nunca ter usado um iPod e ainda não ter o iPad, sei do valor que esse novo kit do homem moderno tem.
Não há design, usabilidade nem inteligência eletrônica, vendida em massa, que supere as máquinas da Apple. O poder de Jobs foi o de ir além disso. No ponto onde qualquer fabricante de tecnologia pararia — o sucesso de vendas –, ele passou do ponto. Não era suficiente cultuar os aparelhos, porque todos viam, naquele homem, a possibilidade de que algo além daquilo logo viria.
Isso morre com ele. Espero que os marqueteiros da marca não tentem seguir com seu modo de vender a marca. Só ele, com aquela camiseta preta, aquele jeans e aqueles óculos de aros redondos sabia fazer aquilo. Não pelo estilo que se acabava em si. Quando Jobs dizia “Mas tem mais uma coisinha que quero mostrar…”, não recebíamos aquilo como uma lorota de vendedor, do tipo que mal conhece as funcionalidades do toca-discos automotivo que vende. Quando ele falava assim, o mundo tremia. Simplesmente porque era pra tremer mesmo.
Foi nessas frases, num cenário escuro e com uma enorme maçã por trás, que Jobs decretou o fim da era dos ‘dumbphones’, os celulares que traziam por trás uma equipe imensa de engenheiros dedicada a desenhar teclados com 800 teclas, ergonomicamente testadas para facilitar a escrita. Ou quando decretou o fim de uma era que apenas começava, a dos netbooks. Não se espera na fila do novo iPhone ou do iPad porque há um aparelho obsoleto em casa. A sensação de aguardar as novidades da Apple não era a de aposentar um PC pra comprar outro com um chip melhor ou com um HD mais possante, mas com as mesmas funcionalidades. A espera é justificada porque dali vai sair, sim, algo novo.
Falo como um feliz usuário de um Samsung Galaxy S: o segredo não está no tamanho da tela nem na capacidade da câmera. Está na inovação por trás do aparelho, como forma de materializar o que muitos de nós imaginávamos, mas sem criar. Bem, Jobs criou.
Já falaram demais da Pixar, dos longas de animação. Todos sabemos sobre Toy Story, sobre o temperamento ruim, sobre os problemas família etc. O que eu faço aqui, como todos fazemos diante de pessoas ou fatos que deixam sua marca no mundo, é tentar lembrar o tipo de relação que tive com aquilo. Como a maioria de nós lembra onde estava e o que estava fazendo na manhã de 11 de Setembro, daqui a alguns anos vamos conversar sobre o que estávamos fazendo na tarde de 5 de outubro de 2011.
Eu passei o dia inteiro na rua, consertando meu carro, no aniversário de um amigo. Cheguei em casa às 23h, abri meu Mac e li que Steve Jobs estava morto.
Steve Wozniack, co-fundador da Apple, disse que a sensação era parecida com aquela da morte de John Lennon.
Tive pouco contato com a Apple ao longo da vida. Me resumi à paixão pela filosofia e pelo carisma de seu mentor, mostrados nos comerciais, nas curvas e na falta de botões de seus gadgets, na imagem da empresa. Deve ser isso o que separa gente muito inteligente, como Zuckerberg ou Gates, de gente genial, como Jobs: o reconhecimento, enfim, de que tecnologia pode virar arte.
Não é à toa que Steve Jobs deixa, além da empresa mais valiosa do mundo, uma legião de fãs, quase fiéis religiosos de sua seita. A seita da inovação. O desafio da Apple, agora, é mais golpe de sorte do que teste de capacidade técnica. É hora de pensar além do iPhone e do iPad.
Se Jobs ficasse por aqui algum tempo mais, deixaria pra trás as melhorias de performance do que já existe. Steve Jobs estaria pensando, mais uma vez, naquilo que muitos de nós pensou, mas não sabia que dava pra fazer.
Essa é a inovação de Jobs. Ter tratado como arte, desde o início, o que virou apenas comércio de hardware. Os desejos humanos estão além das especificações técnicas de produtos que logo serão superados. O ser humano, e a Apple ajudou a provar isso, quer se apaixonar.
Eis o legado que vejo maior em Jobs. Se antes trocávamos de computador como quem troca de tevê, sem emoção alguma (porque a programação é a mesma), hoje temos orgulho dos computadores que temos.
Orgulho que eu vi em 1989, no rosto do Roger. Orgulho que sinto hoje, do teclado do meu Mac.